quinta-feira, 31 de maio de 2012

A Noite da Besta





- Depressa, vamos saltar aqui! – disse o homem aos outros quatro que o acompanhavam.
Estavam a bordo clandestinamente de um trem, cujos numerosos vagões chacoalhantes, carregados de soja e milho, seguiam rumo à capital. Naquele momento, a composição avançava ruidosamente sobre os trilhos que cruzavam serpenteando a extensa área rural. Naquele momento o cenário era hostil; a mata fechada margeava os trilhos. Encontravam-se no meio do nada, e foi exatamente no meio do nada que os cinco passageiros clandestinos resolveram desembarcar, tão silenciosa e furtivamente como tinham subido a bordo.
Pularam do trem ainda em movimento e aterrissaram pesadamente, rolando pelo chão. Em seguida, embrenharam-se na cerrada vegetação, crescida na beira dos trilhos e que recobria grande parte do solo no local onde se encontravam. Uma vez ocultos pela vegetação, começaram a correr na direção que aquele que parecia ser o líder determinou. Eram pouco mais de vinte e três horas quando aquele intrigante quinteto apeou do trem e se entranhou no matagal. E eles corriam em plenos pulmões, como se fossem seguidos de perto pela sombra espectral do anjo ceifador.
Aqueles cinco homens eram foragidos da lei e, menos de quatro horas antes, seguindo minuciosamente um audacioso plano elaborado por aquele que parecia ser o chefe, haviam conseguido burlar a intensa vigilância e escaparam de uma penitenciária de segurança máxima, com fama em todo estado de ser praticamente inescapável.
Ao se verem livres da famigerada cadeia, os cinco companheiros correram através da mata cerca de um quilômetro e meio, até chegar ao rio. Durante todo o trajeto, com a respiração ofegante e o pulso extremamente acelerado, eles ouviram o berro estridente do alarme da prisão, alertando sua fuga. Luzes vermelhas intensas e holofotes poderosos vasculhavam a noite em várias direções. Viram lanternas varrendo poderosamente a escuridão, e ouviram latidos de cães de caça furiosos que farejavam seu rastro. Escutaram vozes exaltadas e gritos de comando. E correram o máximo que puderam, escondendo-se da melhor maneira possível.
Finalmente alcançaram a borda do rio e não tiveram dúvidas: atiraram-se na água enquanto os fachos das lanternas se aproximavam perigosamente. Antes de mergulhar, ainda ouviram o som de rifles sendo engatilhados. Desapareceram nas águas impetuosas e escuras. Enquanto se deslocavam, buscando se afastar o máximo que conseguissem da superfície, viam os traços espumantes que as balas descreviam ao cortar a água e perder força, passando rente seus corpos imersos em fuga. A correnteza, embora ameaçasse afogá-los, auxiliou-os a escapar.
Quando saíram do rio, ensopados, correram mais algumas dezenas de metros e conseguiram embarcar no trem que passava por ali naquele exato momento, onde os trilhos faziam uma curva. Horas depois, ao saltar do trem, os cinco fugitivos prosseguiram em sua fuga e adentraram um bosque escuro e sombrio, onde as copas das árvores se entrelaçavam, em uma espécie de abraço assustador. Tudo estava acontecendo exatamente como o líder planejara. Logo chegaram a uma velha e enorme árvore, cujo tronco estava marcado com um grande X entalhado a canivete. O chefe do grupo, que se chamava Robson, sorriu. Seus outros capangas, do lado de fora das grades, cumpriram corretamente suas ordens. Atrás da árvore havia uma pá, que usaram para cavar junto à base do tronco.
Depois de algum tempo, acharam um saco de lixo preto, dentro qual havia roupas, sapatos, algum dinheiro, documentos e algumas armas. Livraram-se dos uniformes laranjas de reclusos, e vestiram roupas normais, jeans, camisetas e calçaram tênis. Cada um ficou com um revólver calibre 38, que municiou rapidamente. Feito isso, prosseguiram em sua fuga mata adentro. Tiveram sorte por ser noite de uma exuberante lua cheia, de modo que a luz prateada do satélite natural da Terra, filtrada pelos galhos e copas das árvores, projetava seu holofote pálido sobre os fugitivos, iluminando seu caminho, ainda que de maneira precária.
A zona rural à noite podia ser um lugar extremamente perigoso e intimidador, mesmo para aqueles cinco criminosos em fuga. Corujas piavam agourentamente aqui e ali. A sombra das árvores contra a lua era fantasmagórica. Grilos cricrilavam incessante e irritantemente, e sapos coaxavam de maneira repetitiva e monótona. Vez ou outra ouviam o bater das asas de algum morcego que passava voando pouco acima deles. Durval, que era o mais jovem dos criminosos, era o mais amedrontado também. Arregalava os olhos a todo momento, sobressaltado quando ouvia algum farfalhar suspeito na mata ou algum estalido nas proximidades. Acalmava-se relativamente ao perceber que era apenas um dos companheiros que havia pisado em algum galho seco. Com o coração martelando no peito, enxugou o suor da testa com as costas da mão e cutucou o chefe, que se virou para olhá-lo com mau humor.
- Que foi dessa vez, Durval?
- Robson, estou um pouco apreensivo. Ouço barulhos estranhos na mata, e tenho a impressão de ver olhos amarelos e malignos flutuando na escuridão. Sinto como se algo nos vigiasse.
- Deixe de ser frouxo, homem. Vou dizer pela terceira e última vez, preste atenção: É coisa da sua imaginação! Onde já se viu sujeito barbado ter medo de assombração?
- Meu pai foi criado numa roça como essa, chefe. Ele recontava para mim as histórias que ouviu de meu avô. Causos sobre coisas do além que pegam gente desavisada como nós, em noites sombrias como essa. Para mim, o diabo anda por essas bandas e nos espreita do meio da mata!
- Então o diabo anda pelo campo? Talvez ele esteja pensando em adquirir um pedacinho de chão, ué! – zombou Robson e, enquanto os outros riam, continuou – Durval, faça um favor a todos nós e feche o bico! Ah, e vê se não vai me borrar essas calças, porque senão vai ter que andar com elas sujas mesmo; não temos outra, e vamos demorar a trocar de roupa agora.
Enquanto os companheiros gargalhavam, Durval calou-se e fechou a cara, emburrado. Os homens ainda estavam rindo quando um som sinistro flutuou noite adentro, fazendo o riso morrer em seus lábios e seu sangue gelar de repente. Um uivo possante e aterrador era lançado em direção à lua cheia, vindo de algum lugar da mata cerrada. Aquele ruído estridente, prolongado e aterrador era capaz de despertar o medo no coração do homem mais corajoso, e poderia tirar o sono de qualquer um. Todos os outros bichos emudeceram, como se a própria natureza se encolhesse de pavor diante daquele chamado ferino, selvagem. Coisa de filme de terror americano. 
- Mas que diabo foi isso? – indagou Robson francamente intrigado, fitando seus companheiros trêmulos.
- Não pode ser um cão, chefe. – opinou Amós – Parece ser um bicho grande. Acho que nessa mata tem lobo.
- Eu não falei? Eu não falei? – sussurrava Durval aterrorizado, gesticulando nervosamente.
- É o troço mais esquisito que já ouvi na vida. – comentou Waldir espantado.
- Precisamos dar o fora dessa mata. – afirmou Joel – Encontrar um lugar seguro.
Todos concordaram. Sacando seus revólveres, os engatilharam e começaram a se mover mais rápido, olhando atentamente ao redor. Para alívio geral, avistaram ao longe as luzes de uma casa ilhada por lavouras. Demoraram cerca de vinte e cinco minutos para cobrir a distância que os separava da residência iluminada, onde, acreditavam, estariam seguros. Uma densa atmosfera de apreensão, de inquietude, os envolvia. Sentiam como se algo os perseguisse no escuro. Ouviam uma respiração animalesca e um rosnado feroz de algo que vinha em seu encalço. Uma presença rápida e maligna parecia caçá-los protegida pela mata escura. Toda vez que apontavam a arma para trás, era como se a presença obscura desaparecesse. A mata não se movia então, a não ser pela ação do vento.
Chegaram finalmente a casa e esmurraram a porta, pedindo ajuda. Estavam lívidos. A reforçada porta de madeira se abriu com um rangido e, assim que eles passaram, foi fechada rapidamente outra vez. Arrastaram uma pesada mobília para frente dela, bloqueando desse modo a entrada de qualquer intruso. Então os cinco recém-chegados, ofegantes, olharam a família moradora daquela rústica casa, iluminada por lamparinas e lampiões já que, aparentemente a luz elétrica não vinha até ali. Havia cinco pessoas na residência quando os fugitivos chegaram: uma mulher muito bonita e jovem com uma criança de colo, um rapaz que parecia ser o esposo da moça, um garotinho magrelo e pálido de uns onze anos e uma senhora doente, de cama. Eles naturalmente se encolheram ao ver as armas dos cinco homens, mas já aparentavam estar muito assustados quando os desconhecidos entraram pela porta.
- Somos foragidos da justiça, porém, não se preocupem: não vamos fazer mal a vocês – disse o líder guardando o revólver na cintura e sendo imitado por seus companheiros. – Meu nome é Robson, e quero agradecer por terem nos acolhido. Estamos sendo procurados pela polícia, e precisamos de um veículo para continuar nossa fuga. Apena isso.
- Temos só o velho caminhão que meu pai usa para levar e trazer as coisas da cidade. – disse a moça embalando o bebê, amedrontada.
- Ótimo – disse Robson – Vamos levar o caminhão de vocês, mas o abandonaremos na margem da estrada, alguns quilômetros a leste. Poderão recuperá-lo pela manhã. E ninguém vai tocar em vocês, eu garanto. – disse o líder lançando um significativo e duro olhar em direção a Waldir, que já fitava a moça com olhos brilhantes e cobiçosos. Waldir havia sido preso por inúmeras acusações de estupro. Ante o olhar severo do chefe, o criminoso se encolheu. Ele não desobedeceria Robson; respeitava sua autoridade e liderança. Afinal, foi Robson que tirou todos eles da prisão.
O garotinho, assustado, se escondeu atrás da moça, e o rapaz apreensivo, em atitude protetora, se interpusera entre os forasteiros e sua família. Diante disso, Joel soltou uma risadinha e exclamou:
- Se aquiete, meu jovem. O chefe disse que ninguém vai tocar vocês, e se ele falou, a água parou. Ele é um homem de palavra, e nenhum de nós aqui é doido para desafiá-lo.
Mesmo depois dessas palavras o rapaz permaneceu olhando-os com desconfiança. Ignorando esse fato, Robson dirigiu uma pergunta aos anfitriões:
- Sabem se nessa mata aqui ao redor mora algum bicho grande, como um lobo ou uma onça, algo assim? Alguma coisa estava nos perseguindo antes de chegarmos aqui.
Assim que o chefe do bando acabou de falar, os moradores da casa se entreolharam de modo assustado e significativo. Estavam prestes a abrir a boca para responder quando a velha senhora enferma, deitada na cama resmungou algo.
- O que foi que ela disse? – indagou Durval arregalando os olhos, duvidando de sua audição.
- Não se preocupem, ela está delirando. Deve ser a febre. – disse a moça timidamente, com olhos assustados, tentando desconversar.
- Não estou louca! – protestou a velha deitada, enquanto o garotinho corria a pousar um pano úmido em sua testa, e repetiu a frase que tinha resmungado antes – Essa é a noite da Besta!
- Noite da Besta, senhora? – repetiu Waldir, incrédulo.
- Isso mesmo, meu jovem! – prosseguiu a velha com uma voz esganiçada – Há tempos não me levanto dessa cama. Digam-me, meus filhos, em qual lua estamos?
- Hoje é noite de lua cheia. – respondeu Joel, começando a acreditar que a senhora enferma delirava de fato.
- Pois é. – disse a mulher acamada – Toda vez que a lua cheia se levanta no céu, a Besta caminha sobre a terra.

Continua...

Danilo Alex da Silva



“Brilhante é a lua alta no firmamento
Gelado é o ar frio como aço esta noite
Nós mudamos, chamado selvagem
Medo nos seus olhos, é mais tarde do que você achava."

(Of Wolf and Man – Metallica)

terça-feira, 29 de maio de 2012

Temporada no Inferno




Se naquele circo de horrores um nome tivesse algum valor, ele seria tratado pelo seu de batismo: Marcelo Queirós. Contudo, ali o chamavam por um número, o mesmo número que estava inscrito na sua plaqueta de identificação, presa a uma corrente pendente do pescoço, corrente essa que se colava ao seu peito sob a farda, quando ele corria vigorosamente pelo terreno irregular do campo de batalha, em terras européias.
 Um número. Seu nome inteiro fora reduzido a três algarismos. Mais impessoal, impossível. Sentia-se como um objeto etiquetado, selado com um código de barra, transformado em coisa, como se não tivesse medos, sonhos, individualidade. Os companheiros mais chegados de seu pelotão o tratavam pelo sobrenome, o que lhe devolvia ao menos um resquício de humanidade, identidade. Seus amigos também não passavam de números. Números lutando. Números sangrando. Números matando e morrendo. Números dando suas vidas pela pátria. Brava gente brasileira...
 Assim como os alemães, o frio era um inimigo implacável.
Batalha travada em Montese, em pleno solo italiano. Marcelo Queirós fazia parte de um dos dois pelotões da Força Expedicionária Brasileira, a famosa FEB, que, apoiando os Aliados, naquela manhã iniciaram um sangrento combate cujo objetivo era tomar dos alemães a cidade italiana de Montese, uma região apinhada de colinas, fronteiriça aos municípios de Modenha e Bolonha.
 Duas tropas exclusivamente brasileiras desferiam aquele ataque poderoso e decisivo. Histórica e teoricamente falando, parece algo bonito, heróico e interessante, quase poético. Mas na prática, a coisa foi bem diferente; Marcelo que o diga. Parecia um pesadelo sem fim.
Com o corpo gelado e dormente, quase morto por hipotermia, Marcelo se concentrava não apenas na luta, mas em permanecer vivo. Seu pelotão fora detido pelo fogo inimigo logo na primeira investida.
 Rastejando sob fios de arame farpado, buscando proteção a todo  momento, vagarosamente os guerreiros da FEB avançavam sob o matraquear pesado de uma metralhadora.50 alemã, montada sobre um bipé no topo de alguma ruína, que antes fora uma elegante casa.
 Respondiam à fuzilaria cerrada inimiga da maneira que podiam, se expondo o mínimo o possível. Projéteis cortavam ruidosamente o ar, zunindo em todas as direções, num pipocar irritante e ininterrupto. Os brasileiros tentavam desalojar os alemães de suas trincheiras e casamatas.
Bombas explodiam a todo minuto, fazendo o solo estremecer e reduzindo quarteirões inteiros a ruínas.
Girando os olhos ao longo da extensão daquele pedaço do inferno na terra, Marcelo viu seus companheiros. Jovens assustados, mas determinados. Via-os gesticulando desesperadamente, suas vozes sumindo em meio à barulheira infernal das bombas, dos tiros, os gritos de morte, bem como o som dos veículos terrestres e aviões de guerra. Marcelo via os pracinhas queimarem óleo diesel e contemplava a nuvem negra que, causada pela combustão, escurecia o ar e comprometia a visibilidade dos atiradores alemães, refestelados em suas posições privilegiadas. E então, os soldados da FEB, empunhando firmemente seus fuzis, lançavam-se morro acima pedindo a Deus que desviasse a trajetória das balas inimigas. E atiravam contra as casamatas onde estavam alojados os germânicos.
E Marcelo corria junto com eles. Ouvia a cantiga ininterrupta das metralhadoras inimigas atirando às cegas contra a nuvem escura que protegia os pracinhas enquanto eles corriam colina acima. Do meio da fumaça negra, um segundo após a cantilena mortal das armas, os projéteis começaram a surgir. Rasgavam o ar numa velocidade impressionante, zumbindo como um enxame de vespas furiosas. As balas dilaceravam corpos, retalhavam carnes e ceifavam vidas em proporções aterradoras.
“Ou ficar a pátria livre, ou morrer pelo Brasil...”
Marcelo, ou o soldado Queirós, ou simplesmente o número 068, percebia que a guerra não era como parecia. As tropas inimigas eram compostas, em sua maioria, por jovens da idade dele, tão cheios de sonhos e vida, que deixaram para trás famílias, amigos e namoradas para lutar no conflito. Olhando ao redor, via seus companheiros se sacrificando pela pátria, lutando, defendendo não apenas um ideal, mas todo um povo, toda uma nação, toda uma História. Muitos não voltariam para casa. Seus pais receberiam apenas uma carta de condolências do governo e uma medalha de bravura. Seus filhos foram enviados à guerra, mas apenas medalhas retornariam em seus lugares.
Soldados brasileiros extenuados e carentes de treinamento adequado para combate naquele tipo de terreno atravessavam o campo de batalha. O frio era inclemente. O ar europeu era diferente do de sua terra natal. Estavam desfavorecidos em relação ao terreno. Tentativas foram feitas e resultaram em fracassos. Não parecia haver um modo de vencer aquela batalha.
“Verás que um filho teu não foge à luta...”
 Então, o pelotão de Marcelo juntou-se às tropas da FEB que lutariam bravamente pela conquista de Monte Castello. Em 21 de fevereiro de 1945, contra todas as possibilidades, os pracinhas desalojaram os alemães e ocuparam o Monte Castello. Os brasileiros, por sua coragem, a despeito da carência de recursos e treinamento, realizaram uma verdadeira proeza e angariaram o respeito e admiração até mesmo do inimigo. Fizeram o impossível.
A Batalha de Monte Castello resultou em um grande número de baixas para as Forças Expedicionárias Brasileiras. O soldado Marcelo Queirós estava entre os sobreviventes que, ao voltar para casa, foram aclamados como heróis. Mas ele não pensava assim. Aos dezenove anos, Marcelo aparentava o dobro de sua idade. Cansado, envelhecido pelo combate. Ele sabia que a guerra nunca fora algo heróico ou glorioso. Não havia vencedores ou perdedores, Havia apenas destruição. Havia apenas mortos. Ele não se sentira um herói quando seu coturno estava chafurdando em pântanos de sangue e neve. Não se sentira herói ao fuzilar garotos como ele. Angustiara-se ao imaginar famílias inteiras mortas sob os escombros, e outras tantas escondidas em porões, tomadas pelo medo, passando fome na escuridão.
Marcelo não sabia que mais tarde Renato Russo faria uma música e a batizaria de Monte Castello. O que ele sabia é que a guerra é uma droga. Era, é, e sempre será uma porcaria ter de assassinar seu semelhante. Quando morresse, ele esperava que o Senhor o admitisse no Paraíso, já que passar uma temporada no Inferno foi, no ano de 1945, a sua missão aqui na Terra.  


Fim



Soldados alemães feitos prisioneiros pelas tropas brasileiras na Segunda Guerra Mundial



Cerca de vinte e cinco mil soldados brasileiros,conhecidos como "os pracinhas", compuseram a Força Expedicionária Brasileira (FEB) que foi enviada para ajudar os Aliados nos campos de batalha europeus durante a Segunda Guerra. 




“Um aviso para o povo
O bem e o mal
Isto é guerra
Para o soldado, o civil
O mártir, a vítima
Isto é guerra”

(This is war – 30 Seconds to Mars)





“Não tem amigos
Nem vê garotas
Só gente morta
Caindo ao chão”

(Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones – Engenheiros do Hawaai)



“Viemos preparados
Prá almoçar soldados
Chegamos atrasados
Sumiram com a cidade
Antes de nós
Mesmo assim
Basta esquecê-la
No outro dia
Transformando em lataria
Tudo que estiver
Ao nosso alcance...

Errar não é humano
Depende de quem erra
Esperamos pela vida
Vivendo só de guerra...”

(Múmias – Biquíni Cavadão)

sábado, 26 de maio de 2012

Livros são caros? - Pedro Bandeira responde






Sonho com o dia em que mudaremos essa realidade em nosso país. 

"Se você acha que educação é cara, experimente a ignorância.”

(Derek Bok, ex-reitor e ex-diretor da Faculdade de Direito da Universidade de Harvard) 


quarta-feira, 23 de maio de 2012

Na Rota da Morte




Era a primeira vez que Olavo estava viajando por aquelas paragens. Em menos de uma semana completaria quarenta e cinco anos de idade. Dessas quatro décadas e meia de vida, duas ele passara enfurnado na boleia, sentado no banco de couro atrás do largo volante, fazendo seu poderoso caminhão percorrer intermináveis quilômetros de estradas, pulsantes veias pavimentadas, as quais faziam o fluxo de veículos ir de um lado a outro desse Brasil gigante. Sem dúvida era um caminhoneiro experiente.
Transportara cargas a quase todos os estados do país. Conhecia tantas cidades que nem poderia contar, tampouco lembrar seus nomes. Sempre rodando, sempre na estrada. Aventurando-se pelas rodovias para levar os grandes carregamentos até seu destino. Diversas vezes vira a morte bem de perto, como na vez em que ladrões de carga tentaram pará-lo. Acelerando o imenso veículo, senhor Olavo ouviu tiros e uma bala trincou o pára-brisa. Mas ele conseguiu escapar ileso.
Outra vez estava dirigindo sob um terrível aguaceiro quando uma carreta que vinha em sentido contrário patinou na pista e invadiu a contramão, quase se chocando de frente com o caminhão do velho Olavo. Foi por muito pouco. Ele pudera sentir o bafo fétido da morte soprando em seu rosto pálido empapado de suor. E também dessa ocasião conseguiu sair milagrosamente, sem um único arranhão. Sempre que era salvo de alguma tragédia como essa, o senhor Olavo já tinha tido tempo de contar todos os dentes da morte duas vezes, de tão perto que ela lhe sorria.
Olavo não tinha dúvidas: era divina a proteção com a qual contava. Fixou os olhos cansados no terço de contas azuis e brilhantes, pendente do retrovisor interno. O terço balançava algumas vezes quando o pesado caminhão passava em alguma irregularidade da estrada. Aquele objeto, o qual era símbolo de sua fé, tinha a capacidade de lhe trazer conforto toda vez que o olhasse. Sua visão era tranqüilizadora. Todavia, algo naquela noite estava estranho. Olavo, que não era um homem muito dado a acreditar em pressentimentos, tinha um péssimo naquele ponto da viagem. Um frio opressor no estômago, uma sensação constante de desconforto, um gosto ruim na boca. Muito esquisito.
Era uma noite sem lua, seria intensamente escura e amedrontadora não fosse a presença das estrelas. Milhares delas. Vistas da Terra, uma miríade de jóias pequeninas e brilhantes incrustadas artisticamente na abóbada negra do universo pela mão caprichosa do sábio Criador. Tinha tudo para ser uma noite encantadora para se apreciar na quietude solitária de homens como Olavo, cujo ganha-pão era percorrer as estradas para que não faltasse alimento na mesa dos brasileiros. Mas aquela noite definitivamente possuía um quê de anormalidade.
 Uma névoa fina e misteriosa recobria o asfalto úmido pelo orvalho da madrugada, erguendo-se fantasmagoricamente do solo e tentando abraçar o jato frio e potente dos faróis da carreta que Olavo guiava. Ressabiado, ele ligou o rádio para espantar a má sensação. O aparelho estava sintonizado em sua estação preferida, e uma das canções que Olavo mais gostava encheu a boleia de seu caminhão, estilhaçando o silêncio incômodo. E ao som de “Acidente de Amor”, da dupla Gino e Geno, um pouco mais tranqüilo, Olavo seguiu viagem, seu caminhão rosnando corajosamente dentro da noite envolta por neblina e escuridão. Aproveitando a solidão, sem tirar os olhos da estrada enquanto guiava, Olavo, mesmo desafinado, resolveu cantar junto com o rádio:
- “Ela chegou correndo demais, imprudente bateu, e arrebentou meu peito... Acidente de amor machuca demais, furou o lado esquerdo e amassou o direito...”
Ele adorava moda de viola. Não conseguia entender como os jovens podiam gostar dessa barulheira de hoje em dia, onde não se consegue ouvir bem os instrumentos nem entender nada do que se canta. Era um inimigo veementemente declarado do tal rock and roll, essa música que mais parece o som de uma caixa de abelhas furiosas, e que leva os jovens a cometer ainda mais besteiras do que as que a própria pouca idade já propicia. Enquanto pensava nisso, ele olhou para o relógio sobre o painel, ao lado de onde ficava o retrato da esposa e do filho, um rapaz de quinze anos. Passavam vinte e três minutos da meia-noite. Sentiu vontade de soltar um palavrão, mas se conteve.
Estava muito atrasado, precisava entregar aquela carga de tomates em seu destino o quanto antes. Já devia ter realizado o descarregamento no início daquela noite, mas o bendito do caminhão enguiçara algumas centenas de quilômetros atrás, e ele precisara ficar algumas horas de molho até que o socorro chegasse, e seu veículo fosse rebocado para um posto, onde pudesse ser devidamente reparado.
 A sorte é que um irmão caminhoneiro, vindo em sentido oposto, passara pelo trecho da estrada onde ele estava sozinho, entediado, aguardando ajuda. Perguntara a Olavo se ele já tinha jantado e, ante a resposta negativa do mesmo, prometeu que logo enviaria a comida. E assim foi feito. Quinze minutos depois outro caminhão, o qual viajava na mesma direção de Olavo, encostou. O motorista trouxe um marmitex quente e lhe entregou. Quando Olavo fez menção de pagá-lo, ele recusou, quase ofendido, e depois sorriu. Despediu-se com um aceno, entrou em seu caminhão e partiu. Felizmente para o senhor Olavo, os caminhoneiros são uma classe muito unida.
Agora ali estava ele atrás da direção, viajando por uma das principais rodovias de MG, acelerando para recuperar um pouco do tempo perdido. Tomava cuidado, dirigindo com atenção, mas tentava ir o mais rápido o possível. Estava muito atento devido à neblina. Pelo que ouvira, aquele trecho da BR, margeado de ambos os lados por cerrado, era sempre atravessado por animais. E também tinha o risco dos romeiros. Estava perto da festa da padroeira, e ele sabia que o pessoal estava em época de peregrinação. Conquanto tivesse pressa, o senhor Olavo não queria atropelar nenhum fiel. Estava chegando ao trevo onde ele precisava convergir seu monstruoso veículo para a esquerda. Enquanto ele se concentrava em guiar, e o caminhão, bufando, perdia velocidade para realizar a curva, Gino e Geno cantavam no rádio para alegrar a noite do viajante solitário:
- “Acidente de amor machuca demais, mas ela também saiu machucada...”
Porém, assim que Olavo finalizou a manobra e seu rinoceronte de aço se endireitou na pista, algo estranho aconteceu. Um vento gelado invadiu a cabine do caminhão, mesmo estando os vidros quase totalmente fechados. Ele estremeceu. O som das violas e a voz de Gino e Geno desapareceram para dar lugar a um chiado e depois à barulheira incômoda causada por estática.  Primeiro Olavo notou a trágica cruz de madeira envelhecida e empenada na beira da estrada. Depois, realçada pela neblina e recortada contra a escuridão, envolta por uma luz etérea, viu a menina logo adiante.
Estava a uns vinte metros de distância, à margem direita, e logo o caminhão passaria por ela. Devia ter uns dez anos, tinha olhos negros e tristes, e seu longo cabelo dourado flutuava ao sabor do gélido vento noturno. Estava envolta em um fino vestidinho branco, descalça, e tinha a mãozinha estendida, como quem pede dinheiro. Silenciosa, quieta, mas determinada.
- Santo Deus! – balbuciou Olavo vasculhando rapidamente o porta-luvas em busca de algum trocado.
Quando finalmente encontrou uma moeda e conseguiu abaixar o vidro, o caminhão já havia passado pela sombria menina e ela desaparecera dentro da noite nevoenta. Dando de ombros, de qualquer modo Olavo ainda jogou a moeda pela janela. A princípio ficou um pouco impressionado com o incidente, mas depois relaxou. Não fora a primeira vez que presenciara esse tipo de coisa, e com certeza não seria a última. Tinha mais uma história para contar quando encontrasse algum irmão caminhoneiro nesses postos ou restaurantes de beira de estrada.
Logo esqueceu o acontecido, Gino e Geno contribuíram para que ele recuperasse a paz de espírito. Rodando mais um quilômetro e meio pela estrada deserta, alcançou a parte onde o caminho se tornava descida; dali em diante ele precisava ir segurando o caminhão no freio para poder contornar a serra. À sua direita ficava o barranco, e à sua esquerda estava a contramão. Acidentes ali eram freqüentes, lhe haviam avisado.
  - “Ela veio guiando a paixão a 200 por hora quando se perdeu... E pegou meu coração de frente, e nesse acidente a vítima sou eu...”
Dessa vez não houve frio nem interferência na rádio. Olavo fez uma curva e então o jato potente dos faróis, perfurando a neblina e a escuridão, enfocou uma menina no meio da pista, a poucos metros do pára-choques dianteiro. A mesma menina de quilômetros antes, pedindo dinheiro à beira da estrada.  O estímulo partiu do cérebro de Olavo e chegou às suas mãos com a velocidade de um flash. Nessas situações, o que geralmente predomina é o reflexo. Agimos por instinto. Por isso, para evitar que seu gigantesco e pesado veículo invadisse a contramão, Olavo tentou brecar ao mesmo tempo em que desviava da menina, esterçando bruscamente o amplo volante para a direita.
A sinistra garotinha permaneceu imóvel e indiferente no centro da pista enquanto o pesado caminhão crescia diante de si, girando para o lado, tentando não esmagá-la com seu peso de toneladas.
Por mais que empregasse sua habilidade na direção, Olavo se desesperou ao ver que o controle fugia de suas mãos. A traseira do veículo dançava freneticamente enquanto a dianteira focinhava. Os pneus guinchavam, emitindo seu grito estridente de alerta. O cheiro de borracha frita por atrito chegou ao nariz do apavorado Olavo enquanto os pneus chiavam contra o asfalto, tentando deter o peso do monstruoso veículo que não podia mais se manter na pista. Os possantes faróis, como dois enormes olhos arregalados, varriam com sua luz a trajetória mortal rumo ao tétrico destino para o qual Olavo e seu veículo eram arrastados de maneira impiedosa. O rádio ainda estava ligado quando o imenso caminhão desgovernado, ridicularizando com sua velocidade e peso a barreira de proteção metálica contra colisões, alcançou a borda do barranco e mergulhou na escuridão nebulosa, indo de ponta, atingir o solo quinze metros abaixo do nível da estrada.
- “No acidente eu perdi o sentido e acordei ferido, doendo de amor... Preocupado comigo e com ela disseram que ela também se machucou... E agora não sei onde está aquela que está me fazendo sofrer...”
Quando Olavo abriu os olhos, a música lhe enchia os ouvidos. Estava deitado sobre a terra. Fora lançado para fora da cabine pelo impacto.  Ergueu-se e olhou para seu caminhão. Estava capotado tragicamente, totalmente destruído, as titânicas rodas, que ainda giravam lentamente, apontadas contra o céu estrelado. O velho caminhoneiro começava a acreditar que tivera sorte quando fitou a boleia. Esta se encontrava totalmente esmagada e o pouco que sobrara do pára-brisa estava ensangüentado.
Um corpo humano totalmente contorcido e destruído estava preso nas ferragens, já pálido, exangue, imóvel, prensado contra o volante e aquilo que fora o assento um dia. O homem demorou alguns instantes para perceber que aquele corpo era o dele. A carga, derramada quase totalmente, vazava. Milhares de tomates, entre os que não foram achatados com a queda, rolavam conjunta e ruidosamente pela profunda ribanceira, que ainda descia muitos metros antes de haver terreno plano novamente.
Cheio de tristeza por saber que estava morto, Olavo olhou para o alto e viu a estrada, muito acima dele. Sentia-se leve. Apesar de a subida ser íngreme e escarpada, o que praticamente inviabilizava uma escalada, ele quis estar no alto e assim aconteceu. Num piscar de olhos havia inexplicavelmente alcançado a estrada mais uma vez. Lançou um novo olhar melancólico para o caminhão caído lá embaixo. Então, voltando a cabeça, viu a menina de antes, a que causara o seu mortal acidente.
Sentindo a tristeza de seu novo companheiro, ela se aproximou e delicadamente segurou-lhe a mão. Olharam-se em silêncio. E então, sem dizer palavra, começaram ambos a caminhar de mãos dadas pela estrada deserta, sendo rapidamente engolidos pela noite e pela neblina. Enquanto isso acontecia, quinze metros abaixo dali, um rádio que não podia ter escapado da destruição acarretada pela queda do caminhão, ecoava de modo fúnebre dentro da boleia destroçada. Gino e Geno, que haviam alegrado a vida de Olavo, agora pareciam prantear sua morte:
- “Não me lembro de muitos detalhes, mas de uma coisa eu não posso esquecer... Apesar da violência do choque, ainda sinto o toque e o perfume no ar... E no meu coração infeliz pra sempre a cicatriz... desse amor vai ficar...”

Fim

Danilo Alex da Silva


Olá, pessoal! Espero que tenham gostado do novo conto!

Desejo a todos um ótimo restante de semana. 

Abraços

terça-feira, 22 de maio de 2012

Lucas Duarte tocando guitarra

Queridos amigos, leitores, frequentadores e visitantes desse humilde blog.


Hoje venho com muito orgulho mostrar o talento de mais um de meus amigos artistas: Lucas Duarte, grande músico com quem tenho a honra de conviver. Lucas não é apenas um músico brilhante, mas uma ótima pessoa, grande amigo. Gostaria de utilizar esse meu espaço para divulgar seu trabalho para aqueles que ainda não conhecem. Por isso, posto abaixo dois videos do Lucas tocando covers muito bacanas. Prestigiem!




Meu amigo Lucas Duarte dá aulas de violão e guitarra, e atualmente está lecionando no Conservatório de Música de Araguari. É estudante de Música, Violão Erudito, na UFU. 

Espero que tenham gostado do post! Fico feliz de poder ajudar a divulgar, ainda que de um jeito singelo, os talentos de nossa cidade. E olhe que conheço muitos artistas! rsrs

Desejo a todos uma semana para lá de abençoada!

Forte abraço

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Jogo Maldito - Parte 7 - Final



 18 de Maio de 2012 – 17:33 h

Olá, meu amigo encadernado. Sinto que esta é a última vez que nos falaremos, pois é chegado o momento do confronto final. Sem meias palavras, sem tons de cinza, somente preto no branco. Eu iniciei tudo isso, e apenas eu posso colocar um ponto final nesta história maldita. Chega de por em risco a vida de quem não tem culpa de minha irresponsabilidade.
Hoje olho para trás e vejo que nem sempre no amor e na guerra vale tudo. Todos os dias, pela janela do meu quarto, posso ver casais felizes de namorados que andam de mãos dadas pela calçada. Aqueles rapazes conquistaram suas amadas do modo tradicional e romântico: flores, chocolate, cartas de amor, serenata, uma aproximação feita de modo espontâneo, entabulando uma conversa saudável, inteligente e divertida. Tenho certeza de que nenhum deles brincou com o mundo obscuro para conseguir impressionar a garota que ama. Conhecendo Julia como agora, sei que ela ainda me notaria se eu cometesse alguma loucura mais sadia do que invocar um espírito maligno com um tabuleiro Ouija.
Vidas inocentes foram ceifadas ou colocadas em risco por minha estúpida e descabida obstinação, a qual se mostrou altamente destrutiva ao fim de tudo. Como eu queria poder voltar no tempo e corrigir toda essa burrada, toda essa confusão a qual deixou um extenso rastro de sangue, morte e lágrimas...
Não. Definitivamente Maquiavel não pode estar certo. Os fins nem sempre justificam os meios. Hoje concordo com Shakespeare: “Há muito mais entre o céu e a Terra do que supõe a nossa vã filosofia.” Realmente muito mais, amigo Horácio. Infinitamente mais, caríssimo diário de bordo.
Puxa vida, que cansaço! Quanto tempo uma pessoa é capaz de permanecer acordada? Hoje completa o quarto dia seguido que mal consigo pregar os olhos. Minhas energias estão no fim, bem como minhas esperanças. Será desse modo que a vida se extingue? Diante de tanto tempo sem descanso, nossos órgãos simplesmente param de funcionar? Ou o coração continua pulsando, enquanto a mente, perdida em pensamentos desconexos, vaga por todo e qualquer lugar onde não haja nunca mais um único pingo, um solitário vestígio de sanidade? É assim que vou terminar? É desse modo que mereço pagar por meu crime?
Meus pais acreditam piamente que estou envolvido com drogas. Tentaram saber o que se passava por meio de meus amigos, mas, como meus melhores amigos são os jogadores da Ouija, não disseram nada, respeitando o pacto inicial que havíamos selado. Além do mais, de que adiantaria contar? Eles jamais acreditariam. Hoje de manhã, sem ser notado, ouvi uma conversa entre meus pais. Minha mãe chorava convulsivamente enquanto meu pai, consternado, dizia não haver outra solução. Colando o ouvido à porta, pude entender que amanhã mesmo ele vai me levar para uma dessas clínicas de reabilitação para dependentes químicos. Ouvi meu pai dizer que muita gente se recuperava bem, se desintoxicava e voltava a ter uma vida normal. Uma vida normal?

Sim, uma vida normal... Há muito eu não sabia o que era isso. E não culpava meus velhos por pensarem isso de mim, caro amigo diário de bordo. Sempre fui bom aluno e agora minhas notas estão um caos. Sinto grande dificuldade em me manter concentrado em algo durante muito tempo. Durmo debruçado na carteira durante as aulas, já que a escola é onde Arthur me deixa em paz temporariamente. Olho no espelho e mal me reconheço: o rosto refletido é o de um jovem pálido, com profundas olheiras, barba de duas semanas e cabelo em desalinho, implorando por um corte. Emagreci bastante, pareço um paciente terminal de alguma doença crônica. Assombrosamente deplorável o meu estado. Estou acabado. Ao invés de dezoito anos, aparento ter bem mais. E, excepcionalmente nesse caso, isso não é uma coisa boa.
Caro diário de bordo, o estado de Márcia piorou, e ela continua no hospital, na UTI, respirando com o auxílio de aparelhos. Outro dia, na sala de aula, uma dessas compridas e pesadas lâmpadas fluorescentes desprendeu-se do teto e caiu exatamente onde, segundos antes, se projetara a cabeça de Miriam, uma das integrantes do ex grupo de jogadores da Ouija. Por sorte ela se ergueu um momento antes para cruzar a sala, a fim de jogar um papel no cesto de lixo. Isso salvou-lhe a vida pois, quando a lâmpada se espatifou com estardalhaço sobre a cadeira dela, lançando uma chuva de cacos pontiagudos em várias direções, percebemos que, se tivesse sido atingida, Miriam estaria morta. Seu crânio provavelmente não resistiria à pancada. E teríamos mais uma morte ao nosso redor, aniquilada mais uma possível testemunha do que Arthur fizera. O fantasma continuava executando sua queima de arquivo, rápida e determinadamente. Todos responsabilizaram o vento pela queda da lâmpada, mas eu tinha outro culpado em mente.
Automaticamente olhei para aquele que um dia fora Carlos e o vi me fitando com intensidade, de modo provocativo e irritante. O resto da turma preocupava-se em recolher os cacos e organizar a bagunça, e não reparavam em nós, no modo sombrio como nos encarávamos, como dois homens do velho oeste que se fitam antes de sacar as armas. Discretamente ele olhou com sarcasmo para Julia, que estava alheia ao que se passava ali, preocupada com a colega que quase se machucara seriamente. Então Arthur/Carlos indicou com os olhos a garota que eu amava e fez em si próprio um gesto de cortar garganta. Depois da ameaça, sorriu friamente.
O maldito não tem medo de nada. Uma hora a polícia vai desconfiar de todas essas mortes acontecendo ao seu redor. Talvez haja dificuldade em descobrir que as mortes as quais Carlos/Artur estava ligado haviam sido assassinatos premeditados e bem executados, ao invés de acidentes, como foi determinado. Mas eu não podia esperar tanto. Nem o restante dos meus amigos. Julia era a próxima da lista. Ele deixara isso bem claro.
Para piorar as coisas, Julia se sentiu mal durante a aula e teve de ir embora mais cedo, seu pai foi buscá-la. E não tive notícias dela durante todo o dia, apesar de ter ligado muitas vezes para o seu celular, ter deixado mensagens de voz e enviado muitas mensagens de texto. Não podia fazer mais nada, somente esperar. O problema é que eu estava ficando sem tempo, amanhã meu pai vai me internar na tal clínica, tendo a certeza de que vai fazer o melhor para mim. Por isso, preciso resolver isso hoje. Vidas dependem de mim. Se eu me for antes de derrotar Arthur, mais pessoas vão morrer. E depois ele vai me buscar. Sei que vai.
Angustiado, deitei em minha cama agora pela tarde, o celular ao alcance da mão, e aguardei pela resposta de Julia. Milagrosamente acabei pegando no sono; porém, o descanso durou muito pouco. Acordei assustado alguns minutos depois, ouvindo Highway to Hell, do ACDC. Sorri fracamente com a ironia da música que era o toque do meu celular, em relação à minha atual situação e observei o visor. A chamada vinha do celular de Julia. Atendi de modo afobado:
- Julia! Como você está? Se sente melhor? Quase me matou de preocupação! Onde você...
- Olá, velho amigo. – disse uma voz masculina, sombria e metálica, do outro lado da linha.
Calei-me, sentindo meu sangue gelar nas veias de modo quase doloroso. Um pesadelo? Surreal demais tudo aquilo. Coisa de cinema.
- Carlos? Quer dizer, Arthur? Que você está fazendo com o celular da Julia, seu psicopata? Como ela está? Se tocar nela eu juro...
- Calma, Pablito. – riu odiosamente Arthur usando as cordas vocais de Carlos, me chamando da maneira que meu melhor amigo costumava – Só estamos dando um passeio. Sua pequena Julia está muito bem. Agora, ela permanecer assim, vai depender de você. Se for um bom menino, e fizer tudo o que eu digo, nada vai acontecer a ela. Já não posso garantir o mesmo a seu respeito...
Com o coração aos pulos, a adrenalina sendo jorrada impetuosamente no sangue, procurei me manter calmo, mas a raiva era imensa:
- Maldito seja! Ponha ela na linha, seu canalha!
E eu falei com Julia. Estava apavorada, é claro. Confessou ter acompanhado Carlos/Arthur, pois ele prometera me machucar bastante se ela não fizesse o que ele mandava. Quase em prantos, ela me pediu desculpas, e tentei rapidamente confortá-la da melhor forma possível. Logo o monstro se impacientou e voltou a falar comigo:
- Chega de pieguices! Preste atenção, Pablo. Encontre-nos às dezenove horas no cemitério, em frente ao meu túmulo. Venha sozinho e desarmado. Não avise a polícia. A vida de Julia está em suas mãos agora. Não se atrase. – e ele desligou o celular.
Tentei ligar de volta, mas obviamente ninguém atendeu. E eu estou aqui, minha mente agitada lutando para encontrar uma saída. Agora não apenas a vida de Carlos corria perigo, mas também a de Julia. O desfecho da história depende de mim. Será que Carlos estava aterrorizado dentro daquela prisão sombria que se tornara seu corpo? Será que ele tinha consciência do que Arthur falava e fazia por meio dele? E Julia? Estaria ferida? Será que escaparíamos dessa situação infernal? Ou morreríamos todos essa noite? Seríamos mais alguns rostos borrados na foto maldita, onde não posso mais reconhecer o semblante de Fabio, Tina e Márcia?
Desarmado? Uma ova! Mas o que devo levar, caríssimo diário de bordo? O que vai funcionar? Água benta? Pentagrama? Crucifixo? Não faço idéia, porque, apesar de tudo, não possuo a arma mais poderosa: a fé. Acredito que seja isso que torne muitos guerreiros invencíveis: lutar por aquilo em que crêem cegamente. Lutarei por amor aos meus amigos, para reparar todo o mal que fiz. Todavia, entre todos, eu sou o menos indicado para confrontar Arthur hoje. Falhei com tudo e todos. Acho que acabei perdendo a fé até em mim mesmo.
O cemitério será o campo de batalha. Meu oponente está em casa, essa é sua grande vantagem. Não posso atraí-lo mais uma vez ao local onde sofreu o acidente causador de sua morte. Se Arthur não vai ao lugar onde tudo começou, preciso levar o lugar até ele. Acabei de imprimir uma foto da esquina onde a Rua Sargento Emílio Vaz se encontra com a Avenida Barão Theodoro Marques. Talvez funcione, não tenho certeza. Contudo, devo tentar.
Vou irritar Arthur ao extremo, caro diário de bordo. Preciso perturbá-lo, fazer com que ele se manifeste plenamente. Claro que é terrivelmente perigoso, embora seja o único modo. Tentarei atraí-lo para mim. Farei com que Arthur passe para meu corpo essa noite. Eu serei o seu fantasmagórico Cavalo de Tróia no lugar de Carlos. É o único meio de libertar meu melhor amigo e salvar a garota que amo.
O mesmo tempo que corre contra mim, também urge contra ele, caro diário de bordo. Arthur está ficando acuado, e sabe disso. A ligação de Carlos com as vítimas dos bizarros acidentes logo vai levantar suspeitas, e isso começa a preocupá-lo: ele vai precisar trocar de hospedeiro em breve. Pelo menos, temporariamente. E por que não eu? Tenho um perfil, em alguns pontos, semelhante ao de Carlos, e todas essas noites mal dormidas me deixaram fraco, abaixaram consideravelmente minha imunidade. Eu estou passível de possessão neste momento. Aos olhos de Arthur, sou como uma porta aberta e convidativa.
Servirei a seus propósitos, ainda que meu corpo seja apenas um paliativo. Um subterfúgio. Um ser encurralado não tem muita escolha, ainda que seja um ser espiritual. Então, uma vez dominado por Arthur, seremos os dois enviados à clínica de reabilitação, longe dos meus amigos e de todos aqueles que o garoto morto ameaça nesse momento. Vou afastar o maldito de Julia. Vou destruir a corrente que ata Carlos.
Ou talvez eu descubra uma forma de reassumir o comando, me livrar do fantasma de uma vez por todas e consiga escapar dessa enrascada. Ou, o mais provável é que eu tenha uma morte estranha; seja pelas mãos do fantasma, seja por minhas próprias, tentando proteger o mundo dessa maldição que minha falta de senso libertou. Estou quase certo de que Carlos e Julia ficarão em segurança, caro diário de bordo. Quanto a mim, o futuro próximo não se apresenta promissor. Nem vou tentar nutrir falsas esperanças a respeito de finais felizes que jamais virão.
Engraçado, estou me lembrando agora que certa vez, há alguns anos, uma dessas videntes que ficam nas esquinas, insistiu muito para ler minha sorte. Segurando minha mão e observando a palma, ela disse com tristeza que minha linha da vida era muito curta. Na época, claro que ri do olhar úmido de luto dela e dei-lhe um trocado, antes de me afastar. Hoje percebo que, no fim, talvez isso faça algum sentido. Minha linha da vida é curta. Sinal de que morrerei jovem. Que meu sacrifício valha a pena, que meus amigos sejam salvos. Se isso acontecer, então a morte terá dado algum sentido a essa minha vida tão breve e vazia. Gostaria de ser lembrado desse modo, caro diário: não como o idiota que despertou o Mal voraz, mas o garoto que se imolou para salvar seus amigos.
Está escurecendo. Tenho que terminar de me aprontar e seguir para o cemitério. Já contei os trocados da minha mesada: terei de pular a janela e tomar um taxi para chegar ao cemitério. A vida real é dura, caro amigo encadernado, muito diferente dos livros e do cinema. Pessoas boas morrem e o Mal ronda o mundo como um leão faminto, rosnando feroz.
Fico feliz de poder buscar conforto nas tuas páginas, meu companheiro. Essa entrada derradeira em meu fiel diário de bordo se assemelha às últimas palavras de um homem que esperou meses, anos, e talvez décadas no corredor da morte, e agora precisa proferir suas últimas palavras. Você registrará esse documento, o qual amanhã pode ser lido como o testamento de Pablo Oliveira Neves, um garoto comum, que enfrentou um perigo incomum. Talvez em breve, caro diário de bordo, você passe pelas mãos de padres, psiquiatras, peritos de polícia.
Antes, entretanto, é meu desejo que você, caro diário de bordo, seja lido por meus pais e por meus amigos. Antes de sair, vou deixá-lo bem visível sobre a minha cama. Quando vier me chamar para jantar, minha mãe dará por minha falta e o verá, meu amigo encadernado.
Pai, mãe: perdoem-me por tudo. Imploro que perdoem todas as vezes que deixei de demonstrar o quanto os amo. Sinto muito por não ter dito nada, mas, como disse nas páginas anteriores, era muito arriscado. Pai, o senhor me ensinou a agir como homem, e me responsabilizar pelos meus atos. É justamente o que estou fazendo, tentando resolver do meu jeito aquilo que causei e afetou tantas pessoas. Obrigado por me ajudar a ser quem eu sou. Tenho muito orgulho do senhor.
Mãe: não se culpe. A senhora sempre foi a melhor mãe do mundo. Sinto tanto em ter que deixá-la tão cedo! Por que não ouvi vocês? Por que fui sempre tão descrente? Nunca quis provocar nada disso, nunca quis obrigar a senhora a carregar esse fardo tão doloroso. Perdoe-me. Amo muito você e papai!
Carlos, espero que você esteja bem. Nada do que eu disser poderá minimizar aquilo que fiz a você, devido o meu egoísmo. Apenas rogo o seu perdão. Lembre-se de mim sempre, todos os momentos bons e engraçados que passamos juntos na nossa infância. Cuide bem de Julia por mim.
Julia, me arrependo de tudo, exceto do que passei com você. Você é meu primeiro e único amor. E o amor é maior que a vida, assim como é maior que a morte. Eu deveria ter sido mais sensato e descoberto um meio mais responsável de tentar encontrar um caminho para o seu coração. Perdoe-me por ter colocado sua vida em risco. Conhecer você foi uma das melhores coisas que me aconteceram na vida. Por favor, cuide bem do Carlos, não deixe que esse cabeça oca se meta em mais confusões.
Miriam e restante do pessoal: também quero pedir perdão a vocês. Imagino que, como eu, vocês acreditavam que a Ouija era apenas um jogo. Eu não fazia idéia do que poderia acontecer, e me angustio toda noite por minha ignorância ser a causa da perda de Fabio e Tina, e por Márcia estar tão ruim agora. Eu faria qualquer coisa para trazê-los de volta. Daria a minha vida por isso, sem hesitar.
Ei, Deus. Sei que nunca falei contigo e duvidei que existisses, mas estou com muito medo. Por favor, me ajude a resolver toda essa bagunça que fiz por aqui. Se não for possível, peço de coração que ao menos perdoe os meus inúmeros erros.
Bem, tenho de ir andando. Estou ouvindo aqui no rádio uma música do 30 Seconds to Mars, chamada The Story. Realmente gosto dessa canção; além do que, ela tem tudo a ver com o que foi contado nessas páginas. Por isso, vou copiar a tradução dela aqui, como minha despedida oficial.
A História (The Story – 30 Seconds to Mars)
“Estive pensando sobre tudo
Que eu costumava querer ser
Estive pensando sobre tudo
Sobre mim, sobre você e eu

Essa é a história da minha vida
Essas são as mentiras que eu criei
Essa é a história da minha vida
Essas são as mentiras que eu criei

Estou no meio do nada
E é onde eu quero ficar
Estou no fundo de tudo
E finalmente começo a viver

E eu juro por Deus
Que eu me encontrarei
no fim
E eu juro por Deus
Que eu me encontrarei
no fim
no fim
Essa é a história da minha vida
Essas são as mentiras que eu criei
Essa é a história da minha vida
Essas são as mentiras que eu criei”

Adeus, amigo diário de bordo. Sentirei saudades. Obrigado pelos momentos de paz e alívio que obtive escrevendo em suas bem aventuradas páginas. Seu capitão está partindo agora para ser tragado pelo mar bravio.
Todavia, pode se orgulhar, meu amigo encadernado: quando a tempestade chegar, ela vai me encontrar de pé, na proa do navio.
Ass.: Pablo Oliveira Neves.


Danilo Alex da Silva



Boa noite, meus queridos amigos! Espero que tenham gostado da última parte do conto.
Preciso confessar que fiquei realmente surpreso pela boa aceitação de vocês em relação à história. Nem mesmo eu imaginava que este conto fosse render tanto, principalmente sete partes. Não foi tarefa fácil para o Pablo ocupar o lugar do Renegado na honrosa função de entreter vocês, meus amigos e leitores. Esse foi meu primeiro conto sobre fantasmas, espero que tenham gostado do resultado.

 Também sempre quis contar   uma história como se fosse por meio de cartas ou diário. Acho que é isso que torna a sublime obra "Drácula" de Bram Stoker ainda mais apaixonante, já que boa parte da história é genialmente apresentada ao leitor em forma de cartas, diários e matérias de jornais. 

Já finalizando, agradeço de coração o carinho e o apoio de todos, e espero contar com vocês na próxima história. Gosto imensamente de escrever para vocês, e espero que se divirtam lendo tanto quando eu me divirto criando as histórias e personagens.
 Antes de me despedir, quero dizer que a seguir postarei o clipe legendado em português da canção que Pablo citou agora no final do conto: The Story, da banda 30 Seconds to Mars. Quem tiver curiosidade, pode assistir para conhecer essa que é a "música tema" do conto Jogo Maldito. rsrsrsrs Quem não é fã de rock e costuma ter medo de minhas indicações musicais, pode assistir sem susto, porque, além do video ser acústico, a canção é bem calminha. kkkk

Forte abraço a todos vocês!

Nos falamos em breve, quando vier a próxima história. 

Então, como costumava se despedir Pablo:

Até breve!!!!

Danilo Alex da Silva





Fontes utilizadas para pesquisa a fim de enriquecer o conto com detalhes:


segunda-feira, 14 de maio de 2012

Jogo Maldito - Parte 6



16 de maio de 2012 – 01:02 h

Caríssimo diário de bordo, olá mais uma vez! Para variar, não consegui dormir, então vim buscar conforto em suas páginas. Embora meu corpo esteja exausto, minha mente se recusa a descansar, meu inconsciente de alguma forma tentando avisar que não posso dormir; preciso, mas não posso. Não é seguro fechar os olhos, não é bom permitir que a mente divague, percorrendo os obscuros caminhos de um sono reparador. Me sinto dentro de um filme de terror, sabe caro diário de bordo? Como se de algum modo inexplicável eu houvesse sido sugado para dentro de A Hora do Pesadelo, e fosse capaz de ouvir garras afiadas arranhando a parede do meu quarto, enquanto crianças com os olhos arrancados, de mãos dadas numa ciranda horrenda ao meu redor, cantam para mim em uníssono, uma canção sinistra e monótona:
- “Um, dois, Freddy vem te pegar... três, quatro, melhor a porta trancar...”
Quem me dera meu perseguidor fosse esse, amigo diário de bordo. Como sugere a fúnebre canção, talvez Freddy Krueger seja impedido pela porta. Meu adversário as atravessa, rindo divertido enquanto o faz. Enquanto o tempo corre, o destino zombeteiro, parece cantar para mim:
- “Um, dois, Arthur vem te pegar...”
Freddy Krueger tinha fraquezas. Se Arthur possui alguma, eu ainda não descobri. Por isso, meus amigos vem pagando o preço por minha irresponsabilidade. Sabe, caro diário de bordo, desde o acidente mortal envolvendo Fabio e Tina, ando totalmente aéreo, enfrentando certas dificuldades para concatenar as idéias e registrá-las em suas páginas. Realmente complicado organizar os pensamentos para relatá-los aqui com a coerência e coesão necessárias, quando minha mente parece arrebatada de encontro aos acontecimentos avassaladores dos quais todo dia temos uma notícia.
Há poucos dias Márcia, uma das garotas do nosso grupo de jogadores, sofreu um grave acidente na escola. Márcia é patologicamente alérgica a abelhas, alergia essa que traz do berço. Acontece que, na escola, a garota foi atacada por um enxame raivoso desses insetos mortais, os quais podem ser criaturas extremamente pacíficas se não forem perturbadas. E o fato é que Márcia não faria mal sequer a uma formiga. Estranhamente Carlos, embora eu não tenha mais tanta certeza se é ele quem está atrás do volante agora, estava por perto na ocasião, foi ele quem chamou ajuda para a nossa colega. Márcia foi ferroada na garganta e por muito pouco escapou de morrer asfixiada. Encontra-se agora em estado grave, numa Unidade de Tratamento Intensivo em um dos hospitais de nossa cidade.
Carlos (?), como o tratarei doravante, caro diário de bordo, disse haver testemunhado o acidente, e alegou que as abelhas investiram contra Márcia porque um garoto de outra série apedrejou uma colméia localizada no galho de uma das árvores do pátio da escola. Segundo ele, a colméia atingida caiu sobre Márcia justamente quando essa passava, e então os insetos, irados, picaram impiedosamente a menina. O interessante é que Carlos (?) não foi capaz de posteriormente ao ocorrido identificar o suposto aluno autor da pedrada que derrubara a caixa das abelhas. Pergunto-me se não fora ele mesmo quem atirara a pedra contra a colméia.
 O verdadeiro, o bom e velho Carlos, que estudava com Márcia desde que eles tinham oitos anos de idade, sabia de cor e salteado que nossa colega é extremamente alérgica a picadas de abelha.  E ele saberia também calcular com exatidão a que distância deveria estar da garota e da árvore com as abelhas para que pudesse atirar uma pedra certeira, fazendo com que a colméia caísse sobre Márcia e ele estivesse livre de suspeitas. Já fizéramos muito isso em nossa infância, mas era uma brincadeira menos maldosa; escondidos e munidos de pequenas pedras, derrubávamos bexigas cheias de água sobre nossos colegas e nos divertíamos ao vê-los zangados, procurando inutilmente encontrar o autor da pedrada que estourara o balão cheio de água. Aquele gesto era uma assinatura de Carlos: uma atitude esperta utilizada com um fim totalmente diverso ao de nossa infância.
Carlos, o verdadeiro, estava em algum lugar naquele corpo, talvez aprisionado em seu íntimo, já que seu modo de agir deixava claro que ele não estava mais com as mãos no guidom havia algum tempo. Aquilo que se apoderara de Carlos estava usando seu conhecimento para nos destruir, e depois simplesmente apagava seus rastros, impossibilitando qualquer tentativa de se obter provas para incriminá-lo. A questão era: por que? O que havíamos feito contra Arthur para que ele tentasse nos banir da face da Terra de tal modo?
Há pouco me dei conta que só pode ser uma espécie de dominação espiritual mesmo, pois o penteado de Carlos (?) mudou realmente, e sem os óculos, ele está realmente parecido com o garoto que vejo na foto no computador, o qual agora se ocupa, entre outras coisas, de assombrar minhas noites. O jeito de andar mudou, a voz, o olhar, tudo. E ele continua me evitando o máximo que pode.
Sabe, amigo diário de bordo, acredito que, ao longo dos anos, muitas pessoas se percam de seus amigos em virtude dessas infinitas bifurcações das estradas tortuosas da vida. Inúmeros podem ser os motivos desse distanciamento, porém, creio que se possa contar nos dedos casos iguais ao meu, quando é preciso se afastar do melhor amigo porque ele se tornou uma espécie de serial killer sobrenatural. Honestamente, jamais eu poderia imaginar que em algum momento de nossas vidas estaríamos em lados opostos do tabuleiro, nos enfrentando em um jogo mortal, cuja finalidade para ele era a mórbida diversão e, para mim e para os meus, questão de sobrevivência. Não há em minha mente uma única dúvida a respeito de que Carlos (?) seja o verdadeiro culpado por Márcia ter se machucado tanto.
Da mesma maneira, acredito piamente que na morte de Fabio e Tina tenha havido um dedo desse monstro que agora parece habitar meu melhor amigo. Como eu disse anteriormente, Fabio não era habituado a ingerir bebidas alcoólicas em tamanha quantidade como a que foi encontrada em seu sangue durante a autópsia. Finalmente decidi deixar de lado por ora esse meu ceticismo ferrenho, e pesquisei a respeito na internet. Por isso, descobri que maus espíritos podem manipular pessoas vivas, induzi-las a fazer algo que elas não queiram, podem praticamente obrigar as pessoas a realizarem atos totalmente contrários aos seus princípios. Essa informação justificaria a embriaguez inexplicável de Fabio e Tina. E quanto a Carlos (?)? Bem, dele eu não duvido mais nada. Nada mais me surpreende.
Algumas noites atrás tive um pesadelo. Sonhei que estava em meu quarto, sentado sobre meus calcanhares à maneira nipônica, em minha cama. Sobre o meu colo jazia o maldito jogo, o terrível tabuleiro Ouija, o qual eu manipulava sozinho. Lembro que me sentia angustiado, à procura de respostas. Então, subitamente, eu via cenas projetadas na parede branca do meu quarto. Imagens sem áudio, como um filme pavoroso e mudo. Era noite, e havia três jovens sentados em um animado bar, conversando e rindo alegremente. Imediatamente reconheci os rostos de Carlos, Fabio e Tina. Os dois últimos pareciam não querer consumir bebidas alcoólicas e empurravam garrafas de cerveja para longe, mas alguém insistia que bebessem. Um garoto branco, de cabelos loiros, curtos e lisos e aspecto sombrio estava de pé tenebrosamente ao lado de meus amigos e sussurrava algo em seus ouvidos. Então, movidos por uma força obscura invisível e superior, Fabio e Tina obedeciam àquela sugestão infernal, e entornavam garrafas e latas de cerveja, pouco a pouco o álcool invadindo sua corrente sanguínea e condenando-os àquela morte horrível que viriam a ter mais tarde, a Zafira preta do pai de Fabio servindo como sua caixa metálica funerária.
Mal eram interrompidas essas imagens, sem que eu fizesse pergunta alguma, o ponteiro se movia sozinho sob meu dedo e percorria com urgência o tabuleiro Ouija, indicando letras, construindo mensagens. O fantasma interagindo comigo naquele instante não era Arthur, disso eu tinha certeza: pela presença irradiada eu sabia que se tratava de Fabio ou Tina. Cheguei mesmo, no sonho, a sentir o perfume agradável dessa última.
- “C-U-I-D-A-D-O” – foi o que pude ler quando meu interlocutor invisível terminava de transmitir sua mensagem.
Então, antes que eu pudesse me dar conta, uma presença terrivelmente pesada e negativa chegava ao meu quarto. Bruscamente o tabuleiro Ouija era arrancado de minhas mãos e voava contra a janela. Juntamente com o estilhaçar do vidro, eu ouvia os gritos desesperados de Fabio e Tina, mesclados ao guincho trágico dos pneus contra o asfalto, enquanto a Zafira preta descontrolada avançava veloz e inexoravelmente contra seu letal destino: o poste cravado na esquina, cuja rija estrutura se abalou com a colisão brutal.
Voando contra a janela, o tabuleiro Ouija não estilhaçava apenas o vidro, mas também o meu pesadelo e o meu sono, trazendo de volta a minha indesejável e freqüente mais nova companheira, a insônia; a prova mais concreta da minha realidade aterradora.
Caro diário de bordo, esse pesadelo parecia um aviso, uma forma encontrada por Fabio e Tina para se comunicar comigo, me explicar como eles morreram e me prevenir do perigo iminente. Sim, amigo diário de bordo, esse ainda sou eu, Pablo Oliveira Neves falando e não, não estou mais tão certo quanto minhas crenças ou falta delas. Primeiro Fabio e Tina, e agora Márcia. Nosso grupo de nove jogadores reduzira-se para cinco pessoas, já que agora Carlos também contava como vítima de Arthur. Estávamos sendo caçados e destruídos pelo espírito que minha irresponsabilidade trouxe à tona. Na foto Arthur parecia um garotinho ingênuo, sua seriedade mesclada a um ar angelical quase convincente. Aparentemente um bom e comum menino de 17 anos. Mas apenas aparentemente.
Amigo diário de bordo, há bem pouco tempo estive lendo A Arte da Guerra, e lá o sábio general estrategista chinês Sun Tzu diz que, para se vencer qualquer batalha, é necessário antes conhecer o inimigo. E foi justamente o que procurei fazer. Mergulhei nos estudos, passei a aproveitar minhas incontáveis noites de insônia para realizar pesquisas sobre o oculto.
Quando eu soube do ocorrido com Márcia, fiz o que devia ter feito há muito: destruí o maldito jogo, na ingênua esperança de que isso de algum modo detivesse os planos malévolos de Arthur. Antes, no entanto, realizei uma rigorosa pesquisa para conhecer o procedimento correto, e só então o executei: quebrei o malfadado tabuleiro em sete partes, depois deitei água benta sobre o mesmo (isso mesmo, eu fui a uma igreja obter água benta) e só então o queimei. Desde os tempos antigos o fogo tem sido utilizado como elemento purificador.
Logo depois que transformei o jogo maldito em cinzas, foi quando comecei a enxergar o rosto maligno de Arthur onde quer que eu olhasse. Ele pareceu realmente zangado, derrubou livros e CDs da minha estante, bateu a porta e a janela do meu quarto. E passou a me assombrar. Não há uma noite que eu não veja seu rosto flutuando na escuridão do meu quarto. Não adianta ligar o interruptor, a luz não o intimida. Meu quarto, que agora é gélido, também é habitado pelo garoto morto que tem convertido minha vida em um inferno.
 Claro que o fato de eu haver destruído o tabuleiro nem de longe impediu Arthur, pois seu espírito agora encontrara Carlos, o hospedeiro perfeito. Não estando mais vinculado à tábua Ouija, ele podia vagar por aí à vontade, manipulando o corpo de meu amigo ou simplesmente se deslocando sozinho. O lado bom de ser humano, caro diário de bordo, é que nós nos acostumamos com tudo. Somos capazes de nos adequar aos mais inóspitos lugares e às mais hostis situações. Portanto, visualizar o rosto etéreo de Arthur cada vez que abro os olhos em minha cama não é mais a coisa mais apavorante do mundo.
Todavia, as maldades que o fantasma é capaz de praticar utilizando o corpo do meu melhor amigo, isso sim, me induz ao pânico. E era nessa forma que eu precisava combater o inimigo.
Fantasmas são espíritos de pessoas mortas presos ao mundo dos vivos por assuntos pendentes. Esses assuntos não resolvidos aprisionam a alma desencarnada, impedindo que ela parta para seu descanso final e eterno. Como Arthur era um fantasma, eu precisava descobrir que motivos o prendiam ainda a esse plano, e buscar entender porque ele se tornara um espírito violento e assassino. Por isso, busquei investigar o máximo que pude.
Não foi uma tarefa muito fácil, meu amigo encadernado: tive de visitar pessoalmente o Arquivo Municipal e verificar os registros de obituário, os quais eram quilos de papéis amarelados e cobertos de pó. Tinha a impressão de que aquelas pastas e fichários, vítimas do tempo, iriam se esfarelar em minhas mãos a qualquer momento. Naveguei horas pela internet, promovendo uma busca minuciosa no site da prefeitura.
Finalmente, em um jornal com data de 11 de abril de 1988, encontrei o que achava. Arthur Dias Azevedo, de dezessete anos, havia sofrido um sério acidente na Rua Sargento Emílio Vaz, em frente ao antigo supermercado da rede Pascoal (atualmente no local funciona uma gigantesca academia), que ficava situado na esquina com a Avenida Barão Theodoro Marques.
Segundo o periódico, por volta de três e quinze daquela tarde, enquanto atravessava a rua sobre a faixa de pedestres, Arthur fora atropelado por um carro em alta velocidade que passava pelo local. O motorista, jovem, inabilitado, e talvez embriagado, fugiu sem prestar socorro, antes que alguém pudesse anotar a placa.
Com o impacto, o jovem pedestre foi arremessado a muitos metros de distância e sofreu diversas fraturas, entre elas traumatismo craniano. A ponta de uma costela quebrada também lhe perfurou o pulmão esquerdo, aniquilando qualquer chance de sobrevivência. Arthur Dias Azevedo não resistiu aos vários ferimentos e faleceu na ambulância a caminho do hospital.
Segundo depoimento dos familiares, Arthur era um excelente rapaz: ótimo aluno e ímpar filho. Estava voltando para casa naquela tarde, saíra mais cedo da escola para ir cuidar da mãe que se achava em casa, passando mal. Havia uma foto em preto e branco, caro diário de bordo, e vi mais uma vez o já familiar rosto do garoto Arthur. Por incrível que pareça, na foto ele sorria; não de modo gélido e sombrio, mas um sorriso sincero, de menino feliz.
Então era isso, caro diário de bordo. Arthur sofrera uma morte violenta e injusta quando tinha apenas dezessete anos, há vinte e quatro anos. Morrera quando seguia para casa, a fim de cuidar da mãe. Era uma boa pessoa, mas a morte despertou em sua alma emoções negativas. E ele sentia, mesmo após a morte, que precisava permanecer na Terra, para de alguma forma cuidar da mãe. Era seu dever, o qual fora impedido de cumprir devido à irresponsabilidade de alguém que interrompera sua vida. Não me admira que eu o veja sempre sério, com expressão soturna.
Vejamos se entendi bem, querido amigo diário de bordo: Arthur e Carlos têm muito mais em comum do que eu podia imaginar. Ambos com dezessete anos, alunos brilhantes, pessoas exemplares. Depois de morto havia mais de vinte anos, finalmente Arthur viu, por meio da minha idéia estúpida de jogar com a Ouija, um modo de retornar à vida e finalizar sua tarefa. Isso faz todo o sentido, posto que, antes de Carlos participar do jogo, Arthur não havia se manifestado. Nenhum de nós, os outros jogadores, era interessante a seus olhos fantasmagóricos. Mas Carlos, sim.
A mesma idade. O mesmo perfil. Quando Carlos, movido por minha insistência, participou do jogo estando gripado e enfraquecido, o fantasma conseguiu se livrar do tabuleiro e se apoderou do meu melhor amigo. Por minha culpa. Apenas por minha culpa. Condenei meu melhor amigo ao fardo da maldição de possessão por espírito.
Mas qual seria a lógica disso, caro diário de bordo? Por que justo Carlos estivera na mira de Arthur? Na verdade, caro amigo encadernado, espíritos não seguem uma lógica semelhante à nossa. Não sei ao certo se eles seguem sequer alguma lógica. Estão mortos, agem de acordo apenas com aquilo que lhes interessa. Arthur sentia raiva porque sua morte súbita e injusta o separara de sua família, de sua mãe. Alguém roubara sua vida.
Ele sabia que Carlos era inocente, e que se apossar de sua vida daquela forma era cruel, mas não se importava com isso. Alguém lhe roubara a vida injustamente, e agora ele fazia o mesmo; roubava uma vida, achava uma forma alternativa de recuperar tudo o que havia perdido: um corpo de carne e osso, família, amigos, trabalho, estudo... E o único obstáculo era o nosso ingênuo grupo de jogadores do tabuleiro Ouija. Arthur sabia que apenas nós podíamos fazer idéia do que se passava e acabar atrapalhando seus planos. Por isso agora ele viria sempre em nosso encalço.
E se eu havia jogado Carlos nessa roubada, cabia a mim tirá-lo dela. Como eu faço para libertá-lo das garras mortais de um espírito furioso? Procuro um médium? Uma necromante? Um exorcista?
Assaltado por essas divagações, liguei para Julia e marquei para que nos encontrássemos. Se há algum lado bom, por menor que seja, em toda essa história, é toda essa confusão haver realmente aproximado Julia de mim. Temos nos encontrado com freqüência. Não chamaria de namoro o que vivemos, mas passamos por um processo de conhecimento, o que me deixa bastante contente. Enfim uma alegria, ainda que tímida, nesse profundo mar de tristeza e escuridão em que me acho mergulhado, amigo diário de bordo.
Encontrei minha musa inspiradora em uma das mais belas praças de nossa cidade e fomos andando até a sorveteria Ice Crime. No caminho, expliquei a ela todas as minhas suspeitas e as conclusões que obtive embasado nos apurados estudos e pesquisas que vinha fazendo ultimamente. Ela me ouviu atentamente, sem me interromper uma vez sequer. Depois, com sua voz calma, disse que também nutria suspeitas parecidas. O restante do grupo, embora assustado, não sabia com certeza o que se passava. Eles ignoravam o perigo tremendo em que se achavam. Caro diário de bordo, isso me lembra uma música que gosto bastante, dos Paralamas do Sucesso, chamada O Calibre:
- “Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo
Sem saber o calibre do perigo
Eu não sei d'aonde vem o tiro
Por que caminhos você vai e volta?
Aonde você nunca vai?
Em que esquinas você nunca pára?
A que horas você nunca sai?
Há quanto tempo você sente medo?
Quantos amigos você já perdeu?”
Naquele momento, nossa situação era exatamente essa. Ainda bem que eu tinha Julia comigo. E somente ela. Meus pais estavam muito preocupados comigo, tentavam conversar, saber o que estava havendo, mas eu não falava nada, nunca. Não podia falar a verdade, eles não acreditariam. Além do que, se eles soubessem de algo, podia ser que Arthur viesse caçá-los também. Estar ciente do segredo do garoto morto era morte certa para qualquer um, talvez algo até pior.
Tendo Julia como minha aliada, elaborei um ousado plano, caro diário de bordo. Para tentar remover aquilo de Carlos, eu precisava primeiro ter certeza de que não era mais ele mesmo que estava no comando. Expliquei a Julia o que tinha em mente e ela concordou. Então começamos a botar a mão na massa. Havia dias que Carlos (?) estava pesquisando sobre a família Dias Azevedo, e não quis nos contar o motivo. Imaginei que Arthur estivesse procurando dados sobre sua família, e instruí a Julia que ligasse para ele. E assim ela fez.
Ela ligou para Carlos (?) e disse que seu pai conhecia um pessoal da família Dias Azevedo que morava no norte da cidade. Se Carlos (?) quisesse, no dia seguinte podíamos ir lá para mostrar a ele onde era a casa do pessoal, já que ultimamente o mesmo andava tão interessado sobre essa família. Inacreditavelmente ele topou, e no dia seguinte, pela tarde, passamos em sua casa
Carlos (?) nos recebeu de modo surpreendentemente amável, até sorriu para mim, jovial. Assim que saiu, fechando o portão atrás de si, ele quis saber como iríamos.
- Vamos a pé, oras! – disse Julia, sorrindo – A casa do pessoal que te falei não fica longe daqui, e a tarde está muito agradável. Podemos ir caminhando e conversando. Em dois tempos estaremos lá.
Ele torceu o nariz um pouco, mas acabou concordando. Muito suspeito, caro diário de bordo. Carlos adorava caminhar. Seguimos conversando e ele nos acompanhou sem suspeitar de nada. Falava animadamente com Julia e comigo, por alguns instantes parecendo ser o nosso velho Carlos, nosso grande amigo desde os tempos do jardim de infância. Disfarçadamente consultei as horas: passavam dez minutos das três da tarde. Estávamos chegando ao local desejado bem em tempo. Segundo o jornal do Arquivo Municipal, Arthur havia sido atropelado aproximadamente às três e quinze da tarde.
Dobramos a esquina e começamos a caminhar pela Rua Sargento Emílio Vaz. Desde que Arthur faleceu, muita coisa mudou na arquitetura dos prédios, nas lojas. Mas ainda é a mesma rua. Carlos (?) só percebeu isso muito tarde. Ao chegarmos à esquina onde a Sargento Emílio se encontrava com a Avenida Barão Theodoro, Carlos (?) estacou de repente. Seus olhos se arregalaram e ele começou a estudar o local à beira do pânico. Olhou para a fachada da academia situada na esquina, onde antigamente funcionava o supermercado da rede Pascoal.
Na esquina onde Arthur fora atropelado eles haviam instalado um semáforo havia coisa de uns dez anos ou mais, porque o índice de acidentes ali era realmente alto. Além do garoto morto que nos assombrava, posteriormente muitas outras pessoas foram vitimadas naquele local por acidentes de trânsito.  Eram pontualmente quinze passados das três quando Julia e eu pisamos na faixa de pedestres, fazendo menção de cruzar a rua enquanto o semáforo estava favorável para nós. Olhei para trás e vi Carlos (?) congelado, preso no lugar como se alguém o tivesse cimentado ali.
Estava doentiamente pálido, suando frio, tremendo dos pés à cabeça. Parecia aterrorizado. Agora eu podia ver com impressionante nitidez o semblante de Arthur no rosto que havia pertencido a Carlos. Em seus olhos vi medo. E vi ódio também. Um fenômeno estava ocorrendo ali: o morto estava usando o cérebro de meu melhor amigo para reviver memórias dolorosas, que ele desejava ardentemente esquecer. Lembranças de quando morreu tão jovem e cheio de vida, arrancado do meio dos vivos, daqueles que o amavam e que se preocupavam com ele.
O som do trânsito intenso o atingia como uma ventania que o empurrasse para trás, fazendo-o recuar lenta e dolorosamente. Um carro em alta velocidade freou bruscamente para respeitar um sinal vermelho nas proximidades e o guincho dos pneus pareceu ferir Carlos (?), que se afastou totalmente da rua, encostou-se à vitrine de uma loja e foi encolhendo como uma criança assustada. Naquele momento tive a confirmação necessária de que aquele ali não era o meu melhor amigo.
Com o pé direito já na faixa de pedestres, olhei para o rapaz e, em alto e bom som, com a voz carregada de ironia, indaguei:
- Ei, Arthur, você não vem conosco?
Em resposta, o rapaz quase agachado olhou para mim com raiva, se ergueu e saiu correndo, fazendo o caminho de volta para casa de Carlos. Olhei significativamente para Julia e meneamos as nossas cabeças, sérios. Arthur estava apavorado por ter ido ao local de sua morte. Desse modo, se traiu, confirmando nossas suspeitas de que ele controlava meu amigo. Agora sim eu podia confrontá-lo sem medo de errar. Precisava descobrir um modo de arrancá-lo de Carlos, pois isso o enfraqueceria. Depois dessa estranha situação, Julia eu voltamos a caminhar, eu a deixei em casa e segui para a minha.
E cá estou eu agora, querido diário de bordo. Aquele dia, Arthur ficou irado, e na mesma noite, assim que Carlos dormiu, ele veio me fazer uma de suas fúnebres visitinhas. Derrubou coisas, ligou aparelhos eletrônicos, acendeu e apagou luzes, esfriou o ambiente de um modo quase insuportável. Estava furioso por eu o ter definitivamente desmascarado e foi lá se vingar. E é o que ele tem feito desde então. Toda vez que Carlos fecha os olhos, Arthur surge em meu quarto para me incomodar. Agora mesmo, enquanto escrevo, ele está tamborilando no meu computador. Algumas vezes ele liga o rádio no último volume. Não me deixa mais dormir. Por isso, escrevo. Arthur está tentando me enlouquecer, meu amigo encadernado. E está quase conseguindo realizar seu intento. Provavelmente qualquer dia desses vou sucumbir diante de seus feitos maléficos, punido dessa forma pelo próprio mal que acabei despertando.
Enquanto isso não acontece, caro amigo diário de bordo, meu fiel escudeiro, estou indo deitar e tentar dormir. Talvez consiga se me mantiver ouvindo música pelos fones do MP3, pois isso abafa um pouco a barulheira causada por meu desagradável visitante que é, na verdade, uma espécie de torturador invisível.
Despeço-me desse modo, caro diário de bordo. Nem faço idéia de como consegui escrever tanto com todo esse barulho, e todo esse cansaço pesando em meu corpo. Em breve estarei de volta, buscando o meu precioso bálsamo mental em suas páginas. Isto é, se essa falta de repouso não me matar antes.

Até breve!

Danilo Alex da Silva