domingo, 22 de julho de 2012

Não é todo mundo





Não é todo mundo que sabe ouvir
E nem todo mundo que pode falar
Para muitos, nada é mais difícil que sorrir
Para outros, nada é mais démodé do que amar.

Valores antigos hoje são desprezados
É por isso que vemos o mundo de pernas para o ar
De quem acha difícil ser, no mínimo educado,
O que mais, por ventura, podemos esperar?

Não é todo mundo que espalha o bem
Nem todo mundo que sabe ser agradável
Caímos em abismo ao maltratar alguém
E assim nosso fim é certo, é fato, é inexorável.

Se não posso curar, não farei sangrar
Se não faço sorrir, tampouco trarei dor
Mas nem todos pensam assim, querem ser grandes,
Querem ser notados, pisando nos outros para se exaltar.


Um olhar sobre a sociedade para saber que é preocupante
Ver pessoas que não pensam em viver, apenas existir.
Viver insultando o outro, nada mais é
Do que ferir a Deus, e apunhalar a si.


Danilo Alex da Silva


sábado, 21 de julho de 2012

A Arca de Pandora - Parte VIII



Rapidamente organizou-se o procedimento para decidir, de modo democrático, o futuro do Pandora, do capitão Jason Hope, da arca maldita e da tripulação. O velho Crawford foi o esteio para que tudo acontecesse dentro da ordem, na medida do possível. Depois de uma acirrada discussão, apurados os votos, descobriu-se que a maioria optara por abandonar o navio.
- Me parece uma decisão justa. – opinou o cozinheiro – Podemos usar os botes para escapar. Vamos revezando nos remos, dentro em breve encontraremos algum tipo de ajuda.
- Certo, mas e o nosso capitão? – lembrou Carrasco, que, a despeito de suas crueldades contra os inimigos, era um marinheiro inquestionavelmente leal ao seu comandante.
Sob os protestos da maior parte da tripulação, acompanhado por alguns poucos companheiros, Carrasco seguiu para o camarote do capitão, imbuído do desejo de fazer com que Hope partisse com eles. Mal surgiram na porta, e os piratas imediatamente perceberam que o cômodo recendia a bebida alcoólica. Encontraram o capitão com expressão de embriagado desalento, sentado a um canto, no chão, tomando rum direto do gargalo.
Disseram a ele que estavam partindo, mas o capitão pirata nem se moveu. Quando pediram que fosse com eles, lentamente ele voltou os olhos anuviados e mirou seus marujos:
- De fato, é como dizem por aí; em caso de perigo, os ratos são os primeiros a abandonar o navio. Mas eu não os culpo, marujos. Falhei com vocês, falhei com todos. Não pude protegê-los dessa coisa que vem dizimando nossos amigos em forma de doença, embora saibamos que não se trata de uma enfermidade. Podem ir, transmitam a minha ordem de “salvem-se quem puder” ao resto da tripulação. Quanto a mim, honrarei meu compromisso como capitão, e permanecerei aqui. Vou enfrentar o mal que tomou esse navio. É a mim que ele quer; não é justo que vocês continuem pagando por isso. Vão, meus amigos. Ficarei para vingar nossos mortos, ou morrerei tentando. Se sobreviverem, tomem um drinque por seu velho capitão. – e dizendo isso, Hope ergueu a garrafa que segurava em direção aos companheiros, como se oferecesse um brinde, para em seguida beber diretamente do bico mais uma vez, deixando a cabeça pender para trás enquanto degustava o longo gole.
Percebendo que a conversa tinha sido encerrada, os corsários partiram decepcionados e foram se reunir aos outros nos convés. Quando o grupo que retornou da cabine do comandante repetiu as palavras de Hope aos companheiros, houve um silêncio breve e respeitoso. Todos sabiam o que a decisão do comandante significava.
- Deixá-lo aí é crueldade demais até para nós. – protestou um dos piratas que estimava o capitão – Depois de tudo o que ele fez por nós, simplesmente abandoná-lo como se faz com um cão raivoso... Seria mais humano alguém ir até lá e dar-lhe um tiro de pistola.
- Vamos embora. – comandou alguém – Fizemos nossa votação, propusemos a Hope que viesse conosco, e ele tomou sua decisão. Terá de arcar com as consequências. Agimos de acordo com o que julgamos certo, e ele também. Estamos partindo, vamos descer estes botes e remar para longe. Quem quiser, que fique com o capitão.
- E os doentes? – lembrou outro corsário.
- Infelizmente, também terão de ser deixados. Não podem se mover, precisam ser carregados, darão trabalho e consumirão suprimentos que não podemos mais dividir. Sobrevivência tem lá seu preço.
Diante do olhar espantado de todos, o pirata que puxava a turma prosseguiu:
- São nossos amigos, mas nada mais podemos fazer por eles. Sabemos que não restam chances, porque a doença mata muito rápido. Depressa, vamos descer os botes. Alguém fica lá embaixo para receber as provisões que restam, e acomodá-las sob os bancos. O mar imóvel nos ajudará pelo menos nisso, a calmaria não atrapalhará nosso desembarque.
Rapidamente cumpriu-se o ritual de trazer os suprimentos para os botes, os quais ficavam elevados junto à amurada do galeão, pendendo de um tipo de estrado. Cordas presas à popa, à proa e às laterais mantinham os mesmos suspensos. Desataram alguns nós e desceram o primeiro bote com provisões e um marujo dentro. A longa descida, já que o galeão possuía três andares, era controlada pelos homens a bordo, os quais seguravam uma corda que deslizava por uma roldana barulhenta.
Um a um, os botes foram descidos com agilidade ao longo do imenso costado. A já reduzida tripulação embarcou. Sem demora os piratas se puseram a remar. O sol vespertino a tudo presenciava das alturas, cravado em um céu divinamente azul e limpo de qualquer nuvem. O som dos remos cortando a água absolutamente estagnada. A respiração ruidosa e pesada dos homens, os quais suavam pelo esforço e pela ausência total de ventos.
Enquanto se afastavam, os piratas, unidos por um silêncio solene, fitaram a figura majestosa do galeão espanhol estacado no meio do mar. O navio lembrava uma montanha em pleno oceano. O Pandora estava silencioso como um túmulo. E em breve, era nisso que ia se transformar: numa grande sepultura que abrigaria o capitão Jason Hope e os companheiros doentes que estavam encerrados nas cabines do castelo de proa. Alguns bandidos do mar sentiam certo remorso em ter deixado os companheiros para trás, mesmo sabendo que não havia alternativa.  Em pouco tempo, o vulto do navio imóvel desapareceu da vista dos sobreviventes, e eles se concentraram em resistir, em chegar a terra. Preocuparam enfim com suas próprias vidas, e deixaram de lado as dos amigos.
O sol descrevia seu arco implacável no céu, rumando de maneira inexorável para o horizonte o qual, dentro de poucas horas, tocaria, dando a impressão de que estava beijando a água parada, cuja superfície azul espelhava o céu fabuloso. Hope nem se mexera. Continuara em seu lugar, sentado, bebendo sem parar. Imaginou que houvesse homens doentes na ala de quarentena sem, no entanto, se erguer ou fazer menção de ir ajudá-los. Não podia fazer mais nada por eles. A morte deles ocorreria em breve, seria rápida e pouco sofrida. Hope quase os invejava. Sabia que com ele a coisa haveria de ser completamente diferente. O Diabo estava a bordo, dormindo na arca maldita no porão, esperando. Assim que o sol desaparecesse no horizonte, o inimigo sobrenatural viria buscar Jason Hope. Não restavam dúvidas.
Num acesso de fúria, Hope arremessou com força e raiva contra a parede da cabine a garrafa de vinho quase cheia que estava entornando. Som de vidro se despedaçando. Cacos chovendo para todos os lados. O vinho, escarlate, tingindo as paredes, escorrendo pelo assoalho, e respingando no capitão pirata bêbado e jogado a um canto. Ainda sentado, as costas apoiadas na quina da parede, o inglês observou o halo de luz que entrava pela janela, coado pelas cortinas confeccionadas e bordadas artesanalmente pelas mulheres que ele chamava de “aquelas espanholas imundas.” Sentiu um ódio insano e repentino por aquele navio, ao lembrar que o mesmo fora feito em uma estalagem hispânica, pelas mãos de seus inimigos. Desejou estar bem longe daquele barco infecto e maldito. Arrependeu-se por um momento da decisão de ficar ali.
Ao fitar o ângulo da luz e sua intensidade, calculou mentalmente a posição do sol, concluindo que a tarde partia com rapidez. Em breve seria noite. Logo viriam as trevas em seu encalço. Estava chegando a hora do confronto. O momento de ajustar contas com a criatura que assombrava o navio sob a forma detestável de um cigano. Seria tudo ou nada. Era a hora de lutar como nunca e, dessa vez, sozinho. O tempo, implacável, devorava minutos. O ar estagnado da tarde ardia como fogo ao penetrar as narinas do capitão, fazendo seus pulmões queimar como se cheios de brasas. O momento final se aproximava, e essa certeza apocalíptica invadia a mente de Hope com uma clareza cortante. Estava chegando o momento inevitável de vingar seus companheiros mortos, ou de se juntar a eles no Além.
Sacando da cintura sua pistola, Hope observou-a atentamente. Limpou-a e carregou-a sem pressa. Executava aquela tarefa sombria pela milésima vez na vida, mas dessa vez sua mão não estava tão firme. Pensar que aquela seria provavelmente a última batalha de sua vida. Enfrentar um inimigo que não deveria existir nesse mundo. Um adversário em quem sua razão se recusava a acreditar. Pagar o preço por ter aberto o baú maldito. Ele abrira a arca de Pandora literalmente, libertando no âmago do galeão todo o mal que se pudesse imaginar: morte, ódio, doenças, violência, cobiça, traição, deslealdade. Riu sozinho, um riso afogado de bêbado, que mais lembrava um latido áspero de cão doente. Riu alto como um alucinado. Sua situação era tão miserável que ele acabou achando graça.
Ele, Jason, abrira a arca maldita. Cometera o mesmo erro que alguém da mitologia grega, povoando o mundo com o que podia haver de pior sob os céus, as coisas mais temíveis que pudessem existir acima dos mares e sobre a terra. E apenas ele, praticamente apenas ele restara a bordo do galeão amaldiçoado. Ele permanecera ali. Jason Hope. Na mitologia grega, após a abertura da caixa de Pandora e liberação dos males no mundo dos homens, apenas a Esperança restara dentro da caixa. E Hope significa Esperança em inglês. Jason soltou uma sonora e insana gargalhada.
Somente agora percebia a macabra coincidência, a irônica ação do destino. Mas parou de rir tão subitamente quanto começara. Ele era apenas um homem cheio de maldades e amargor. A despeito de seu belo sobrenome, não havia qualquer resquício de esperança em seu coração negro. Terminando de carregar a pistola, Jason Hope encostou-a na própria testa e posicionou o dedo no gatilho. Respirou fundo.
O contato frio e áspero do metal contra a sua pele provocava ondas de arrepio. Hope foi invadido pela tentação de disparar a arma e acabar logo com tudo aquilo. Seu pensamento vagou para longe, buscando imagens confusas de sua vida, trazendo à tona imagens de um passado que ele perdera, ou desejava esquecer. Dizem que isso é o que acontece a todo homem à beira da morte; relembrar a vida. Apenas precisava acionar o gatilho e Bam! Aqui jaz o capitão pirata Jason Hope... Era isso o que ele era. Seria lembrado, talvez até com deferência pelos bandidos do mar, mas com desprezo pelas outras pessoas. O opróbrio dos homens. Além de capitão corsário, quem havia sido Jason Hope nesse mundo?
Um guerreiro destemido. Um pirata impiedoso. Um assassino talentoso. Um bandido vil. Alguém que não temera Deus nem Diabo durante toda a vida, pelo menos até botar o pé naquele galeão. Um inglês movido pelo ódio. Ignorava a segurança trazida por uma família. Desconhecia o amor verdadeiro de uma mulher. Um homem que era prezado por poucos. Que não tinha para quem voltar quando estava em terra. Sem família. Sem mulher ou filhos para deixar como herança nessa vida.
Seu único amigo era alguém chamado Francis Drake, para muitos, um pirata odioso. Para ele, um irmão. Jason Hope morreria por seu amigo e comandante sem hesitar, se fosse preciso. Daria a vida para defender a vida, a honra, a reputação de seu devotado amigo inglês, o qual deveria estar a léguas de distância, vasculhando cada milha marítima à sua procura. E foi a lembrança da amizade que Francis Drake nutria por ele que impediu Jason Hope de apertar aquele gatilho. Imaginou o olhar de decepção de Drake ao ver Hope caído naquele camarote, um furo sangrento entre os olhos, os miolos espalhados pelo cômodo, a pistola na mão, denunciando sua atitude covarde. Hope estremeceu.
Envergonhado pelo que pensara em fazer, o capitão sentiu asco do contato da arma e a afastou rapidamente, devolvendo-a a seu devido lugar, prendendo-a na faixa de seda que ele trazia na cintura.
Então, Hope notou que o camarote estava imergindo na penumbra. A noite se avizinhava silenciosamente. Angústia trazida principalmente pela situação. Solidão profunda. Com um grunhido, Jason Hope esfregou os olhos, colocando um ponto final em seus devaneios de agora há pouco. Era hora de calar o coração e por a mente em funcionamento. Que seus instintos perversos aflorassem, precisava deles para sobreviver. Subitamente algo estilhaçou o silêncio mortal, fazendo Hope virar a cabeça bruscamente. Uma voz de homem. Sotaque espanhol. Entoava uma canção de sua terra natal. Música cigana lhe chegava aos ouvidos, procedente do convés. Não se tratava apenas de alguém cantarolando. Aquilo era um indício de presença sobrenatural. Um chamado. Um convite ao combate.
 Diante disso, sem mais delongas, Jason Hope se colocou de pé e cambaleou para fora de seu camarote, alcançando o corredor para em seguida, com passos trôpegos, deixar o castelo de popa e encarar seu destino. A maresia embriagou Hope, devolvendo-lhe um pouco de lucidez. A lua cheia mais uma vez boiava no céu, e sua luz prateada banhava inteiramente a figura fúnebre do Pandora. Quando o inglês surgiu no convés, o luar o atingiu em cheio, como se ele fosse alvo de um holofote.
Hope ouvia a voz proferindo as notas da melodia e, com o olhar, procurou sua origem. Havia a sombra de um homem parado junto da base do mastro principal, voltado para a proa, de costas para o pirata. Lentamente Hope desceu as escadas, buscando apoio onde era possível, já que o mundo girava vertiginosamente devido o álcool que circulava em suas veias, misturado ao sangue. Ouvindo seus passos, o outro homem se voltou vagarosamente, como se cumprisse um ritual. Olhando diretamente para o inglês, o intruso ainda cantava alegremente. Possuía uma voz de barítono e era bastante afinado. Pousando os olhos em Hope, parou de cantar de repente e sorriu cinicamente antes de dizer:
- Buenas noches! Usted deve ser el gran capitán Jason Hope, el pirata inglés. Ouvi hablar mucho a seu respeito. Gostaria de dizer que é un placer conhecê-lo, mas não seria verdad. 

  Continua...



Danilo Alex da Silva


“A maldição prosseguia nos seus olhares
O marinheiro desejou ter morrido
Juntamente com as criaturas do mar
Mas elas vivem, e ele também.”

(Rime of the Ancient Mariner – Iron Maiden)


segunda-feira, 16 de julho de 2012

A Arca de Pandora - Parte VII




O panorama que se descortinava diante dos olhos aterrados dos piratas era realmente fantástico, impossível de crer mesmo para aquelas testemunhas oculares, tão destemidas em todos os cantos do mundo, em cada mar por eles navegado, onde realizassem suas pilhagens impiedosas.
Para que algo assuste um corsário, é necessário que tenha origem sobrenatural, pois praticamente tudo o que é normal neste mundo já foi contemplado pelos bandidos do mar, e seu coração de pedra já se habituou a todas essas situações naturais. Mas aquilo que eles veem e não são capazes de explicar ou compreender, isso sim os amedronta. Ainda mais quando se trata do mistério que estavam divisando naquela noite de calmaria, no meio do mar ermo e sombrio, cuja superfície, liberta da ação do vento, estava plácida e silenciosa como a de um lago.
Hope e seus homens, tomados por verdadeiro assombro mesclado ao desespero, observavam a cena macabra sem ousar dizer nada. O som se recusava a sair de suas gargantas secas e arranhadas. Apenas seus olhos esbugalhados se moviam de um lado para outro nervosamente, fixos na embarcação que estava agora bem próxima, navegando ao lado do Pandora, que continuava totalmente parado no meio do oceano. O barco que estavam enxergando não pertencia a esse mundo, não fazia parte desta realidade.
Bem diante de seus olhos, um navio fantasma singrava o Atlântico naturalmente, como se sua existência fosse tão aceitável quanto à do barco perante o qual a aparição se apresentava. Como se já não bastasse o navio que vissem ser uma projeção sobrenatural, havia algo ainda pior: os corsários foram gradativamente percebendo que o conheciam, e isso triplicou seu pânico.
O barco que agora estava ao lado do Pandora também navegava sob as cores da Espanha. Era imenso: possuía cerca de três andares e dispunha de mais de oitenta canhões para enfrentar os inimigos em alto-mar. Duas âncoras colossais equipavam o costado titânico. As velas enfunadas garbosamente na mastreação imponente e reforçada, proporcionavam um ar ainda mais majestoso à elegante embarcação. Um galeão espanhol muito bem construído, próprio para confrontar tempestades e piratas. Um opulento gigante dos mares.
Uma neblina fantasmagórica envolvia o sinistro barco, ocultando seu nome escrito no costado, bem como a figura de proa. Mas os piratas não precisavam disso para que soubessem de qual embarcação se tratava. Aquelas velas, aquela mastreação era inconfundíveis... Uma grossa camada de musgo recobria a espessa corrente que sustentava as âncoras. O pano das velhas parecia puído e tinham alguns rasgos em algumas partes. A madeira que estruturava o navio, embora forte e poderosa, aparentava estar velha e rangia mais do que o comum.
Mais do que nunca, o som do vento incomum assobiando no cordame era espectral, assemelhava-se ao gemido doloroso das almas condenadas. Indiferente aos pasmos espectadores, a tripulação do funesto navio se movia com agilidade pelo convés do barco preternatural. Piratas. Homens musculosos e tatuados, o suor escorria em seus corpos repletos de cicatrizes de combate, brilhando à luz prateada da lua cheia. Todavia, os tripulantes não eram pessoas normais.
A bordo do outro navio, os piratas eram todos mortos-vivos. Seres sem alma, que trabalhavam mecanicamente, de modo resignado, executando repetitivamente o serviço enfadonho que desenvolveriam eternidade adentro. Quando se voltavam para fitar o pessoal a bordo do Pandora, seus olhos eram mortos, sem brilho. Alguns tinham ossos expostos, em outros se podiam ver, por crateras abertas no corpo, órgãos funcionando. Marujos em decomposição; faces esqueléticas voltadas para a lua, e dedos descarnados cumprindo meticulosamente todos os serviços de bordo, os quais seriam bem mais apropriados aos vivos.
De seu posto junto da amurada, Hope assistia à cena de olhos esbugalhados, como os de um louco. Marinheiros fantasma tripulavam o outro descomunal galeão, que naquele momento descrevia uma curva para emparelhar com o Pandora. O capitão inglês viu então, cheio de perplexidade, o comandante da embarcação espectral. O homem, se é que se podia chamar assim aquela criatura horripilante, estava de pé na ponte de comando, observando enquanto seus marujos piratas mortos-vivos trabalhavam arduamente para que o navio realizasse corretamente a manobra que traria o barco fantasma para junto do navio dos vivos.
Hope pousou seus olhos na figura do outro capitão. Era um homem alto e magro, empertigado, um ar levemente arrogante e postura digna. Um inglês! O que estaria um britânico fazendo a bordo de um navio espanhol? A pele asquerosa do homem, repleta de chagas, estava tomada por uma palidez mortal e seus olhos opacos tinham um brilho vulpino. Do alto da ponte, ajeitando seu amarfanhado chapéu de três pontas, o abominável capitão espreitava sua tripulação e gritava com uma voz inumana:
- Ao trabalho, bastardos! Mais rápido! Pensam que tenho todo o tempo do mundo, energúmenos? É longa a viagem até o inferno, e o bojo de nosso barco está cheio de almas a ser entregues no reino maldito das chamas. O Príncipe Caído se orgulhará de nós, já que é em nome dele que pilhamos e matamos. Vamos, condenados! Apressem-se, cães! O tempo urge, e há muito trabalho a fazer!
E sob os gritos enérgicos do capitão sombrio, os piratas cadavéricos trabalhavam mais e mais, como se as palavras de seu superior estalassem, soando tal qual um chicote em seus ouvidos apodrecidos. Das gargantas mortas, onde jaziam cordas vocais entrando em processo de decomposição, escapava um grunhido sobrenatural, seguido por um cântico próprio para aquelas ocasiões. Os mortos entoavam um canto que haviam aprendido em vida, antes de se tornarem aquelas criaturas repulsivas e pútridas, cujos pedaços iam ficando caídos no convés, à medida que eles se esforçavam no trabalho de bordo.
Hope tinha certeza que havia algo de peculiar naquela cena. Captara certa familiaridade no timbre do capitão fantasma. O modo como o mesmo se expressara, o ritmo em que os homens labutavam, a canção que se elevava no ar estagnado... De repente, sentindo o ar faltar nos pulmões, Hope exclamou:
- Só posso estar maluco! Que os cães do inferno me mordam se isso for verdade!
Como se pudesse ouvir as palavras do pirata inglês, a bordo do galeão fantasma, o capitão espectral voltou a cabeça e notou o olhar abismado de Hope. Sim, exatamente como Jason Hope havia imaginado: aquele comandante cadavérico era... ele! Jason Hope também, mas uma versão erguida da escuridão do sepulcro, onde deveria permanecer em seu repouso eterno, aguardando o dia do Juízo, do qual nenhum homem pode escapar. Sentindo a cabeça girar, Hope imaginou estar fitando um personagem arrancado de seu pior pesadelo, um ser que surgisse especialmente para atormentá-lo. O capitão fantasma mirou Hope e sorriu com escárnio.
O galeão fantasma estava tão perto agora, que os tripulantes do Pandora podiam divisar, com riqueza de detalhes, o outro navio e seus horrendos tripulantes. E então, assim como Hope, os outros marujos identificaram sua réplica macabra na tripulação a bordo do outro navio e grunhiram, angustiados. O Hope cadavérico fitava o capitão do Pandora intensamente, como num desafio. Era, com certeza, a mais aterradora figura a bordo daquele navio fantasma.
 Os seus globos oculares estavam apodrecendo, e enquanto giravam nas órbitas, moscas imensas teimavam em pousar sobre eles. Grande parte do rosto estava em carne viva, o que resultava numa massa purulenta por onde passeavam vermes necrófagos.  Os ossos do maxilar tinham perfurado a carne e estavam expostos, de modo que, quando o infernal capitão sorria, o que se via era uma boca horrenda e sangrenta, com poucos dentes, parcialmente recoberta de carne. As roupas de capitão, embora bem feitas, estavam puídas, e, envolvendo-lhe o corpo magricela, davam a impressão de estar cobrindo um espantalho, ao invés de algo que um dia fora um homem. De onde estava, Hope conseguiu sentir o mau cheiro que seu sósia repugnante emanava.
Ciente do asco e pavor que sua imagem causava, o capitão fantasma esboçava seu sorriso tenebroso. Erguendo a mão esquelética, coberta de pele necrosada, moveu os dedos descarnados e acenou zombeteiramente para Jason Hope, o qual estremeceu e cobriu a boca com as mãos, achando que ia vomitar.  Um vento repentino varreu por instantes a névoa mística que envolvia o navio fantasma e então, os viventes que a tudo assistiam, enxergaram o costado e a proa do galeão tenebroso. Se até aquele ponto tinham alguma dúvida, ela se dissipou naquele momento.
A figura de proa do temível navio era uma ameaçadora e bela jovem grega, de olhar sombrio e cabelos revoltos, segurando uma caixa ornada. No costado corroído por cupins e castigado pelas intempéries, estava gravado o nome do barco. Um nome que, ao ser lido, fez falhar o coração pulsante de cada pirata sob as ordens de Jason Hope. Como já podem imaginar, meus amigos e leitores, o galeão espanhol fantasma não poderia ter sido batizado de outra forma. Chamava-se Pandora.
Sim, aquele barco adiante era o Pandora. A despeito dos rasgões nas velas, o musgo na corrente, a deterioração nas cordas que compunham o cordame e na madeira que alicerçava a imensa mastreação, bem como as manchas de sangue na figura de proa e no costado apodrecido pelo tempo e pelo mar, os diversos esqueletos de enforcados pendentes das traves do mastro principal. Apesar de tudo isso, e da funesta tripulação, o que inclui o vulto repulsivo de seu capitão, aquele navio era o Pandora.
Hope percebeu que aquela visão aterradora era um espelho dantesco de sua embarcação. Um reflexo terrível do que viria a ser aquele galeão espanhol tão imponente, e de todos aqueles que o tripulassem. Cadáveres sem vontade, criaturas sem almas, escravizados pelo Diabo e condenados a vagar pelos mares por todo o sempre, ceifando almas em plena beleza divina da paisagem marítima. Um vislumbre assustador do futuro, era isso que significava a aparição tétrica do Pandora infernal diante do Pandora comandado pelo Jason Hope vivente.
O navio fantasma estava lado a lado com o galeão espanhol, desde então amaldiçoado. Como foi dito no princípio, navios fantasma são interpretados como presságio de morte. Logo, aquela aparição era uma mensagem funesta, um recado impiedoso do Anjo Ceifador, mostrando que ninguém a bordo daquele galeão espanhol escaparia com vida. Aquele era o destino de seus tripulantes; morrer e se tornar um servo das trevas por toda a eternidade. Não havia outro caminho. Não havia chance ou esperança de salvação. Escuridão era o que vivenciavam, e escuridão era o que os aguardava no futuro. Hope teve total consciência disso no momento em que colocou seus olhos naquele barco assombrado que navegava ao lado do seu. Os piratas que respiravam olhavam para suas cópias cadavéricas e permaneciam mudos de espanto.
A bordo do navio fantasma, obedecendo ao seu abominável capitão, os piratas mortos-vivos fitaram seus correspondentes vivos, ergueram as armas numa saudação sinistra e, como se tivessem ensaiado, cantaram a uma só voz, de modo grave e amedrontador:
- “Ahoy! Aproveitem cada gota de rum, e embebedem sua espada com sangue inimigo! Amem as donzelas e desprezem o perigo. Sejam devotados ao mar, pois seu tempo é escasso. A canção foi entoada, e seu caminho já foi traçado. Quando selar-se o vosso destino, nenhum de vocês poderá escapar! Yo-ho-yo-ho!”.
Então, embalado por essa canção agourenta, o Pandora fantasmagórico guinou vivamente mais uma vez e a cortina de névoa sobrenatural, erguendo-se do oceano, se adensou, envolvendo o barco quase inteiramente enquanto ele se afastava. Durante algum tempo ainda foi possível avistar a claridade avermelhada das grandes lanternas de popa que oscilavam, enquanto o navio fantasma se afastava empurrado pelo vento espectral que beneficiava apenas a ele, pois o restante do mar continuava parado, silencioso, morto.
Para aflição dos homens de Hope, também foi possível escutar a canção tenebrosa dos piratas cadavéricos durante algum tempo, a qual foi, em dado momento, superada por uma gargalhada mortal e escabrosa, a que só podia ter escapado da garganta do capitão fantasma. A seguir, tão silenciosamente quanto chegara, o Pandora pertencente ao reino dos mortos sumiu-se na escuridão e na distância marítima, envolvido em neblinas que não pareciam nunca haver existido.
Entretanto, para infelicidade dos piratas ingleses, o navio infernal que prenunciava a morte se foi, mas a calmaria ficou. Mortal, silenciosa, envolvendo com seus tentáculos, pegajosos e inescapáveis como os do Kraken, o galeão espanhol amaldiçoado pelas forças sobrenaturais obscuras.
A lua e a noite foram embora, e o sol voltou, ardente, castigador, fazendo suar os marujos semimortos, cujas gargantas estavam ressecadas e as línguas pareciam lixas.  A ausência de vento era mesmo sua sentença de morte. Os homens continuavam amanhecendo com marcas de picada no pescoço, no estômago e nas mãos. Reclamavam de cansaço, surgiam pálidos e não gostavam de se expor ao sol. Preferiam a escuridão acolhedora e úmida dos porões.
Aquilo que Hope classificara como escorbuto não se cansava de atacar os marujos. Parecia drenar-lhes as forças, o sangue. Talvez Hope houvesse chamado isso de escorbuto porque alguns sintomas eram semelhantes, tais como palidez, hemorragia e anemia, que parecia ser o que acometia os piratas, já que eles morriam apresentando não possuir mais sangue nos corpos. Mas escorbuto não deixava marcas de picada. E não matava tão rápido também. Tinha de ser outra coisa.
Depois de vislumbrar o navio fantasma, os marujos não tinham mais dúvidas que o Pandora estava amaldiçoado. Quem precisava ir até o porão fazia questão de ficar bem longe do local onde jazia a maldita arca. Certa tarde, a tripulação ouviu um homem cantando em espanhol, a música vinha do porão, justamente do ponto onde repousava o funesto baú. Carrasco se dispôs a ir verificar. Minutos depois, ouviu-se um grito de horror do pirata, seguido de um estampido seco.
Foram ver o que se passava e acharam o destemido corsário meio agachado, trêmulo, empunhando a pistola fumegante. A custo ele conseguiu explicar que descera as escadas seguindo a voz hispânica que cantava. Ao se aproximar, o silêncio reinou.  Então ele vira, no escuro do porão, um cão negro grande e de olhos perversamente vermelhos, que mostrou-lhe os dentes rosnando e retesou-se nas patas traseiras, pronto para saltar sobre ele. Gritando de horror, dando dois passos para trás, Carrasco sacou rapidamente a arma e disparou, tropeçando em um barril e indo ao chão.
O tiro raspou o sinistro cão, que fugiu para o fundo do porão e abrigou-se atrás da arca amaldiçoada, onde ninguém tinha coragem de ir. Ouvindo a história do homem, e ajudando-o a se erguer, os piratas foram em grupo vasculhar o local onde o bicho havia se escondido, mas, como era de se esperar, não acharam nem sinal do cão. Todavia, nenhum dos piratas duvidou da veracidade do que o companheiro contara.
É verdade que, devido à inesperada imobilidade do barco preso na calmaria, boa parte da comida estragara ou fora roída por ratos, e a água potável estava quase se esgotando, assim como as bebidas alcoólicas. Portanto, a fome, a sede, e a misteriosa doença que atacava os tripulantes poderiam contribuir para que os piratas fossem vitimados por alucinações; porém, todos sabiam, não era o que acontecera a Carrasco. O homem vira mesmo algo estranho no porão naquela tarde. Precisavam se livrar daquela arca infernal. Resolveram atirá-la ao mar.
Decidiram comunicar o fato ao capitão Hope, mas ele se opôs imediatamente. Furioso, bradou que ninguém devia tocar naquele baú. Falava e brandia ameaçadoramente sua rapieira de prata, para intimidar os homens, todos tomados por palidez mórbida e suor febril.
Hope reagiu de um modo inesperado quando citaram a arca. Desde a noite em que tinham avistado o navio fantasma, o capitão não fazia mais nada senão permanecer em sua cabine entornando, uma por uma, as garrafas de vinho espanhol que ali havia. Mais do que nunca, vivia bêbado, e parecia mal se importar com sua tripulação. Parecia totalmente alheio ao que acontecia ao seu redor; exceto, é claro, quando o assunto era a maldita arca. Aquela urna sombria o havia enfeitiçado, não havia outra explicação. E, apesar de tudo, sua vontade foi respeitada.
Mas os homens estavam descontentes. Dos cinquenta marujos que tinha permanecido ao lado de Hope durante o motim incitado por William Mathison e sobrevivido à batalha, restaram apenas trinta e sete que estavam relativamente bem. Os enfermos portadores do mal misterioso, que rapidamente se tornavam moribundos, eram levados para o castelo de proa; havia sido determinada uma ala de quarentena lá pelos próprios marujos, pois havia entre os mesmos temor de que, de alguma forma, aquela enfermidade não identificada fosse contagiosa.
 Com a falta de comida e bebida, tiveram de racionar, e isso afetou principalmente os doentes, os quais dependiam de boa alimentação para conseguir contar com alguma chance de recuperação, por mais ínfima que fosse. A situação, gerando o caos e o pânico, chegou ao ápice de desespero, pois, quando um marujo era encaminhado para a área isolada para quarentena, sabia que não tinha escapatória.
Tomados pelo desespero, enlouquecidos, muitos marinheiros começaram a culpar o capitão, maldiziam a hora em que ele havia aberto aquela arca. Estavam se mobilizando para atirar Hope e o baú ao mar porque desse modo, imaginavam, talvez aplacassem um pouco a ira de Deus e o vento voltasse a soprar. Outros achavam que deviam abandonar o navio, com ou sem o capitão, para que tentassem se salvar, já que permanecer a bordo do Pandora naquelas condições não era somente inviável, pois também se tornara impensável.
Para impedir que estourasse um novo motim a bordo do galeão espanhol, o cozinheiro Peter Crawford, que era um homem velho e sábio, logo, imensamente respeitado pela tripulação, disse que queria falar com todos. Esboçando um gesto para que fizessem silêncio, assim que a tripulação se calou, o cozinheiro disse de modo cauteloso e solene:
- Vamos fazer uma votação.

Continua...


Danilo Alex da Silva


“O albatroz começou a sua vingança
Uma terrível maldição, uma sede começou
Os companheiros culpam o marinheiro pela má sorte
Sobre seu pescoço é pendurado o pássaro morto”


(Rime of the Ancient Mariner – Iron Maiden)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A Arca de Pandora - Parte VI



E foi desse modo que Jason Hope e os marujos que lhe eram fiéis foram salvos do inimigo naquela noite memorável; salvos, segundo os marujos, por um homem gerado no seio de um povo que odiava os ingleses, e que pelos ingleses era irremediavelmente odiado. Um povo contra o qual os britânicos estavam em guerra desde sempre.
Jason Hope, tirando seu elegante chapéu de três pontas, passou os dedos pelos cabelos suados enquanto suspirava longamente, extremamente confuso e desconfortável com a situação. Que noite estranha era aquela? Amigos se tornando inimigos, e um inimigo se tornando aliado para, em seguida, diluir-se no ar como névoa, tal como se jamais houvesse existido. Seu imediato também sumira sem deixar vestígios, e o que se podia concluir era que o mesmo havia abandonado o barco durante a confusão da batalha.
A questão era que Thomas Brook sempre fora um homem leal a seu capitão e nunca, nos sete anos em que pilharam juntos, fugira de um combate, por mais violenta ou perigosa que fosse a luta. Seus homens só poderiam estar loucos ou, mais provavelmente, bêbados a ponto mal se suster de pé. Certamente eles não tinham revistado o navio tão minuciosamente quanto o comandante ordenara, o imediato deveria necessariamente estar em algum lugar do Pandora. Não podia simplesmente haver desaparecido.
 Isso era impossível, tanto quanto ser ajudado por um cigano que, sendo adversário declarado dos súditos da Rainha Elizabeth I, os tivesse ajudado e esvanecido sem deixar rastros, como se tragado pelas profundezas insondáveis marítimas. E o cadáver da arca que também se fora? Que se podia dizer disso? Quem se interessaria em roubar um homem morto de um baú cheio de tesouros incalculáveis, muito mais atrativos que um corpo prestes a entrar em decomposição?
 Ora, que se danasse tudo, que se danassem todos! Aquelas coisas não faziam o menor sentido, e serviam apenas para dar nó no cérebro do nobre capitão Hope. Mandando tudo às favas, ele simplesmente girou nos calcanhares e seguiu seus homens, que estavam indo jantar. Felizmente para os piratas a bordo do majestoso, porém misterioso galeão espanhol, naquela noite os acontecimentos plenos de estranheza se encerraram naquela ocasião.
Contudo, no dia seguinte bem cedo, assim que o sol despontou no horizonte e lançou seus raios dourados na água fria do oceano, um grito de alerta foi dado pelo vigia. Os marujos reuniram-se no convés e, diante da cena fantástica, o pânico começou a alastrar-se. Não vendo alternativa, tiveram de bater à porta do capitão Hope. Ele surgiu no umbral com um aspecto amedrontador, como uma aparição: cabelos revoltos, olhos inchados de sono, rosto amassado. Olhou para o marujo como um cão de caça raivoso, prestes a saltar sobre o gamo que está perseguindo.
- Bo... bom di... bom dia, senhor capitão! – gaguejou, numa saudação temerosa o Carrasco, um dos piratas mais sanguinários que Hope tinha às suas ordens.
- Que é que pode haver de bom a essa hora da manhã, seu infeliz? – guinchou Hope mal-humorado – Infernos! Nem dormir se pode mais nessa espelunca! Que diabo você quer aqui, marujo? Vamos, desembuche logo, antes que eu amarre uma bala de canhão em seus pés e o atire ao mar, como punição por ter interrompido meu sono sem um motivo justo.
- Mil desculpas, meu capitão! Apenas vim porque é algo urgente. Encontraram o imediato, Thomas Brook.
- Verdade? E onde estava enfiado aquele cão?
- Aí que está a seriedade da coisa. O senhor não acreditaria se eu dissesse. Precisa me acompanhar, e ver com seus próprios olhos.
Quando o pirata, que era alto e forte como um gorila, se virou para afastar-se, Hope fechou a porta arrombada de seu camarote e seguiu o subordinado pelo suntuoso corredor.
Minutos mais tarde, já de fora de seu camarote e do castelo de popa, rumando para a parte dianteira do barco, Jason Hope acabava de subir a escada que levava à vante e estava observando a cena bizarra sob a luz tímida do sol que lhe feria os olhos, enquanto proferia uma série de impropérios a quem quisesse ouvir, ofendendo principalmente os corsários mais assustados, que ameaçavam abandonar o navio e fugir a nado.
 A irreal situação era a seguinte: Havia um corpo humano atado firmemente à figura de proa de modo grotesco. Um homem morto abraçado à imagem exata, feita em madeira, da mulher mitológica chamada Pandora. Aquele era o cadáver de Thomas Brook.

O imediato estava muito pálido, branco como cera, da cor do próprio pano que compunha as velas daquele temível galeão. Tinha-se a impressão que todo o sangue de seu corpo desaparecera. Estava amarrado à carranca com uma das próprias cordas de bordo. Fora transformado em um penduricalho horrendo por alguém mórbido a ponto de achar aquilo engraçado. Hope ordenou aos marujos que tirassem Brook de lá e o trouxessem para diante de si. 
O pobre imediato Thomas Brook estava estirado como um trapo encharcado aos pés do homem que fora seu capitão. Seu corpo, branco como leite, parecia realmente desprovido de qualquer gota de sangue. Duas manchas arroxeadas foram encontradas em seu pescoço, e no centro das manchas havia dois pequenos furos, distando pouco um do outro, como se indicassem a medida de uma boca de animal. Algum bicho provavelmente o mordera ali, exatamente sobre onde passava a veia.
Jason Hope, ainda que seu rosto não transparecesse, estava profundamente intrigado. Que tipo de marca era aquela, similar a uma mordida? Que animal poderia ter causado aquilo? O mais estranho era o modo como Brook fora atado à figura de proa. Serviço que com certeza fora executado por mãos humanas, já que Hope vira nós caprichados na corda. Além do mais, somente um humano seria capaz de prender o imediato na proa do navio daquela forma, principalmente sem que alguém percebesse o que se passava.
Hope reuniu seus homens temerosos e exigiu silêncio. Em seguida, quis saber quem estivera de vigia na noite anterior. O marujo se apresentou e informou que não vira nem ouvira nada durante toda a noite. Foi amarrado ao mastro e chicoteado por isso, acusado pelo capitão por “falta de atenção” ao que se passava no barco; era sua responsabilidade notar qualquer acontecimento fora do normal, pois disso dependia a segurança de toda a tripulação. Assim que castigou o vigia diante de todos, Hope deixou o homem meio desmaiado ainda amarrado ali e deu a ordem para que os piratas preparassem o corpo de Brook a fim de que se realizasse o sepultamento. Envolveram o imediato em um pedaço de lona velha, costuraram a funesta mortalha improvisada, amarraram três balas de canhão nos pés do defunto e o jogaram ao mar. O oceano era tudo para um pirata: seu meio de vida, sua condução e, sobretudo, sua sepultura.
Quebrando o ressentido silêncio de sua reduzida e enlutada tripulação, Jason Hope bradou:
- Perdemos um grande marujo e bom amigo hoje, mas temos de seguir em frente. Vou descobrir o que matou Thomas Brook, juro isso a vocês, por minha honra! Todavia, precisamos seguir em frente! A Coroa inglesa conta conosco, nosso comandante Francis Drake nos aguarda no porto mais próximo para que continuemos pilhando os malditos espanhóis! Temos de voltar, para explicar ao almirante Drake como fomos covardemente traídos pela nossa gente. Caçaremos então os amotinados pelos sete mares e os mataremos um a um, como os cães danados que são!
Notando que seu discurso pouco a pouco começava a surtir efeito na tripulação entristecida, Hope nomeou um novo imediato e berrou aos homens, tentando injetar-lhes mais uma dose de ânimo:
- Vamos, bravos filhos da Inglaterra! Muito ouro ainda há para ser pilhado, muitos vermes hispânicos estão aí para ser combatidos, muita água ainda deve rolar sob nosso poderoso galeão, que agora será a mais majestosa embarcação pirata a cruzar esses mares infinitos! Vamos homens, acertem a rota para a África! Erguer âncoras! Desfraldar velas!
O Pandora era um galeão espanhol imenso e, como tal, exigia uma tripulação numerosa, cerca de duzentos marinheiros, para que se cumprissem satisfatoriamente todas as tarefas de bordo. No entanto, aqueles cinquenta indivíduos que permaneceram no barco, fiéis a Hope, eram mesmo homens experientes, que amavam e entendiam o mar como o violonista cujos dedos percorrem com familiaridade o braço de seu instrumento, ou com a cumplicidade que liga o homem à sua amada, de modo que, com único olhar, sabe o que se passa em seu íntimo. Para aqueles velhos lobos do mar, não havia outro tipo de vida; o tempo em terra era como cortar as asas de um pássaro, era como condená-los a permanecer acorrentados a uma prisão, um local triste e indesejado.
Seus pulmões funcionavam melhor quando o ar com que eram inflados possuía cheiro de oceano. E então, os marujos a bordo do Pandora, conquanto em número imensamente inferior ao necessário, lançaram-se ao trabalho com afinco impressionante, uma determinação que, diga-se de passagem, causava a impressão de que aqueles homens moveriam uma montanha se assim o desejassem.
 Enquanto um grupo se esforçava na roleta do cabrestante, bufando para girá-lo pesadamente e erguer as duas grandes âncoras que mantinham o imenso barco estacado no meio do oceano, outros grupos acercavam-se dos enormes mastros, manuseando-os para posicionar o descomunal navio a favor do vento. A pequena, mas admirável tripulação pirata enfrentava o trabalho com a mesma bravura com que encarava o inimigo durante as batalhas.
 Os corsários movimentavam-se a bordo de modo rápido e preciso. Entoavam velhas canções aprendidas com antigos navegantes que já haviam partido dessa vida, buscados por Caronte e levados para as águas eternais. Cantavam durante o trabalho, para que o ritmo do labor de seus braços fosse sincronizado com o ritmo da canção. Garrafas de rum e vinho espanhol passavam de mão em mão, e os marujos tomavam diretamente do gargalo, antes de limpar a boca com as mãos e passar a garrafa ao companheiro mais próximo. Gesto pouco higiênico, é verdade; todavia, de algum modo difícil de explicar, era um meio de manter a tripulação unida, o que, naturalmente, faria com que lidassem melhor com as situações difíceis que com certeza estavam por vir. Na vida de marujo havia pouca facilidade, e isso era, justamente, um dos maiores atrativos para aqueles homens. Uma vida incerta, sim, porém, com suas compensações.
Mantido o curso da embarcação, rumaram para a África, onde Hope desejava que Francis Drake estivesse aguardando. Consideravelmente superados a tristeza e o pavor iniciais causados pelo que ocorrera ao pobre Brook, a viagem transcorria sem maiores novidades. Essa relativa paz durou alguns dias, até que dessem por falta de Paul Danton, o contramestre.
Entre intrigados e temerosos, os corsários reviraram o galeão em busca do homem desaparecido sem, no entanto, obter sucesso. O pirata sumira sem deixar vestígios, da mesma maneira que acontecera com Thomas Brook. E o receio imperava nos corações impiedosos daqueles homens bárbaros, os quais não temiam nenhum oponente de carne e osso, mas enlouqueciam de medo ante a perspectiva de se confrontar com algum inimigo sobrenatural, aqueles seres que habitavam as lendas e a imaginação dos navegantes ao redor de todo o mundo.
Tentando tranquilizar seus homens, Jason Hope já quase não conseguia mais disfarçar sua própria insegurança, seus temores mais ocultos. Não tinha mais tanta certeza do que se tratava, do que ocorria a bordo daquele barco bizarro. Tivera pesadelos horríveis com um cigano sinistro saindo da arca, olhando para ele com olhos de louco e gargalhando de um jeito que só o próprio Diabo seria capaz. Acordava suando no meio da noite, respirando rápido e olhando amedrontado para o sombrio baú ao lado da cama. Certa feita, jurava ter visto, na escuridão de seu camarote, uma mão cadavérica masculina, branca como cera, sendo puxada para dentro da funesta urna antes que a tampa se fechasse sem ruído.
 Fazendo uso do que restava de sua presença de espírito, friamente, num gesto rápido e decidido, Hope ergueu-se da cama e alcançou sua pistola. Cautelosa e vagarosamente levantou a pesada tampa, o cano da arma apontado para o seu interior... Então, num último e veloz gesto, empurrou fortemente a tampa e descobriu a arca maldita. Mas não havia nada ali, além dos incontáveis tesouros oriundos da colônia espanhola, onde tinham sido angariados antes da pilhagem inglesa. Deitando-se novamente, Hope expirou o ar com força e relaxou o corpo, sentindo o alívio inundar-lhe a alma. Jamais em sua vida acreditara, por um segundo que fosse, ter de cogitar sobre a existência de fantasmas.
Talvez seus marujos estivessem certos. Talvez houvesse uma maldição naquele barco esquisito. Talvez o piloto fosse o anjo negro, e o mesmo precisasse daquela tripulação para manobrar o barco, levando almas perdidas para as profundezas ardentes infernais. Quanta tolice! Drake com certeza riria na cara de Hope ao saber o que ele pensava naquele momento. Mas Drake não estava ali para aconselhá-lo, lançar alguma luz sobre aquele caso medonho. Por isso, Jason bebia durante quase todo o tempo. Os piratas ficavam ainda mais amedrontados e perdidos ao ver seu capitão imerso em álcool sempre que surgia no convés, cambaleante.
Por ordem de Hope, a arca maldita foi removida da cabine e levada ao porão. Foram precisos quatro marujos fortes para transportar a malfadada urna, e eles, com visível expressão de desagrado, apenas aceitaram cumprir a tarefa durante o dia, que era quando se sentiam mais seguros.
Encontraram Danton pela manhã do sexto dia de viagem. Estava milagrosamente vivo, meio inconsciente, caído atrás de alguma caixas de suprimento no porão escuro, dividindo espaço com a arca maldita. O contramestre parecia muito doente; tinha a pele pálida e fria, os olhos fundos e seu corpo tinha sido tomado por uma languidez tenebrosa. Parecia um homem eternamente sonolento, não disposto a ter seu descanso interrompido.
Viram então as marcas em seu pescoço e em seu pulso, os mesmos sinais apresentados por Brook, como se um animal tivesse mordido o pirata e sugado grande parte de seu sangue. Para dar total vazão ao desespero acumulado no coração daqueles corsários, ao ser chacoalhado pelos amigos e indagado sobre quem ou o que lhe fizera aquilo, Paul Danton disse numa voz pastosa:
- O espanhol... o cigano...
Ouvindo o relato afobado de seus homens, que falavam aflitamente atropelando as palavras, Hope tentou ser o mais firme que pode:
- Qual cigano o que! Não percebem que Danton está delirando? Está muito doente, é verdade. Entretanto, não foi sugado por demônio em forma humana nenhum! Estamos lidando com um caso grave de escorbuto, já vi isso antes muitas vezes. Pode ser uma doença fatal, precisamos deixá-lo em repouso e alimentá-lo do melhor modo que pudermos até chegar à terra firme e levar o pobre diabo para ver um doutor.
- Escorbuto? – indagou alguém que não parecia absolutamente convencido – Também já vi casos dessa doença, porém, observo algumas diferenças nos sintomas. Danton tem marcas no corpo, parece que algum bicho o mordeu...
Lançando um olhar gélido ao marujo que dissera isso, Hope o fez calar-se. Em seguida, comandou:
- Vamos, levem o doente para um camarote mais confortável; e que lhes sejam servidos carne fresca e ovos, bem como vegetais e frutas frescas no mínimo três vezes ao dia. Ninguém mais vai morrer a bordo deste navio, não permitirei!
Trataram Danton do melhor modo que puderam, mas com o passar do tempo ele continuou murmurando, em seu estado febril, que o cigano o estava matando lentamente. Quando o contramestre sucumbiu e morreu três dias depois, já havia mais três casos semelhantes ao dele a bordo do navio. A situação fugia ao controle do capitão. Mas ainda estava longe dos problemas acabarem.
Uma calmaria malévola envolveu o Pandora na mesma noite em que Danton foi enrolado em um velho cobertor e lançado ao mar, recebendo um sepultamento de marujo. O vento, súbita e inexplicavelmente parou de soprar. O silêncio pairou pesado. As ondas desapareceram e o mar estagnou-se, estranha e perigosamente calmo. Os piratas preferiam mil vezes que o oceano estivesse furioso, rugindo, pois sabiam como enfrentá-lo. Detestavam aquela falsa tranquilidade, sabiam que ela era prenúncio de algo ruim.
As velas do galeão murcharam e ele ficou parado no meio das águas apáticas, tão imóvel como se os seus tripulantes houvessem baixado âncoras.  O vento era essencial aos navegantes, sem ele, não chegariam a lugar algum. Permanecer no meio do oceano daquela maneira era certeza de morte para toda a tripulação. O ar quente e com cheiro de sal entrava por suas narinas, tornando penosa a respiração dos marujos. O calor cobria seus corpos de suor.
 A ausência de sons enlouquecia os piratas, afogando-os em um desespero silencioso. Ansiavam pelo estalido da madeira, o balanço do barco e o vento zunindo no cordame. A todo instante fitavam as velas mirradas, cheios de uma esperança cega que camuflava a angústia. Com uma prece silenciosa ao erguer os olhos, os piratas ingleses desejavam ardentemente que as velas se enfunassem repentina e milagrosamente, arrancando-os daquela estagnação desesperadora. Mas não eram atendidos.
Tinham sido maus meninos, matado muitas pessoas inocentes. Talvez por isso Deus não estivesse contente com eles. Talvez morrer ali, condenados a perecer isolados no meio da água e do silêncio fosse seu castigo vindo direto dos Céus, pois, tão mortífera quanto a tempestade, era a calmaria.
O tempo passava lentamente. Apenas o sol e a lua se moviam naquele cenário de morte, trocando de lugar no céu sem nuvens. O ar parado era sufocante. Gradativamente os marujos iam caindo doentes, atacados pela mesma coisa que vitimara Danton, a mesma coisa a qual Hope insistira, era escorbuto, embora nem ele mesmo acreditasse mais nisso.
Naquela ocasião, quando anoiteceu, a lua cheia e macabra elevou-se imensa no céu escuro e quase sem estrelas. Era um fantasma pálido e agourento flutuando acima da mastreação do galeão, a qual era inútil sem o vento. A lua pálida lançava seu reflexo frio e prateado na água totalmente parada. Ainda que fosse noite, o ar era quente, asfixiante, como se saído do inferno. A cortina de silêncio quase palpável, carregado de promessas de morte e mensagens de insanidade foi dilacerada abruptamente pelo grito do vigia:
- Vela à vista!
Os marujos duvidaram de seus ouvidos. O vigia só podia ter enlouquecido. Não havia vento para inflar velas, como poderia haver um navio se aproximando? Os piratas, pálidos, suados e fracos, cambalearam para a amurada e viram. Realmente viram um imenso navio que navegava em sua direção. Tinha as velas enfunadas e sua velocidade era tal que poderia se dizer que um vento poderoso, soprando na popa descomunal do barco, o impelia com ferocidade. Mas aquela cena era improvável.
O ar estava parado ainda ao redor do Pandora. Os ingleses contemplaram a água e nada nela havia mudado; o oceano continuava escuro e insondável, liso como vidro polido que rebrilhasse ao luar. Os olhos dos homens, incrédulos, iam das velas murchas de seu navio para a mastreação imponente do barco que se aproximava, com as velas engordadas pelo vento sobrenatural. Depois, miravam o céu e o mar morto, quieto, silencioso como um túmulo gigantesco que estivesse à sua espera.
O medo era tamanho que paralisara os tripulantes do Pandora, os quais fitavam o barco chegando com a certeza de que estavam todos loucos. Então, quando o navio estava perto o bastante, um gemido escapou dos lábios ressecados de Hope, o pânico revirando seu ser quando reconheceu o outro barco.
- Não... não pode ser... – sussurrou o capitão de olhos arregalados e segurou-se na amurada para não cair vencido pelo cansaço, pela fraqueza e pela loucura.

Continua...

Danilo Alex da Silva

“E a maldição prossegue no mar
E a maldição prossegue para eles e para mim
Dia após dia, dia após dia,
Estamos parados, sem vento e sem movimento
Tão parados como um navio pintado em um oceano pintado
Água, água para todo lado e toda a comida se foi
Água, água por todo lado, e nem uma gota para beber”

(Rime of the Ancient Mariner – Iron Maiden)