segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Bem vindos à tecnologia 3G!

Abaixo, foto de usuário de internet 3G aguardando que a conexão fosse estabelecida.



Isso é o que eu chamo de persistência!


Boa semana para todos!
                                                          

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A Última Partida




 

Fazia vinte minutos que eu estava imóvel no meu cubículo. O ramal da diretoria piscando como um vaga-lume louco no display. Simplesmente não conseguia atender. O resto do que seria um álbum quando me recompusesse e juntasse toda aquela bagunça estava espalhado no carpete do escritório. O zunzunzum dos outros funcionários, outros telefones, a copeira passando com o carrinho do café, o suor escorrendo pelas minhas costas apesar do ar-condicionado ligado no talo, tudo isso parecia a galáxias de distância da minha mesa. Você já ficou vinte minutos imóvel, sendo consumido por milhares de pensamentos ruins, culpa e danação? Garanto que é um bocado de tempo, embora para mim, naquela droga de dia em que recebi pelo serviço de entrega do laboratório as fotos do aniversário da minha caçula, vinte minutos pareceram um piscar de olhos. A história é a seguinte; sou um senhor de quarenta e sete anos, sentado na minha mesa de gerência de feedback e retaguarda ao cliente platina, tenho dois filhos e uma esposa que quero largar, segurando a fotografia da clássica hora do parabéns. Nanda está com um chapeuzinho de prender com elástico, feliz da vida, pronta para assoprar o número sete de parafina cor-de-rosa sobre o Bob Esponja Calça Quadrada. Eu, Deise, meu filho Marcelo, um cunhado, sogra e meu pai bem ao fundo, meio escondido pela profusão de convivas aparentados, esperando o espetacular primeiro pedaço de bolo e posando para aquela foto que agora balança na ponta dos meus dedos por conta da tremedeira que vai me consumindo.
A terceira amiga de escritório pára ao meu lado, fala algo no idioma klingon, a única palavra em português que escuto é “pálido”. Não dou a mínima. Acho que vou ter um ataque cardíaco mesmo.
A foto é coisa normal e corriqueira, tudo bem. Tudo bem. O anormal é meu pai ali, entre minha sogra e meu cunhado, com a penumbra por conta da luz apagada e da fraca luminosidade da vela banhando um pouco da cena. Meu pai não foi ao aniversário. Ele nunca vai. Meu pai vive num asilo para idosos. Faz dois anos que eu não o visito. Por isso a culpa me consome. Por isso meu coração está disparado. Não é que eu simplesmente não o visite. A agravante é que faz uns dezoito meses que eu nem ligo para saber como ele está. Não liguei no Natal, nem no ano-novo, nem em seu aniversário de setenta anos. Deus Pai! Deus Pai! O que é isso? Será impressão minha? Não pode ser ele, ali. Finalmente consigo me livrar daquele torpor que havia congelado meus ossos e, de quebra, minha alma. Ainda tremendo apanho a agenda ao lado do vaga-lume ensandecido. Martirizo-me pela enésima vez. Nem o telefone do asilo eu tenho de cor nem comigo! Digito no buscador “asilo Santos-SP”. A Internet retorna mais de cem mil resultados. Sei que minha testa está fria. Não lembro o nome do santo que nomeia a droga do lar de velhinhos onde internei meu pai. Que tipo de monstro não lembra o nome da casa onde seu pai está? Levanto da mesa e, a passadas largas, vou até o elevador, deixando as fotografias esparramadas no chão, um rastro de olhares que percebem um louco e faço a secretária da diretoria que caminha na minha direção se afastar com medo do meu rosto suado e meus olhos arregalados. Dirijo até em casa tirando tinta dos carros ao lado. Farol vermelho. Excesso de velocidade. Dia de rodízio. Antes de entrar em meu condomínio e subir ao apartamento já perdi a habilitação por umas dez vidas. Atravesso a sala como bala. Reviro minha gaveta no guarda-roupas. Dúzias de envelopes do Lar Santo Antônio sem ao menos serem abertos. Não precisava conferir os boletos, uma vez que a conta estava em débito automático. Se fosse alguma urgência os imbecis do asilo teriam ligado. Teriam, eu sei. Rasgo o envelope mais recente. Papel timbrado. Digito os números e a ligação toca no litoral. Uma voz de senhora rouca do outro lado. Explico quem sou, pergunto pelo meu pai. Musiquinha irritante enquanto transferem para o serviço social. Outra senhora. Pergunta o nome do interno, meu nome. Ela pigarreia daquele jeito que a gente sabe que lá vem chumbo quente. Um hiato desconfortável. Minha cabeça a mil, zunindo, pensando um monte de merda. Meu pai não podia estar naquela foto. Meu pai estava no asilo. Meu pai… ela finalmente fala.
— Lamento, senhor Sérgio. Mandamos oito cartas de lá pra cá. O senhor não deu nenhum retorno. Seu pai foi enterrado dia 16 de setembro do ano passado.
— Entendo.
— Temos coisas dele aqui. Ele deixou pertences para o senhor. Antes de ficar em coma tinha dito que era para lhe entregar quando viesse visitá-lo em seu aniversário.
Desligo o telefone. Caio na cama e, como não fazia há dez anos pelo menos, explodi num pranto misturado a berreiro e condenação. Meu pai estava morto. Duas semanas antes do aniversário de Fernanda. Ele queria tanto me ver que tinha aparecido na festinha. Ele, de alguma forma irreal e inacreditável, estivera ali, no salão do condomínio. Estivera ali.
Então um arrepio sobe pela minha espinha. Interrompo o choro rasgado quando Deise entra no quarto. Meus olhos dançam pelo vazio do quarto impessoal e padronizado, como tantos outros. Passam pelo lençol amarrotado, pelos criados-mudos e varrem as paredes. Meu pai… estaria ali? Naquele instante? Uma alma penada, assombrando um filho monstro.
— Sérgio do céu? Você foi despedido?
Não respondo. Ainda procuro o espectro nos cantos e nas sombras. Um homem calado e de vida dura. Esquecido num asilo cheirando a mofo, trancafiado atrás das barras de solidão e preso aos grilhões pesados da espera.
Deise me abraça com medo e preocupada.
— Quanto você vai receber de indenização? Já falaram?
Dou um empurrão em minha esposa. Ela cai sentada na cama. Ainda preocupada. Calculando. Ela também está presa a grilhões. Grilhões com outro peso… com correntes muito, mas muito mais curtas.
— Meu pai morreu, Deise.
— Ah… pena.
A mulher se levanta e recompõe a roupa.
— Quando foi?
— Setembro. Ano passado.
— Que coisa.
Ficamos calados. Constrangidos. Tânatos é um deus forte.
— Você nunca me deixa visitar meu pai.
Pela primeira vez na vida de casado ela não retruca. Sei exatamente a ladainha que viria. Pela primeira vez na vida ela respeita minha dor. Surpresas demais para um dia só.
Estendo a fotografia para Deise. Religiosa, ela se benze.
— Sérgio! Você não acha…
— Cadê a câmera?
— Joguei fora. No Natal você comprou uma digital para nós.
Até chegar ao asilo dispenso dois amigos pelo celular. Não queria falar com ninguém. Tinha vergonha de explicar qualquer coisa. Os pensamentos incessantes não dão descanso aos miolos conspurcados por imagens do passado. Por conta dessas imagens, mesmo antes de chegar ao Santo Antônio, já tinha a resposta para a pergunta que me fustigava. Por que não tinham ligado nenhuma vez? O apartamento era novo. Tinha mudado para lá pouco menos de dois anos. Liguei só uma vez para o asilo. Não para o meu pai, para o financeiro. Alterei meu endereço de correspondência, mas não tinha o novo telefone ainda. Troquei de celular e nem lembrei de meu pai. Perdemos o contato. Lá me entregaram um embrulho que o velho Cesário tinha deixado para mim. Os amigos dele tinham feito uma vaquinha para que ele não fosse enterrado como indigente. Sem família, sem ninguém para acompanhar o cortejo. Sozinho na terra fria do cemitério.
Parei o carro na frente do campo santo, relembrando e remoendo as dúzias de vezes que entre um cafezinho e outro no trabalho eu me prometia ir visitar meu pai. Depois eu vou. Depois eu vou. Sempre e sempre deixando o amor de agora para a frieza do depois. Caminhei até a quadra indicada. Um túmulo simples, sem foto, só o nome. Cesário Balbino da Costa. Baiano, morto de tristeza aos setenta anos. Caí de joelhos diante da cruz e tirei o embrulho da sacola. Mais choro quando abri o pacote. Um tabuleiro dobrável de madeira. Jogo de damas. Colei a testa ao chão, enchendo a pele de pedriscos e arranhões por culpa dos soluços. Minha mãe tinha morrido muito cedo e, então, quando eu tinha onze anos caí doente, coisa séria, hepatite da brava. Seu Cesário, que era homem rústico e pouco dado a rompantes emocionais, deixou o trabalho por trinta dias e trinta dias passou ao pé da cama do hospital, ficando comigo o tempo todo. No segundo dia apareceu com aquele tabuleiro de damas e me ensinou a jogar. A lembrança só serviu para varar ainda mais meu coração de gelo. Quando abri o tabuleiro um pedaço de papel dobrado caiu junto com as pedras de damas. Apanhei o papelzinho e desdobrei, lendo a mensagem grafada com caligrafia tremida e inconfundível do velho Cesário. Sorri sem graça.
— Está tudo bem… — dizia meu pai através do escrito. — Está tudo bem… — repetia minha voz para consolar ambos.
Armei as pedras sobre o tabuleiro. Um vento gelado arrastou as folhas secas em minha direção. Assoprei a sujeira de cima dos quadrados. Movi a branca para a frente, avançando uma casa como era a regra.


— Sua vez, pai — murmurei. 





André Vianco



"É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque, se você parar pra pensar, na verdade não há."

Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

E depois de algum tempo você aprende...

                                                                                  

Depois de algum tempo, você aprende a diferença, a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança.

E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão. Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo. E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam... E aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la por isso. Aprende que falar pode aliviar dores emocionais.

Descobre que se levam anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você pode fazer coisas em um instante das quais se arrependerá pelo resto da vida. Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher. Aprende que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam, percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.

Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa, por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos. Aprende que as circunstâncias e os ambientes tem influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos. Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser. Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto. Aprende que não importa onde já chegou, mas onde está indo, mas se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve. Aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados.

Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências. Aprende que paciência requer muita prática. Descobre que algumas vezes a pessoa que você espera que o chute quando você cai é uma das poucas que o ajudam a levantar-se.

Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e o que você aprendeu com elas do que com quantos aniversários você celebrou. Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.

Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel. Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não o ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.
Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem que aprender a perdoar a si mesmo. Aprende que com a mesma severidade com que julga, você será em algum momento condenado. Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido, o mundo não pára para que você o conserte. Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás.

Portanto... plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores. E você aprende que realmente pode suportar... que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida!


William Shakespeare



E depois de algum tempo... você simplesmente se dá conta de que o tempo voou!
É isso aí, minha gente! Hoje completamos juntos UM MÊS de blog! E tenho a felicidade de poder comemorar esta vitória juntamente com vocês, leitores amigos, que conviveram comigo e me aturaram durante esses abençoados trinta dias. Estou profundamente honrado pois, nesse primeiro mês de existência, este blog recebeu 342 VISITAS! Muito obrigado a todos vocês!
Espero que tenham se emocionado comigo, refletido, se indignado, se divertido, orado... enfim, que tenhamos aprendido juntos posto que, o tempo nada mais é do que um período de aprendizado.
Para prosseguir crescendo, este blog precisa de você, pois é pra você que ele foi feito. Quero sempre poder contar com você, partilhar o que vejo, o que sinto, o que penso e o que espero da vida. Por favor, continuem acessando! Espero sempre poder encontrar vocês por aqui!

Desejo um maravilhoso restante de semana a todos!

Grande abraço de seu grato amigo

Danilo Alex da Silva

P.S: Eu sei que o texto já é meio batido, mas Shakespeare é sempre genial, e esse texto expressava com exatidão tudo aquilo que eu queria e precisava dizer hoje. Afinal, como dizem por aí, o que vale mesmo é a intenção. kkkkkk


                                                                         
                                                                            

domingo, 23 de janeiro de 2011

Chapeuzinho Amarelo

                                                                                
                                                                               


Era a Chapeuzinho Amarelo.
Amarelada de medo.
Tinha medo de tudo, aquela Chapeuzinho.

Já não ria.
Em festa, não aparecia.
Não subia escada, nem descia.
Não estava resfriada, mas tossia.
Ouvia conto de fada, e estremecia.
Não brincava mais de nada, nem de amarelinha.

Tinha medo de trovão.
Minhoca, pra ela, era cobra.
E nunca apanhava sol, porque tinha medo da sombra.

Não ia pra fora pra não se sujar.
Não tomava sopa pra não ensopar.
Não tomava banho pra não descolar.
Não falava nada pra não engasgar.
Não ficava em pé com medo de cair.
Então vivia parada, deitada, mas sem dormir, com medo de pesadelo.
Era a Chapeuzinho Amarelo…

E de todos os medos que tinha
O medo mais que medonho era o medo do tal do LOBO.
Um LOBO que nunca se via,
que morava lá pra longe,
do outro lado da montanha,
num buraco da Alemanha,
cheio de teia de aranha,
numa terra tão estranha,
que vai ver que o tal do LOBO
nem existia.

Mesmo assim a Chapeuzinho
tinha cada vez mais medo do medo do medo
do medo de um dia encontrar um LOBO.
Um LOBO que não existia.

E Chapeuzinho amarelo,
de tanto pensar no LOBO,
de tanto sonhar com o LOBO,
de tanto esperar o LOBO,
um dia topou com ele
que era assim:
carão de LOBO,
olhão de LOBO,
jeitão de LOBO,
e principalmente um bocão
tão grande que era capaz de comer duas avós,
um caçador, rei, princesa, sete panelas de arroz…
e um chapéu de sobremesa.

Finalizando…

Mas o engraçado é que,
assim que encontrou o LOBO,
a Chapeuzinho Amarelo
foi perdendo aquele medo:
o medo do medo do medo do medo que tinha do LOBO.
Foi ficando só com um pouco de medo daquele lobo.
Depois acabou o medo e ela ficou só com o lobo.

O lobo ficou chateado de ver aquela menina 
olhando pra cara dele,
só que sem o medo dele.
Ficou mesmo envergonhado, triste, murcho e branco-azedo,
porque um lobo, tirado o medo, é um arremedo de lobo.
É feito um lobo sem pelo.
Um lobo pelado.
O lobo ficou chateado.

Ele gritou: sou um LOBO!
Mas a Chapeuzinho, nada.
E ele gritou: EU SOU UM LOBO!!!
E a Chapeuzinho deu risada.
E ele berrou: EU SOU UM LOBO!!!!!!!!!!

Chapeuzinho, já meio enjoada, 
com vontade de brincar de outra coisa.
Ele então gritou bem forte aquele seu nome de LOBO 
umas vinte e cinco vezes,
que era pro medo ir voltando e a menininha saber 
com quem não estava falando:
LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO BO LO

Aí, Chapeuzinho encheu e disse:
"Pára assim! Agora! Já! Do jeito que você tá!"
E o lobo parado assim, do jeito que o lobo estava, já não era mais um LO-BO.
Era um BO-LO.
Um bolo de lobo fofo, tremendo que nem pudim, com medo de Chapeuzim.
Com medo de ser comido, com vela e tudo, inteirim.
Chapeuzinho não comeu aquele bolo de lobo, 
porque sempre preferiu de chocolate.

Aliás, ela agora come de tudo, menos sola de sapato.
Não tem mais medo de chuva, nem foge de carrapato.
Cai, levanta, se machuca, vai à praia, entra no mato,
Trepa em árvore, rouba fruta, depois joga amarelinha,
com o primo da vizinha, com a filha do jornaleiro,
com a sobrinha da madrinha
e o neto do sapateiro.

Mesmo quando está sozinha, inventa uma brincadeira.
E transforma em companheiro cada medo que ela tinha:

O raio virou orrái;
barata é tabará;
a bruxa virou xabru;
e o diabo é bodiá.

FIM


      Chico Buarque de Holanda

                                                                         

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Inútil Silêncio




Range a madeira,
Repicam os sinos,
Tremulam as velas.
Rangem os dentes, roncam os estômagos, tremulam os velhos.
Dor, alegria, silêncio, tristeza, esperança, fome, abandono.
Fraquezas são próprias dos seres humanos
Mas ver o outro sofrer e não fazer nada por ele
É algo de que não se esquiva, algo sem justificativa.
Isso não é fraqueza; é covardia, é omissão.
Sofrem os velhos, morrem os pequeninos e choram os que ficam.
Será que os anjos voam tão alto que não conseguem notar a dor de seus protegidos aqui embaixo?
Olhe pela janela: lá fora rangem os dentes e a madeira,
O som dos sinos é vazio como o dos estômagos dos desnutridos.
Tremulam as velas, tremulam os velhos.
E aqui dentro, há um poeta cabisbaixo diante da mesa e do papel,
Perdido diante da vida e impossibilitado por seu próprio silêncio.

Danilo Alex da Silva 16/01011 5:00




O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons.
                                                                                                 Martin Luther King 
   



Olá, pessoal! Esse pequeno texto é um desabafo meu diante da indiferença ao sofrimento alheio. Que sirva como reflexão a todos , para mim inclusive. Gostaria de pedir que pensássemos nas vítimas dos desastres naturais que aconteceram recentemente em nosso país. Que nossa oração os conforte e os ajude de algum modo. E, quem puder, procure o posto de coleta mais próximo da sua casa e faça sua doação. Vou fazer a minha até o fim dessa semana. 

Grande abraço!
                                         

                                                  

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Mais que um mero poema - Rosa de Saron




Parece estranho
Sinto o mundo girando ao contrário.
Foi o amor que fugiu da sua casa
E tudo se perdeu no tempo
É triste e real,
Eu vejo gente se enfrentando
Por um prato de comida.
Água é saliva
Êxtase é alívio, traz o fim dos dias
E enquanto muitos dormem, outros se contorcem
É o frio que segue o rumo e com ele a sua sorte
Você não viu?
Quantas vezes já te alertaram
Que a Terra vai sair de cartaz
E com ela todos que atuaram?
E nada muda, é sempre tão igual
A vida segue a sina
Mães enterram filhos, filhos perdem amigos
Amigos matam primos
Jogam os corpos nas margens dos rios contaminados
Por gigantes barcos
Aquilo no retrato é sangue ou óleo negro?
Aqui jaz um coração que bateu na sua porta às 7 da manhã
Querendo sua atenção, pedindo a esmola de um simples amanhã
Faça uma criança, plante uma semente
Escreva um livro e que ele ensine algo de bom
A vida é mais que um mero poema
Ela é real
É pão e circo, veja
A cada dose destilada, um acidente que alcooliza o ambiente
Estraga qualquer face limpa
De balada em balada vale tudo
E as meninas
Das barrigas tiram os filhos, calam seus meninos
Selam seus destinos
São apenas mais duas histórias destruídas
Há tantas cores vivas caçando outras peles
Movimentando a grife
A moda agora é o humilhado engraxando seu sapato
Em qualquer caso é apenas mais um chato
Aqui jaz um coração que bateu na sua porta às 7 da manhã
Querendo sua atenção, pedindo a esmola de um simples amanhã
Faça uma criança, plante uma semente
Escreva um livro e que ele ensine algo de bom
A vida é mais que um mero poema
Ela é real
E ainda que a velha mania de sair pela tangente
Saia pela culatra
O que se faz aqui, ainda se paga aqui
Deus deu mais que ar, coração e lar
Deu livre arbítrio
E o que você faz?
E o que você faz?
Aqui jaz um coração.

Guilherme de Sá
                                                                        
Queridos amigos, como estão? Hoje resolvi compartilhar com vocês essa fantástica música chamada Mais que um mero poema, que integra o cd Horizonte Distante, da banda Rosa de Saron.
A letra é estupenda devido sua forte crítica e apelo social, abordando temas como fome, desigualdade social, violência, drogas e aborto, entre outros. Ela nos fala de uma realidade muito próxima e real, e nos exorta a tomar alguma atitude para mudar isso, não ficarmos apenas inertes, observando o sofrimento alheio. Afinal, omitir-se é deixar de fazer o bem. 
Espero que gostem! Boa semana a todos!
         
Aviso aos fãs: Show do Rosa de Saron dia 21 de maio de 2011, no Acrópole, em Uberlândia - MG                                                                 

sábado, 15 de janeiro de 2011

Antes e Depois do casamento

                                          


antes do casamento...

Ele - Finalmente! Custou tanto esperar por este momento!
Ela - Você quer que eu vá embora?
Ele- Não! Nem pense nisso!
Ela - Você me ama?
Ele - Claro! Muito! Muito!
Ela - Alguma vez você já me traiu?
Ele - Não! Por que ainda pergunta?!
Ela - Me beija?
Ele- Evidente! Sempre que possível!
Ela - Você seria capaz de me bater?
Ele - Você está doida? Não sou desse tipo de homem!
Ela - Posso confiar em você?
Ele - Sim...
Ela - Querido!

> depois do casamento - leia de baixo para cima.




Importante: o dono deste blog não tem nada contra casamentos; muito pelo contrário. Esta postagem é apenas uma brincadeira, pois podemos notar que a inversão da leitura faz com que as palavras, as frases, e o texto tomem um outro sentido, completamente oposto do inicial. Achei o texto na internet e postei aqui para que possamos rir juntos.                                     
                                                                                                 
Olá, gente! Como estão? Gostaria de usar esse pequeno espaço pós-postagem para agradecer ao Matheus, grande amigo e blogueiro, que fez esse trabalho fantástico ao renovar o visual do blog. Obrigado, Manolo! Deus abençoe!


Galera, o meu amigo Matheus tem dois blogs muito legais. Acessem aí depois:


Pequenas grandes críticas > critiquinhas.blogspot.com


Grito rascante > gritorascante.blogspot.com


Desejo a todos os queridos leitores um excelente domingo e uma semana abençoada!

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Veja, não é tão difícil...




Disponível em : http://www.youtube.com/watch?v=4ZwJZNAU-hE





Agora sim! Depois de assistir a esse vídeo, tenho certeza de que o Brasil vai pra frente.

Palco da Vida




                                                                                

Você pode ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não se esqueça de que sua vida é a maior empresa do mundo. E você pode evitar que ela vá à falência.  Há muitas pessoas que precisam, admiram e torcem por você. Gostaria que você sempre se lembrasse de que ser feliz não é ter um céu sem tempestade, caminhos sem acidentes, trabalhos sem fadigas, relacionamentos sem desilusões.
Ser feliz é encontrar força no perdão, esperança nas batalhas, segurança no palco do medo, amor nos desencontros.  Ser feliz não é apenas valorizar o sorriso, mas refletir sobre a tristeza.
Não é apenas comemorar o sucesso, mas aprender lições nos fracassos.
Não é apenas ter júbilo nos aplausos, mas encontrar alegria no anonimato.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma.
É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo.
É ter coragem para ouvir um “não”.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Ser feliz é deixar viver a criança livre, alegre e simples que mora dentro de cada um de nós.
É ter maturidade para dizer “eu errei”.
É ter ousadia para dizer “me perdoe”.
É ter sensibilidade para expressar “eu preciso de você”.
É ter capacidade de dizer “eu te amo”.
É ter humildade da receptividade.
Desejo que a vida se torne um canteiro de oportunidades para você ser feliz...
E, quando você errar o caminho, recomece.
Pois assim você descobrirá que ser feliz não é ter uma vida perfeita,
Mas usar as lágrimas para irrigar a tolerância.
Usar as perdas para refinar a paciência.
Usar as falhas para lapidar o prazer.
Usar os obstáculos para abrir as janelas da inteligência.
Jamais desista de si mesmo.
Jamais desista das pessoas que você ama.
Jamais desista de ser feliz, pois a vida é um obstáculo imperdível, ainda que se apresentem dezenas de fatores a demonstrar o contrário.  


Fernando Pessoa

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Big Brother Brasil - Uma Visão Crítica



Começa mais um BBB – Big Brother Brasil???

                                                                    




"Como funciona o esquema:

29.000.000 (milhões) de ligações do povo brasileiro votando em algum candidato para ser eliminado. Vamos colocar o preço da ligação a R$ 0,30 (trinta centavos) e só. Então, teremos… R$ 8.700.000,00. Isso mesmo! Oito milhões e setecentos mil reais, que o povo brasileiro gastou (e gasta), em cada paredão!

Suponhamos que a Rede Globo tenha feito um contrato “50% por 50%”, ou melhor,”meio a meio” com uma operadora de telefonia, ou seja, ela embolsou R$ 4.350.000,00.
Repito: Alguém poderia ficar indignado com a Rede Globo e a operadora de telefonia ao saber que as classes menos letradas e abastadas da sociedade, que ganham mal e trabalham o ano inteiro, ajudam a pagar o prêmio do vencedor e, claro, as contas dessas empresas.

Mas o “x” da questão, caro(a) leitor(a), não é esse. É saber que paga-se para obter um entretenimento vazio, que em nada colabora para a formação e o conhecimento de quem dela desfruta; mostra só a ignorância da população, além da falta de cultura e até vocabulário básico dos participantes e, consequentemente, daqueles que só bebem nessa fonte.
Certa está a Rede Globo.

O programa BBB dura cerca de 3 (três) meses, ou seja, o “sábio público” tem ainda várias chances de gastar quanto dinheiro quiser com as votações. Aliás, algo muito natural, para quem gasta mais de R$ 8.000.000,00, repito,oito milhões de reais numa só noite! Coisa de país rico como o nosso, claro!

Nem a UNICEF (órgão das Nações Unidas para a infância), quando faz o programa CRIANÇA ESPERANÇA, com um forte apelo social, arrecada tanto dinheiro. Vai ver, deveriam bolar um “BBB Unicef”. Mas, tenho dúvidas se daria audiência. Prova disso, é que na Inglaterra, pensou-se em fazer um BBB só com gente inteligente. O projeto morreu na fase inicial, de testes de audiência.
Qual o motivo do fracasso? O nível das conversas diárias foi considerado muito alto, ou seja, o público não se interessaria. Programas como BBB existem no mundo inteiro, mas explodiram em audiência em países de 3º mundo… Um país como o nosso, onde o cidadão vota para eliminar um bobão ou uma bobona qualquer… mas não se lembra em quem votou na última eleição…

Que vota numa legenda política sem jamais ter lido o programa do partido, mas que gasta seu escasso salário num programa que acredita ser de extrema utilidade para o seu desenvolvimento pessoal e, que não perde um capítulo sequer do BBB para estar bem informado na hora de PAGAR pelo seu voto…

Que eleitor é esse? Depois, não adianta dizer que político é ladrão, corrupto, safado, etc.
Quem os colocou lá? Claro, o mesmo eleitor do BBB!
Aí, agüente…
- As absolvições dos Renans Calheiros…
- Os Aumentos dos IOFs…
- As Falências dos Sistemas de Saúde…
- As Epidemias de febre-amarela…
- Os 40 Ladrões do Ali Babá… e de quebra…
Trabalhando igual a um burro mais de 5 (cinco) meses por ano para sustentar nefastas instituições absolutamente desacreditadas pela sociedade… enfim, estamos no início de mais uma temporada do BBB, sigla que reflete, como nenhuma outra, a prostituição de valores de nossa sociedade.

Enquanto isso a grande vilã das comunicações – Rede Globo – continuará se enchendo de glória e dinheiro com o patrocínio de canalhices ao vivo e a cores de 14 candidatos, a um grande prêmio, vitória pela maior habilidade em agirem como devassos das relações com o próximo. Enquanto a sociedade der audiência a esse tipo de patifaria televisiva, a falência da família e dos valores morais e éticos não vão mais retroceder.

Estejam certos de uma coisa: Os iletrados e os aprendizes, vítimas da falência da cultura, da educação e da família, terão dezenas de horas de puro deleite de como ser falso, mentiroso, infiel, hipócrita, leviano, canalha, com todos os derivativos da falta de ética e imoralidade estando à mostra.

Mas o contribuinte não deve ligar mesmo, ele tem condições financeiras de juntar R$ 8 milhões em uma única noite para se divertir (?!?!), ao invés de comprar um livro de literatura, filosofia ou de qualquer entretenimento televisivo relevante para melhorar a sua articulação, a sua autocrítica e a sua consciência…

A Rede Globo sabe muito bem disso. Os autores das músicas: “Egüinha Pocotó” e “O Bonde do Tigrão”, sabem muito bem disso o Gugu e o Faustão também; Não é maldade nem desabafo."


24th January 2008 - Por Iceman

“A ignorância é a mãe de todos os males”.


(François Rabelais (1483-1553) Escritor e Padre Francês)



BBB – Bendita Burrice a Brasileira.

Via Email
Disponível em: idiotaz.com.br/big-brother-brasil-uma-visao-critica/



                                                             



Grande texto do nosso amigo Iceman, com o qual concordo plenamente.
Quando ele diz: 

"Aí, agüente…
- As absolvições dos Renans Calheiros…
- Os Aumentos dos IOFs…
- As Falências dos Sistemas de Saúde…
- As Epidemias de febre-amarela…
- Os 40 Ladrões do Ali Babá… e de quebra…"


Eu acrescentaria : A eleição dos Tiriricas.

Engraçado que, depois muita gente se espanta quando algo assim acontece, por exemplo, como o fato de o Tiririca ter sido eleito. Aliás, caros leitores, Tiririca, não. Vossa excelência, o deputado Tiririca!
Esse é o nosso Brasil: um país onde o povo se esquece de todos os problemas para se focar no Carnaval, e onde o povo acha mais importante votar para o BBB do que votar nas eleições. Sem falar que, ser ex BBB agora é profissão. Talento? Isso é antiquado. Pra que se matar de estudar música, teatro? Fazer faculdade para ser jornalista, apresentador? Quem é que liga pra isso hoje em dia? A receita do sucesso agora é simples: participe de um reality show, seja um rato de laboratório da mídia, para ficar sendo observado por milhões e milhões de pessoas, tão cultas quanto você.
Oh, Céus! Que Deus nos ajude!

                Inteligência tem limite. Burrice não. 

                                            Lei de Murphy 



segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Liberdade

 Essa era a palavra certa para definir a sensação suprema, dentre o turbilhão de emoções que o atravessavam e arrebatavam naqueles momentos. Inigualáveis, insuperáveis, indescritíveis e inesquecíveis momentos que transformavam sua vida chata e monótona em uma aventura sensacional e alucinante. O que causava tudo isso? Uma combinação perfeita: feriado ou fim de semana, uma boa dose de disposição, estrada, vento. E ela. Como era bom poder olhar para ela, senti-la, trazê-la mais uma vez para a claridade do dia e vê-la reluzindo ao sol radiante de uma clara e quente manhã, quando o canto dos pássaros e a brisa morna enchiam seu coração de paz e alegria. Sim, ele a amava e amava trazê-la para a luz do dia, resgatá-la da úmida e fria escuridão de sua garagem. Durante toda a semana, ao sair da garagem para o trabalho, ele olhava de modo nostálgico para ela e soltava um suspiro, ansioso para que o fim de semana chegasse logo. Sentia um aperto no coração ao ter que deixá-la de castigo ali e ir de carro trabalhar. Mas finalmente chegava o seu dia de folga. Era tempo de estar com Milla. Batizara-a assim. Milla. Não era uma homenagem a ninguém em especial; apenas gostava do nome. Se algum dia tivesse uma filha, certamente a chamaria de Milla.
Os amantes do motociclismo vão compreendê-lo, pois sabem perfeitamente do que estou falando. Conhecem a alegria infinita de desfrutar cada sábado ou domingo, cada dia santo, cada feriado nacional ou cada folga que se obtém no serviço. Poder acordar bem cedo, vestir roupas confortáveis, colocar uma mochila nas costas, ajustar o capacete na cabeça e, montando sua máquina, ganhar o mundo lá fora, que aguarda para ser desbravado. Nada podia ser melhor do que se despir do empresário que era de segunda a sexta, se ver livre do aperto claustrofóbico do escritório, do terno que tolhia seus movimentos e da gravata que apertava seu pescoço. Nada podia ser melhor do que deixar para trás a selva de concreto, repleta de poluição, de violência, de ganância desmedida, de barulho, de horários, de estresse, de gente chata. Livre de tudo e de todos, de certa forma, livre até de si mesmo. Nessas horas, não era mais aquele quem lhe impunham que fosse. A moto e a estrada o libertavam, e então ele podia ser quem realmente era e gostava de ser. Na mente? Nenhum tipo de rumo definido. No coração? Muita ousadia. Na mochila? O básico, nada de relógio ou GPS; só algumas coisas realmente necessárias e seu celular, para o caso de algum imprevisto.
E então o cavaleiro e sua montaria partiam. Nada de horários estabelecidos, nem regras. Quando saía do perímetro urbano, a tão esperada jornada rumo à emoção tinha seu início.
A estrada. O sol. O céu. A paisagem. O vento atingindo furiosamente seu corpo enquanto ele e máquina ganhavam velocidade rumo o horizonte distante, tão distante que parecia inalcançável. Ele e sua motoca pareciam fundir-se em um só, uma mistura inédita de homem e máquina. Sentia Milla vibrar embaixo dele, que se encontrava confortavelmente acomodado sobre o banco macio e largo. Ele sorria de satisfação devido à vibração vigorosa da moto embaixo de si, o ronco possante do motor monstruoso que trabalhava incessantemente e em altas rotações. Seu coração pulsava rápido e a adrenalina era jorrada impetuosamente em seu sangue. Extasiava-se com o ronronar suave da máquina a cada vez que ele trocava de marchas. As grandes rodas giravam poderosamente no asfalto fervente. Os quilômetros eram carregados pelo vento e rapidamente desapareciam dos retrovisores; ficavam para trás e perdiam-se na distância, levando consigo os problemas e o nervosismo da semana. Essa era sua terapia.
Não conseguia entender como vários conhecidos seus gastavam fortunas e perdiam tanto tempo em divãs de psicólogos por causa do estresse cotidiano. Pegar a estrada com Milla era a sua terapia; e o “tratamento” nunca era enfadonho; mas emocionante e praticamente milagroso. Seria ele maluco como várias pessoas diziam? Sorriu ao lembrar que um amigo vendera uma casa para poder comprar a moto dos sonhos e então voar baixo pelas estradas, exatamente como ele fazia naquele momento. Seria isso loucura? O que se poderia definir como loucura, numa sociedade tão insana como a atual? Não, ele não era louco. Se fosse, concluiu que apenas os loucos sabiam de fato o que era felicidade. Passar por tantos lugares belíssimos, como pontes, cachoeiras, regiões montanhosas. Conhecer tantas cidades e tanta gente, pessoas comuns e outros como ele. Rodar junto com outros motoqueiros, as motos rugindo pela rodovia como um bando de bichos ferozes. Enfrentar com alegria chuvas, ventanias, trechos de asfalto acidentado. Sentir desse modo que a vida valia a pena ser vivida, cada segundo dela. E quando chegasse a hora, voltar para casa satisfeito e feliz. Viveria cada dia da semana pacientemente até que o fim de semana chegasse mais uma vez. Enquanto estava em seu escritório, as palavras do hino dos motociclistas ecoavam em sua cabeça: “Born to be Wild” (Nascido para ser selvagem). De fato, por mais que as circunstâncias tentassem aprisioná-lo, o sábado viria. Milla o esperava na garagem para mais uma aventura e a estrada os receberia com alegria. Ele nascera num dia normal, de um mês trivial, de um ano comum. Todavia, a certeza que o mantinha vivo era esta: viera a esse mundo para ser um homem livre. 



Danilo Alex da Silva  



"I'm a cowboy, on a steel horse I ride" (Sou um cowboy, monto um cavalo de aço)

       Wanted Dead or Alive - Bon Jovi     

   

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A Morte e o Lenhador

                                                          

                                                          

Um pobre lenhador, vergado pelo peso dos anos e da lenha, que às costas trazia, caminhava gemendo, no calor do dia, sentindo por si próprio o mais cruel desprezo.
A dor, por fim, foi tanta que ele até parou e, pondo ao chão seu fardo, pôs-se a refletir:
Que alegrias tivera em seu pobre existir? Depois de tanta vida, algum prazer lhe restou?
Faltara, às vezes, pão; descanso, nunca houvera;
Os filhos, a mulher e o cobrador, à espera;
O imposto e a cara feia do soldado…
Ele era um infeliz, completo e acabado!
Pensando nessa falta de alegria e sorte, chamou em seu auxílio a morte.

- "Vosmecê me chamou, e eu vim. Agora venha."

- "Só te chamei pra me ajudar com a lenha…"


Moral: A morte tudo conserta, mas pressa não deve haver, pois a sentença é bem certa: antes sofrer que morrer.




A morte e o lenhador é uma fábula de Esopo, recontada por La Fontaine. No Brasil, foi readaptada e publicada por Monteiro Lobato.




Salve, Salve, galera! Apesar da fábula ser engraçada, que possamos levar a moral dela para o nosso cotidiano; reclamando menos e aproveitando mais a vida, inclusive nos aspectos que não nos parecerem muito favoráveis. Desejo a todos um maravilhoso e abençoado fim de semana!
abraço.




A morte é como um consórcio: um dia você também será contemplado.

                                                                                    Padre Fábio de Mello