quinta-feira, 3 de maio de 2012

Jogo Maldito - Parte 5




3 de maio de 2012 – 19:30 h

Caro diário de bordo, aqui estou eu mais uma vez. Desculpe a demora, sei que já se passaram alguns dias desde a nossa última conversa, mas ando realmente atarefado ultimamente; semana exaustiva de provas, entrega de trabalhos, estudando demais. Vivo uma época comum a todos os estudantes, quando nossos cérebros sofrem tanta pressão que parecem estar prestes a pifar.
Você deve estar estranhando o horário, pois geralmente é bem mais tarde quando me ponho a escrever. Costumava passar esse tempo jogando ou navegando pela internet, mas ando sem disposição para essas coisas, amigo diário de bordo. Toda essa situação inimaginável tem drenado minhas forças de tal modo que meu vigor juvenil de agora é mero reflexo opaco da energia que eu possuía até mês passado. O tormento mental de quem sempre duvidou das coisas e se depara com o sobrenatural é infinitamente maior do que o das pessoas as quais sempre acreditaram que o mundo vai muito além do que se vê. Elas estão um passo à minha frente, pois seu modo de pensar as preparou para ocasiões bizarras como as que tenho vivenciado.
Lembra de quando eu citei para Carlos uma frase de Maquiavel, e quando eu te disse que ele era meu pensador favorito, caro diário de bordo?Pois é, começo a perceber que nem sempre os fins justificam os meios, porque, por vezes, os meios podem vir a ser o nosso fim. Literalmente. Nesse papo que teremos hoje, você entenderá porque me convenci disso.
Retomando nossa apocalíptica narrativa, depois daquela noite que contei em suas páginas, caro diário de bordo, acrescentou-se mais um motivo para a minha insônia. Por mais que tentasse, não conseguia esquecer Julia nem por um segundo. As circunstâncias estranhas e sombrias em que nosso beijo aconteceu não me incomodavam. O contexto não importava; apenas o acontecido.  O momento ficou gravado em minha retina, e eu o revi milhares de vezes deitado em minha cama, fitando o teto, sem conseguir pregar os olhos. Sentia uma felicidade que gostaria de eternizar, e (pasme, amigo diário) na época cheguei a ser grato a Arthur, por ele estar, ainda que involuntariamente, me aproximando da garota que eu curtia.
Diário de bordo, meu companheiro encadernado, hoje tenho consciência que eu deveria ter parado aquela brincadeira mortal. Deveria ter dado um sumiço no meu tabuleiro Ouija de uma vez. Hoje eu sei que seria o certo a se fazer na época, mas agora pode ser tarde demais.
Ciente dos perigos oferecidos pelo tabuleiro, assim que tivemos tempo livre, reuni o pessoal para jogar novamente. Eu queria estar mais perto de Julia, queria que a noite em que fomos à sorveteria e ao cemitério se repetisse muitas e muitas vezes. E então joguei com minha vida, e a vida de meus amigos. Assumo isso e me arrependo amargamente, caro diário de bordo. Jogamos outras vezes, mas Arthur só se manifestava quando Carlos estava presente. Aparentemente, só eu reparei isso. Portanto, apesar da relutância do meu melhor amigo, a próxima partida, a qual irei narrar agora, aconteceu na casa dele.
Carlos era para mim um amigo como Lancelot era para Arthur Pendragon, mais conhecido como rei Arthur. Eis aí um Arthur de quem gosto de falar, caríssimo amigo diário de bordo. Pelo que se pode ver nos livros e filmes que retratam a lenda, Lancelot e Arthur eram amigos inseparáveis. O rei parecia ser um homem arrojado, valente, e algumas vezes até precipitado. Por isso, às vezes, ele e Lancelot se desentendiam. Então, Arthur, movido por seu altruísmo, senso de justiça e espírito aventureiro, lançava-se intrepidamente nas mais perigosas situações para ajudar alguém. E Lancelot, embora contrariado, sempre o acompanhava; não porque concordasse integralmente com as ações do rei, mas por ser seu melhor amigo.
E era assim que eu via meu bom amigo Carlos: como o Lancelot que o destino colocara em meu caminho. Não que eu pudesse exatamente me comparar ao soberano de Camelot. Um rei jamais submeteria seu povo a riscos desnecessários. E foi justamente o que, de modo impensado, fiz.
Na tarde em que chegamos à casa de Carlos, seus pais tinham saído. Estava sozinho lá, e mal pode ir nos atender à porta. Estava muito resfriado, e seus excêntricos óculos se equilibravam sobre seu nariz grande e então vermelho, por causa da violenta gripe. A todo momento precisava cobrir a boca e o nariz com um lenço para poder espirrar, e conversava conosco meio entabulado, por estar fanho e fungando repetidamente. Carlos só concordara com aquilo porque eu insistira demais, alegando sobre a presença da Julia e a importância de eu continuar próximo dela, do que ela gosta. Carlos Lancelot, esse deveria ser seu nome.
Rapidamente organizamos a sala de estar, acendemos as velas, montamos o tabuleiro; Julia estava tão perto de mim que eu podia sentir o perfume do cabelo dela. Carlos decidiu não participar, quis apenas assistir, mas eu não concordei. Ele olhou para mim por cima dos óculos, e seu olhar era suplicante. Por um instante tive pena do meu amigo: ele estava ali, sofrendo com o resfriado brutal, tentando ser gentil, lutando para ser o anfitrião perfeito, apesar de sentir o corpo dolorosamente pesado e a cabeça fervendo. Cedera aos meus caprichos concordando com que jogássemos em sua casa e ainda fazia questão de tentar nos entreter com sua presença. Era a pura imagem do auto-sacrifício em nome da amizade. Mas eu não respeitei a única vez em que ele quis dizer não.
O seu sacrifício era por um bem maior, conforme eu imaginava. Eu sabia que, se Carlos não estivesse sentado conosco ao redor da mesa, Arthur não viria até nós. Com uma careta seguida de desagrado, ele veio sentar-se conosco. E eu não deveria ter feito isso, caro diário de bordo. Não devia ter pedido isso a ele nunca. Eu devia ter protegido o meu amigo Carlos e falhei. Ele era Carlos Lancelot, mas eu nem cheguei perto de ser Pablo Pendragon. O peso da culpa é a minha punição; o meu flagelo, minha maldição.
Embora um pouco assustado com as atuais circunstâncias, eu não me interessei em pesquisar sobre o uso correto do tabuleiro Ouija. E assim, fiz meu amigo Carlos, que estava adoentado, sentar-se à mesa, às voltas com o jogo maldito. Cumpridas os ritos iniciais, demos início ao jogo. Diante da primeira pergunta, a temperatura do local pareceu ter caído dez graus e a escuridão tornou-se mais densa ao redor das chamas das velas. Luzes tremeluziram em toda a casa e uma gelada corrente de ar percorreu a residência, batendo janelas e fazendo bruxulear a claridade das velas. Sob nossos dedos, a palheta se moveu vagarosamente para indicar a resposta. Arthur se identificou e foi saudado pelo grupo.
Nos primeiros cinco minutos tudo transcorreu, dentro do possível, nas asas da normalidade. Entretanto, em dado momento, senti um deslocamento de ar que ia da palheta até Carlos, como se alguém estivesse passando. Aparentemente, apenas eu percebi isso. Em seguida, Carlos fechou os olhos úmidos pela gripe e sua cabeça pendeu sobre o peito, como se houvesse pegado no sono repentinamente. Nossos amigos acharam engraçado e ficaram zoando, mas eu franzi a testa, intrigado. Carlos não era assim. Por mais cansado ou doente que estivesse, nunca o vira cochilando sentado desse jeito, principalmente perto de muitas pessoas. Chamei-o pelo nome algumas vezes, mas ele não despertava. Segurei então seu ombro direito e o sacudi de leve. Então ele acordou sobressaltado, olhando para nós com estranheza e certo receio, como se não nos conhecesse. Piscou os olhos, sonolento, e depois disfarçou um bocejo cobrindo a boca com o lenço. Pediu desculpas pela rápida soneca e, para meu total espanto, sugeriu que continuássemos jogando.
Durante a resposta da pergunta seguinte, notei que algo estava errado. Diferentemente de antes, percebi que alguém do grupo, de modo extremamente hábil, estava manipulando o ponteiro. Prestei bastante atenção na jogada seguinte e fiquei perplexo. Dessa vez, embora quase imperceptivelmente, Carlos estava movendo a palheta. Ele trapaceava dissimuladamente, de modo que ninguém na mesa, com exceção de mim, percebeu a manobra. Por que raios ele estava fazendo isso? Ou melhor dizendo, por que raios ele estava fazendo isso somente agora? Essa pergunta não conseguia me aproximar de nenhuma explicação plausível, aceitável. Carlos sequer gostava de jogar no tabuleiro Ouija, logo, não havia motivo para ele querer trapacear.
Olhei nos olhos dele, mas vi naturalidade apenas e... o que era aquilo? Seus olhos brilhavam de modo diferente, de maneira que um calafrio inexplicável subiu pela minha espinha. Eu sentia um misto de espanto e raiva; depois chamaria Carlos à parte e perguntaria por que ele estava agindo daquele modo, querendo manipular o jogo. Quando paramos de jogar, fui conversar com Carlos e ele, me olhando de trás dos óculos, apenas disse que não estava trapaceando em nada e agradeceu pela visita, sutilmente me mandando embora. Pasmo, sai sem me despedir.
Fiquei matutando muito tempo, Carlos não era assim. Que estaria havendo? Aquilo foi realmente estranho. Na época, eu não fazia idéia do que se passava. Caro diário de bordo, eu não era ainda capaz de entender que, naquela noite, abríramos a caixa de Pandora.
No dia seguinte, Carlos estava estranho na escola. Mal conversou conosco, não estava usando óculos e seu penteado havia mudado. Parecia outra pessoa. Achei que ele estivesse passando por algum tipo de crise de identidade, ou algum assim, e perguntei se ele queria conversar. Carlos se mostrou totalmente arredio. Disse que não era nada, e despediu-se dizendo que tinha muito a fazer. Definitivamente havia algo errado com ele.
Imaginei que Carlos estivesse irritado pelos transtornos trazidos pelo resfriado. Mas logo ele se curou, e continuou o mesmo: desconfiado, mal humorado, distante. Durante as aulas, passei a observá-lo atentamente e o descobri algumas vezes aéreo, seu rosto denotando uma indecifrável confusão. Caro diário de bordo, aquele garoto distraído, mordendo a tampa da caneta, apoiando o rosto na mão e olhando fixamente para a parede durante a aula de física não poderia ser meu amigo Carlos Bragança. Ele adorava física!
Nos intervalos, enquanto nosso seleto grupo de jogadores se reunia para conversar animadamente a respeito de Arthur, eu me preocupava com Carlos. Meu melhor amigo continuava me rechaçando, e eu não conseguia entender o motivo. Ele me olhava com desconfiança, com certo ódio, como se eu soubesse algum segredo seu, que ele quisesse muito esconder. No começo, ele maltratava apenas a mim, mas depois, embora dissimuladamente, ele começou a fitar com ódio o restante do grupo. E na mira desse disfarçado ódio sem fundamento também estava Julia.
Enquanto fervia minha mente tentando entender o que se passava, as rodadas com o tabuleiro Ouija iam acontecendo, e o mais estranho era o fato de Carlos agora ser o principal incentivador para tal. Ele quem chamava o pessoal para as reuniões, e esses eram os poucos momentos em que ele saía de seu silêncio e quietude de ultimamente. E durante as brincadeiras macabras, Arthur se mostrava sempre ser bondoso e gentil, além de extremante paciente com todas as perguntas que lhe eram dirigidas. Estaria sendo ele sincero, ou apenas mascarando suas reais intenções? Sem falar que, ainda era Carlos que estava manipulando as jogadas. Toda vez que eu pensava em contar ao pessoal o que estava havendo, ele parecia ler meus pensamentos e me lançava um olhar cheio de ódio, o qual fazia com que eu me calasse, espantado. Mas, aos poucos, as pessoas passaram a perceber o que ocorria, passaram a compreender que alguém da mesa estava jogando como se fosse o espírito.
Foi nessa mesma época, querido diário de bordo, que as coisas realmente ficaram sérias. Carlos saiu com mais dois integrantes do nosso grupo: Fábio, o dono da casa onde Arthur se manifestara pela primeira vez, e Tina, a garota dona da casa na qual Arthur se manifestara pela segunda vez. Então Carlos, Fabio e Tina foram a um barzinho no centro da cidade. Como saíram em uma noite do meio de semana, apenas Fabio e Tina puderam, ou quiseram, acompanhar Carlos. O tal barzinho era novo, freqüentado amplamente pela juventude devido sua proximidade da faculdade, bem ambientado. Como Fabio era habilitado, os três foram no carro do pai dele, uma Zafira novinha, preta.
Na manhã seguinte, recebemos a terrível notícia. Estávamos na escola, no primeiro horário, quando a supervisora, lívida, invadiu nossa aula de biologia e despejou a notícia que nos paralisou. Caro amigo diário de bordo, entre todos eu fui, particularmente, o mais atingido pela novidade trazida pela supervisora.
Durante a madrugada, nossos três amigos voltavam do referido bar. Todos estavam embriagados, e esse fator me chocou muito, pois eu sabia que Fabio era um sujeito responsável, jamais faria tal coisa, principalmente por estar na direção do veículo. Mas estavam o três, Carlos, Tina e Fabio extremamente alcoolizados. Por isso, Fabio dirigia de modo irresponsável. Os peritos afirmaram que a Zafira transitava a aproximadamente 80 km / h pelas ruas da cidade, quando a velocidade máxima permitida, dependendo da via, é de apenas 60 km/h.
Em uma esquina a poucos quarteirões da casa de Tina, segundo o depoimento de testemunhas, Fabio avançou o sinal vermelho sem nem ao menos reduzir a velocidade. Um caminhão da coleta de lixo, obedecendo ao sinal verde, atravessava o cruzamento naquele momento quando a Zafira preta surgiu veloz à sua frente. Com os faróis do caminhão atingindo seu rosto, Fabio, assustado, conseguiu utilizar alguma coisa de seus reflexos prejudicados pelo álcool. Segurando firme o volante, Fabio conseguiu desferir um golpe de direção para a direita. Patinando, já descontrolada pela velocidade e pela guinada brusca, a Zafira preta e lustrosa conseguiu escapar de colidir brutalmente com o caminhão, mas, cruzando velozmente a rua durante a manobra, encontrou um poste. A frente da Zafira, totalmente destruída, assemelhava-se a uma sanfona. Uma calota soltou-se das rodas e rodopiou sinistramente pela rua algum tempo.
As casas das proximidades estremeceram com o impacto, acordando uma vizinhança assustada. A batida foi tão forte que o impacto pôde ser ouvido a quarteirões de distância. No local não havia marca de frenagem no asfalto, indicando que a Zafira atingira o poste a 80 km / h, como se fosse um míssil tripulado. Com o monstruoso impacto, Tina, que estava sentada no banco de passageiros da frente e não utilizava o cinto de segurança, atravessou o vidro do pára-brisa e caiu a muitos metros de distância. No caso dela, apesar das diversas fraturas, a morte aconteceu porque o pescoço se quebrou na queda.
Quanto a Fabio, nem mesmo o sistema de Air Bags foi capaz de salvá-lo, já que também não usava o cinto. Bateu violentamente a cabeça contra a janela e seu crânio se esfacelou. Havia sangue por toda parte. Tina e Fabio já estavam mortos quando o socorro chegou. O único sobrevivente foi Carlos, porque ele se achava no banco traseiro, usando cinto de segurança e estava sentado exatamente atrás do assento de Tina. Na batida, o cinto e o assento da frente amorteceram o impacto devastador, de modo que ele sofreu apenas algumas escoriações, ficou um pouco zonzo e teve uma leve torção no pescoço.
Quando a supervisora parou de falar, um silêncio sepulcral se apossou da sala de aula. Os outros alunos estavam tão confusos quanto eu. Era surreal demais tudo aquilo. Fabio e Tina mortos? Não, não podia ser, caro diário de bordo. Fabio tinha pedido para eu explicar-lhe a matéria da prova de inglês do dia seguinte, e eu ainda estava com o caderno de História de Tina, o qual ela me emprestara para que eu copiasse o conteúdo que perdi no início da semana, quando faltei por não estar me sentindo bem. Eles não podiam simplesmente ter ido embora desse mundo, ainda de maneira tão trágica, e em circunstâncias tão estranhas.
Obviamente fomos dispensados das demais aulas e seguimos para nossas casas. O dia, que estava tão bonito, de repente se tornara tão triste, caro diário de bordo. As cores tornaram-se desbotadas e não houve mais motivo para que o riso estivesse em nossos lábios durante muito tempo.
Chegando em casa, belisquei um café da manhã. Empurrei um pouco de comida goela abaixo, mesmo contra a vontade, pois o dia seria longo e eu precisava estar firme para enfrentá-lo. Minha mãe me levou de carro até a agência funerária onde os corpos de nossos amigos estavam sendo velados. Com meu coração ruindo no peito, e pensando numa torrente de palavras de conforto, mas sem encontrar nada de realmente útil que pudesse ser dito, eu cumprimentei os familiares de Fabio e Tina, que evidentemente estavam inconsoláveis.
Caro diário de bordo, se há algo que me incomoda, é um velório. Pessoas chorando convulsivamente, outras conversando em voz baixa, aquela atmosfera insuportável de dor, aflição. Velas enormes ardendo, o cheiro de arranjos de flores, cartazes com mensagens de paz e esperança, pessoas que realmente se solidarizavam com a dor da família, e outras que morbidamente apareciam apenas para saber quem tinha morrido, e depois saíam comentando. E também, é claro, os caixões sobre os suportes metálicos no centro da sala. Os rostos de Fabio e Tina sob o véu quase transparente que encobria os esquifes. A maquiagem feita pelos agentes funerários tentando disfarçar os ferimentos abundantes nos rostos lívidos, mas serenos. Meus amigos estavam mortos, e com eles, os seus sonhos.
Fabio não ia mais prestar vestibular para Direito, conforme tanto queria, e Tina não poderia mais fazer seu intercâmbio no Canadá no começo do ano seguinte, conforme já vinha se preparando intelectual e financeiramente. E nenhum daqueles jovens completara dezenove anos de idade. Lágrimas quentes escorreram por minha face, assim como elas escapam de meus olhos nesse momento e molham suas páginas, meu amigo encadernado, enquanto me lembro daqueles momentos tão tristes.
Eu não conseguia compreender, amigo diário de bordo. Se, como tantos dizem, há um Deus, como Ele poderia permitir uma coisa dessas? Bem sei que é a ordem natural da vida que tudo um dia tenha fim, mas, dois jovens de dezoito anos? Por que eles tinham de ir agora? Por que as pessoas boas se vão, e as ruins continuam vivas e boas, para continuar praticando o mal contra o próximo? Enquanto eu pensava em todas essas coisas, vi quando Carlos chegou. Ele usava um colar cervical azul, para imobilizar o pescoço machucado. Só estava ali por muita insistência, e porque prometera aos médicos que, assim que nossos amigos fossem enterrados, ele voltaria imediatamente para o hospital, onde deveria permanecer em observação e realizar mais alguns exames. Isso, sem mencionar que ele ainda precisava prestar seu depoimento à polícia.
Carlos olhou para mim com desdém e se aproximou dos caixões. Denotava uma tristeza que não me parecia sincera. De cabeça e olhos baixos, recebia abraços dos nossos colegas, que tentavam confortá-lo também. Então, caro diário de bordo, algo horrendo e inexplicável aconteceu.
 Quando Julia se aproximou para abraçá-lo, ergui os olhos e observei a cena. Distando de mim uns três metros, estavam os dois. Julia estava de costas para mim quando se inclinou para envolver Carlos em seus braços de modo consolador. Eu podia ver o rosto de Carlos pousado no ombro dela. Então, enquanto era abraçado, ele olhou para mim. E o maldito... sorriu! Acredita nisso, caro diário de bordo? Esboçou um sorriso sinistro, como se toda aquela situação angustiante o divertisse. Ninguém mais percebeu isso, apenas eu. Ele olhou para mim, para que eu recebesse a mensagem.
Com o sangue fervendo nas veias, tive vontade de ir até lá, arrancar o canalha dos braços de Julia e esmurrá-lo até que meus braços perdessem as forças, mas me contive; a custo, confesso. Então algo em minha mente estalou e comecei a refletir. Mais tarde, caríssimo diário de bordo, depois de toda a dolorosa tristeza do enterro, com a mãe de Tina desmaiando no momento do sepultamento e o pai de Fábio chorado ajoelhado no chão e escondendo o rosto nas mãos, cheguei em casa e vim para o computador. Como um autômato, acessei a pasta de downloads e procurei pela foto que tiramos na casa de Fabio na primeira vez que Arthur se manifestou. Algo me dizia para olhar essa foto. Eu não saberia dizer o que, mas obedeci. Foi instintivo.
Quando a foto surgiu no monitor, caro diário de bordo, me assustei. Ainda estavam lá as dez pessoas, incluindo Arthur, mas algo havia mudado terrivelmente. Os rostos de Fabio e Tina estavam desfocados, irreconhecíveis. Arthur estava no lugar de Carlos e o décimo rosto, que flutuava acima de Julia, era o de um apavorado Carlos. Ocupando o lugar do meu melhor amigo, Arthur agora parecia um garoto normal, de carne e osso, abraçado aos meus amigos. Carlos, ao contrário, parecia um ser espiritual, quase transparente, olhos esbugalhados, apavorado, como se tentasse pedir ajuda, mas ninguém o ouvisse. E sabe o que era pior, meu amigo encadernado?
O pior é que Arthur sorria, e o seu sorriso sinistro era o mesmo que eu vira nos lábios de Carlos durante o velório de Fabio e Tina, enquanto Julia o abraçava. Essa nova visualização da foto, com surpreendentes revelações sobrenaturais serviram para que meu cérebro embotado pudesse começar a compreender os planos de Arthur. E me fez perceber porque o restante do grupo e eu éramos uma ameaça, e estávamos todos correndo grande perigo a partir daquele momento.

Caríssimo diário, puxa vida! Escrevendo nem vejo o tempo passar; é tarde e preciso me deitar. Essas lembranças tristes levam embora toda e qualquer vontade de escrever mais a respeito, assim como trazem à tona toda a raiva que sinto do miserável Arthur e do maldito tabuleiro Ouija. Enfim, vou me despedindo, mas prometo tentar não ficar mais tanto tempo sem dar notícias. Logo estarei de volta, narrando mais e mais sobre esse pesadelo que não parece ter fim.

Até breve!

Danilo Alex da Silva


quinta-feira, 26 de abril de 2012

Jogo Maldito - Parte 4


26 de Abril de 2012 – 3:13 h

Caro diário de bordo, só tenho a você para recorrer! Acordei sobressaltado no meio da noite, perseguido por um pesadelo terrível, envolvendo meus amigos e familiares. Sonhei que a sombra de um garoto armava ciladas mortais para cada um deles, e tirava suas vidas bem diante dos meus olhos, sem que eu pudesse fazer nada para evitar. Acordei arfante há pouco, o suor empapando minha camiseta. Me ergui da cama sufocando com a mão um grito de terror preso em minha garganta seca, o qual escapou em forma de soluço. Olhei o rádio-relógio sobre o criado-mudo e constatei ser pouco mais de três da manhã. Não era um bom agouro.
Segundo os cristãos, três da manhã foi a hora que o Diabo tomou para si, em oposição a Cristo, que morreu às três da tarde. Logo, três da manhã não pode ser um bom horário, já que a crença popular afirma ser quando os portões do inferno se abrem, e o mal está à solta. Tomei um gole de água da jarra que sempre trago comigo antes de dormir e tateei a gaveta do criado-mudo, em busca da pequena lanterna que uso quando vou pescar com meu pai. Em seguida, vim procurá-lo, meu amigo diário de bordo. Sob o pequeno, mas poderoso facho de luz, escrevo agora furiosamente em suas páginas, como se minha existência dependesse disso, o que, de certa forma, é verdade. Escrever tornou-se minha terapia secreta, quase uma obsessiva busca pelo conforto mental.
 Meus pais se mostram cada dia mais preocupados com minha mudança de hábitos e comportamento, mas não posso falar a respeito de nada disso com eles. Não posso envolvê-los nessa história macabra, porque os amo mais que qualquer coisa nessa vida. Eles são meu tudo, e eu não permitirei, de forma alguma, que o mal venha apanhá-los. O mal quer a mim, fui eu que o desafiei, agora preciso arcar com as consequências. Sozinho.
Sentindo que as sombras me cercam, escrevo. Ilhado pela luminosidade, redijo isso que, a cada dia que passa, mais me convenço se tratar de meu testamento. Meu quarto está silencioso e meio imerso na escuridão; entretanto, sei que não estou sozinho. Posso sentir isso. Há um intruso em meus aposentos, mas não aquele tipo de invasor que pode ser impedido por janelas travadas ou portas bem trancadas. Poucas coisas nesse mundo são capazes de deter, ou pelo menos atrasar o garoto que me espia das sombras. Um garoto cujo rosto fantasmagórico vi pela primeira vez em uma foto que gostaria de esquecer.
Prosseguindo com nossa história, a qual você já pode perceber que é pavorosa, no dia seguinte perguntei aos outros integrantes do grupo se eu poderia ver a foto que veio anexa para eles, e inventei uma desculpa, dizendo que meu e-mail não tinha chegado etc. Todos eles concordaram tranquilamente, e não tinham comentado nada a respeito de uma décima pessoa no retrato que chegou para eles. Verifiquei fotografia por fotografia, e todas estavam normais, sem o garotinho que aparecera na minha. Arthur, se era mesmo ele, quisera ser visto apenas por mim. Por quê? Seria devido ao meu ceticismo crônico na época?
Relutei um bom tempo até aceitar aquele fato. Mostrei a foto para Carlos uma vez, e perguntei a ele o que ele via. Ele disse que não viu nada demais. Comparamos a minha foto com a dele, e ele disse que, a seus olhos, eram completamente iguais. Mas não eram. Para mim, não eram.
Eu podia divisar com nitidez o rosto espectral do garoto que me encarava fixamente da fotografia, o queixo ligeiramente erguido, num ângulo aparentemente petulante.
O problema então era comigo, tinha de ser. A única pessoa do grupo que não acreditava no sobrenatural fora escolhida por Arthur para ser sua testemunha. Cansei de analisar aquela foto... Scanneei-a e enviei a um amigo que é realmente talentoso lidando com esses programas como o Adobe Photoshop, para que ele a analisasse. Pouco depois recebi seu e-mail, onde ele respondia que a foto era original e estava intocada, sem nenhum tipo de montagem. Pegando meu celular, disquei o número desse amigo. Tocou duas vezes antes que ele atendesse. Agradeci pela análise rápida que ele havia feito para mim, e perguntei quantas pessoas ele vira na imagem.
Ele demorou um instante para responder, aparentemente surpreso com minha pergunta. Depois, falando devagar como alguém que dialoga com um maluco, ele disse que vira nove pessoas na fotografia.
- Por que a pergunta, Pablo? – ele indagara espantado, após alguns segundos do meu silêncio.
Respondi que não era nada, agradeci e desliguei. Meus companheiros do grupo conseguiam falar com Arthur por meio do tabuleiro, mas eu podia vê-lo em fotografias. Estremeci. O que seria aquilo? Alucinações?
No dia seguinte, tive uma surpresa agradável. No finalzinho da tarde, Julia me ligou e perguntou se eu estava ocupado. Evidentemente respondi que para ela eu nunca estava ocupado e ela riu, aquele riso cristalino e maravilhoso que ainda posso ouvir se fechar meus olhos nesse momento, caro diário. Então ela disse que, como a noite estava agradável, ela pensava em sair para caminhar um pouco, e quis saber se eu não a acompanharia. Aceitei imediatamente e combinamos que eu a buscaria em casa meia-hora mais tarde. Desligando o telefone, fui correndo tomar um banho e me arrumar. Meu pai me levou de carro até a casa dela e cheguei pontualmente. Ela estava deslumbrante, como sempre. Talvez os outros caras não vissem nada demais em Julia, mas para mim ela era perfeita. Não conseguia imaginar um mínimo detalhe nela que eu não gostasse.
Anoitecera. O céu escuro estava crivado de estrelas, como um manto negro cravejado de diamantes. A lua cheia, majestosa, se erguia vagarosamente acima das copas das árvores, das casas e dos prédios. O clima estava agradável, uma brisa refrescante soprava em nossos rostos, bagunçando os cabelos negros dela, que agora estavam soltos e revoltos. Nunca amei tanto o vento antes, porque, devido à ação dele, de tempos em tempos Julia precisava tirar o cabelo da frente de seu rosto, e sempre que isso acontecia, eu via aqueles olhos negros e brilhantes estudando meu rosto com uma atenção enigmática. Eu então, embasbacado, tinha de respirar fundo para recobrar o fôlego. Ela percebia e sorria para mim, um sorriso que, aos meus olhos, era muito mais encantador do que todo aquele céu estrelado, mais lindo que a própria lua, cuja figura prateada e descomunal se elevava gradativamente até seu trono na abóbada celeste revestida de trevas, onde ela reinaria absoluta até os primeiros raios de sol.
Íamos caminhando e conversando sobre várias coisas, mas claro que ela quis falar principalmente sobre o tabuleiro e a manifestação de Arthur. Intimamente fiquei um pouco contrariado por ter de tocar naquele assunto com Julia. Falar do tabuleiro me fazia lembrar da foto. Me fazia lembrar do rosto assustador de Arthur. Para desviar um pouco o assunto, sugeri que passássemos numa sorveteria que ficava a duas quadras de onde estávamos. Caro diário de bordo, a sorveteria se chama “Ice Crime” (isso mesmo, Crime Gelado, traduzido em português), um criativo joguete de palavras que o proprietário fez devido o original “Ice Cream”, que é sorvete, traduzindo. Então, se você, pondo os olhos no letreiro luminoso na entrada da sorveteria, ler a primeira palavra em inglês, e a segunda em português, sem perceber vai estar praticamente falando “sorvete” em inglês.
O Sr. Félix, dono da Ice Crime, é amigo do meu pai de longa data. Desde criança tomo sorvete lá com minha família, e muitas e muitas vezes o Sr. Félix me contou a história de como escolhera o nome para a sorveteria. Além do trocadilho bacana que acabei de explicar, Félix era um grande fã de filmes de gângster, sabe, caro diário? Toda essa coisa de "Os Intocáveis" e "O Poderoso Chefão", aqueles antigos criminosos do cinema norte-americano, que, vamos admitir, definitivamente são caras de estilo.  Por isso Félix batizou seu estabelecimento de Ice Crime e decorou as paredes com fotos dos atores e das cenas de seus filmes favoritos. Para mim, o sorvete de lá é o melhor do mundo, e absolutamente, é literalmente um crime deixar de provar as iguarias geladas de lá. Por isso, fiz questão de levar Julia ali.
Ao me ver, o Sr. Félix esboçou um sorriso e acenou para mim, embora olhasse um pouco assombrado para a minha companheira. Sorri; Félix era de outro tempo, não adiantaria explicar que aquela garota ali do meu lado, com seus piercings, maquiagem pesada, roupas escuras e cabelos pretos como a noite era a dona do meu coração. Acho que ele surtaria se eu tentasse dizer-lhe isso. Julia nem percebeu que o homem a estudava, tão admirada estava com a decoração bacana do lugar. Pedi dois milk-shakes: um de morango, conforme eu sabia que ela adorava, e um de chocolate para mim, já que sou chocólatra de nascença. Ambos os sorvetes eram ovomaltine. Paguei, despedi-me de Félix e deixamos a Ice Crime.
Quando estávamos caminhando novamente pela rua, ela tomou um gole do milk-shake pelo canudinho, arregalou os olhos e, suspirando de satisfação, disse:
- É realmente maravilhoso, Pablo! Como eu nunca soube desse lugar? – e com seu sorriso perfeito – Obrigada.
Caminhamos durante mais algum tempo, ela rindo como criança e me mostrando a lua cheia boiando contra o céu estrelado como um imenso balão redondo e prateado. Ela era apaixonada pela lua, assim como o era por sorvetes de morango. Terminando nossos milk-shakes, jogamos os copos no lixo e estacamos. Lambendo os lábios melecados de sorvete, ela olhou subitamente para mim com uma intensidade que me deixou rubro:
- Você é um garoto corajoso, Pablo? Gosta de aventuras?
- Bom... acho que sim – respondi desconcertado pela pergunta surpresa, sem fazer ideia de onde ela queria chegar com aquilo.
Como se lesse meus pensamentos, Julia explicou:
- Pergunto, porque estou a fim de um garoto assim para me acompanhar em uma aventura noturna agora mesmo.
Subitamente fingindo estar sério, olhei demoradamente ao redor e então pousei meus olhos nela e, dando de ombros, disse em tom de brincadeira:
- Bem, acho que você deu azar; o garoto mais perto sou eu, e você vai ter de se contentar com isso.
Rindo a valer, ela apenas se virou e fez sinal para que a seguisse. E então disparou a correr, descendo a rua. Imediatamente a segui, é claro, sem saber o que aquela maluca ia fazer. Eu tinha de fazer um enorme esforço para não rir, porque isso me tiraria o fôlego e eu não ia querer perder ela de vista. As pessoas passavam por nós na rua e se viravam para nos olhar, como se fôssemos uma dupla de extraterrestres em desabalada carreira pelas vias noturnas da cidade. Quando finalmente alcancei Julia, ela estava parada sob um poste, e a luz amarelada que a banhava delineava suas maravilhosas formas juvenis. Ela se voltou para olhar enquanto eu me aproximava, e então eu tive a impressão de que estava vendo uma foto em sépia de algum anjo noturno, propositalmente deixado na Terra para iluminar as noites escuras de caras solitários como eu. Puxa vida, isso foi poético, não foi meu amigo diário de bordo?
Quando eu já estava bem perto, Julia me mostrou o muro alto e pintado de branco à nossa frente e só então me dei conta de que a seguira até o cemitério. Sem me dar tempo para pensar, ela saiu correndo em direção ao campo santo. Com uma agilidade felina, ela escalou o muro e estacou encarapitada lá no alto, me fitando de modo desafiador. Como alguém tão pequeno pudera galgar a parede com aquela velocidade e habilidade? Provavelmente ela já fizera aquilo diversas vezes, pois a segurança que demonstrara ao saber exatamente onde apoiar os pés, conhecer cada saliência, por menor que fosse, e a precisão com que dera dois passos na parede para pegar impulso, deixavam clara a sua reincidência. Fiquei lá embaixo, boquiaberto, olhando para ela, tomado por uma sensação de irrealidade. Julia não parava nunca de me surpreender.
- E então? Você vem ou não? – ela me provocou.
- Você é maluca! – eu disse e continuei imóvel, hesitante.
- Se vier, vai ser bem recompensado. – ela disse languidamente e piscou de um modo travesso.
Cara, aquilo era música para meus ouvidos. Mal terminou de falar, ela passou as pernas por cima do muro e deixou-se cair para o lado de dentro do cemitério. Cocei nervosamente o queixo e olhei ao redor, para ver se havia alguém se aproximando. Meu pulso estava acelerado, nunca fizera algo parecido. Quando tive certeza de que não haveria testemunhas, corri em direção ao cemitério e saltei o mais alto que pude. Meus dedos agarraram-se ao topo do muro e eu fiquei esperneando desajeitadamente por alguns segundos, tentando achar apoio para os pés.
Se pudesse, sei que você riria de mim, caro diário de bordo, mas saltar o muro do cemitério foi bem mais complicado do que parecia, principalmente por minha falta de prática. Duas coisas agiram a meu favor: primeiro era o fato de eu ser alto, pois isso me ajudou, ainda que penosamente, a içar meu corpo magrelo até o topo do muro. A segunda coisa, pela qual fiquei realmente feliz, era o fato de Julia já estar me esperando do outro lado, e não poder ver a situação ridícula em que eu me achava, esperneando, até conseguir encontrar apoio para os pés.
Instantes depois, ofegante e com a barriga toda ralada, lá estava eu ao lado de uma sorridente Julia.
- Não devíamos estar aqui, você sabe – eu disse a ela em voz baixa – Se alguém nos apanhar, estaremos encrencados.
- Então não faça barulho, rapaz.  – ela disse após um sorriso divertido e fez sinal mais uma vez para que a seguisse.
Andamos por alguns minutos entre lápides entalhadas em granito, sepulturas adornadas com vasos de diversas flores, e velas cuja cera estava quase toda derretida. Anjos e santos de mármore colocados sobre os túmulos pareciam me fitar com olhar reprovador. Os grilos cricrilavam e uma coruja piou ao longe. Para a nossa sorte, a luz possante e prateada do luar iluminava intensamente nosso bizarro tour pelo campo santo.
- Por que vocês, góticos, curtem tanto esse tipo de lugar, Julia? – sussurrei para ela, enquanto a seguia rapidamente, tomando cuidado para não tropeçar em nada.
- Apreciamos o silêncio e a paz – ela respondeu também em voz, baixa, sem se virar ou parar de caminhar – Gostamos de vir para escrever, pintar, ler, ou simplesmente pensar na vida. Mas não foi por isso que eu te trouxe aqui.
Ela parou e apontou o dedo para um túmulo a um canto. Na lápide estava escrito um nome que me fez prender a respiração: ”Arthur Dias Azevedo”. Tentando não permitir que ela percebesse, estremeci. Abaixo das frases de saudade de família e amigos, havia a data de nascimento e a data de falecimento. O Arthur enterrado ali tinha acabado de fazer dezessete anos quando faleceu.
- Encontrei enquanto procurava por aqui da última vez em que vim. – ela disse, me tirando do estado de perplexidade em que eu mergulhara – Você acha que é ele, Pablo? Acha que é o “nosso” Arthur?
Fiquei um pouco zonzo quando ela perguntou isso, mas, resolutamente percorri com os olhos a sepultura até achar uma foto emoldurada, maltratada pelo tempo. Nela aparecia um garoto branco, sério, de cabelo loiro, liso e curto, algumas sardas no rosto juvenil. Também naquela foto, Arthur parecia estar olhando diretamente para mim.
- Talvez seja ele. – falei desviando a vista, enquanto engolia em seco.
Como Julia não respondesse nada, olhei para ela e a percebi muito próxima de mim, seus olhos negros refletindo intensamente a luz da lua, presos nos meus, pedindo algo. Ela me fitava de um modo diferente de todas as outras vezes. E o silêncio me disse exatamente o que eu deveria fazer.
Engraçada essa vida, não é, querido diário de bordo? Realmente irônico que o primeiro beijo na garota que gosto tenha sido em um cemitério, em noite de lua cheia, bem diante do túmulo de alguém que há pouco começara a me assombrar. Vivendo intensamente aquele momento único, esqueci-me completamente de Arthur. Preferi me concentrar no beijo de Julia, sorvendo da boca dela o gosto de morango do milk-shake da Ice Crime.
Subitamente um facho poderoso de lanterna nos atingiu em cheio. Assustados, nos voltamos em direção à luz. Um cão furioso rosnava e uma voz masculina zangada cortou o ar:
- Ei, vocês dois! Tratem de arrumar outro lugar para fazer isso, seus pirralhos! Quando eu puser minhas mãos em vocês, vou ter o prazer de entregá-los à polícia!
Sem esperar mais, corremos o mais rápido que podíamos em direção ao muro. Julia ia à frente, rindo feito uma desmiolada, e ligeira como um coelho. E eu logo atrás, apavorado, arfante, ouvindo atrás de nós os passos pesados do vigia e os latidos desvairados do cão. O bicho ainda mordeu e rasgou boa parte da barra da minha calça novinha. Apesar disso tudo, conseguimos escapar e voltamos correndo para a casa da Julia.

Caro diário de bordo, obrigado por me receber quando eu mais precisava.  Registrar em suas páginas essas boas lembranças me acalmaram, e acho que agora consigo voltar a dormir. De manhã, justo no primeiro horário tenho uma prova complicadíssima de álgebra, e nem sei como vou fazer se chegar lá na escola parecendo um zumbi. Me despeço de você, amigo diário de bordo, renovando a promessa de que logo estarei de volta para continuarmos navegando nesse oceano inescrutável e sombrio em que estou condenado a vagar desde que comprei aquele maldito tabuleiro na loja do senhor Ramón. Bem que ele tentou me avisar...
Preciso ir agora, meu amigo encadernado.
Até breve!

 Danilo Alex



segunda-feira, 23 de abril de 2012

Jogo Maldito - Parte 3


 23 de Abril de 2012 – 23 h

Olá, meu diário de bordo, meu porto seguro! Estas páginas tem sido minha pequena porção de paz, luz e consciência em meio a um mar de trevas, insanidade e perigos. Me sinto ilhado pelo mal, um mal que eu mesmo trouxe à tona, eu mesmo provoquei. Estou começando a cansar de lutar sozinho, caro diário. Se eu desistir, será que as ondas vão me arrastar para onde? Serei tragado para as profundezas insondáveis e eternas? Talvez seja melhor. Basicamente qualquer coisa parece melhor do que ter de enfrentar dolorosamente, dia após dia e, principalmente, noite após noite, esse turbilhão de coisas inexplicáveis que me rondam e me acontecem. O que será isso? Esquizofrenia? Alucinações? Estafa mental? O Mal existente desde o princípio, conforme tantas pessoas ao redor do mundo afirmam, e do qual eu tanto duvidava?
Depois daquela primeira tentativa de comunicação com o Além por meio do tabuleiro Ouija (ou tábuas falantes, segundo o dito popular), feita em minha casa, em que a única coisa que realmente valeu a noite foi o beijo no rosto que ganhei de Julia, tentamos algumas outras vezes, na casa de outras pessoas. Não obtivemos êxito, aparentemente o “mundo espiritual” estava de portas fechadas para nós, o que a cada dia apenas aumentava minha incredulidade. As pessoas que realmente acreditavam naquela baboseira pesquisaram um pouco sobre o que deveriam ou não perguntar durante o jogo, como identificar se o espírito contatado era bom ou ruim, a forma certa de se iniciar ou encerrar a brincadeira e o modo de se fechar corretamente o tabuleiro a cada partida. Mesmo assim, apesar de nossa insistência, não conseguimos nada.
Julia, ao contrário de Carlos, sempre estava presente. Não importava onde ou quando fossemos tentar a fúnebre comunicação, lá estava ela em nosso meio, ansiosa, torcendo para que algo anormal ocorresse.
Devido nossos insucessos, nosso grupo de inicialmente quinze pessoas caiu para dez, e depois para oito. Carlos nunca estava conosco, ele fazia o possível e o impossível para se esquivar de nossas brincadeiras macabras, mesmo eu tendo repetidamente lhe contado que as reuniões eram infrutíferas em seu sentido principal. Para mim, no entanto, eram ótimas, dificilmente poderiam ser melhores. Conversava já intimamente com Julia e consegui convidá-la para sair. Fomos ao cinema ver um filme de terror que ela queria assistir, e depois tomamos sorvete. Foi bem legal, gostei muito, conversamos e rimos a valer. Se rolou algo? Ainda não, Julia é uma garota bem inacessível afetivamente, quase inatingível, eu diria. A sorte é que sou praticamente incansável quando busco um objetivo. Além do que, não tenho pressa. Me considero muito jovem para namorar; só de estar perto dela já me sinto muito bem.
Há alguns dias, Carlos finalmente apareceu em uma de nossas reuniões. E foi quando tudo realmente começou. Iríamos nos reunir pela tarde, porque durante as noites estava ficando complicado de convencer os pais a nos levar, e eles começavam a desconfiar dessa nossa súbita e anormal maratona de estudos nas casas dos colegas. Quem vai entender os adultos? Se os jovens nunca se reúnem para estudar, não querem nada com a vida. E se resolvem se reunir demais, estão necessariamente aprontando alguma coisa. Eu até chamaria isso de preconceito, se em nosso caso eles não estivessem absolutamente certos.
Cumpridos os procedimentos iniciais, pousamos nosso dedo indicador sobre o ponteiro que era, na verdade, uma palheta triangular de vidro. Carlos, um tanto trêmulo, nos imitou, embora resmungasse que aquilo não estava certo, e que havia outros jogos mais saudáveis os quais poderíamos realizar. Banco Imobiliário, por exemplo. Ele era um grande fã, seu sonho era um dia se tornar um grande administrador de empresas, exatamente como o pai. Era desestimulante jogar Banco Imobiliário com Carlos, porque ele sempre vencia. Naquele tarde, entretanto, ele resignou-se a participar de nossa sombria brincadeira, um jogo que, futuramente viríamos a descobrir, podia ser tão perigoso quanto a Roleta-russa.
Carlos estava em casa quando cheguei de surpresa para buscá-lo. Sem poder inventar uma desculpa convincente, ele não teve escapatória senão concordar em ir comigo. Naquela tarde, a reunião seria na casa de Fábio, um dos integrantes remanescentes do já desanimado grupo de jogadores. Conforme o costume já adotado, o dono da casa saudou os seres espirituais que estivessem por perto, pediu permissão a eles para iniciarmos o jogo, e perguntou se havia alguém ali conosco, em espírito.
Tomamos um susto quando o ponteiro se moveu repentinamente sob nossos indicadores, encaminhando-se para a beirada do tabuleiro, e só parou quando chegou ao destino. “Sim”, foi a resposta que pudemos ler. Olhei desconfiadamente ao redor, fitando com atenção o rosto de meus companheiros, tentando descobrir quem era o espertinho que estava movimentando o ponteiro de modo a parecer que havia um fantasma por ali. Todavia, o assombro de todos era genuíno, sincero. Até Julia estava mais pálida que o habitual. Um tremor quase convulsivo se apoderara de Carlos, e pedi em voz baixa que ele se acalmasse. O que era aquilo? Não podia ser real, alguém entre nós tinha de ter movido aquela peça. Alguém de carne e osso.
Engolindo em seco, o pessoal, em uníssono, cumprimentou o espírito. Até eu me juntei ao coro, apesar de me sentir um pouco ridículo fazendo isso. Novamente o ponteiro se moveu vigorosamente sobre o tabuleiro, produzindo um som levemente rascante, mas imensamente sombrio. Dessa vez até eu senti os cabelos da nuca eriçar enquanto meus olhos liam a nova resposta, que foi “Olá”. Como podia ser aquilo? A ciência explica que o tabuleiro não tem nenhuma propriedade sobrenatural. O que acontece é que o cursor é movido inconscientemente pelos próprios jogadores. Isso se chama Efeito Ideomotor.  Sim, tinha de ser essa a explicação; depois de tanto tempo esperando que algo incrível acontecesse, os participantes do jogo começaram a manipular o resultado sem perceber. Era o inconsciente agindo para solucionar uma frustração.
Minha cabeça funcionava a mil. Podia ouvir em minha mente a razão digladiando com as sugestões do emocional, do mesmo modo que um leão, certo da derrota, ainda luta bravamente contra um bando de hienas que o tenha cercado, buscando sobreviver. Enquanto eu pensava intensamente sobre tudo isso, a galera fazia diversas perguntas ao nosso estranho e invisível visitante. 
- Qual seu nome? – quis saber Julia, animadíssima.
Mal ela terminou de perguntar, a palheta se moveu arrastando nossos indicadores consigo, mostrando uma letra por vez, até formar um nome masculino.
- Arthur... – leu Carlos num sussurro amedrontado.
- Quantos anos tinha quando faleceu? – indagou Fábio extasiado.
E lá se foi novamente o ponteiro viajando pela tábua mística. Eu queria soltar a palheta, mas algo me impedia, um magnetismo inexplicável. Para você ter uma idéia de como a palheta se movimentava, era mais ou menos como quando você coloca uma moeda sobre a mesa e um imã por baixo da mesma, sabe? Daí você puxa o imã sob a mesa, levando-o de um lado a outro, e a moeda, desliza aparentemente sozinha na superfície polida acima. Cheguei a verificar sob a mesa se alguém manipulava o jogo de uma maneira similar a essa do imã, mesmo sabendo que o ponteiro era de vidro.
 Meus olhos acompanhavam hipnoticamente o movimento da palheta, a qual naquele momento acabava de mostrar a idade de nosso interrogado. Arthur tinha dezessete anos quando faleceu. Mecanicamente olhamos todos para Carlos, pois entre nós ele era o único que ainda não completara dezoito anos de idade. Meu melhor amigo engoliu em seco.
Depois de algumas perguntas, o nosso sinistro convidado contatado pareceu perder um pouco do interesse e, em dado momento, ao invés de responder o que lhe pediram, conduziu o ponteiro para “Adeus” e não mais se manifestou naquela tarde. Então, decidiu-se encerrar a partida, e cumpriram o ritual próprio para isso. Terminada a funesta brincadeira, com exceção de Carlos e de mim, os presentes se cumprimentaram, satisfeitíssimos pelo acontecido. Carlos beirava o pânico e eu ainda não estava convencido. A meu ver, alguém entre nós tinha feito aquilo.
Julia propôs que todos guardassem segredo sobre o acontecido, pois, não era justo que as pessoas que desistiram antes soubessem da comunicação com Arthur. Segundo ela, era um mérito apenas do nosso grupinho de oito pessoas, nove contando com Carlos naquela fatídica tarde. Resolveram registrar a cena e puseram em minha mão uma máquina fotográfica de última geração, para que todos os presentes tivessem uma recordação daquele primeiro contato com o sobrenatural. Ali, na quase penumbra da sala de Fábio, entre velas e o tabuleiro, eu enquadrei meu grupo de camaradas e me preparei para tirar a foto.
- Vamos nos lembrar desse dia durante o resto de nossas vidas. – disse Julia com um sorriso encantador, segundos antes que eu os fotografasse. Ela não poderia fazer idéia na época do quão proféticas seriam suas palavras.
Acionei o botão e ouviu-se um clique. O flash percorreu a sala com a luminosidade e brevidade de um relâmpago em noite chuvosa. Estava feito. Acendemos as luzes, guardamos o tabuleiro e voltamos para nossas casas.
Quando escureceu, eu já estava em casa. Depois de fazer minhas lições escolares e tomar banho, sentei-me diante do computador, como fazia toda noite, para checar e-mails, atualizar minhas redes sociais ou simplesmente jogar on-line ouvindo um bom e velho Rock and Roll. Acessei minha caixa de e-mails e percebi que menos de cinco minutos antes Julia me enviara uma mensagem intitulada “A foto mais importante das nossas vidas”. Tranquilamente abri o e-mail e percebi que ela o encaminhara apenas para as pessoas que estavam presentes na casa do Fábio naquela tarde. A foto viera como um arquivo anexo. Cliquei para fazer o download e, durante os poucos segundos gastos para que se realizasse essa operação, aproveitei para responder um amigo que me chamava desesperadamente em um chat, em outra página do navegador.  
Instantes depois, voltei à foto, que já estava aberta e ampliada no centro do monitor. Sorri vendo os rostos sorridentes dos companheiros, admirei embevecido a face de Julia e me diverti com a expressão assustada de Carlos. Entretanto, subitamente parei de sorrir e franzi a sobrancelha. Havia algo errado.
Caro diário de bordo, desculpe minha letra tremida neste trecho da história, mas isso só acontece devido o pânico de recordar o que contarei a seguir. Havia dez pessoas na foto, quando na verdade, apenas nove tinham estado na casa de Fábio naquela tarde. Na semi-escuridão da sala de nosso anfitrião, um décimo rosto aparecia flutuando pouco acima da cabeça de Julia. Era um garoto sério, de cabelos loiros, lisos e curtos, e olhar indecifrável. Seus olhos brilhavam mais do que os de qualquer outra pessoa na foto. E o mais estranho de tudo era que ele parecia olhar diretamente para mim. Não suportei a visão daquele olhar e fechei a página imediatamente. Aquela foi a primeira noite em que não consegui dormir.
Meu caro diário de bordo, meu caderno de confissões, talvez agora você comece a compreender em que tipo de situação minha incredulidade me meteu. Se meu navio afundar, espero que estas páginas escapem ao naufrágio, para que no futuro alguém possa conhecer essa história e entender o desfecho dos personagens, que talvez seja inexplicável pela lógica humana. Finais não tão felizes de histórias como essa dificilmente são explicáveis ou compreensíveis.
Caro diário, vou parando por aqui essa noite. Era preciso contar-te a respeito dessa tarde, mas me lembrar da malfadada foto extingue totalmente minha vontade de escrever. Acho que vou descer e comer alguma coisa, talvez faça companhia ao meu pai na sala durante algum tempo; daqui posso ouvir a televisão ligada lá embaixo. Se ainda assim o sono não vier, talvez tenha de recorrer a um copo de leite ou a um calmante, como praticamente já é minha rotina. Tão logo me recupere dessas lembranças macabras e inquietantes, voltarei aqui, caro diário de bordo. Ainda há muito a contar.
Boa noite, e
Até breve!

Danilo Alex da Silva

domingo, 22 de abril de 2012

Jogo Maldito - Parte 2

   
  22 de Abril de 2012 - 21:38 h

   Caro caderno, eis-me aqui de novo, para desabafar em suas páginas. Não chamarei você de diário, porque isso é coisa de menina; a menos , é claro, que eu considerasse você uma espécie de diário de bordo. Sim, isso daria mais certo. Me sinto como um capitão de navio, enfrentando uma tempestade terrível, da qual nem o homem do mar mais experiente pode dizer se escapará com vida. Enfim, onde paramos mesmo? Ah, sim! Falávamos da minha compra na loja do senhor Ramón. 

O objeto em que estive tão empenhado em comprar, e que assustou tanto meu camarada Carlos, era aquilo conhecido como tabuleiro de ouija. Talvez você já tenha ouvido falar. Desde a antiguidade é utilizado por bruxos, adivinhos, necromantes e ocultistas para comunicação com espíritos bons e maus, e às vezes até com demônios. Uma tábua de madeira com vários símbolos como lua e sol, pentagramas, caveiras e estrelas, além do básico: os dizeres “sim” e “não” dispostos em extremidades diferentes do tabuleiro, bem como “olá” e “adeus”. Também há as letras do alfabeto e os números de 0 a 9.
 O que comprei era uma tábua plana envernizada, toda trabalhada artisticamente, tinha as bordas e a parte de baixo marrons, e a face onde ficavam as letras era mais clara, da cor da madeira, para facilitar a visibilidade. O tabuleiro era acompanhado de uma palheta triangular vermelho-escura com uma abertura circular no centro, através da qual eram lidas as letras ou palavras que a entidade invocada quisesse mostrar.
Saí da loja esfregando as mãos de contentamento, enquanto Carlos segurava a sacola com o tabuleiro, esboçando uma careta que mesclava contrariedade e receio.
- Agora, vamos aproveitar que as férias estão chegando, para marcar algumas “sessões” com o tabuleiro em nossas casas. Isso vai ser só um pretexto para Julia e as amigas se encontrem conosco fora da escola, já que essa geringonça – falei batendo com o nó dos dedos na sacola contendo o jogo – com certeza não atrai nada além de pessoas ingênuas.
- Não sei não, cara. Não sei não... – repetia Carlos inquieto, entre um muxoxo e outro de desagrado, tanto por minhas maquinações, quanto por estar segurando um tabuleiro que lhe causava emoções tão ruins.
Com um meio sorriso, dei-lhe um tapinha amigável nas costas e continuamos andando,  falando sobre  amenidades para não perturbá-lo mais.
No dia seguinte, quando contamos a novidade na escola, imediatamente nos tornamos o centro das atenções da turma. Nos intervalos dos horários ou no recreio, Carlos e eu éramos rodeados e crivados de perguntas a respeito do macabro jogo. Queriam saber se já tínhamos usado o tabuleiro, se algum espírito se manifestara, se eles também poderiam jogar conosco. Similarmente aos participantes de reality shows, de uma hora para outra ficamos famosos por uma razão esdrúxula.
Mas o melhor de tudo era que Julia quase sempre estava entre os curiosos. Carlos respondia as perguntas de modo reticente e com ar de enfado, mas eu estava adorando aquela inesperada notoriedade. Quando percebia Julia na súbita platéia, eu falava com bastante empolgação, explicava como era o tabuleiro, gesticulava, comentava como planejava jogar, o que perguntaria. E nossa popularidade subia meteoricamente, já que nossos colegas estavam cansados de improvisar com canetas e copos, e queriam mesmo era sentir a emoção de contatar um espírito por meio de um tabuleiro próprio para essa comunicação sobrenatural.
Como eu não poderia levar o jogo para a escola, porque era contra as normas, os poucos corajosos que estavam determinados a seguir até as últimas conseqüências naquela brincadeira maluca teriam de ir até minha casa. Assim que expus a idéia e vi o pessoal concordando, principalmente as garotas, incluindo uma entusiasmada Julia, olhei para Carlos e pisquei disfarçadamente, como quem diz que tudo está saindo melhor que encomenda. Mas ele abanou a cabeça com indiferença. Definitivamente meu melhor amigo não gostara da minha compra. No fundo, ele sabia que havia algo muito errado.
 Mas, como disse antes, até então essas apreensões de Carlos para mim eram mera ignorância; raízes de uma cultura que nos ensina a ser supersticiosos. Para mim, crer em presságios, espíritos ou comunicação com os mortos era algo muito mais apropriado a um camponês romeno que habitasse ao redor dos Montes Cárpatos.  Tais crenças e medos não poderiam residir no coração do homem moderno. Carlos era um garoto esclarecido, conhecedor das coisas, entendia como o universo funcionava e sabia que havia de milhares de explicações lógicas e científicas para cada situação menos usual que os fanáticos religiosos saíssem apregoando absurdamente aos quatro ventos como milagres. Carlos era meu amigo desde criança. Conversávamos sobre ciência, tecnologia, filosofia, literatura. Como ele, tão culto, poderia temer um pedaço de madeira pintada?
Procurei descobrir um dia propício para o pessoal vir até minha casa, para usarmos o tabuleiro ouija. Logo soube que no sábado meus pais precisariam ir até a cidade vizinha, visitar um tio meu que andava com problemas de saúde. Foi tranqüilo convencê-los de que eu precisava ficar em casa para estudar, que era semana de prova e que meus amigos viriam fazer trabalho de escola. Como sou filho único, eles se mostraram um pouco preocupados, mas eu expliquei que ficaria bem e que, havendo qualquer problema, eu ligaria imediatamente para eles. Na sexta à tarde então, faltando pouco para o anoitecer, eles entraram no carro e partiram, não sem antes eu ouvir milhares de recomendações de minha mãe e receber no mínimo dez abraços de urso do meu pai. Ser filho único é bacana na maior parte do tempo; entretanto, algumas vezes é um saco. Eles me tratam como criança, detesto isso.
Depois que o Siena prata da minha família partiu suavemente e dobrou a esquina, levando consigo meus pais, que só voltariam no dia seguinte pela tarde, eu entrei radiante e esperei pela chegada dos amigos da escola. Apareceram quinze pessoas, sendo oito meninos e sete meninas. Se Julia veio? Claro que sim! Eu sabia que ela não perderia aquilo por nada nesse mundo.
Eu tinha preparado a sala de estar para jogarmos. Acendi umas velas dispostas em círculo pela sala e diminuí um pouco a intensidade das luzes, gerando uma semi-escuridão, para criar um clima. Antes do jogo, conduzi meus convidados até a cozinha. Ali, ao som de World of Glass, do Tristania, degustamos uma taça de vinho tinto espanhol que Julia trouxera.
- Esse é o melhor que há. – ela dissera suspirando após um gole, erguendo a taça contra a luz para fitar inebriada o líquido escuro e carmesim.
Acho que o vinho que ingeríamos era uma alusão ao sangue. Góticos, adeptos de cultos vampirescos e cristãos parecem ter isso em comum. Bem, de qualquer forma, percebi que Julia entendia a degustação do vinho como uma das partes do rito de preparação para o contato com o sobrenatural. Puxa vida, ela era mais maluquinha do que eu supunha.
Quando comecei a montar o tabuleiro sobre a mesa circular da sala de estar, coberta por uma toalha de mesa branca, senti falta do meu amigo Carlos. Ele não estava presente, teve de comparecer a um aniversário de família.
- Não será melhor esquecer essa idéia, Pablo? – ele me perguntara pela manhã, quando fui convidá-lo para ir até minha casa naquela noite – Estive lendo que ocultistas não recomendam o uso do tabuleiro a qualquer pessoa. Eles alertam que esse objeto é perigoso. Não devíamos brincar com essas coisas que não conhecemos bem.  
- Bobagem! – falei com uma risada desdenhosa – Só conhecemos bem aquilo que podemos provar. Eu nunca vi nada de incomum, Carlos. A garota que eu gosto curte essas coisas. Preciso usar isso a meu favor.
Dando de ombros, ele me explicou que tinha um aniversário para ir e desejou-me sorte.
E agora, ali estávamos nós. Das quinze pessoas presentes, apenas seis decidiram sentar-se ao redor da mesa. Julia, para minha alegria, sentou-se de frente para mim. Olhava para mim de um modo indecifrável, mas eu sentia que o calor do vinho tinto nos tinha aproximado um pouco. Cada um de nós colocou o dedo indicador da mão direita sobre a palheta triangular, a qual repousava no centro do tabuleiro.
- Alguém quer fazer a primeira pergunta? – perguntei, olhando dentro dos olhos negros de Julia. Era bom ser dono do jogo, assim como é bom ser o dono da bola quando se é criança. Se Julia não fizesse a primeira pergunta, ninguém mais ali teria o direito de fazê-la.
O silêncio pesado era apenas cortado pelo som ofegante das respirações dos presentes e o martelar acelerado dos corações ansiosos. Então, a voz melodiosa de Julia atravessou o ar e a quase penumbra da sala. Ela perguntou se havia alguém ali conosco, espiritualmente falando. Automaticamente nossos olhares se voltaram para a palheta sobre o tabuleiro. A onda silenciosa de expectativa fez brotar o suor nas têmporas e nas axilas. Engraçado, se eu não acreditava em nada daquilo, por que minha boca estava seca?Com certeza era devido a proximidade de Julia, e não havia nada de sobrenatural nisso.
Mas, contrariando todas as esperanças, a palheta não se moveu naquela noite. Nenhuma vez sequer. Outras pessoas repetiram a pergunta de Julia e mesmo assim, não aconteceu nada de diferente. Nada de luzes tremeluzindo, velas se apagando, portas batendo ou correntes sendo arrastadas. Se Carlos estivesse ali, eu iria olhar para ele e esboçar aquele sorriso cínico que só eu tenho, como quem diz: “Viu?Não te falei que essas coisas não existiam?”
 Depois de meia-hora de tentativas frustradas, o pessoal desanimou e começou a partir. Julia foi a última a ir embora. Como ela é bem mais baixa que eu, quando ouvimos seu pai buzinar lá fora, ela ficou na pontinha dos pés e me beijou o rosto. Que fantasmas que nada! Isso foi o melhor da noite. Assim que todos partiram tranquei as portas e janelas, apaguei as velas e as luzes e subi para meu quarto, para assistir seriados antes de dormir.

Essa não, justo hoje que precisava continuar escrevendo para exorcizar meus medos e angústias, minha mãe já está gritando para eu ir dormir. E é isso que me mata nos domingos à noite: ter de deitar mais cedo, porque no dia seguinte tenho aula. O que me consola é saber que faltam menos de doze horas pra eu rever Julia. Bem, vou me despedindo então. O jeito é arrumar a cama e ir deitar, com a luz na cabeceira ligada, é claro. Não confio mais na escuridão; nela há olhos que me vigiam. Pesadelos são minha atual companhia durante as noites. Droga! Por que não dei ouvidos aos incontáveis avisos de Carlos? Preciso ir, amigo caderno, meu diário de bordo. Logo estarei de volta para narrar mais sobre esse mar bravio que venho enfrentando sozinho.
 Até breve!

Danilo Alex


sexta-feira, 20 de abril de 2012

Jogo Maldito - Parte 1

20 de Abril de 2012  - 00:30 h 

Meu nome é Pablo Oliveira Neves, tenho dezoito anos e estou escrevendo hoje para preservar o que ainda resta de minha sanidade. Registrar minhas impressões escrevendo foi o modo mais seguro que encontrei de desabafar sem que quisessem me colocar em uma camisa de força.
Se alguém um dia encontrar isso, e esse caderno de alguma forma vier a público, então algo de muito ruim pode ter acontecido a mim, ou a qualquer um dos envolvidos nessa história que, faço questão de frisar, é absolutamente verídica, tanto quanto é certo que dois e dois são quatro, ou que o dia precede a noite. Realmente é um fardo muito pesado para um jovem de minha idade considerar a possibilidade de que estas poucas linhas redigidas nos raros momentos de lucidez atuais podem ser as minhas últimas. Essa missiva pode vir a ser futuramente lida como uma espécie de testamento.
Agradeço o destino por essa clareza que alivia temporariamente minha dor e meu pânico. Como tem acontecido freqüentemente, não consigo dormir. Estamos em abril. A madrugada avança, o vento uiva e a chuva fria tamborila no telhado. Queria eu que as trevas permanecessem lá fora. Queria eu que as sombras que nos perseguem fugissem como a escuridão que se dissipa com um simples acionar de interruptor. Apesar de minha pouca idade, tenho percebido que na vida nada é tão simples assim.
A princípio, gostaria de esclarecer que sempre fui um jovem cético em relação a tudo que a inteligência humana não possa comprovar. Sou oriundo de família assiduamente católica, e desde criança fui incentivado à crença nessa doutrina, mas minha natureza extremamente racional me impede de cultivar a mesma, digamos, fé que meus familiares. E isso não tem nada a ver com o estilo musical que ouço, que é o heavy metal. Afinal, se, conforme os metaleiros mais tradicionais dizem, o heavy metal foi criado para exaltar o diabo, eu não poderia crer, já que tampouco saberia afirmar se acreditava na existência de uma divindade suprema racional e organizada – que a maioria das pessoas costuma chamar de Deus. Ou pelo menos, era o que eu achava sobre minhas próprias crenças.
Dada a estranheza dos últimos fatos, já nem sei mais o que dizer ou em que acreditar. Minha mente rigidamente racional não tem podido me ajudar muito no momento. Enfim, vamos ao relato.
Tudo começou por causa de uma garota. Desde o princípio tem sido assim: as coisas demonstram uma maior propensão a desandar quando há uma mulher envolvida. Mesmo sendo alguém tão perfeita como Julia.
Julia Marcondes é uma colega da minha turma. Ela é diferente das outras meninas, sobretudo por seu estilo gótico. A despeito de suas roupas sempre pretas, sua maquiagem pesada ou seus longos cabelos tingidos, negros como penas de corvo, ela é uma das primeiras alunas da classe. Inteligentíssima, séria, perfeita. Quando ela pousa aqueles olhos cor de piche em mim, tão cheios de mistérios e promessas de um amor nada convencional, sinto o mundo e o tempo congelarem ao meu redor. Faço praticamente qualquer coisa para ser notado por ela. Tenho lido bastante Poe, Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos, Goethe. E, se você fuçar no meu mp3, vai encontrar apenas Nightwish, Epica, Tristania, Lacuna Coil, Within Temptation, Evanescence e bandas similares. Não sou exatamente um grande fã desse tipo de literatura ou música, então, você pode imaginar como estar apaixonado influencia as pessoas.
Sondando os amigos e amigas dela, descobri que Julia era meio ligada nessas coisas de inferno, diabo, ocultismo, pactos etc. Mesmo não crendo em nada disso, dei um jeito de pesquisar a respeito. Na escola, uma moda é o tal do “jogo do copo” ou “jogo da caneta”, como chamam essas brincadeiras mórbidas de comunicação com os mortos, tidas como inofensivas pela maioria. Espalhou-se como gripe essa mania quando começaram a circular boatos de que um grupo de jovens, enquanto realizavam o jogo do copo, tinham presenciado o mesmo se encher de sangue e estourar, arremessando ruidosamente estilhaços para todos os lados. Depois do susto, vasculharam o local, e não encontraram uma gota de sangue sequer, mas o copo estava mesmo despedaçado.
Espantei-me que garotos e garotas de dezoito anos apreciassem ainda essas coisas que, aos meus olhos, pareciam muito infantis (desculpem-me se aparento ser um cara chato; na verdade, sou apenas um pouco precoce). Mas se Julia gostava, eu teria que, pelo menos fingir que também gostava. A duas quadras da minha casa há pouco tempo um velho argentino abriu uma interessante loja de antiquários. Chamei meu melhor amigo para ir comigo conhecer o novo e inusitado estabelecimento.
Carlos é um garoto tranqüilo, daqueles que poucas pessoas gostariam de ter como amigo por considerá-lo diferente. Muito alto e magro, pálido, cabelos arrepiados, óculos de armação excessivamente chamativa e lentes grossas devido o avançado grau de miopia. Gosta muito de ler sobre qualquer assunto, grande amante de música clássica e hipismo. Consegue achar graça em tudo, e seu modo de rir é muito engraçado, puxando o ar com força após o final de cada gargalhada, o que comicamente lembra o ronco de um porquinho.  Como já devem ter notado, pessoas que destoam dos padrões ditos normais costumam fazer com que eu inconscientemente me aproxime delas.
Uma vez na loja, estacamos um momento diante da vitrine e fitamos maravilhados a diversidade de quinquilharias antigas expostas. Objetos de várias partes do mundo a preços inacreditavelmente baixos. Inexplicavelmente senti certo mal estar ao contemplar a fachada daquele estabelecimento. Meus instintos mais primitivos me alertavam, gritantes, ordenando que eu me virasse e fosse embora imediatamente. Ao contrário, puxei Carlos pela manga da camiseta e entramos na loja. A porta de vidro se abriu, fazendo com que os guizos acima da mesma denunciassem nossa presença. Enquanto Carlos e eu investigávamos as prateleiras minuciosamente, com exclamações de espanto e franca admiração a cada novo item, o senhor Ramón, proprietário da butique, se aproximou de nós para nos atender.
Ele estava sorrindo para nós e se preparando para oferecer sua miríade de objetos estranhos e chamativos, quando meus olhos pousaram exatamente naquilo que eu procurava: um tabuleiro. Estava meio escondido entre os tabuleiros de damas e xadrez, ao lado das canecas feitas de alumínio, de times de futebol nacionais e internacionais. Estava disposto aparentemente de um modo propositalmente afastado do olhar de possíveis compradores. Mas eu o encontrei. Interrompendo o Sr. Ramón no meio de uma frase, apontei determinadamente o tabuleiro com o dedo e indaguei:
- Quero aquilo ali. Quanto é?
Seguindo meu olhar, Sr. Ramón remexeu-se inquieto e piscou, visivelmente desconfortável. Em seguida, desviou o olhar e desconversou:
- Aquilo não é tão bacana. Tenho coisas bem mais interessantes aqui na loja, a um precinho camarada. Vocês chegaram a ver aqui a coleção de...
- Quero aquilo ali, senhor Ramón. Quanto o senhor está pedindo nesse tabuleiro?
Estudando-me com seus olhinhos de raposa enquanto cofiava a barba branca, o velho disse:
- Aquilo te custaria caro, meu filho. Um preço alto a se pagar. Além do que, já está reservado para outro freguês.
- Quanto é? Eu pago o dobro do que ele ia pagar.
Os olhos do argentino brilharam. Senti um cutucão nas costelas. Carlos me olhava apreensivamente:
- Pablo, tem certeza que essa é uma boa idéia? Pagar tanto por esse troço esquisito? – meu amigo ajeitava compulsivamente os óculos sobre o volumoso nariz, um gesto que ele só realizava quando estava preocupado e\ou nervoso.
Meu melhor amigo, apesar de muito inteligente, nutria medos e receios infundados a meu ver, ele não era tão cético quanto eu, vivia dizendo coisas sobre os tais maus pressentimentos que às vezes tinha.
- Relaxa, Carlos. – eu disse sorrindo – Vou gastar boa parte de minhas economias, mas vamos encarar isso como um investimento. Esse tabuleiro, que você hoje chama de troço esquisito, há de ser a minha chave para o coração da Julia.
- Não sei não, heim cara...
- “Os fins justificam os meios” – respondi garbosamente, citando Maquiavel, um de meus autores preferidos. E dei a discussão por encerrada.
Ignorando os apelos de meu melhor amigo, teimosamente comprei e paguei o objeto. Senhor Ramón contava as inúmeras notas, satisfeito por ter extorquido mais um panaca. O dinheiro gasto não me importava: na época eu imaginava que aquela aquisição valeria cada centavo. Dias depois eu maldiria aquela compra com todas as forças do coração. Se eu pudesse voltar no tempo...

Puxa vida, é tarde e essas memórias me consomem. Estou muito cansado, preciso tentar dormir. Prometo que em breve voltarei a este caderno para prosseguir com minha narrativa assombrosa, incrível. 

Que tenhamos uma boa noite, se isto ainda nos for permitido. Até breve!

Danilo Alex




Queridos amigos e leitores do meu coração! Novo e sombrio conto saindo do forno! Espero que gostem! Bom fim de semana!

Abraços

Danilo Alex da Silva