segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A Vingança dos Lobos




Vai se arrepender amargamente por isso, amigão. – sentenciou Estevão com um sorriso estranho.
Cercado por seus inimigos, o motociclista não demonstrava o menor medo diante da morte iminente. A lua cheia banhava com sua luz prateada a cena do crime que estava prestes a acontecer.
A figura obesa e repleta de adereços do presidente do Moto Clube rival lhe apontava uma devastadora escopeta calibre doze de cano duplo serrado, coisa de filme de faroeste. Bigorna – esse era o apelido pelo qual os colegas motociclistas o tratavam – fez um muxoxo de desdém antes de falar:
- Duvido muito, seu verme. Só me arrependo daquilo que não faço.
E apertou o gatilho.
Depois que o tiro estraçalhou o tórax de Estevão, Bigorna se aproximou da motocicleta do morto: uma lustrosa Shadow 750, preta como a noite que os cercava, e em cujos detalhes cromados o luar era refletido com magnitude.
- Como dizem: ao vencedor, os espólios. – grunhiu com sarcasmo.
Seus amigos riram enquanto ele dava partida no motor possante, que roncou, poderoso.
Bigorna era presidente do Moto Clube Fênix, que cultivava uma rixa eterna com o pessoal do Moto Clube Lobos, do qual o falecido Estevão era membro. Não raro as contendas entre ambos os grupos terminavam em baixas para ambos os lados.
Montando suas potentes motos estilo Custom, os Fênix seguiram seu presidente rodovia adentro. Rumavam para o Ozônio, um movimentado bar à beira da estrada, frequentado especialmente por motociclistas. Ali iriam se embebedar para comemorar a morte de mais um adversário.
Entretanto, não chegaram a rodar sequer um par de quilômetros.
Logo à frente havia trinta motocicletas customizadas: Shadows. Drag Stars. Boulevards. Harleys. Mirages. Vulcans.
 Seus tanques negros e robustos, caprichosamente encerados, rebrilhando ao luar. Todas as motos imponentemente estacionadas, atravessadas na pista, barrando o caminho. Os Lobos estavam por toda parte. Cabelos compridos. Barbas por fazer. Piercings. Brincos. Tatuagens. Coletes. Roupas de couro repletas de correntes e medalhas. Grossas botas, apropriadas para pilotagem.
Silenciosos e imóveis, fitando os adversários com fúria contida. A figura alta e musculosa de Fenrir, o presidente dos Lobos, se destacava à frente do bando. Era mais que um presidente de Moto Clube: era o líder de uma alcateia.
- Dá pra resolver isso de um jeito sensato. – negociou Bigorna – Podem pegar a Shadow do seu amigo.
Fenrir meneou a cabeça antes de dizer com sua voz poderosa e rouca:
- A devolução da moto é pouco. Há um preço a ser pago.
- E o que é que vocês querem?
- Carne fresca. – replicou Fenrir.
Os membros do Fênix se entreolharam, espantados.
Entre os Lobos, uma figura sombriamente masculina se distinguiu.
Não podia ser!
Bigorna gemeu.
Estevão estava de pé, vivo. A jaqueta ainda ensanguentada na altura do peito, esfacelado pelo tiro que deveria ter sido fatal.
Lançando ao transtornado Bigorna um olhar selvagem, bradou:
- Eu avisei que você iria se arrepender.
E arremeteu velozmente contra o inimigo paralisado de pavor.
No meio do caminho, converteu-se em uma grande e medonha criatura, um misto de homem e lobo: um ser de olhos amarelos, corpo musculoso recoberto de pelos, unhas longas e afiadas em forma de garras, dentes enormes e agudos, uma mandíbula capaz de despedaçar ao meio uma chapa de aço. Um espesso fio de saliva prateada a escorrer de sua bocarra colossal. Estevão já não corria: agora trotava como bicho que se tornara, ganhando velocidade em direção ao adversário.
O grito de terror que Bigorna soltou ficou estrangulado na garganta dilacerada.
Metamorfoseando-se também, os companheiros de Estevão atacaram os demais membros do Moto Clube Fênix, sem dar-lhes qualquer chance de fuga.
Depois do massacre, tendo se saciado com a carne e o sangue de seus inimigos, os Lobos retomaram sua aparência humana. Subiram em suas motos, partindo acelerando dentro da noite, correndo com a lua cheia.


Danilo Alex

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Amor Perdido






A mão do sacerdote tremia ao empunhar a marreta que atingiria a estaca apoiada contra o peito da morta, enterrando-a fundo no coração inativo.
O cadáver era o de uma moça muito bela, de feições plácidas, que parecia estar apenas dormindo em seu esquife, com ambas as mãos delicadas cruzadas sobre o peito.
Era morena clara, tinha rosto oval, cabelos longos, castanhos e anelados, sobrancelhas grossas e lábios carnudos. Estranhamente, a palidez da morte contrastava com seus traços harmoniosos e infantis, proporcionando-lhe um ar quase angelical.
Uma onda de emoções conflitantes assombrava o jovem padre, arrastando-o rumo ao desespero crescente. O dever sagrado o empurrava em direção a uma das decisões mais difíceis de sua vida.
Checara tudo antes: percebeu que os caninos estavam mais agudos e protuberantes. Não havia rigor mortis ou qualquer sinal de putrefação. A jovem estava mais fresca e exuberante do que nunca, vicejante como a relva depois da chuva. Não havia dúvidas de que a garota se alimentara de algum inocente naquela noite. Aquilo precisava ter um fim.
Se fosse uma desconhecida ou uma anônima, talvez sua tarefa se mostrasse menos árdua. Mas a jovem no caixão ele conhecia muito bem, desde os tempos de infância.
Aos seus olhos de padre, ela era agora apenas uma vampira. Uma Não Morta. Uma perfeita máquina de matar, criada pelo Diabo à sua semelhança para zombar de Deus. Mas para Mariano, o homem que vestia a batina, aquela era sua doce e adorada Eulália, a namorada da adolescência, seu primeiro amor. Um amor que ele precisou abandonar para ingressar no seminário tempos antes.
Uma passagem do livro bíblico de Apocalipse encontrada no capítulo 2 reverberava em sua mente, crivando seu coração com a dor de pregos enferrujados: “E sofreste, e tens paciência; e trabalhaste pelo meu nome, e não te cansaste. Tenho, porém, contra ti, que deixaste teu primeiro amor”.
Lembrou-se de Eulália no primeiro banco da igreja, perto do altar, inconsolável e aos prantos, participando da primeira missa que ele celebrou assim que foi ordenado sacerdote. O bispo o designara para ser vigário na paróquia onde ele crescera e amadurecera na fé, e onde também conhecera Eulália quando eram ainda crianças.
O jovem padre Mariano tivera de renunciar ao amor em nome de um bem maior: sua vocação. Precisou aprender a sufocar um sentimento que, apesar de tão bonito, tornara-se agora proibido.
Entretanto, preocupou-se sobremaneira na noite em que ela, voltando da faculdade de veterinária, fora atacada por um maluco. Felizmente nada de muito grave ocorrera, salvo que o agressor a mordera no pescoço. Quando o plantonista a medicou, determinando que a jovem permanecesse em observação até o dia seguinte, padre Mariano permaneceu durante todo o tempo ao seu lado, zelando  pela amada em seu leito.
Depois disso, Eulália não foi mais a mesma. Dormia mal, aparecia com olheiras, reclamava constantemente de cansaço e fraqueza extremos. Procurou Mariano na paróquia diversas vezes, alegando ter pesadelos recorrentes e pavorosos, onde um homem de terríveis olhos abrasadores a visitava em seu quarto quase todas as noites. Cada vez que tinha esse sonho, ela amanhecia pior. Padre Mariano rezava com ela e por ela, mas achava que tudo aquilo fosse sobrecarga de tensão emocional pelo ocorrido. Era um bom padre, mas, na época, faltava-lhe experiência sobre estes assuntos obscuros.
Eulália piorou e os médicos nunca descobriram a causa. Acreditavam ser um quadro grave e inédito de anemia, o qual não puderam reverter. E assim, ela partiu.
Baqueado pela morte da jovem, padre Mariano compareceu ao velório para ajudar o pároco, padre Ezequiel, que ia ministrar as exéquias, ou seja, os ritos e as orações próprias para recomendar o corpo a Deus. Reverendo Ezequiel era um velho e sábio sacerdote, o qual já vira muita coisa nesse mundo. Coisas de deixar qualquer um de cabelo em pé. Notara a marca de mordida no pescoço da menina e desconfiara a causa da morte. Esclareceu tudo a padre Mariano, mostrou-lhe livros antigos, explicou-lhe todo o procedimento. Afirmou que Mariano era quem devia fazer, porque ele amava a moça.
Agora ele estava ali pouco antes do amanhecer. Invadira o cemitério e arrombara o mausoléu. Fizera as orações apropriadas. Tentava criar coragem. Precisava fazer aquilo, ou Eulália não teria descanso. Para que ela se salvasse, ele teria de cruzar o Inferno. Lágrimas escorriam por seu rosto jovem e barbeado. Inclinando-se, beijou de leve os lábios frios da morta, balbuciando:
- Eu te amo, Eulália.
E com a marreta golpeou a estaca vigorosamente, perfurando o coração da vampira.
Dois gritos assustadores ecoaram na tumba: o da alma que era liberta da maldição, e o outro, da alma que ficava nesse mundo, dilacerada por todo o sempre.

(Danilo Alex da Silva) 

terça-feira, 23 de junho de 2015

O Tormento dos Anjos




“Milhares de criaturas espirituais caminham invisíveis sobre a Terra, tanto quando dormimos, como quando estamos acordados.”
(Milton)


A primeira coisa que Ehlon viu quando alcançou o terraço do edifício, foi um jovem de cabelos anelados, relativamente longos, sentado à beira do precipício, balançando desanimadamente as pernas sobre o vácuo. O garoto deveria aparentar por volta de dezessete anos e seu olhar era infinitamente triste. Sob o céu tingido de violeta pelo crepúsculo, ele olhava melancolicamente para baixo, observando o trânsito dos mortais, cinquenta andares abaixo dali. Estavam tão alto que, vistos de cima, os carros pareciam de brinquedo e as pessoas assemelhavam-se a formigas. Apesar da altura, podia-se perceber uma aglomeração de curiosos na calçada. 
Ao lado do rapaz deprimido havia uma criatura que, a despeito de sua semelhança com um humano, tinha olhos rubros como sangue, bem como emanava uma aura ardente e malévola. Dirigindo-se então a essa criatura, Ehlon foi taxativo:
- Já conseguiu o que queria, Abrahor. Agora dê o fora daqui. Pare de perturbar Ayael. Ele merece um pouco de paz nesse momento. 
Abrahor olhou com ódio para Ehlon antes de argumentar com voz cavernosa:
- É meu direito ficar e me vangloriar da vitória. 
Lançando um olhar autoritário a seu interlocutor, Ehlon pousou a mão sobre o cabo da espada brilhante e estupenda que trazia na cintura:
- Eu não darei um segundo aviso. Vá embora enquanto pode. 
Emitindo um grunhido frustrado de ira, mesmo contrariada a terrível entidade obedeceu, desvanecendo-se no ar imediatamente. Em seu lugar restou apenas o cheiro desagradável de enxofre.
Percebendo que estavam sozinhos, Ehlon aproximou-se do moço triste. Sem dizer nada, sentou-se ao seu lado na beira do terraço, encarando também o abismo. Permaneceram um instante assim, absortos, observando o tráfego humano lá embaixo. Viram as luzes vermelhas piscando alternadamente e ouviram a sirene de uma ambulância que se aproximava velozmente do local da aglomeração, dispersando parcialmente as pessoas ante sua passagem. 
O garoto triste, que se chamava Ayael, consciente da presença do amigo, comentou em um sussurro:
- Os paramédicos já não podem fazer mais nada. Ele obviamente não sobreviveu à queda. Abrahor veio aqui zombar de mim, dizendo que havia acabado de levar a alma dele. 
- Sinto muito, irmão. – balbuciou Ehlon, pesaroso. 
Mais alguns segundos de silêncio constrangedor.
Finalmente Ehlon explicou de modo solene:
- Fui mandado para acompanhá-lo de volta. 
Ayael se voltou para ele, e então Ehlon notou pela primeira vez que os olhos do outro anjo, de cor púrpura como o crepúsculo, derramavam sofridas e cristalinas lágrimas de luto. 
- Não sei se quero voltar. 
- Você precisa, irmão. 
- Ehlon, não posso encarar o Criador depois disso. Eu falhei. 
- Ele não te culpa pelo acontecido, e sofre com a perda dessa alma tanto quanto
 você. 
- Gostaria de saber o sentido disso tudo. Ele poderia tornar as coisas diferentes se quisesse... – falou Ayael, sentido, enxugando as lágrimas que não paravam de correr.
- São as regras, Ayael. Você sabe. Livre-arbítrio. 
Ehlon era solidário à dor do amigo. Sabia que Ayael, até então guardião de um dos filhos de Deus, carregaria para sempre o fardo de não encontrar seu protegido no Paraíso. Imaginava que, para um anjo, não haveria sofrimento ou tristeza maior. 
Por isso, apertando encorajadoramente o ombro do companheiro, Ehlon completou:
- Você foi um bom mensageiro. Fez tudo o que estava ao seu alcance. Sempre o inspirou com a vontade divina, o protegeu quando ele solicitou ajuda, procurou incansavelmente mostrar-lhe o caminho da luz. Mas a decisão final é deles, meu irmão. Enquanto a humanidade não aprender a usar com sabedoria seu direito de escolha, estará à deriva no caos, prisioneira das consequências daquilo que decidir. Fazemos nossa parte. Eles têm que aprender a fazer a deles. 
Ayael assentiu antes de dizer:
- Até o último instante eu orei para que ele se arrependesse. 
- Eu também. – confessou Ehlon – Não devemos, porém, perder nossa fé nos homens. Se Deus ainda acredita neles, nós também devemos acreditar. 
Passando os braços ao redor do ombro de Ayael de maneira confortadora, delicadamente disse:
- Temos de ir agora. Nosso Pai nos aguarda. 
Ayael concordou. Assim, abraçados fraternamente, os dois anjos desfraldaram suas belas asas e alçaram voo majestosamente, retornando para seu Lar Celestial. 
Cinquenta andares abaixo, a multidão se dispersou quando a ambulância partiu levando consigo o corpo de um humano que, para o bem ou para o mal, fizera uso de seu maior direito inato: o Livre-arbítrio.



(Danilo Alex da Silva)

sábado, 6 de junho de 2015

Chuva no Deserto - 2ª e Última parte



"Eu sou um castigo de Deus. E se você não cometeu grandes pecados, Deus não teria enviado um castigo como eu."

(Gengis Khan)




Sob a meia-luz do ambiente, o panorama a se descortinar diante de seus olhos era tétrico: cadáveres por toda parte. Fregueses, coristas, o pianista...

Ninguém escapara da matança. Os fregueses estavam espalhados pelo lugar, a maioria estendida no assoalho, mas alguns tinham morrido sentados e, permanecendo às mesas, davam a impressão de ainda esperarem que o barman os servisse, ou contassem com a abordagem de alguma corista mais ousada.

O pianista fora trucidado enquanto estava sentado ante seu instrumento, de modo que se achava debruçado sobre as teclas manchadas com seu sangue, como se dormisse um sono profundo. Havia coristas mortas perto do balcão, sobre as mesas, nos degraus da escada, algumas atravessadas sobre o corrimão de madeira. Uma delas, inclusive, estava presa ao lustre que pendia do teto, imóvel, e seu sangue gotejava sinistramente no meio do salão.

E no meio do caos o homem divisou seu alvo.

A causadora de tudo se encontrava displicentemente sentada sobre o balcão polido. Estava inclinada sobre o pescoço de um homem que agonizava com a cabeça em seu colo. Parecia uma mulher apaixonada beijando seu amante. Contudo, ouvindo a chegada do viajante, ela ergueu o rosto, esboçando um sorriso gélido: sua boca, dentes e queixo estavam lambuzados pelo sangue da vítima, a qual era nada menos que o barman do saloon.

Exatamente como Carson lhe adiantara, a garota aparentava por volta de vinte anos. Era loura, cabelos longos e anelados, que usava soltos, descendo pelos ombros magros. Possuía maliciosos e grandes olhos, negros como o azeviche. O rosto era harmonioso, delicado e atraente, a despeito dos retráteis caninos longos e afiados.

O sorriso era maldoso, cínico. A pele perfeitamente marmórea possuía a alvura da cera, própria de quem nunca vê o sol. Media cerca de 1, 76 m, e seu corpo era magro, conquanto uma magreza esbelta, elegante, nobre.

Trajava uma calça justa de montaria, uma jaqueta preta feita de couro de bezerro, e calçava botas texanas de cano longo, repleta de ornamentos. Parecia a versão sinistra de uma cowgirl.

A sombria jovem, por sua vez, também estudou atentamente o recém-chegado: um homem alto e forte, rosto anguloso e viril, tez morena de sol, dono de enigmáticos olhos cinza-esverdeados que irradiavam uma melancolia profunda e insondável. O rosto marcante estava sombreado por uma espessa barba por fazer. Tinha os cabelos castanho-escuros lisos e relativamente compridos. O homem apresentava ser ainda jovem: apesar de seu aspecto descuidado que o fazia aparentar mais idade, ele devia ter acabado de entrar na casa dos trinta anos.

Trajava calças de brim escuro, um sobretudo vermelho-sangue, botas marrons de cano alto e esporas vermelhas. Trazia na cintura um par de Colts negros de grosso calibre. Um lenço preto envolvia seu pescoço taurino, e suas mãos estavam revestidas por luvas de couro que serviam tanto para montar quanto para atirar. A cabeça estava coberta por um chapéu preto, amarfanhado, de abas largas meio dobradas e copa alta.

O homem recendia a enxofre, e sua postura não era nada amigável.

A garota sorriu com desdém:

- Ora, ora, ora! Quem diria? Um Renegado por estas bandas! Fazia um bom tempo que eu não me deparava com algum de vocês. Boa noite, forasteiro! – o inglês dela não chegava a ser sofrível, e não era exatamente perfeito, mas se fazia compreender, mesmo com a fala carregada pelo inconfundível sotaque do Leste Europeu.

- Nenhuma noite pode ser boa enquanto você ainda pisar neste mundo. – rebateu o rapaz duramente – Eu não sabia que vocês, vampiros, existiam. Achava que não passassem de lendas. Quando eu terminar o que vim fazer aqui, lendas serão somente o que restará de você.

A loura riu sarcasticamente:

- Que cowboy pouco cavalheiro! Aposto que você não é lá muito popular com as mulheres.

- Você não é uma mulher. – retrucou ele, rangendo os dentes – É uma morta-viva.

- E o que o faz pensar que é diferente de mim? Um homem em pedaços, dotado de poderes amaldiçoados que adquiriu ao vender sua própria alma ao Diabo...

- Cale-se! – ordenou o Renegado de dedo em riste – Você não sabe nada sobre mim. Não me conhece.

- Já conheço a ponto de perceber sua ingenuidade em acreditar ser capaz de me aniquilar. Eu sou Lenora Von Born, meu rapaz.

Inesperadamente o homem soltou uma risada plena de escárnio:

- Esse nome deveria significar alguma coisa? Porque, para ser franco, eu nunca ouvi falar. Para mim, você não passa de um alvo, e meus alvos não têm nomes nem rostos.

A vampira sorria com superioridade:

- Uau! Você me parece mesmo um sujeito durão. Diga uma coisa, xerife: posso ao menos saber o nome daquele que veio dar fim à minha existência?

- Se faz realmente tanta questão, me chamo Sean Ridell. Dentro em pouco reduzirei você a cinzas, e saber quem foi seu carrasco não terá te servido de nada.

- Atiraria então em alguém desarmado? – ela quis saber, fazendo-se de vítima.

- Você não está desarmada. Se metade do que dizem sobre vocês for verdade, as trevas são seu arsenal. É noite lá fora, você está em vantagem. Em todo caso, se preferir, posso te oferecer um de meus revólveres.

- Detesto armas de fogo. – respondeu Lenora com uma careta de desaprovação.

- Como quiser. Está pronta?

- Quer dizer que não podemos ser amigos?

- Exato. Quer dizer que vou matá-la, e vou matá-la agora.

O Renegado desviou-se uma fração de segundo da garrafa de uísque arremessada de modo velocíssimo e preciso contra seu rosto. Enquanto procurava entretê-lo conversando, traiçoeiramente a vampira, que estava sentada sobre o balcão, rapidamente apanhara a garrafa e a jogara com toda a força.

Ouvindo o estilhaçar de vidros contra a parede atrás de si, Sean Ridell se jogou ao chão com agilidade felina, rolando para escapar da segunda e da terceira garrafa, que já voavam em sua direção, tão rapidamente quanto a primeira, transformadas em perigosos projéteis pela força descomunal da vampira.

Após rolar duas vezes pelo velho assoalho forrado de cadáveres, o Renegado parou no centro do saloon: o joelho direito no solo, as mãos apontando a um só tempo o poderoso par de Colts Dragoon, os quais brotaram entre seus dedos como que num passe de mágica. Roçou os gatilhos num gesto quase desleixado, totalmente despreocupado.

Dois tiros certeiros cruzaram o espaço. Tudo ocorreu indizivelmente rápido.

O par de garrafas de tequila que Lenora empunhava pelos gargalos e que pretendia arremessar contra o pistoleiro simplesmente foi reduzido a uma chuva de cacos enquanto a vampira ainda as segurava. Rugindo de ira, ela viu-se banhada pela bebida âmbar e teve seu belo rosto parcialmente lacerado pelos estilhaços voadores das garrafas.

- Vou arrancar seus membros, sugar seu sangue, devorar seu coração, e depois roer seus ossos! – prometeu Lenora com uma voz gutural, demoníaca, bem diferente de seu timbre natural.

- Pode vir, cowgirl! – zombou o Renegado – Vamos ver se você é tão boa de sela como diz!

Urrando como fera, a pavorosa garota se moveu muito rápido. Abastecida pelo sangue que drenara dos habitantes ali de Gold Fortress, ela parecia imbatível no auge de seus poderes.

Sem que Sean pudesse esboçar reação, a garota praticamente materializou-se à sua frente, cravando brutalmente a sola da bota em seu flanco direito, um palmo abaixo da axila. Foi um chute arrepiante.

Colhido pelo impacto alucinante, o Renegado viu-se projetado de encontro ao outro lado do saloon, derrubando inúmeras mesas em sua queda. No momento em que foi golpeado, ambas as armas escorregaram de suas mãos. Se fosse um humano comum, teria sofrido morte instantânea.

Antes mesmo que se refizesse, Lenora já estava sobre si, pressionando-o contra o chão. Ele sentiu uma dor excruciante na altura do peito, e percebeu que a inimiga tentava arrancar-lhe o coração de dentro do tórax.  A criatura cumpriria seu intento em segundos, caso não fosse impedida.

Segurando o fino braço dela com a mão esquerda, Sean usou o punho direito para aplicar-lhe um violento soco no rosto. Lenora desorientou-se. Aproveitando-se disso, ele usou ambas as pernas com força, fazendo delas uma alavanca, a fim de catapultar para longe a adversária, fazendo-a voar em sentido contrário ao seu.

Ao passo que a estupefata vampira se chocava ruidosamente contra a parede, sem perda de tempo Sean Ridell se levantou tão habilmente como se tivesse molas nos pés. Uma dolorosa fisgada do lado direito fê-lo levar a mão ao local atingido. A respiração era difícil, o ar que entrava nos pulmões queimava como fogo.

- A cadela me quebrou pelo menos três costelas. – chiou o Renegado, furioso.

Lenora também já estava se levantando.

Raciocinando com rapidez, o homem viu seu par de Colts no assoalho. Então, ignorando a dor terrível, ele correu para mergulhar em direção aos revólveres. Posicionando o corpo, ele se virou e atirou do chão mesmo.

Lenora havia entendido o movimento inimigo e correu o mais rápido que podia, convertendo-se em um borrão. Quando começou a ouvir as primeiras detonações, ela uniu sua rapidez a habilidades acrobáticas, saltando quase dois metros do chão e girando o corpo em manobras evasivas que impressionariam um artista circense. Sua flexibilidade e destreza desafiavam a gravidade.

Entretanto, nem sua vertiginosa velocidade ou suas manobras acrobáticas puderam salvá-la da fúria de um Renegado. Ele também fez uso de seus poderes sobrenaturais, acurando sua pontaria e triplicando a velocidade ao disparar. A linha de fogo seguiu Lenora implacavelmente pelo saloon. Ela ainda desviou-se do terceiro e quarto tiros, mas o quinto encontrou seu corpo enquanto ela ainda girava no ar. A bala fervente atingiu-a no ombro esquerdo, varando e despedaçando a clavícula, saindo pelas costas em seguida.

Um jato impetuoso de sangue negro escapou do ferimento. Com um grito angustiado, a vampira caiu.

Colocando-se de pé, comprimindo as costelas fraturadas, o Renegado cambaleou rumo à presa ferida. Sangrando no assoalho, Lenora reuniu as forças que ainda lhe restavam para metamorfosear-se em névoa. Passou pelo pistoleiro e desceu a rua, reassumindo sua forma “humana” e tentando fugir.

Montando seu belo cavalo, de nome Pandemônio, o Renegado seguiu os rastros de sangue escurecido. Sabia que ela não iria longe.

No momento em que alcançavam os limites de Gold Fortress e começavam a levar sua perseguição para o deserto, as primeiras grandes gotas de chuva despencaram das nuvens pesadas. Apertando os olhos em meio ao temporal, do alto de seu cavalo, Sean Ridell avistou Lenora à sua esquerda, avançando com dificuldade, fugindo como um puma ferido.

Emparelhando com ela, o Renegado sacou o revólver e lhe explodiu a rótula da perna direita. O trovejar da arma confundiu-se com o trovejar das nuvens. A vampira tombou como um fardo, gritando, agarrando o ombro e o joelho baleados.

Sean apeou do cavalo, sabendo que sua caçada estava chegando ao fim. Engatilhou seu Colt místico, aproximando-se da adversária caída. As costelas ardiam como o próprio inferno. A chuva se tornava torrencial.

- Por que está fazendo isso? – gemeu Lenora ensanguentada, encolhendo-se em posição fetal no chão arenoso.

- Porque você chacinou duas cidades inteiras, ceifando vidas inocentes, incluindo a de um dos poucos amigos que me restavam: Carson Wayne, xerife de Horizon.

- Seu amigo era um homem corajoso. – a vampira tremia, batia queixo, talvez pela chuva intensa, talvez pela perda maciça de sangue. Ela não podia se curar tão facilmente, pois a arma de Sean era mística, tinha sido forjada no Inferno, bem como sua munição.

- Ele enfrentou a morte com mais dignidade do que você. – Sean era tão implacável com as palavras quanto com os Colts.

- Os matei para saciar minha sede. – justificou-se a loira – Tenho apenas duzentos anos, sou uma vampira jovem. Preciso de muito sangue.

- Explique-se ao Diabo. – rosnou ele.

- É dinheiro que você quer? Tenho bastante. Posso pagá-lo.

- Nunca foi pelo dinheiro. Estou aqui porque prometi a um amigo. E sou um homem de palavra.

A chuva os encharcava naquele instante crucial. Sean apontou o Colt Dragoon para o rosto crispado de dor da morta-viva.

Seu cérebro enviou a ordem assassina aos dedos, para que puxassem o gatilho.

O problema é que seus dedos não obedeceram.

Uma estranha paralisia se apoderou repentinamente de seu corpo. Conseguia mover somente a cabeça, como se seu tronco estivesse congelado.

Então, em um momento de clareza absoluta, a verdade estalou em sua mente.

- Arahmon! – esbravejou o Renegado – Que diabos pensa estar fazendo?

Dando uma risada sardônica, a criatura mencionada materializou-se ao seu lado.

Arahmon era o ardiloso demônio com o qual, em um instante extremo de aflição, Sean Ridell selara um pacto diabólico, vendendo sua alma em troca de poderes para vingar sua família massacrada por bandidos da pior espécie. A partir do dia em que fizeram seu sombrio acordo, a terrível entidade passou a seguir o Renegado em toda parte, como um guardião sinistro.

Geralmente ele aparecia assumindo a forma de um velho espantalho de lavoura: alto, muito magro, cabelos pretos compridos e anelados, sobretudo franjado e puído de couro, calças escuras, botas, chapéu e lenço no rosto.

Arahmon era um grande adepto de qualquer forma de destrutividade; por isso, Sean não entendia a razão de o demônio intervir justo naquela hora, quando o Renegado estava prestes a liquidar sua presa.

- Já se divertiu muito por hoje, Renegado. Como cavalheiro que sou, não posso permitir que machuque mais essa pobre e bela dama. – zombou o demônio com sua voz assustadoramente cavernosa.

- Seu maldito! – vociferou Sean, ainda sem conseguir se mexer.

O monstro soltou sua risada odiosa. Voltou-se então para a morta-viva no chão. Fazendo uma reverência sarcástica, falou:

- Oh, ilustríssima senhora Lenora Von Born, filha do venerável Marquês Radu Von Born, soberano da Transilvânia! Parecia estar em sérios apuros antes de minha chegada. Onde está sua altivez agora, vampira?

Embora não respondesse, ela o fuzilou com os olhos, expressando o que ainda lhe restava de dignidade.

A chuva e os ventos rugiam ao redor deles.

- Venha. – disse Arahmon, estendendo a mão para ela. – Erga-se. Recomponha-se. Hoje é seu dia de sorte. Ou sua noite de sorte. O que preferir.

O Renegado, indignado e furioso, observava a cena sem poder fazer nada.

Assim que Lenora se levantou, Arahmon estalou os dedos.

Na mesma hora um magnífico cavalo surgiu diante deles. Era jovem e forte, pelo cor de chocolate, patas vigorosas e peludas, garupa larga, olhos refulgentes como fogo. O diferencial eram as duas grandes asas de morcego que se projetavam de seu dorso musculoso. Uma espécie de Pégaso Infernal.

Ajudando Lenora a subir em sua excêntrica montaria, Arahmon disse:

- Seu cavalo voará com você rapidamente até o cais mais próximo. Haverá um navio apenas ancorado ali, que partirá ao amanhecer, com destino à sua terra. Entre nele e se esconda no porão. Logo o dia vai raiar.

- Obrigada por manter seu cão longe de mim. – falou Lenora, indicando Sean – Ele é perigoso fora da coleira.

- Sem problemas, boneca. Só não o deixe vê-la mais nesse continente. Caso ele te encontre novamente e queira terminar o serviço, talvez eu não esteja tão bem humorado para salvar seu lindo pescocinho uma segunda vez.

- Agradeço, Arahmon. Ninguém que ajude um Von Born fica sem retribuição.

- Assim espero, madame. Tenha certeza que, na hora oportuna, vou cobrar o favor. Vá agora.

O diabólico cavalo alado levantou voo, levando Lenora em segurança, livrando-a definitivamente do alcance de Sean Ridell. Ao ter certeza de que a vampira estava bem longe, Arahmon libertou o Renegado do feitiço que usara para imobilizá-lo temporariamente.

Embora seus olhos cintilassem sinistramente, o homem não disse nada. Devolveu seu par de revólveres aos respectivos coldres. Depois, assobiou para chamar seu belíssimo cavalo, no qual montou em seguida. Enquanto subia para o alto da sela, notou satisfeito que as costelas somente latejavam e a dor da fratura se tornara agora suportável. Seu misterioso poder de cura acelerada, obtido no pacto, devia estar agindo. Em breve não sentiria mais nada.

- É inútil tentar segui-la. – declarou Arahmon gravemente.

- Eu sei. – respondeu Sean de modo alarmantemente calmo – Não pretendo ir atrás dela.

A chuva diminuíra de intensidade, mas ainda se fazia presente, regando com suavidade o mortal Deserto de Sonora.

Arahmon sentiu-se apreensivo. Toda aquela tranquilidade não era normal. Preferia que seu protegido estivesse esbravejando. Calmaria era sinal de perigo iminente. Não gostava nada daquilo.

- Eu não podia permitir que você a destruísse. – começou Arahmon cautelosamente, quase em tom de desculpas – Lenora é uma boa garota, me será muito útil ainda no futuro. Talvez por ser uma vampira jovem, é também bastante ingênua: devido a uma tola profecia de sua linhagem, ela cruzou o oceano, certa de que encontraria na América seu prometido, um homem de coração puro e alma incorruptível, que ela converteria em vampiro, desposaria e levaria para a Transilvânia. Em tese, esse seria o escolhido para unificar e governar todos os vampiros. Que piada! Me admira muito haver ainda criaturas das trevas dispostas a acreditar nesses contos de fadas ridículos! Uma coisa, no entanto, eu posso garantir, Renegado: Lenora Von Born jamais massacrará alguém nesses arredores de novo.

- Mas graças a você, ela ainda está livre para matar outras pessoas.

O demônio abaixou a cabeça num gesto falso de arrependimento. Fechando o punho, bateu contra o próprio peito, dizendo:

- Mea culpa!  Reconheço. Espero que possa me perdoar algum dia por isso.

Do alto de sua montaria, dirigindo-lhe um olhar indecifrável, Sean Ridell apenas deu de ombros:

- Na verdade, não me importa. Talvez não seja aqui hoje, nem amanhã que Lenora pagará por seus crimes. Pode ser que se passem cem anos, ou até mais, e aconteça em outro lugar. Todavia, o que posso assegurar é que ela encontrará alguém de coração bondoso e forte o bastante para liquidá-la. Quando isso acontecer, o povo de Horizon e Gold Fortress e todas as pessoas por ela assassinadas serão vingadas. Todo o sangue inocente derramado por Lenora clama aos Céus por retribuição, e esse clamor se extinguirá no dia que a vampira for devolvida ao inferno, de onde não devia ter saído. Nesse dia o meu amigo xerife Carson Wayne descansará em paz, e eu finalmente terei cumprido a promessa que fiz. E não haverá nada que você poderá fazer para impedir, Arahmon. Porque a vida é como um ciclo – não se pode fugir das consequências. No momento certo, você, eu e Lenora teremos exatamente aquilo que merecemos.

O Renegado fez uma curta pausa antes de concluir:

- Sabe como eu sei disso tudo? Eu sei, porque a Justiça é como Chuva no Deserto: Pode até ser que demore, mas sempre vem.

Arahmon não teve resposta para aquilo. Tampouco Sean Ridell esperou por uma.

Com um toque suave nas rédeas, o Renegado girou seu belo corcel e afastou-se do sombrio interlocutor. Cavalgando, rumou para o horizonte, que já não era mais tão escuro, porque a aurora o tingia com suas primeiras cores.











Danilo Alex da Silva



28/05/15



14 h 48 min