sábado, 14 de abril de 2012

O Renegado - O Caminho para a vingança - Parte X - Final

"Ele olhou para cima, sua voz soava como um sino:
Dê-me mais uma chance para fazer as coisas certas
Só mais uma chance, eu seguirei a luz"

(No Second Chances - White Cross)


Sean Ridell soltou um grito rouco quando uma dor fina e terrível penetrou seu peito e estraçalhou seu ser; tinha a impressão de que a mão abominável de Abigor estava espremendo seu coração. Acionou o gatilho instintivamente, apenas para ver seu tiro desperdiçado passar muito longe do alvo. O revólver escorregou de seus dedos e ele dolorosamente levou a mão ao peito, como se quisesse extrair manualmente a imensa dor dali.
Vendo seu servo contorcer-se em agonia devido a trapaça que ele estava realizando, Abigor, mantendo a mão esquerda cerrada no ar, estendeu a direita em direção ao inimigo. No mesmo instante um tenebroso revólver negro se materializou em seu punho. Tinha um longo duplo cano preto fosco, com inscrições místicas malignas impressas em vermelho no mesmo, e o tambor enorme fornecia um aspecto robusto à ameaçadora arma infernal. Com olhos de louco, Abigor premiu o duplo gatilho sem titubear.
Emitindo um som equivalente ao rugido de mil feras raivosas, a arma diabólica vomitou uma poderosa e duplicada carga de chumbo fervente, juntamente com uma nuvem negra e fétida de pólvora. O tiro rasgou a carne de Sean com a mesma brutalidade da mordida de um cão do inferno. O Renegado, com um novo grito, largou o peito onde o coração era ferroado incessantemente, e segurou seu ombro direito, onde a clavícula fora completamente destroçada pela carga dupla de chumbo. Antes que pudesse se recuperar, um segundo disparo da arma satânica foi realizado.
 Ouvindo o som trovejante ecoar em seus ouvidos, Ridell estremeceu como se atingido por um raio quando o balaço sobrenatural rasgou seu ventre. Enquanto o seu sangue jorrava quente, vermelho e vivo, Sean Ridell tinha a impressão de que mil agulhas perfuravam seu corpo amaldiçoado. Gemeu debilmente, como se até mesmo sua voz estivesse fugindo do corpo junto com o sangramento abundante. Implacavelmente, um terceiro projétil infernal arrebentou-lhe o joelho esquerdo, fazendo com que Sean se desequilibrasse violentamente. Para não desabar, deixou-se cair de joelhos, apoiando o peso do corpo gravemente ferido sobre o joelho ileso, o direito. Em meio a espasmos de dor, sua mão direita, tremendo, vagarosa e corajosamente se encaminhou para o coldre, tentando sacar um dos Colts infernais.
Entretanto, um quarto balaço da arma mística o acertou no peito antes que pudesse concluir o saque, arremessando brutalmente o ensanguentado Renegado pesadamente de costas no deserto. Pousados nos galhos secos e desfolhados da árvore, os corvos gritavam e agitavam as asas, como se exprimissem seu contentamento sádico pela sombria situação. Arfante, Sean se virou e começou a rastejar penosamente, na esperança infundada, gerada pelo desespero, de conseguir se afastar de seu impiedoso adversário. Sob o olhar sarcástico de um demônio e diante de uma horrenda plateia de corvos, no meio do deserto, um homem ferido e humilhado tentava escapar de seu destino tenebroso, mesmo ciente de que não havia a mínima chance de fugir de seu perseguidor, ou de sua sina maldita.
Sabendo quem era o homem que deslizava sobre o próprio ventre, sangrando e sentindo a terra tórrida abrasar-lhe a pele, e conhecendo sua história de lágrimas e sangue, ciente da trajetória de um homem ainda jovem que perdera tudo o que alguém pode perder em vida e depois da mesma, qualquer observador daquela cena deplorável seria tomado de compaixão, mesmo o pior inimigo daquele sujeito. Todavia, o perseguidor de tal homem era um demônio, e o coração destes seres infernais desconhece o significado da palavra compaixão.
Rastejando para estar o mais longe que podia de Abigor, embora a gravidade dos ferimentos não tivesse permitido que ele se distanciasse muito, Sean Ridell percebeu uma sombra projetada sobre si, indicando a presença de alguém que se interpusera entre ele e o sol. Alguém que estava ali para acabar definitivamente com ele.
- Você é patético, Renegado. – falou uma voz sibilante, cheia de desprezo e desdém. – Achou mesmo que ia ser uma luta justa? Só um completo idiota confia em um demônio.  Nosso mestre é conhecido como o pai da mentira, seu tolo. Eu menti e trapaceei; isso faz parte do meu ser. Não tenho nenhum compromisso com a verdade, ou com seus códigos morais.
Rudemente o bico de uma bota fez Sean rolar para o lado, de modo que ele voltou a ficar com o rosto e a barriga virados para cima. Com olhos marejados de dor e angústia extrema, o rapaz lançou um olhar assustado ao rosto malévolo da entidade diabólica ao seu lado.
- Imaginou que fosse mais rápido que eu, Ridell? Esperava que eu tivesse clemência? No princípio, quando eu era ainda um anjo de luz, houve uma batalha feroz no Reino do Céu. Escolhendo ficar ao lado do meu mestre, enfrentei meus irmãos, Renegado. Todos eles lutam mais rápido que a própria luz. E eu matei muitos deles, e feri tantos outros. Sem misericórdia. Como você poderia imaginar que eu seria clemente com você? Como achou que poderia me dobrar, ou me vencer? Ajo apenas de acordo com os interesses de meu mestre, e não sou amigo de ninguém, além de mim mesmo.
Percebendo que o rapaz tentava dizer algo, a sombria criatura inclinou-se um pouco. Entretanto, a única coisa que saiu da boca de Sean Ridell foi uma golfada de sangue, seguida por uma tosse áspera.
- Compreendo... – murmurou Abigor ironicamente.
Abaixando-se então, o demônio segurou uma das pernas de Sean e começou a arrastá-lo pelo deserto, para em seguida falar, exatamente como nos pesadelos do rapaz:
- Seu tempo acabou, cowboy. Hora de irmos para casa.
No estado em que se encontrava, Sean não pode fazer muita coisa. Deixou escapar um longo, doloroso e desconsolado gemido, enquanto seus dedos tentavam prender-se a qualquer pequena saliência do solo acidentado, oferecendo uma débil resistência. Usando apenas uma mão para arrastar o rapaz pela perna, Abigor riu divertido ao ver os esforços do homem para impedir que fosse levado.
- Não se angustie, Renegado. Logo estaremos em sua nova morada. É ruim no início, mas depois você se acostuma. Essa árvore, acho que não sabe, mas ela marca um portal que nos permite transitar entre o seu mundo e o nosso submundo. Estou levando você para lá, pois ela é nossa porta. Quando pensava em se enforcar, você teve azar, porque eu sou o guardião desse portal. Aproximei-me para saber o que você fazia aqui, e logo que entendi, resolvi fazer minha proposta irrecusável.
Enquanto falava, Abigor, segurando a perna direita do Renegado derrotado, arrastava-o implacavelmente pelo deserto. Os locais por onde o corpo ferido de Sean Ridell passava, ficavam manchados por uma densa esteira vermelha de sangue quente, quase tão quente quanto a areia avermelhada a qual o escarlate líquido vital derramado maculava. A dor era tanta que Ridell se sentia anestesiado naquele momento, como se morresse aos poucos.
- Vocês, mortais, são seres traiçoeiros, pouco confiáveis. Não consigo entender porque o amor do Altíssimo por vocês é tão grande; mal começaram a existir, e ousadamente já se voltaram contra seu Criador. Só precisamos dar um pequeno empurrão. Seres fracos e insignificantes, é como vejo os humanos. Nascem com uma inclinação para o Mal bem maior do que para o Bem. – e lançando um olhar raivoso para o homem que arrastava, Abigor rugiu – Dei a você tudo o que queria e precisava. Vingança. Era esse o motivo pelo qual pulsava seu coração quando o encontrei bem aqui, tempos atrás. Você era apenas um garoto de cidade grande, assustado pela vida no Oeste. Morreria em dois tempos se resolvesse caçar os bandidos. Não sabia sequer segurar uma arma. Fiz de você um guerreiro formidável, um assassino infalível e indestrutível. Tudo em troca de algumas míseras gotas de sangue e sua alma em aflição. Dei a minha palavra e a mantive. Hoje você é um pistoleiro inigualável e poderoso. E como você retribui? Se voltando contra mim, tentando acabar comigo. Comigo, que tratei você como um filho. Atirando no meu cachorro... A propósito, Renegado, desde agora aprenda uma coisa: uma das leis que prevalecem no inferno é a do olho por olho, dente por dente.
Quando Abigor se calou por um instante, cheio de tristeza, Sean viu o demônio atirar muitas vezes em Pandemônio que, com um relincho estridente, ficou estatelado na areia quente, ensanguentado e agonizante. Voltando a arrastar sua vítima, Abigor prosseguiu com seu monólogo ensandecido:
- Apesar de tudo isso que está acontecendo, tenho duas notícias para você, Sean Ridell. Uma boa e outra ruim. Qual você quer ouvir primeiro? Heim? Fale mais alto, não posso ouvir você. Certo, como não consigo entender o que você diz, vou seguir a lógica. A boa notícia primeiro. Está pronto para ouvi-la, Ridell?
Abigor olhou para Sean e o viu calado, quieto, sofrendo e sangrando em silêncio. Seus olhos cinzentos mal se moviam nas órbitas. Estavam fixos no céu azul da tarde enquanto era arrastado para cada vez mais perto da árvore condenada, cuja existência marcava na Terra uma das entradas para o Inferno. O demônio continuou falando assim mesmo:
- A boa notícia que tenho para você, é que sua família não está no inferno. Nem sua mulher, nem seu filho. Nem mesmo seu empregado, o pobre Berthan. Vão todos descansar eternamente em um lugar cheio de luz e paz, rodeados de amor e blá blá blá... É uma boa novidade, não é, Renegado?
Olhando para trás por cima do ombro, Abigor viu pelo canto dos olhos um brilho de esperança surgir nos olhos cinzentos de Sean, que agora o fitava. Percebendo que despertara o interesse de seu ouvinte, o anjo caído continuou, exultante:
- E a má notícia é que você nunca mais vai vê-los, Ridell. Quem está no Inferno não pode ver quem está no Céu, e vice-versa. Você sabe que eles estarão bem e felizes, mas, eles jamais saberão que você sofrerá eternamente. Talvez com o tempo, nem se lembrem mais de você. Jamais saberão que você foi parar no abismo eterno por causa do seu amor por eles. Essa é uma notícia ruim, não é, Renegado? Na verdade, acho-a ótima. –zombou Abigor e riu malignamente.
Ao notar o brilho de esperança se esvaindo do olhar de Sean tão rapidamente quanto o sangue vazava aos borbotões pelos ferimentos, o demônio completou:
- Na verdade, quando chegar o Apocalipse, talvez você veja sua família de relance, segundos antes, de assim como o resto do inferno, ser jogado no Lago de Fogo.
E o demônio continuou rindo e falando alegremente, mas Sean não o ouvia mais. As últimas palavras do monstro doíam-lhe mais do que todos aqueles inacreditáveis ferimentos distribuídos por seu corpo. Diante de seus olhos cinzentos ele via imagens desfilando sem parar. Recordou-se da risada cristalina de Kate quando ele chegava de mansinho em casa e a abraçava de surpresa por trás, envolvendo-a pela cintura e erguendo-a do chão como se ela não pesasse nada. Girando-a no ar como se ela fosse uma boneca, sentia-se feliz tendo-a bem junto a si.
- “Eu te amo, Sean Ridell.” – dizia ela, olhando-o nos olhos, ao que ele respondia que também a amava infinitamente, antes de abraçá-la e beijá-la carinhosamente.
Sorrindo entre lágrimas, Sean também se lembrou do sorriso luminoso do pequeno James sempre que brincava com ele no quintal todas as tardes antes do café, não importava o quão cansado Sean estivesse ao chegar do trabalho. Colocava o garotinho sobre os ombros e corria com ele, brincando e rindo sem parar; era a melhor sensação do mundo para Ridell. E agora eles estavam mortos. Logo Sean também estaria, e nunca mais voltaria a vê-los. Nem nessa vida, nem na outra. Nunca mais. O que ameniza a dor daqueles que ficam neste mundo sem a presença dos entes queridos é a esperança de poder reencontrá-los um dia na outra vida, a eterna. E mesmo isso foi negado a Sean Ridell; nem mesmo a esse tênue fio de esperança ele podia se agarrar. Contudo, se ele estava indo para o Inferno, levaria consigo, em sua mente, as lembranças de sua mulher e filho. Aquele seria seu refúgio, um pedacinho do Céu o qual ninguém tiraria dele. Nem mesmo o maldito Abigor.
Enquanto Sean era arrastado em direção à árvore maldita, seus olhos cinzentos e cheios de dor fitavam o céu azul. A tarde abafada seguia tranquilamente seu rumo inalterável. O firmamento límpido era percorrido por poucas nuvens. O sol ardente espiava silenciosamente do alto enquanto uma criatura malévola e sobrenatural arrastava consigo um prisioneiro ferido através do deserto cáustico. Por que ninguém o ajudava? No dia em que vendera sua alma, o vento uivara dolorosamente. Naquela tarde em que o demônio vinha buscá-lo pessoalmente, não havia reação nenhuma da natureza, que a tudo assistia, impassível. Com a visão turva, Sean fitou o céu anil e, apesar do sangue na garganta, conseguiu murmurar:
- Eu me arrependo...
Abigor parou de repente e voltou a cabeça, furioso:
- O que foi que você disse, seu maldito?
Ignorando o demônio esbravejante, Sean repetiu com seu fio de voz, olhos fitos no céu:
- Eu me arrependo... me arrependo sinceramente...
- Cale essa boca! – bradou Abigor, fora de si.
E como Sean não parasse de murmurar para o céu, Abigor caminhou até ele, irado. Segurou a cabeça do rapaz e chocou-a violentamente contra o chão uma, duas, várias vezes. Fechou os punhos e esmurrou-lhe a face brutalmente. Cada pancada parecia pesar uma tonelada, e produzia um som seco, nauseante. Quando parou, o olho direito de Sean mal se abria. O sangue fluía livremente pelo nariz e pela boca.
- Quer dizer mais alguma coisa? – indagou Abigor, sádico.
Com um sorriso irônico mesclado a uma careta de dor, Sean cuspiu uma espuma sanguinolenta no rosto do inimigo antes de ousadamente repetir:
- Eu me arrependo...
Com um brado de fúria, Abigor desceu o punho cerrado mais algumas vezes. Os lábios de Sean se racharam e ficaram cobertos de sangue. Exausto, ele deixou a cabeça pender para trás até que ela tocasse o chão quente, e continuou fitando o céu, mas agora em silêncio. Satisfeito, Abigor voltou a arrastá-lo pelo deserto, com mesma delicadeza de quem carrega um fardo.
Quando recomeçaram a seguir em direção à árvore, os corvos se agitaram nos galhos, inexplicavelmente incomodados com algo. Arregalando o único olho que se abria, Sean viu quando, como uma flecha, uma ave desceu do céu e pousou graciosamente na árvore. Tinha certeza de que o pássaro emergira das nuvens. Tratava-se de uma belíssima pomba. Suas penas eram inteiramente brilhantes, alvas e imaculadas como a neve. Apenas os olhos eram negros, e as patas e o bico eram rosa.
A pomba aterrissou em um galho acima dos corvos, fitou-os atentamente e arrulhou com suavidade. No mesmo instante, assustados, os corvos, crocitando, ruidosamente bateram asas e voaram para longe, desaparecendo em seguida. A presença da pomba branca os afugentou em revoada, como se um caçador houvesse disparado um rifle contra o bando de negras e agourentas aves. Se assistisse àquilo, o velho Larry Parker teria rido de contentamento como uma criança, e corrido para casa, a fim de iniciar uma criação daqueles pássaros salvadores.
- Benditas pombas! – é o que ele certamente diria, sorrindo de orelha a orelha.
Sendo arrastado pelo deserto escaldante com um som rascante, em meio ao sangue que vertia impetuosamente e os milhões de pontos doloridos em seu corpo flagelado, Sean observava a pomba espantado, mirando-a com seu único olho intacto. A fascinante ave descera da nuvem em linha reta até a árvore e ali permanecia empoleirada e tranqüila. Sangrando profusamente sem ter o direito de morrer, e com a alma se agitando ardentemente em seu íntimo, o desafortunado jovem tentava entender a nova situação. O que uma pomba branca linda como aquela fazia sozinha no meio de um local diabolicamente quente e inóspito como aquele? Por que ela descera das nuvens e pousara justamente na maldita árvore, cuja existência estava imutavelmente ligada ao pavoroso destino de Ridell? E, a questão mais assombrosa que rondava a mente confusa do Renegado era: por que a nuvem negra e detestável de gralhas barulhentas fora rechaçada pela presença inofensiva e encantadora daquele lindo pássaro?
Ainda pensando nessas questões enquanto era arrastado como um saco de adubo pela aridez desértica, e notando que a árvore estava agora muito próxima, porque o sádico Abigor não tivera pressa em carregá-lo, a fim de que sua angústia fosse maior, Sean Ridell desviou o olhar intrigado da bela pomba para o céu mais uma vez. Então, estupefato, constatou que as nuvens tinham ganhado altura. Como podia ser aquilo? Duas nuvens, flutuando entre o sol, haviam subido, se distanciado da Terra. Sean nunca ouvira falar de algo semelhante. Sabia que nuvens se deslocavam horizontalmente nos céus, impelidas pelas correntes de ar nas alturas, mas jamais imaginara que elas pudessem ser empurradas pelo sopro do vento de baixo para cima, subindo cada vez mais. Então, Sean finalmente compreendeu a situação, e a resposta era ainda mais espantosa.
Não se tratava de as nuvens estarem subindo. Na verdade, elas se encontravam no mesmo lugar, navegando silenciosa e lentamente pelas alturas, como sempre fizeram desde o princípio. Naquela tarde tórrida em pleno deserto, era o sol que se movia. Com uma velocidade meteórica, o astro rei se dirigia para a Terra.
 Erguendo o braço esquerdo, cuja clavícula, diferentemente do ombro direito, estava intacta, Sean Ridell enxugou o único olho que ainda era utilizável. Passou a manga do sobretudo pelo rosto, extraindo o sangue, o suor e as lágrimas que lhe turvavam a visão. Piscando o olho, esbugalhou-o ao ter certeza de que o sol, a fonte de calor e vida do universo, despencava das alturas, rumando veloz e diretamente para o deserto. Tagarelando a seu sádico modo, Abigor nem chegou a perceber o assombro com que sua vítima fitava hipnoticamente o céu. O poderoso demônio não percebeu que, acima deles, o astro ígneo inexplicavelmente descia da abóbada celeste a uma velocidade inimaginável, e em poucos instantes tocaria o chão árido, queimando majestosamente qualquer ser vivente presente no deserto, e isso incluía Abigor e Sean.
Enquanto observava extasiado, Ridell viu que, ao contrário do que imaginava, a temperatura não se elevou no deserto. A imensa bola de fogo em queda espargia uma luz intensa, divinal e ofuscante, tanto que em pouco tempo Sean viu-se obrigado fechar o olho, pois a luminosidade começava a queimar sua vista. Sentindo o coração martelar no peito, bombeando cada vez mais rápido o sangue que percorria suas veias malditas e fugia aos jatos de seu corpanzil amaldiçoado, Sean usou seu sentido amplificado da audição para tentar entender o que se passava. Imaginava que fosse ouvir um chiado sinistro, denunciando a chegada do sol, queimando a tudo e a todos, e extinguindo instantaneamente a vida. Mas nada disso se passou. Um zumbido estridente e gradativo encheu o ar abafado, castigando os tímpanos sobrenaturalmente privilegiados de Sean.  O som parecia proceder das alturas. Seria o sol cadente sua origem?
E agora, acompanhando o zumbido, havia um segundo som. Era suave, acariciante e lembrava... Céus! Aquilo era um ruflar de asas desfraldadas? Tomado pela confusão e pela curiosidade, sem poder abrir os olhos devido a luz poderosa que o cegava, Sean sentiu quando uma sombra enorme se abateu sobre o local onde ele e Abigor estavam. Mesmo de olhos fechados, Sean teve certeza de que um pássaro gigantesco, muito maior do que qualquer outro no planeta, pairava naquele momento bem acima de onde ele se achava.  
Finalmente Abigor aparentava ter notado a presença incomum recém-chegada. O demônio estacou de repente e se calou por uns momentos. Proferindo um palavrão, a entidade infernal largou rispidamente a perna de Sean, a qual desceu pesadamente e atingiu dolorosamente o chão arenoso com um baque seco. Então, espantosamente Abigor começou a discutir inflamadamente com aquilo que parecera ser o sol aos olhos de Sean. De olhos bem fechados, o rapaz ouvia, em meio à torrente de maldições e palavras obscenas, o demônio bradar com sua voz grave e sobrenaturalmente cavernosa:
- O que pensa que está fazendo aqui? Ele me pertence, tem um pacto de sangue comigo, assinado de livre e espontânea vontade. Livre arbítrio, docinho.
E então, o zumbido ecoava em resposta. Aos poucos, Sean, após se acostumar gradativamente com o ruído estridente, percebeu se tratar na verdade de uma voz. O zumbido perdeu seu timbre irritante e agora era murmurante como o som das águas, como se a brisa e o mar falassem conjuntamente. A voz falava em uma língua desconhecida para Sean, mas era plenamente compreensível para Abigor, que respondia, rugindo:
- Não pode fazer isso! Não tem o direito! Isto é um insulto, uma quebra dos antigos acordos. Não permitirei nunca. Não devia ter vindo aqui, agora vai encontrar a destruição pelas minhas mãos!
Cheio de angústia, com a adrenalina sendo jorrada descontroladamente em sua corrente sanguínea e sem poder ver o que se passava, Sean ouviu o som de uma luta. Mas não era uma luta comum. Sua audição perfeita lhe informava de que movimentos estavam sendo realizados na velocidade da luz, e Sean então teve certeza de que não adiantaria muito se pudesse ver o que se passava, porque sua visão, por mais desenvolvida preternaturalmente que fosse, não poderia nunca acompanhar a rapidez do que acontecia bem ali, tão próximo dele.
Após angustiantes segundos de espera, Sean ouviu Abigor deixar escapar um rugido de dor. O som do ar se deslocando bruscamente indicou a passagem do demônio, que, sob o impacto de um poderoso e definitivo golpe, atravessou o espaço. O próximo som captado pelos ouvidos inumanos de Ridell foi o baque surdo de algo que se chocava violentamente contra o grosso tronco da árvore seca. Em seguida, Abigor gritando furiosamente, pronunciou mais algumas palavras horríveis. Mas a potência de sua voz passou a diminuir gradativamente, como se ele esbravejasse enquanto se afastava, até desaparecer, levando consigo o cheiro repugnante de enxofre.
Devido a junção das dores e das emoções do momento, Sean Ridell sentiu-se subitamente muito cansado. A perda maciça de sangue, embora não o matasse, o enfraquecia imensamente, tornando doloroso e árduo mesmo o menor de seus movimentos. Tentou abrir os olhos sendo porém impedido, porque a luz emanada no local ainda era intensa. Nos seus últimos segundos de consciência, Sean Ridell, mesmo de olho cerrado, sentiu uma presença agradável junto de si, e teve certeza de que alguém o olhava com benevolência. Então, o rapaz deixou a cabeça rolar para o lado e desmaiou.

Não soube precisar quando tempo flutuou envolto pelas negras brumas da inconsciência. Seu espírito parecia embalado por uma correnteza calmante de ótimas sensações. Boas lembranças o embalavam, como um abraço caloroso. Sonhos repletos de luz tranqüilizavam seu coração e pacificavam a agitação de sua mente, a qual, pouco tempo antes, estivera tão perto da loucura absoluta quanto um homem pode chegar perto de um precipício sem despencar no mesmo. Sonhou com campos floridos, céus azuis e luminosos, brisa suave, mar calmo e infinito. Nada de ampulhetas, enxofre ou cães do inferno. Apenas elementos que fossem extremamente agradáveis aos seus sentidos.
Lentamente ele sentiu que estava abandonando o sonho. Uma brisa suave acariciava seu corpo ferido e ele sentia o frescor de uma sombra bem vinda que o resguardava do sol impiedoso. Achou que ainda sonhava, pois sua última lembrança era de estar deitado de costas no deserto escaldante, sangrando abundantemente e sendo cozido pelo sol insuportavelmente quente. Sem o menor sinal de sombra no lugar. Dezenas de pássaros cantavam alegremente ali por perto, compondo uma sinfonia comovente de tão simples e bela.
A seguir, Sean achou que os sentidos lhe pregassem uma peça, pois o perfume de flores inundou seu nariz parcialmente bloqueado pelo sangue seco. Aquele aroma era inconfundível. Lírios! Devia estar mesmo sonhando. Lírios em pleno deserto? Sabia que eram lírios, pois sua mãe amava essas flores, bem como Kate. A paixão de Kate por lírios foi um dos fatores que levaram Sean a se apaixonar por ela.
Então, Sean sentiu cócegas em seu peito. Uma pressão suave, quase imperceptível, de algo que passeava tranquilamente sobre ele. Com um leve tremor de pálpebras, o rapaz conseguiu lentamente abrir o olho esquerdo. A luz agora era suave, e não mais feria sua vista. Diante de si, bem próxima de seu rosto, ele viu a cabecinha branca de uma ave que o fitava com seus olhinhos bondosos, negros e úmidos. A pombinha arrulhou alegremente e continuou saltitando tranquilamente sobre o peito quase completamente curado do Renegado. Erguendo vagarosamente a cabeça, Sean espantou-se imensamente mais uma vez. Seria aquilo uma miragem?
A imensa e seca árvore, antes guardada por Abigor, agora era verdejante e cheia de vida. Todos os galhos estavam restaurados, e cada um deles se achava repleto de folhas viçosas e perfumadas. Incontáveis pássaros coloridos, de muitos tamanhos e tipos estavam aninhados nos galhos da fabulosa árvore: era desses pássaros o canto que Sean ouvira enquanto recobrava a consciência. As poucas aves que não cantavam, bicavam alegremente a casca sedosa de frutos coloridos, suculentos e maduros, pendentes dos galhos que se agitavam com a brisa fresca e suave. A sombra que refrescara o Renegado enquanto ele estava imerso na inconsciência era oriunda dessa agora frondosa e resplandecente árvore, que em nada se parecia com aquele tronco castigado pelo sol e galhos retorcidos de antes.
Sean lançou um olhar desconfiado ao redor e vislumbrou a eterna sequidão do deserto rodeando aquela árvore milagrosamente surgida. Seria aquela mais uma piada sádica de Abigor? Uma ilusão para enganar seus olhos e aumentar sua dor? Por mais que se esforçasse, não conseguiu sentir a presença maligna do demônio nas proximidades. Não. Abigor não estava ali.
 Aquela cena era tão maravilhosamente inexplicável... Um verdadeiro oásis, fonte inesgotável de vida situada no coração daquela região inabitável de aridez e morte. Parecia um quadro exuberante caprichosamente pintado pela mão do próprio Criador, para Quem todas as coisas são possíveis, inclusive, uma árvore verdejante brotar no meio do deserto.
 A pombinha branca graciosa e subitamente alçou vôo e rumou para a portentosa árvore. Apoiando-se nos cotovelos para acompanhar o deslocamento da linda ave, Sean estremeceu de fascínio e espanto. Alcançando a árvore, a pombinha pousou na mão de alguém. A corda de Sean não se achava mais amarrada ao galho grosso como antes.
Sentada no galho onde tempos antes Sean pensara em dar fim à própria vida, havia uma jovem belíssima. Tinha a pele perfeita e sedosa como pétalas de rosa, muito branca, e os olhos mais maravilhosamente azuis e brilhantes que o Renegado já vira, encimados por longos cílios negros e graciosas sobrancelhas douradas. Os lábios, belos, finos e úmidos, possuíam a cor e a textura perfeita da rosa de Alexandria. As maçãs do rosto eram ligeiramente rosadas e combinavam com sua face linda, ovalada e luminosa. Um adorável furinho no queixo era um dos detalhes mais apaixonantes de seu semblante encantador. Seu cabelo, dourado como o trigo nos campos, era liso. Estava caprichosamente penteado ao meio e escovado com esmero. Descendo em ondas suaves, emoldurava seu rosto perfeito com uma cascata de fios áureos, a qual alcançava o ombro bem torneado. Um lírio lilás enfeitava seu cabelo, logo acima da orelha direita. Sean percebeu que, inexplicavelmente, o aroma de lírios, trazido pela brisa suave ao seu nariz, era exalado por aquela belíssima garota.
Ela usava uma camisa xadrez feminina, um cinto com fivela prateada, e uma calça de brim azul escura. A metade das pernas da calça estava enfiada nos longos canos de botas texanas marrons femininas. A moça estava vestida como uma típica cowgirl.  Ela emanava a pureza virginal de uma menina, mas tinha a atitude atenta e comportada de uma mulher. Não aparentava mais do que dezoito anos.
A pomba pousou em sua delicada mão direita e ela sorriu. Quando fitou a mão esquerda da jovem, Sean sentiu vontade de fugir: ela segurava um amarelado e maldito documento. Um papiro infernal. O contrato do pacto diabólico que o transformara no Renegado. Como aquela jovem meiga e aparentemente inofensiva arrancara aquele papel das garras de Abigor?
Quando o rapaz já se dispunha a tentar fugir rastejando, a moça pousou carinhosamente sobre ele seus magníficos olhos cor de safira. Havia luz e bondade neles. Como se conhecesse os temores do rapaz caído, e balançando as pernas despreocupadamente, a jovem sorriu exibindo uma fileira de dentes alvos e perfeitos. Em seguida, quando abriu os formosos lábios para falar, os pássaros e o vento silenciaram-se para ouvir. A voz dela, harmoniosa e suave, parecia acalentar a alma em frangalhos do Renegado:
- Não tema, Sean Ridell. Meu nome é Mariel, sou uma mensageira celestial, e venho aqui hoje em nome do próprio Deus Altíssimo. Seu clamor chegou aos ouvidos Dele. – e agitando sugestivamente o papiro na mão pequena e mimosa, ela completou – Trago a você uma proposta de redenção.


Danilo Alex da Silva

14/04/12


Queridos amigos e leitores! Quero agradecer a paciência e o carinho. Se você chegou até aqui, leu mais de cinquenta páginas desse conto que, inicialmente, teria apenas umas 3 partes e teria ao todo, no máximo, umas dez páginas. Agradeço o carinho, o apoio e a ajuda de vocês, pois vocês foram imprescindíveis para esta obra. O Renegado deve muito a vocês. 
Espero que o fim não tenha sido decepcionante porque, como sabem, cada vez que uma história termina, outra começa. É o caso da saga do Renegado: vou transformar a história dele em livro, e lá saberemos o restante de suas aventuras em busca de sua tão sonhada redenção. Não seria possível contar essa história aqui, porque, não sei se concordam, mas o Renegado merece mais espaço e detalhes. Ele merece um livro. 
Conto com vocês para me ajudar a dar continuidade nas aventuras de Sean Ridell, o Renegado. Vocês, como já disse, são fundamentais. 
Para quem tiver curiosidade, vou colocar agora no fim do post o clipe legendado da música que me inspirou esse conto. 
Obrigado por me acompanhar nessa empreitada, meu povo! Acho que nunca estive tão empolgado em escrever uma história. Obrigado, e até a próxima história! 


Abraço carinhoso


Danilo Alex da Silva




quinta-feira, 12 de abril de 2012

O Renegado - O Caminho para a vingança - Parte IX

"É apenas um mundo louco em que vivemos

E eu estou fora de minha mente

Você reza pelo amanhã, mas você está partindo hoje

O Maligno está vindo e está batendo em sua porta
Porque hoje é o dia em que você vai pagar.
Eu estou rezando para que você nunca saiba
Que eu estou encarando o inferno."


(Facing Hell - Ozzy Osbourne)


Sean voltou-se lentamente para fitar os olhos maldosamente tranqüilos de seu detestável interlocutor. Disse devagar, como se medisse cada palavra:
- Sim, precisamos conversar. – e sustentando o olhar interrogativo de Abigor, prosseguiu sem titubear – Quero desfazer nosso pacto.
Abigor, com uma atuação digna de um ator medíocre, arqueou a sobrancelha como se estivesse surpreso, e em seguida seu vozeirão fúnebre ecoou:
- Está falando sério? Essa não, Sean. Pensei que fossemos amigos... – completou o demônio, fingindo estar magoado.
Seria cômica a situação, se ela não fosse absolutamente trágica. Sean percebeu que, sob o comportamento deliberadamente teatral da entidade infernal havia muito mais que o aparente sarcasmo peculiar. Havia um sinal claro de perigo.
Os dois se encaram em silêncio por um instante antes que Abigor voltasse a falar, dessa vez pausadamente, e sua voz surgia seca, despida do habitual falso tom de cordialidade:
 - Achei que tivesse sido bem claro, Renegado. No lugar de onde venho, as coisas não funcionam desse modo. Caso contrário, perderíamos nossa credibilidade com os outros clientes em potencial. Nossa... loja, vamos dizer assim, está sempre disponível e, justamente por esse motivo – Abigor cravou friamente seus olhos negros cintilantes nos olhos cinzentos de Sean e disse lentamente, escandindo bem as sílabas – Não aceitamos devolução. De maneira nenhuma.
Sean franziu a testa, preocupado, e uma gota de suor brotou de sua têmpora. Notando os indícios de terror iminente na face de seu desafortunado protegido, Abigor completou, tentando suavizar um pouco sua voz macabra e inumana:
- Realmente gosto de você, Sean Ridell. Sei que vamos nos dar muito bem. Se quer saber, intercederei por você no inferno. Depois de uns cem ou duzentos anos de tormentos, posso providenciar para que você seja promovido. A tortura inicial é inevitável, é praxe para todas as almas que chegam ao abismo eterno. Porém, transcorrido esse tempo, farei de você meu capataz; um carrasco perfeito. Juntos, destroçaremos as almas infelizes. Ensinarei a você todas as técnicas de tortura, para que seja provocado o máximo de dor, e para que o sangue pecador irrigue as terras tórridas do inferno. Essa é a vantagem de ser um habitante da morada infernal: quanto mais maligno você for, mais recompensado será. Pode chegar a chefiar pequenos contingentes de almas torturadoras, basta ter talento. Talvez agora minha proposta não pareça suficientemente boa, mas, acredite, cem ou duzentos anos sendo torturado não são nada perto da eternidade em aflição.
- Não posso ir para o inferno – murmurou Sean, suando frio – Usei meus poderes para fazer coisas boas às pessoas. Mesmo minha vingança foi útil para as autoridades e para os cidadãos de boa índole.
Mal Sean terminou de falar, a gargalhada sinistra e odiosa de Abigor chegou a seus ouvidos, fazendo seu sangue ferver.
- Você é hilário, Renegado. Há tempos que eu não ria assim. Acreditou mesmo que usar os poderes para o Bem faria de você um homem livre de seu pacto de sangue? Sua alma está prometida ao inferno. O olhar divino não mais contabiliza suas boas obras, porque você voluntariamente escolheu o pecado, a morte e as trevas. Você, e ninguém mais, é responsável por seu destino, por pior que ele seja. E o seu destino é o inferno, Ridell. As almas que você enviou para lá estão ansiosas para recepcioná-lo. Durante os primeiros cinqüenta anos de agonia pelos quais você tem de passar, os assassinos que você matou é que o castigarão.
Notando a angústia e a hesitação de Sean, Abigor emitiu um assobio tranqüilo e esperou. Segundos mais tarde, um imenso cão negro de olhos vermelhos e incandescentes como lava materializou-se ao seu lado. O terrível animal estava sentado sobre as patas traseiras, imóvel como uma estátua ameaçadora, mirando Sean fixamente com seus olhos insanamente perturbadores. Era o mesmo cão de caça infernal que Sean vira perseguir e capturar as almas no saloon Night Train, em Conquest City. Usava a mesma coleira escarlate, repleta de espinhos. Seu pelo negro contrastava com o de Pandemônio, e o sol inclemente reluzia na pelagem de ambos. O garanhão negro bufou nervosamente quando o imenso cão surgiu repentinamente, como que brotando do seio da terra.
- Isso... é mesmo necessário? –indagou Sean, engolindo em seco.
- Você é quem determina, Ridell. – replicou Abigor enquanto afagava distraidamente a cabeça descomunal de seu cão nada adorável. – Chamei Tiberius aqui apenas como um incentivo, porque você me parece muito inseguro quanto ao cumprimento do nosso trato. Tudo o que tem a fazer é apenas...
O ser infernal não pode concluir a frase porque algo completamente inesperado, surpreendente mesmo para ele, aconteceu. Com a velocidade do relâmpago fendendo as nuvens escuras, o Renegado levou a mão por dentro do sobretudo, e alcançou um terceiro revólver, que trazia oculto em um coldre  sob a axila esquerda. Sacou e disparou quase sem mirar. Apertou o gatilho duas vezes. Dois estampidos secos e decisivos ecoando na imensidão do deserto. Tudo numa velocidade imensa, muito mais rápido do que estou contando.
Alvejado simultaneamente no peito e no pescoço, ganindo de dor como um vira-latas qualquer, Tiberius foi lançado para trás pelo soberbo impacto das balas de pesado calibre, e rolou pelo chão esturricado de sol. Seu sangue era vermelho escuro, quase negro.O cão do inferno permaneceu quieto e fumegante, e então evaporou no ar, desaparecendo em seguida, como uma luz que se apaga repentinamente. Abismado, Abigor fuzilou Sean com os olhos, que agora eram duas bolas negras e flamejantes a ocupar completamente as órbitas. Parecia um céu escuro, pressagiando tempestade, riscado por relâmpagos. Trêmulo de raiva, o sombrio guardião fitou intensamente o rapaz:
- Atirou no meu cachorro, garoto? E com balas abençoadas? Devo admitir, foi muita coragem de sua parte. Então é por isso que hoje, por breves momentos, você desapareceu do meu campo de visão. Esteve numa igreja recolhendo água benta para santificar a munição do revólver novo, heim? Que tal a dor, Sean Ridell? Qual foi a sensação de ser um indesejável na casa de Deus?
Como Sean não respondesse, Abigor caminhou calmamente para o lado sem despregar os olhos dele, como um leão que cercasse a presa. De dedo em riste, rosnou ameaçadoramente:
- Sorte sua que meu cão apenas foi enviado de volta ao inferno, garoto. Ferimentos causados por objetos consagrados são muito difíceis de curar nesse plano; no inferno eles cicatrizam melhor e mais rápido.
De pé, Sean Ridell empunhava com firmeza o revólver cromado fumegante. Contemplando as chispas de ódio que os negros olhos do monstro disparavam, Sean Ridell ordenou:
- Entregue para mim o contrato do pacto, Abigor.
- Ou então o que, garoto? Vai atirar em mim também? – chiou Abigor entre os dentes cerrados de ódio incontido – Me enviar de volta ao inferno não resolve seu problema, apenas adia. Quando você chegar aos abismos, depois do que fez, Tiberius vai ser mais um dos ansiosos para brincar com você, meu amigo.
- Vamos duelar. – propôs Sean súbita e suavemente – Você e eu, empunhando as armas. Se eu ganhar, você me entrega o papiro. E se eu perder...
- Se você perder, Sean Ridell, levo você agora mesmo comigo, direto para o inferno. O que acaba de fazer é uma tentativa clara de rescindir o contrato. Atentando contra o meu cão, você infringiu uma das principais cláusulas do acordo, a qual, se rompida, me concede o direito irrevogável de encerrar o seu tempo aqui e ceifar sua alma imediatamente.
- Qual cláusula? Onde estava escrito isso? – Sean estava sinceramente confuso – Não me lembro de ter lido algo parecido.
Com sua típica risada sinistra, Abigor, furioso, sentiu mórbido prazer em responder:
- Você não lembra, porque não teve interesse em ler o contrato, cowboy. Estava tão obcecado por vingança, que assinou sem pensar. – e fazendo um muxoxo de falsa desaprovação, o demônio abanou a cabeça negativa e desdenhosamente antes de prosseguir – Devia ter tido o cuidado de ao menos ler, ao menos tentar saber a respeito do trato que estava selando, jovem Ridell. Afinal, sua alma estava em jogo. E agora não há mais como voltar atrás.
- Vamos resolver logo esta questão. – retrucou o rapaz de modo decidido, engatilhando destemidamente seu revólver.
- Um duelo com o diabo, Sean Ridell? Isso não pode acabar bem, você sabe. Principalmente agora porque, mais do que nunca, desejo vê-lo arder no inferno. – Abigor refletiu por um instante e prosseguiu, com uma risada duvidosa, repentina e aparentemente condescendente:
- Entretanto, farei isso. Concederei a você esta oportunidade, parece justo: meu papiro por sua alma. Diabos! Gosto mesmo de você, essa é minha atual fraqueza, Renegado.Vejamos do que você é realmente feito.
As últimas palavras do demônio ecoaram cavernosamente pelo deserto, carregadas pelo vento impetuoso que fazia a orla de seus sobretudos se agitarem vigorosamente, farfalhando sinistramente como as asas negras dos corvos encarapitados na árvore maldita. As palavras do ser iníquo tiveram o efeito de despertar em Sean um desespero crescente. Tensão. Os olhos enigmáticos cinzentos de Sean cravados nos olhos negros e raivosos de Abigor. O tempo corria devagar e o sol observava atentamente os dois desafiantes se encarando em pleno deserto. Olhos semicerrados, dedos relaxados. O vento ardente soprando, e nada mais.
Se movendo o mais rapidamente que podia, Sean ergueu o revólver, o qual já trazia em punho. Estava confiante, a despeito de seus temores, pois, em uma luta justa, acreditava haver uma chance de vitória. Estava prestes a puxar o gatilho e estranhou o fato de Abigor não ter ainda feito menção de sacar sua arma. Estaria o demônio desarmado? Então, rindo macabramente, Abigor ergueu inesperadamente a mão esquerda enluvada acima da cabeça.
O gesto desconcertou Sean. A mão do anjo caído estava livre, desarmada aparentemente. Então, Abigor fechou furiosamente o punho levantado, num gesto colérico de quem esmaga algo entre os dedos.


Continua...


Danilo Alex 


terça-feira, 10 de abril de 2012

O Renegado - O Caminho para a vingança - Parte VIII

"Ódio, eu sou o seu ódio, sou o seu ódio quando você quer amor
Pague, pague o preço, pague por nada ser justo
Ei, eu sou sua vida, eu sou quem te trouxe aqui
Ei, eu sou sua vida, e eu não me importo mais"

(Sad But True - Metallica)



E então, depois da tão almejada vingança, o tempo correu. Meses, semanas, dias, horas, nada disso deveria ser tão importante para alguém como Sean Ridell. Um homem imortal, praticamente invencível, não deveria temer a passagem do tempo. Mas ele temia. Mesmo alguém poderoso como ele era agora, se preocuparia na atual situação: por Abigor, Sean soubera que havia uma imensa ampulheta com seu nome no inferno. E a areia maldita estava escoando em seu interior. Cada grão que despencava aproximava o Renegado de seu fim inevitável: a condenação eterna e o tormento infinito nas terras ardentes, onde o céu era vermelho como sangue, os rios eram de lava borbulhante, os moradores eram monstruosos, o sofrimento, interminável, e a escuridão, por ser o elemento reinante, era somente entrecortada pelas labaredas gigantes que se erguiam como súbitos gêiseres de fogo aqui e ali.
Depois de sua vingança, Sean, totalmente equivocado, nutrira a ingênua esperança de que encontraria um pouco de paz. Mas paz era uma palavra inexistente no vocabulário de seu algoz, o demônio Abigor, um dos poderosos generais do inferno, atual proprietário de sua alma. Não havia uma noite que Sean Ridell não tivesse pesadelos terríveis, a maioria com sua família sendo brutalmente assassinada. Outras vezes, sonhava com uma ampulheta de fogo que, ao invés de areia, continha sangue. O seu sangue. Quando a última gota, vermelha com um rubi, pingava no fundo do antiquado aparelho de contagem do tempo, produzia um estrondo semelhante a um trovão. A ampulheta maldita então se estilhaçava ruidosamente. Nesse pesadelo, depois que o instrumento se destruía, Sean divisava a face maligna de Abigor, felizmente ainda oculta pelo lenço vermelho. Os olhos negros do demônio fitavam um relógio de bolso pousado na palma enluvada de sua mão. Era noite de lua cheia e Abigor, contra a luz, tinha suas formas sinistras delineadas pelos raios prateados. Seus olhos negros, que agora se assemelhavam a duas tochas acesas sob o luar, acompanhavam interessadamente os ponteiros do relógio em sua mão, cujo movimento causava um tique-taque repetitivo e enervante. Quando finalmente o antigo aparelho marcava o horário desejado, Abigor olhava fixamente dentro dos olhos de Sean antes de dizer:
- Seu tempo acabou, cowboy. Hora de irmos para casa.
Mal terminava de falar, Abigor segurava com firmeza a tenebrosa foice que surgira em sua mão direita e, com sua peculiar risada macabra, libertava da coleira o seu cão do inferno de estimação. E o bicho se movia a toda velocidade, rosnando, babando, ligeiro como o vento, seguindo os passos desesperados de um Renegado apavorado e em fuga, tentando correr de um perseguidor de quem ninguém escapava nunca. Quando o cachorro infernal estava quase alcançando Sean, ele se obrigava a sair do pesadelo e acordava assustado, suando, suas mãos se dirigindo instintivamente para as armas no cinturão pendurado na cabeceira da cama, as gargalhadas metálicas de Abigor ainda ressoando nitidamente dentro de sua cabeça.
 Sua sede e sua febre constantes eram parte do flagelo da carne. Nenhuma bebida desse mundo, por mais refrescante que fosse, podia extinguir a sede de Sean Ridell. Da mesma forma, ele jamais poderia estar com uma garota. A única vez que tentou foi desastrosa: seu calor anormal aqueceu tanto a adorável companheira que a afugentou, tanto que ela precisou ser vista pelo médico, já que seu curvilíneo corpo suava e ardia em febre, quase a ponto de sofrer convulsões. Outra parte terrível jazia no fato dele não poder nunca se aproximar de igrejas e outros locais de solo sagrado. Muito doloroso imaginar que agora ele era malquisto por Deus. Um proscrito da herança divina. Um renegado da graça celestial.
Sean Ridell se angustiava ainda mais por saber que sofria um exílio voluntário, se envolvera conscientemente em uma negociação monstruosa, da qual não podia escapar. Depois da vingança, reconhecendo seu egoísmo, e tentando de alguma forma expiar seu sem número de pecados, o Renegado, montando seu formidável e incomum cavalo, passou a percorrer os caminhos infestados de bandidos perigosos e insanos, que, tal como o Chamas do Inferno, jamais poderiam ser devidamente punidos pela Lei. Como meses antes fizera ao defender a caravana de viajantes contra assaltantes do deserto, Ridell voltou a lançar mão de seus poderes para banir do mundo aqueles que o tornavam um lugar pior para se viver. Fazendo funcionar seus Colts negros e infernais, o Renegado enviou para os braços de Abigor incontáveis almas negras como a noite. Todas elas partiam em agonia, fuzilando Sean com os olhos e vociferando juras de vingança.
 Entretanto, Ridell nunca feriu um inocente. Jamais se aproveitou de sua condição sobrenaturalmente superior para subjugar os cidadãos íntegros que, após serrem salvos por ele, movidos pela gratidão, diziam uma frase freqüente que, se pudesse escolher, Sean gostaria de ter ouvido menos:
- Obrigado, meu filho. Deus te pague. Deus te abençoe.
A resposta do Renegado era sempre uma risada seca e amarga, assim como um aceno com as mãos enluvadas. Feito isso, girava seu diabólico garanhão negro e se afastava a todo galope, indo socorrer a próxima alma necessitada, estivesse ela a um metro ou a uma milha de distância. Devido a necessidade de suprir suas necessidades básicas tais como beber, comer, alugar um teto sob o qual dormir, roupas etc., Sean acabou se tornando um famigerado caçador de recompensas. Indivíduos assim não eram queridos nem por criminosos, nem pela Lei. As autoridades detestavam depender dos caçadores de recompensa, pois, apesar de serem eles que arriscavam a pele para prender ou, conforme o caso, talvez até eliminar perigosos bandidos que ameaçavam a ordem pública, eram vistos como pistoleiros mercenários, apenas um tipo consideravelmente útil de assassinos.
Necessitava do dinheiro das recompensas, e tentava fazer o bem ao capturar cada bandido daqueles cartazes de procurado. Embora em seu íntimo Sean desejasse ser aceito, seu novo ofício o arrastava cada vez mais para a marginalização: era rejeitado por Deus, fora privado do direito de ser esposo e pai, perdera tudo, os bandidos o odiavam e a Lei o desprezava, apesar de receber sua ajuda freqüentemente. Vivia à beira da sociedade, fosse ela espiritual ou física. A única ajuda que recebera viera justo do Diabo, por um altíssimo preço, o qual se aproximava o momento impreterível de pagar.
Cansado da espera angustiante, Sean Ridell, resolveu arriscar tudo, e tomou uma ousada decisão. Montando seu negro e sobrenatural cavalo, Pandemônio, o rapaz rumou velozmente para a cidade mais próxima, a qual se chamava Stone Ville, um lugarejo entre as montanhas, no coração do Kansas. Uma vez cavalgando pelas ruas da cidade, agiu rapidamente, pois não queria se demorar. Passou pela loja de armas, depois pelo armazém e em seguida, apesar da dor lancinante, quase insuportável, ele corajosamente entrou na capelinha da cidade, a qual, durante o dia, tinha sempre as portas abertas aos devotos que resolvessem entrar para fazer suas orações, ou simplesmente refletir um pouco. Tão logo fez o que precisava, Sean deixou rapidamente a atmosfera abençoada da igrejinha. Cambaleando como quando, meses atrás, fora alvejado por aquele Winchester no saloon Night Train em Conquest City, a muitas milhas dali, o Renegado, com as mãos espalmadas, buscou apoio em uma pilha de caixotes, erguidas meticulosamente diante do armazém, situado logo em frente. Os cinco minutos que permaneceu dentro da igreja pareceram os mais longos de sua vida. Estava tenso, e tinha a impressão de que não era bem vindo ali: era um filho das trevas e estava profanando um local santo. Uma vez do lado de fora, sentiu-se subitamente zonzo e achou que fosse cair. Seus pulmões trabalhavam com dificuldade e lentamente a agressiva sensação de claustrofobia o abandonava. Seu coração trabalhava dolorosamente e sua pele, sempre ardente, dessa vez fumegava. Lavou o rosto com a água de um bebedouro para cavalos das proximidades e sentiu-se relativamente melhor. 
O aviso de Abigor fora claro: manter-se longe de locais sagrados, ou a dor seria indescritível. Mas ele precisava, fazia parte do plano. Mais aliviado e já quase totalmente recuperado, Sean passou no saloon de Stone Ville para tomar uma bebida e comer algo, enquanto munia-se das coisas que adquirira com o armeiro, com o dono do armazém, e na igreja. Combinando-as, passou a por em prática aquilo que audaciosamente planejara. Feito isso, voou para o alto da sela de seu sombrio animal e embrenhou-se uma vez mais no deserto. Durante a viagem, parou apenas uma vez para alimentar seu cavalo com sangue de alguns abutres; nutriu-o bem, porque o caminho era longo e precisavam ser rápidos.
Usando seus incríveis poderes infernais como uma espécie de radar, Sean certificou-se de que não havia viva alma nas imediações para testemunhar a situação inacreditável prestes a se realizar em pleno deserto, sob o sol escaldante da tarde. Balançando as rédeas, o Renegado instigou sua montaria sobrenatural a correr como nunca antes.
 Pandemônio mostrou nesse galope que o sangue diabólico realmente circulava em suas veias: deslocou-se tão rápido que suas patas musculosas e peludas mal tocavam o chão arenoso, sua crina e sua cauda tremulando furiosamente ao vento asfixiante da tarde, o qual atravessava impetuosamente cavalo e cavaleiro naquela corrida alucinante e desenfreada. Com o sol vespertino reluzindo em seu pelo negro como azeviche e arrancando dele reflexos maravilhosamente azulados, Pandemônio transformou-se em um raio impossível de ser acompanhado pela vista humana, rasgando o deserto com a rapidez da luz, sua passagem sulcando o deserto e erguendo uma imensa nuvem de poeira amarela, maior do que qualquer cavalo comum poderia provocar com sua passagem. Seu galope era tão célere que o próprio som parecia não conseguir acompanhá-lo eficientemente. O Renegado segurava as rédeas firmemente com uma mão, enquanto, com a outra agarrava o chapéu, fincando-o na cabeça, lutando para impedir que o vento o carregasse.
Pouquíssimo tempo depois, bem menos do que Sean Ridell esperava, Pandemônio estacou diante da fatídica árvore em que, tempos antes o rapaz quase se enforcara, e sob a qual vendera sua alma ao diabo. Desmontou de seu cavalo e permaneceu de pé, ouvindo o som do vento quente que varria a ampla aridez do deserto. O mesmo vento ardente que esculpira, durante séculos, aqueles imensos e avermelhados blocos rochosos que se levantavam contra o horizonte a noroeste, como gigantes que marchassem com imponência sob o céu limpidamente azul, praticamente sem nuvens. Ao redor da árvore maldita, tumbletweeds passavam girando velozmente, empurrados impiedosamente pela brisa impetuosa. Cactos pontilhavam a vermelhidão desértica até onde se podia enxergar. Serpentes, escorpiões e lagartos esgueiravam-se velozmente pelo terreno irregular, escondendo-se rapidamente sob pedras, para não ser alvo dos inúmeros falcões que patrulhavam o deserto do alto, com seu olhar vigilante e aguçado.  
Levantando os olhos cinzentos, enigmáticos e taciturnos, Sean Ridell avistou uma nuvem de abutres no céu, voando em círculos, bem alto. Provavelmente algum viajante se desviara do caminho e as asquerosas aves estavam apenas aguardando o momento de aterrissar para o pavoroso banquete de morte. Dependendo do que acontecesse bem ali nos próximos instantes, talvez em breve fosse a carne do Renegado que os abutres estariam bicando. Esse pensamento causou arrepios e repulsa em Sean e, quando ele desviou a vista do céu, estava tentando também afastar da mente esse tipo de idéia. Pousou ternamente os olhos em Pandemônio, que andava livremente por ali. O lugar, a situação, tudo influenciava Sean a acreditar que o fim estava próximo, e não seria agradável.
Subitamente o ar abrasador da tarde tornou-se anormalmente gelado, quase congelante. A brisa glacial trouxe o cheiro intenso e desagradável de enxofre. Em algum lugar acima dele, corvos grasnaram agourentamente. Sean estava encarando a árvore ressequida, onde uma tira de corda deteriorada pelo tempo, amarrada ao galho mais grosso, flutuava tragicamente ao vento sobrenaturalmente frio. Com os olhos cinzentos magnetizados na árvore, Sean Ridell não precisou se virar para saber que Abigor estava parado às suas costas, a poucos metros de onde ele se encontrava. De repente ouviu a tão já conhecida voz fria, cavernosa, metálica e impessoal, abafada pelo lenço vermelho:
- Vi você se dirigindo para cá, e supus que quisesse falar comigo, Renegado. Pois cá estou. 

Continua...

Danilo Alex


quinta-feira, 5 de abril de 2012

O Renegado - O Caminho para a vingança - Parte VII

"Olhando para o lago, observando pelo bem dos céus
Rostos gritando em pavor
Chorando como se estivessem morrendo, nas ondas ardentes
Eu posso ver todas as almas como elas sofrem e uivam
Em sua dor eterna
Serviço recebendo seu pagamento, vivendo a vida na terra dos mortos."

(The Final Sacrifice - Avantasia)


Sean Ridell se achava de costas para a escadaria naquele momento, aparentemente ignorando o ataque traiçoeiro que estava prestes a sofrer. Talvez qualquer outro homem tivesse sido baleado pelas costas naquela noite. Mas não Sean Ridell. Definitivamente não ele. Assim como as moscas são capazes de enxergar o que acontece atrás de si, o Renegado pressentiu o perigo, pois ouviu o coração acelerado do bandido irado, bem como sua respiração arfante e o clique que o cão da arma produziu ao ser recuado. Não havia tempo para se virar, o revólver estava engatilhado e apontado para a sua nuca. Ser baleado parecia algo inevitável naquele momento.
Todavia, pela milésima vez naquela noite Sean Ridell surpreendeu sua atônita platéia, executando mais um de seus truques inacreditáveis. Com uma agilidade invejável até para um artista circense, ele, ao mesmo tempo em que sacava seus revólveres diabólicos, saltou para trás uma fração de segundo antes do bandido apertar o gatilho. A bala enviada pelo assassino passou zunindo pelo local onde segundos antes se projetara a cabeça do forasteiro e cravou-se com um ruído seco no ensebado assoalho de madeira do saloon, carcomido pelo tempo e pelos cupins. E, ao integrante do quase extinto Chamas do Inferno não foi dada a oportunidade para efetuar um segundo disparo.
Enquanto se deixava cair de costas, Sean escapou da bala que zumbiu acima dele. Segurando firmemente os Colts satânicos, quando suas costas tocaram o chão, ele jogou a cabeça para trás e apontou as armas. Não havia tempo para corrigir a posição de seu corpo. Mesmo atrapalhado pelo fato incômodo de estar enxergando tudo de cabeça para baixo, ele mirou a figura no alto da escada e apertou os dois gatilhos ao mesmo tempo, repetidas vezes. Ainda deitado daquele modo, com o mundo de ponta-cabeça, o Renegado ouviu o homem atingido soltar um grito estridente e agitar os braços desesperadamente, tentando se apoiar no corrimão. Então Sean o viu descer rolando ruidosamente os vários lances da velha escada, seu corpo se chocando violentamente contra cada degrau, seus ossos sendo dolorosamente fraturados naquela queda monstruosa. Quando finalmente chegou ao fim da escada, o bandido tossiu sangue e morreu quase em seguida.
Enquanto o Renegado girava o corpo e tentava se levantar, o último bandido se aproximou furtivamente por trás e o esfaqueou no coração. Enterrou a faca até o cabo, arrancou-a e mergulhou a lâmina de novo, e de novo. Ainda tentando entender como o assassino conseguira descer do segundo andar sem que ele percebesse, Sean Ridell uivou de dor ao sentir na carne as ferroadas da faca indígena que lhe espetava incessantemente pelas costas. Girando violentamente como um leão ferido, Sean afastou o agressor com um safanão que o atirou longe, fazendo-o rolar pelo chão e largar a faca. Quando pousou os olhos cinzentos em seu atacante, o Renegado entendeu a razão pela qual fora surpreendido: o sexto e último integrante do Chamas do Inferno possuía sangue indígena em suas veias. Os peles-vermelhas são homens conhecidos por suas habilidades furtivas de infiltração. Conseguem ser silenciosos e mortais como pumas, atacando o inimigo sem ao menos serem pressentidos.
Antes que o bandido pudesse se recuperar, Sean executou um salto lupino em sua direção e caiu sobre ele, prensando-o contra o assoalho com seu peso. Apoiando os dois joelhos dobrados sobre o peito do bandoleiro, Sean Ridell, cerrou os punhos e começou a descontar toda a sua ira e frustração no rosto do inimigo. Seus golpes tinham a potência de um coice, e a cada murro recebido, o patife sentia-se mais enfraquecido e impotente. Socava desesperadamente as costelas de seu infernal adversário, mas seus golpes pareciam não surtir efeito. As mãos de Sean castigavam impiedosamente a face do facínora, produzindo um som seco a cada pancada. O punho fechado esfacelava a pele, fazia o sangue brotar, fissurava ossos. Era como o martelo do juiz batendo sem parar, proferindo o veredicto e, concomitantemente, aplicando a punição. O Renegado sentiu o nariz do bandido estalar sob sua mão fechada. Depois, viu o maxilar sendo deslocado.
Depois de uma saraivada de socos demolidores, o rosto do bandido era uma massa disforme e sangrenta, irreconhecível como aquilo que já havia sido uma face humana algum dia. Seu queixo agora inexistia materialmente. Os poucos dentes que sobraram na boca estavam quebrados ou atados frouxamente à gengiva ensangüentada. Se permanecesse vivo, o que obviamente não seria o caso, o rosto do assassino, por mais que as feridas curassem, nunca mais seria o mesmo. Satisfeito com o resultado do seu “trabalho”, Sean se ergueu e foi buscar a faca indígena, caída a poucos metros de onde ele estava. Abaixou-se para recolhê-la do chão e se virou para contemplar o bandido que, apesar de terrivelmente ferido, conseguira sacar uma arma contra ele.
Com a sombra de um sorriso tétrico flutuando em seus lábios crispados pelo ódio, o Renegado desviou-se do primeiro e do segundo disparos com gestos hábeis e quase relaxados, enquanto caminhava de modo calmo, implacável rumo ao seu inimigo aterrorizado e vulnerável. Estacou diante do bandido semimorto e olhou dentro de seus olhos nublados pelo medo. E, como num flash, conseguir ler a memória do miserável.
Em questão de segundos, pelos olhos do bandido, numa confusão velocíssima de imagens, ele assistiu o ataque ao seu rancho. Viu o momento em que atiraram em Berthan; viu Kate esperneando e berrando, em pânico, ao ser arrastada pelos cabelos para fora da casa. Ouviu o choro aflito de James dentro do berço enquanto amarravam sua mãe a uma árvore e a despiam. Com o sangue fervendo, Sean assistiu o momento em que o bandido diante de si, depois de humilhar sua mulher com o estupro, cortou-lhe a garganta de um lado a outro, indiferente ao choro da criança que morria carbonizada dentro da casa, a qual seus amigos se encarregavam de incendiar. Essas imagens passaram rápida e confusamente diante dos olhos do Renegado, mescladas a inúmeras outras, referentes às demais famílias que tinham sido vitimadas por aqueles monstros. Mulheres e crianças choravam, homens emitiam gritos ensurdecedores de dor, raiva, frustração e morte. As mãos daquele bandido estavam irremediavelmente manchadas de sangue inocente.
Voltando à realidade, mais furioso do que nunca, Sean empunhou a faca obstinadamente e a enterrou diversas vezes no corpo do bandoleiro, até se cansar, tendo o cuidado de tentar não atingir nenhum ponto vital, para que a morte do cretino não fosse imediata. Depois, similarmente ao que fizeram a Kate Ridell, O Renegado rasgou o pescoço do sujeito com um gesto rápido e firme, de orelha a orelha. Com a garganta seccionada, o homem tentou gritar, contudo, o máximo que conseguiu foi gargarejar sinistramente com seu próprio sangue. Escorregou para o chão de olhos esbugalhados, com as mãos sobre o imenso corte no pescoço, tentando de algum modo bloquear a hemorragia fatal. Com um estertor rouco, ainda agonizou mais alguns instantes e depois fechou os olhos para nunca mais voltar a abri-los. E foi desse modo que o Chamas do Inferno se extinguiu para sempre, recebendo de volta e em juros, todo o mal que haviam praticado contra as pessoas decentes, cuja maior infelicidade em vida foi cruzar seu caminho.
Tão logo o coração do sexto e último bandido parou de pulsar, um espetáculo macabro teve início. As almas dos assassinos estavam sendo expelidas dos corpos. Eram tão negras e manchadas que não passavam de sombras, assemelhavam-se a silhuetas abomináveis feitas de fumaça escura. Algumas das almas estavam embaraçadas nos corpos, exatamente como quando nosso pé fica preso em um buraco, ou engastalhado em um rolo de cordas molhadas, ou em um monte trapos no chão. Irados, os espíritos dos bandidos seguravam as pernas presas com ambas as mãos enquanto tentavam se libertar. Estavam terrivelmente assustados e confusos; alguns tentavam retornar aos corpos e, não obtendo sucesso, gritavam maldições e rugiam, frustrados. Quando divisaram Sean parado perto deles, fitaram-no com ódio.
- Você é o culpado disso tudo! – berrou o bandido com aspecto indígena, aquele que tinha morrido por último.
Os pistoleiros automaticamente tentaram sacar suas armas, mas elas não existiam naquele novo plano em que se achavam. Não possuíam nada senão seus pecados. Então os assassinos trocaram um olhar embasbacado.
Apesar de ser quem era, o Renegado observava-os cheio de perplexidade. Lançara um olhar ao redor e percebera os presentes pasmos, silenciosos, secando-o. A platéia estava boquiaberta pelo que ele acabara de fazer, todavia com certeza não podia ver o que Sean via. As pessoas ignoravam aquela atividade espiritual que acontecia naquele instante no centro do saloon Night Train. Certificando-se que era o único observador daquela curiosa situação, Sean Ridell voltou seus olhos cinzentos para os seis fantasmas diante de si.
Subitamente uma atmosfera gélida e malévola, de origem unicamente espiritual, assolou o saloon. Esporas retiniam sombriamente dentro da noite escura e passos temíveis se faziam ouvir na varanda do saloon. Sean e as seis almas viraram-se para a entrada.  As duplas portinholas vaivém foram empurradas vigorosamente e se abriram para dar passagem a um vulto alto e horrendamente magro que usava chapéu, luvas, sobretudo negro com franjas, de estilo indígena, botas e esporas. Tinha um lenço amarrado ao rosto, e apenas seus olhos negros como piche, maldosos e brilhantes podiam ser vistos. Uma cascata negra e encaracolada de cabelos oleosos saía debaixo do chapéu e escorria pela nuca, dando a ele aquele aspecto ameaçador de espantalho. Seu inseparável corvo estava pousado em seu ombro direito, crocitando sinistramente.  O fantasmagórico recém-chegado trazia na mão direita uma foice enorme, e sentado ao seu lado estava um pavoroso cachorro de lustroso pelo negro, tão grande que mais parecia uma pantera. O bicho tinha mandíbulas enormes, as quais pareciam feitas de aço, e provavelmente poderiam partir um homem adulto ao meio. Seus olhos eram vermelhos e malignos, lembravam as chamas ardentes das profundezas infernais. Possuía uma longa cauda cuja ponta era flamejante. Garras colossais, afiadas e curvas brotavam de suas patas grandes e peludas. Ao redor do pescoço ferino usava uma sinistra coleira vermelha de enormes espinhos. O cão era tão ou mais assustador do que seu dono.
Ao ver os dois vultos na porta, as seis almas ficaram um instante estupefatas, silenciosas, seus olhos etéreos refletindo um terror inominável. Pelo medo infinito que os seis mortos emanavam, Sean imaginou que eles estivessem vendo o homem na porta em sua forma original, que deveria ser monstruosa, descomunal, insanamente demoníaca. O rapaz então sentiu-se grato por ser poupado disso, pelo menos. De uma forma cúmplice, quase simpática, Abigor piscou para Sean e disse com sua voz profundamente cavernosa:
- Bom trabalho, cowboy. O chefe vai ficar feliz conosco.
Em seguida, voltou sua atenção para os espíritos aterrorizados com sua presença. Assobiando com a naturalidade de quem executava uma tarefa rotineira, Abigor se curvou e libertou o terrível cão da coleira. Imediatamente o bicho ergueu as orelhas pontudas e começou a rosnar diabolicamente, exibindo suas fileiras de dentes amarelos enormes, afiados e mortíferos. Um espesso e brilhante filete de saliva escorria de sua bocarra monstruosa e ele arfava aguardando o comando de seu amo, seu hálito fétido empesteando o lugar.
- Vá pegá-los, rapaz. – falou o anjo caído para o cão do inferno.
Imediatamente o cão de caça diabólico saltou sobre as patas musculosas e percorreu o saloon com a velocidade da luz, enquanto as almas gritavam em desespero e tentavam fugir, cada uma correndo em uma direção. As pessoas no saloon ficaram intrigadas quando Sean, apreensivo, virou a cabeça como se seguisse algo muito rápido com a vista. Mas não havia nada lá. O que aquele forasteiro estava vendo, que ninguém mais conseguia enxergar? É verdade que os presentes sentiram o deslocamento de ar causado pela passagem de um corpo em movimento. Entretanto, como não viram nada, atribuíram o fato à brisa da madrugada que invadia o saloon. Elas não tinham como saber que aquilo se tratava de algo sobrenatural.
A alma do bandoleiro que surgira sem camisa no topo da escada (e ele estava assim na morte, desnudo da cintura para cima) foi a primeira a ser capturada pela fera das trevas. O assassino gritou em agonia quando os dentes do monstro rasgaram-lhe o ombro e as garras dilaceraram seu peito. Abocanhando firmemente o braço do bandido, o cão negro arrastou a presa de volta até a porta e largou-a diante das botas de seu dono. Afagando a cabeça gigantesca do horrendo animal, Abigor manejou a foice com habilidade, e com ela golpeou brutalmente o pescoço da alma que berrava em agonia. Uma alucinante explosão de luz e fogo clareou o saloon, cegando momentaneamente o Renegado. Com a pele borbulhando e em chamas, o bandido petrificado de horror foi agarrado por horripilantes tentáculos de trevas que emergiram do assoalho do saloon e o envolveram. Em uma agonia suprema, a nebulosa alma viu-se rapidamente tragada para as escuras profundezas eternais.
Horrorizado, Sean assistiu imóvel enquanto o sombrio cão caçava implacavelmente cada uma das almas, arrastando-a até Abigor, para que ele, ceifando-as, as enviasse para o inferno. Como não podiam sair do saloon, os espíritos foram capturados um por um. O último bandido, que era aquele cujo pescoço Sean havia quebrado, tentou se esconder no segundo andar, em um dos reservados. Enquanto Abigor soltava uma gargalhada sádica, sua abominável mascote desapareceu no ar, diante dos olhos apatetados de Sean Ridell. Onde estaria o monstro? Ele não poderia ter subido a escada tão rapidamente a ponto de dar a impressão de que havia sumido, porque, por mais veloz que o animal fosse, Ridell poderia vê-lo com seus olhos antinaturais. Poucos instantes depois, o Renegado ouviu a gritaria procedente do andar de cima, indicando que a alma fora alcançada por seu assustador perseguidor. No segundo seguinte, o cão, utilizando mais uma vez sua habilidade de teleportar-se, ressurgiu diante da vista deles, trazendo a alma restante, que ficou estendida de bruços aos pés de Abigor. Enquanto o demônio preparava a foice para assestar o golpe, o bandido caído olhou raivosamente dentro dos olhos de Sean e praticamente cuspiu as palavras:
- Vamos aguardar ansiosamente por sua chegada no inferno, Renegado.
Mal terminou de falar e a funesta lâmina perfurou seu corpo espiritual, fazendo-o gritar de dor e angústia. Os tentáculos o imobilizaram e o abduziram quase em seguida. Terminado o serviço, o anjo caído se curvou mais uma vez e prendeu novamente a coleira ao redor do pescoço de seu cachorro. Quando pousou os olhos em Sean, Abigor notou seu olhar angustiado e interrogativo. Havia uma pergunta silenciosa muito clara naquele contato visual.
- Sim – respondeu Abigor tranquilamente – Essa é a forma que todas as nossas almas são ceifadas. Vai ser exatamente assim, Sean Ridell.
Observando o Renegado enxugar o suor da testa, o anjo caído prosseguiu, com sua enganosa amabilidade:
- Mas não se preocupe com isso agora. Você ainda dispõe de tempo, gaste-o usufruindo de seus magníficos poderes. Para ser ainda mais claro, usarei as palavras um dia proferidas por seu Redentor: “Basta a cada dia o seu próprio mal.” (Mt 6 -34)
A seguir, chamando seu cão negro, o demônio girou nos calcanhares e abandonou o saloon Night Train caminhando devagar, suas esporas retinindo mais uma vez dentro da noite, até se perder na distância.
Assim que ele partiu, Sean lançou um olhar desolado ao estado deplorável do estabelecimento: mesas e cadeiras tombadas, garrafas partidas, cacos de vidro pelo chão, bebidas derramadas, marcas de bala onde quer que se olhasse, cartas de baralho em todo canto, cadáveres espalhados,  inúmeras gotas de sangue aspergidas no assoalho, nas paredes  e até no teto. Viu Larry ainda estendido no chão, ao lado da corista: o choque devia mesmo ter sido forte. Quando o velho despertasse e visse o estado em que ficara seu saloon depois da luta, talvez tivesse um ataque do coração.
Penalizado, Sean Ridell enfiou a mão no bolso do sobretudo e apanhou o ultimo maço de dólares que possuía. Colocando-o sobre o balcão, disse aos presentes que o fitavam, mudos de assombro:
- Assim que ele acordar, digam que deixei essa quantia para cobrir as despesas. – e indicou Larry Parker com a cabeça - Sei que não é muito, mas vai ajudar com o prejuízo.
Já se dispunha a sair quando ouviu uma voz feminina que vinha do segundo andar:
- E nós, forasteiro, como ficamos? Você matou nossos clientes antes que eles pudessem nos pagar. Também estamos no prejuízo.
Tanto Sean Ridell quanto os demais presentes ergueram os olhos para fitar a dupla de coristas que, do alto da escada, apoiadas no corrimão, os observavam com altivez. Os presentes olharam com reprovação para as garotas, pois elas estavam incomodando o homem que os salvara daqueles seis abutres. Achavam falta de consideração cobrar algo de  alguém que acabara de arriscar a vida para livrar a cidade daquela escória.
O Renegado, entretanto, não parecia aborrecido. Apalpando os próprios bolsos, viu que estava agora a nenhum. Então, dando de ombros, sem fazer cerimônia ele começou a revistar os cadáveres dos bandidos. Os presentes deixaram escapar um murmúrio de surpresa, porém, mesmo assim ele continuou sua funesta tarefa. Depois de arrecadar dos defuntos uma quantia considerável, ele colocou outro punhado de dólares sobre o balcão e disse com voz impassível:
- Aqui está o seu pagamento, senhoritas. Os mortos também pagam suas contas. Fiquem com o dinheiro, aqui tem o bastante para vocês duas, será mais útil para vocês. No local para onde mandei seus clientes, cédulas como estas não servem de nada.
A seguir, sob o olhar atônito de todos, Sean Ridell, o Renegado sombrio, virou-se para ir embora. Enquanto ele deixava o saloon, os presentes perceberam que não havia mais nenhum sinal de que ele fora esfaqueado pelas costas, na altura do coração, menos de meia hora antes.  


Danilo Alex

terça-feira, 3 de abril de 2012

O Renegado - O Caminho para a vingança - Parte VI

"Um criminoso perseguindo criminosos, O caçador pega sua caça
Ele obedece a lei da floresta
Suplicando pelo perigo para acertar as contas
Face a face, de uma vez por todas"

(Renegade - Hammerfall)


Para comemorar a morte daquele infeliz que os provocara, os bandidos do Chamas do Inferno pediram a Larry uma garrafa do melhor rum que ele tivesse por lá. Agora eles eram os únicos que riam e festejavam dentro do saloon. Um silêncio pesado e ressentido apoderara-se do lugar, pairando sobre os presentes, que remoíam sua indignação envoltos por um silêncio colérico, impotente. Aquele excêntrico forasteiro estava visivelmente embriagado e acabou falando demais, esse foi seu único crime. Não merecia ser morto com dois balaços daquele modo, como se fosse um cão doente. Todos ali odiavam em silêncio a presença detestável daqueles assassinos que bebiam com a alegria de quem vai a uma festa de casamento, e nem se importavam com o homem de quem haviam tirado a vida a troco de nada.
Aqueles patifes não podiam ficar impunes, alguém precisava fazê-los pagar por todas as maldades. Mas quem? Não havia quem ousasse tentar sacar a arma para aqueles vermes. Não havia por aquelas bandas alguém com inclinação para suicídio; pois era disso que se tratava empunhar uma arma contra o pessoal do Chamas do Inferno: suicídio. Todas as autoridades e pessoas de bem estavam de mãos atadas contra aqueles sujeitos diabólicos. Talvez jamais houvesse alguém nesse mundo para puni-los.
Os presentes estavam imersos nesses pensamentos quando ouviram passos vindos de fora. Botas pesadas de couro subiam determinadamente os degraus de madeira da varanda. Talvez fosse o xerife Wilkins que, ignorando a presença dos bandidos, tivesse ouvido os tiros e viesse saber do que se tratava. Achando pouco provável essa possibilidade, mas movidos pela intensa curiosidade, com exceção dos bandidos, todos olharam para a dupla portinhola vaivém. Quando ela foi empurrada, um vulto alto surgiu da penumbra. Passou pela porta e deu cinco passos, estacando em um ponto onde estivesse sob a claridade do saloon, visível para todos.
Quando as pessoas viram o recém-chegado, o sangue gelou em suas veias. O ar pareceu estagnar. As pessoas não queriam crer nos próprios olhos.
- Mas que diabo está fazendo, velhote? – rugiu um dos assassinos quando Larry, segurando a garrafa com mãos trêmulas ao servi-lo, derramou rum fora do copo e molhou-o involuntariamente. Larry Parker tinha uma expressão estarrecida e seu olhar estava fixo na porta. Os bandidos ainda não tinham notado a presença do recém-chegado. Uma corista soltou um grito estridente de terror e desmaiou, desabando pesadamente sobre uma mesa. Os demais estavam desarvorados demais para ajudá-la, seus cérebros registravam uma coisa fantástica e terrível. Seus olhos deviam estar captando uma miragem. Quando os bandidos finalmente decidiram olhar para a porta, seus corações falharam uma batida, o sangue gelou e quase imediatamente o suor empapou suas testas e axilas. Se levantaram de seus lugares bem devagar, duvidando de sua visão.
- Não... não pode ser... – gaguejou o pistoleiro possuidor do Winchester 73, tremendo dos pés à cabeça – Você deveria estar morto!
Em pé, diante da porta, como uma aparição prenunciando tragédias, estava Sean Ridell mirando-os com intensidade em seus olhos cinzentos e gélidos. Ouvia o coração dos assassinos pulsando acelerados como cavalos a galope, jorrando adrenalina no sangue. Aspirou o cheiro que emanava deles: medo; quase um bálsamo para os seus sentidos aguçados de Renegado. Seu peito e costas ainda estavam devastados pelas balas, de modo que era possível ver a carne viva, a caixa torácica destruída, o sangue vermelho pingando no velho assoalho do saloon.  E ele estava parado ali naturalmente, imperturbável, com aquela expressão tranqüila de quem está decidindo qual drinque pedir.
Sean podia logicamente ter evitado os dois tiros, mas preferiu ser alvejado. A dor foi sufocante, todavia ele a suportou valentemente. Se tivesse matado os patifes assim que chegasse, sua vingança não teria o mesmo sabor de agora. Teria apenas feito os canalhas partirem confusos e surpresos dessa vida, e isso não era o bastante. Não depois do que tinham feito, toda a dor que haviam causado à família dos Ridell, e de muitas outras. Aqueles bandidos deveriam morrer sentindo o máximo de medo que um humano pode suportar sem enlouquecer, seus pensamentos assolados pelo pânico enquanto seus pulmões miseráveis paravam de trabalhar para sempre. Sua morte deveria acontecer em meio ao terror absoluto, os olhos quase saltando das órbitas de tanto pavor, exatamente como suas vítimas.  As mãos daqueles homens sempre praticaram o mal contra os inocentes, os indefesos. Era hora do castigo, principalmente se o mesmo viesse do inferno.
O Renegado olhou com escárnio para seus trêmulos adversários. Os integrantes do Chamas do Inferno eram iguais a quaisquer outros pistoleiros: supersticiosos e covardes,  quase sempre faziam mal apenas a quem não podia revidar. Agora que tinham diante de si um fantástico inimigo que não os temia, estavam apavorados. Não eram habituados a estar no lugar da caça.
- Como pode ser isso? – repetiu o bandido que atirara, gritando histericamente enquanto apontava o dedo em riste para a figura dantesca na porta – Você levou dois tiros do meu rifle!!!
- Eu já estava morto quando você atirou em mim, seu idiota. – rosnou Sean ironicamente.
E então, o Renegado iniciou, bem diante de todos, um inesperado e inacreditável espetáculo. Rapidamente seu corpo começou o processo sobrenatural de regeneração. Todos assistiram com uma sensação opressiva de irrealidade enquanto o peito, a carne e os ossos daquele homem se reconstituíam miraculosamente. Cada migalha de osso voltou ao lugar, cada centímetro de carne se agregou ao tórax e às costas, cada gota de sangue regressou às veias malditas.
Enquanto seu corpo amaldiçoado se curava velozmente, Sean Ridell fitou seus oponentes com um olhar injetado, mais apropriado a um homem louco.
- “E adoraram o dragão que deu à besta o seu poder; e adoraram a besta, dizendo: Quem é semelhante à besta? Quem poderá batalhar contra ela?" – recitou cinicamente. A seguir, exibindo um sorriso que faria gelar o sangue do homem mais destemido do Oeste, acrescentou – Apocalipse, capítulo 13, versículo 4.
Quando Sean citou a Bíblia e sorriu daquele jeito, o bandido ficou intimamente grato por Larry ter acidentalmente derramado rum em sua calça, porque a mancha de umidade causada pela bebida camuflou uma segunda mancha escura e úmida que surgia na região de sua virilha sem que ele tivesse podido evitar. O sorriso de Sean tinha sido bestial: seus dentes estavam cobertos de sangue enegrecido, e dois filetes desse sangue escorreram pelos cantos de sua boca. A imagem daquele sorriso sangrento ficou gravada no fundo da retina de todos os presentes, e com certeza seria motivo de pesadelos para muitas pessoas durante longos anos.
Instante depois, a regeneração estava finalizada. Não havia mais sinal de ferimentos animalescos no corpo de Sean Ridell. Até mesmo suas roupas estavam mais uma vez intactas, como se não tivessem destroçadas juntamente com pele, carne e ossos. Quem chegasse ao saloon naquele exato momento jamais diria que aquele homem de pé diante da porta recebera dos tiros de um rifle de pesado calibre poucos minutos antes. Para todos os efeitos, os projéteis nunca haviam atingido o forasteiro. Era como se o tempo tivesse apagado de sua linha a cena daquele jovem sendo baleado diante de todos.
Os integrantes do Chamas do Inferno estavam apalermados pelo horror, totalmente à mercê da ira do Renegado. Ao fim da reconstituição sombriamente mágica de seu corpo e suas roupas, Sean cuspiu algo aos pés dos bandidos, e eles quase desmaiaram ao ver que se tratava das duas balas do Winchester, e que elas ainda fumegavam. Sean sorriu de novo para eles, e dessa vez eles notaram que agora seus dentes estavam limpos e brancos, já que a regeneração devolvera às suas artérias todo e qualquer vestígio de sangue que estava escapando de seu corpo pelas feridas brutais.
Dentro do saloon, ninguém dizia palavra. Todos estavam pasmos demais. Quando ouviram um gemido de pavor, olharam para Larry e perceberam que ele abria e fechava a boca tentando falar, mas sem conseguir emitir som. A garrafa de rum escapuliu de seus dedos e se estilhaçou ruidosamente contra o assoalho do saloon, espalhando seu líquido. Por fim, respirando com força, Larry estendeu o dedo trêmulo em direção a um canto do saloon. Todos olharam, inclusive Sean. A luz fraca do ambiente desenhava na parede a sombra de Ridell, mas eram duas as silhuetas que eles viam projetadas: um homem alto e morbidamente magro, de cujas costas surgiam duas grandes asas quebradas e pendentes, carregando nos braços um homem alto e forte de chapéu, sobretudo e botas de cowboy.
A visão daquelas sombras aterradoras mergulhou o pobre Larry Parker na inconsciência, e logo ele esparramou-se no chão, ocupando um lugar ao lado da corista que desmaiara pouco tempo antes.
Com muito esforço, os bandidos puderam controlar um pouco o pânico e gradativamente passaram a recuperar seu sangue frio, o qual retomaram apenas parcialmente. Miraram Sean atentamente, os olhos semicerrados, as mãos pendentes ao longo do corpo, os dedos se agitando sugestivamente próximos das coronhas de seus revólveres. Os segundos pareciam correr com a lentidão de um século. Sean estava atento, imóvel, apenas seus olhos cinzentos e implacáveis se moviam, estudando minuciosamente os rostos dos patifes. Sua audição antinatural acompanhava a respiração descoordenada e os desenfreados batimentos cardíacos dos quatro homens diante de si, tentando descobrir o momento em que eles iam sacar. Os presentes, de olhos esbugalhados, acompanhavam a cena sustendo a respiração, com medo de que o som da mesma influenciasse no desfecho do duelo iminente. Estavam torcendo pelo sucesso do incrível forasteiro, embora não entendessem porque ele ainda não fazia menção de sacar, as mãos relaxadas e tranqüilas mantidas bem longe dos coldres.
Então, Sean leu nos olhos do primeiro bandido da esquerda a clara intenção de puxar a arma. O olhar gélido do bandoleiro transmitia morte. O momento crucial chegara. Os pistoleiros, que estavam de pé lado a lado, enfrentaram o medo e sem mais delongas foram às armas. Apesar da estranheza dos últimos acontecimentos e do medo que oprimia seus corações, estavam confiantes. Afinal, aquele maluco dos diabos, por mais habilidoso que fosse, não poderia nunca vencer em duelo quatro assassinos profissionais de uma só vez. Era o que ensinara a lógica durante todos os anos de impunidade em que, para eles, matar era tão natural quanto respirar. Entretanto, o que eles ainda não sabiam, é que essa lógica em que acreditavam não servia quando em duelo com um homem amparado pelo próprio diabo.
Enquanto os homens iniciavam o saque, Sean Ridell se adiantou. Com um brilho psicótico nos olhos cinzentos e glaciais, ele valeu-se de suas habilidades sobrenaturais para empunhar seus revólveres infernais. Sentia a pressão horrenda e constante da mão esquelética de Abigor sobre seu ombro, que se mantinha presente, mas invisível a olhos humanos.  Os miseráveis estavam já puxando as armas dos coldres quando o Renegado se moveu. Ele jogou rapidamente as orlas de seu sobretudo para trás, a fim de que suas mãos pudessem chegar mais facilmente aos coldres na cintura, e o som farfalhante provocado por esse gesto lembrou o bater de asas de um morcego. Com o elegante e sombrio casaco ajustado ao corpo, enquanto as extremidades vermelhas do sobretudo ainda flutuavam atrás de si, realizando um movimento impossível de ser acompanhado com a vista, Sean Ridell sacou e levantou as armas. A premissa de todo mágico, de que a mão é mais rápida do que o olho, era correta. Para os bandidos, os revólveres tinham surgido como que por encanto nas mãos daquele forasteiro que haviam subestimado, porque ele já tinha as armas em punho enquanto eles terminavam de erguer as suas. Sentiram-se ridicularizados pela extrema velocidade daquele fabuloso homem, e o ódio os cegou enquanto tentavam apertar os gatilhos. Mas, apesar de toda a sua famigerada rapidez, dessa vez os membros do bando Chamas do Inferno apenas tentaram disparar suas armas.
Ainda hoje, se você perguntar aos habitantes mais idosos do Kansas a respeito, gratos por conseguir um ouvinte para essa fantástica história, eles contarão a você como há pouco mais de cem anos, dentro de um saloon de uma cidadela chamada Conquest City, a qual nem existe mais, aconteceu um duelo que marcou a história do estado, talvez até mesmo do país. Eles dirão a você como, diante de dezenas de testemunhas, um homem sozinho derrotou quatro perigosos elementos que tinham, cada um, mais de quinze mortes nas costas. A seguir, eles te explicarão que aquilo somente aconteceu porque o tal homem fora enviado por forças obscuras ali, a fim de exterminar aquelas ervas daninhas que tiravam o sossego das pessoas decentes. Num mundo descrente como esse atual, as pessoas riem na cara dos velhos do Kansas que contam essa história; talvez por isso eles fiquem tão felizes quando alguém se dispõe a ouvi-los e talvez oferecer crédito ao seu relato, porque, posso garantir, eles estão absolutamente certos quanto ao que dizem, justamente por ser verídica a sua narrativa.
 No momento do duelo, aquele homem não era mais Sean Ridell. Naquele exato instante, ele se fundiu completamente a Abigor, e apertou os gatilhos assumindo plenamente sua identidade maldita como o Renegado. Seus Colts, fabricados no inferno, vomitaram um furacão de chumbo e fogo sobre os bandidos. Os Colts negros rugiram monstruosamente como cães do inferno, e línguas de fogo vermelho-alaranjado surgiram na boca das armas, antecedendo a fuzilaria intensa que veio a seguir. Mais incrível que a velocidade diabólica do Renegado, foi a sua habilidade para desfechar os tiros, porque, como enfrentava quatro pistoleiros, enquanto disparava, os canos de seus Colts infernais tiveram de mudar de ângulo com uma rapidez e precisão inéditas até então naquela região. Os três primeiros pistoleiros, em pânico, morreram sem conseguir acionar o gatilho uma única vez. Foram materialmente varridos e destruídos pelo chumbo fervente. Nenhum dos presentes conseguiu contar a quantidade de balas enviadas pelo forasteiro aos crápulas, tão rápida foi a sucessão de tiros. Mais tarde, quando foram verificar os corpos crivados, eles estavam completamente irreconhecíveis, e tal era a quantidade de perfurações sangrentas em suas carcaças, que um desavisado diria que aqueles homens tinham sido alvejados por um pelotão de fuzilamento da cavalaria, e que jamais um homem sozinho poderia causar tamanho estrago.
 Um dos bandidos ficou pregado na parede pelos disparos, e depois escorregou para o chão, onde permaneceu imóvel, afundado no seu próprio sangue. O segundo foi apanhado pelo vendaval de chumbo um segundo antes de conseguir puxar o gatilho. Empurrado brutalmente pela chuva de balas, seu corpo cruzou o ar em direção ao bar, voou sobre o balcão e se chocou violentamente contra a estante de bebidas, derrubando dezenas de garrafas com estardalhaço, cujo líquido esparramado pelo chão se misturou ao sangue que esguichava de seus incontáveis e letais ferimentos. O terceiro assassino, com um grito de morte sufocado na garganta, executou uma cambalhota grotesca e foi projetado de encontro a uma mesa onde se jogava o pôquer, de modo que morreu em meio a uma chuva de cartas de baralho.
O quarto bandido, que era o dono do Winchester 73, curiosamente foi momentaneamente poupado: as balas enviadas a ele apenas o desarmaram, levando seus revólveres para longe. Com um grito de fúria, rapidamente alcançou o poderoso rifle e o engatilhou o mais velozmente que pode, já o erguendo. Apontou a arma para o local onde estava Sean e disparou sem hesitar. O rifle ribombou, mas a bala se perdeu no vazio, pois o forasteiro já havia desaparecido. O bandido ficou confuso. Como podia ser aquilo, se ele não demorara mais que cinco segundos para empunhar a arma e disparar? Um homem não poderia se mover tão rápido! O assassino prendeu a respiração, aterrado, quando descobriu um pouco tarde demais, que o inimigo ressurgira às suas costas. Esperneando como um garoto assustado, o bandido apenas pode assistir enquanto o braço musculoso do Renegado envolvia seu pescoço e o imobilizava num aperto asfixiante e inescapável, obrigando-o a largar o rifle. Prestes a desmaiar de terror, o membro do Chamas do Inferno sentiu o cheiro opressivo de enxofre antes de ouvir aquela voz infernal junto dele com um tom falsamente cordial, perigosamente acariciante:
- Só deixei você respirando até agora por um motivo: dizer-lhe meu nome. Assim vai ser mais fácil para o Diabo identificar você e seus companheiros quando chegarem ao inferno. Chamo-me Sean Ridell, mas pode explicar que foram mortos pelo Renegado. Sou conhecido assim por lá.
Dito isso, sem esperar mais e fazendo uso de seus atributos sobre-humanos, Ridell torceu brutalmente o pescoço de sua vítima, fazendo com que a cabeça, com um estalo sinistro, girasse num ângulo de 180º. A cara do assassino, paralisada de horror na hora da morte, ficou horrendamente virada para trás, trocando de lugar com a nuca.
Em seguida, Sean soltou o corpo do quarto pistoleiro, que ficou estendido tragicamente no chão, o pescoço estranhamente torcido. Nesse ínterim, ouvindo o tiroteio e a algazarra, um dos dois bandidos restantes imaginou que seus amigos podiam estar precisando de sua ajuda e se ergueu do leito que compartilhava com uma bela corista, em um dos reservados no segundo andar. Vestindo as roupas rapidamente, com um muxoxo de desagrado, ele abriu a porta e deixou o quarto antes do que gostaria. Estava visivelmente contrariado; o mesmo já não se poderia dizer de sua formosa companheira, que se envolveu nos lençóis, aparentemente aliviada por se livrar de tão indesejável cliente.
Descalço, sem camisa, de arma em punho e ainda terminando de abotoar a calça, o bandoleiro surgiu no alto da escada e olhou para baixo. Estarrecido, viu o estado de desolação em que se achava o saloon, vislumbrou seus amigos mortos espalhados pelo chão e ficou mudo. No momento em que ele surgiu no topo dos degraus, um forasteiro sombrio estava torcendo o pescoço de Kevin como se ele fosse uma galinha. Com os olhos disparando chispas de ódio, o bandido engatilhou seu revólver e o apontou para o homem que matara seus amigos. Estava mirando a nuca do desconhecido.



Danilo Alex