terça-feira, 19 de junho de 2012

A Noite da Besta - Parte 5 - Final




No interior da casa, o pânico total havia se alastrado tal como o fogo. A visão do sangue abundante de Robson lavando o chão empoeirado de madeira fez vacilar as pernas de todos aqueles que assistiam à macabra cena. No coração daquelas pessoas, o amanhecer nunca demorara tanto.
No chão, embolados, fera e homem ainda se atracavam. O cheiro do sangue parecia haver incitado ainda mais a criatura dantesca a qual, de narinas dilatadas, investia ainda mais furiosamente contra o homem enfraquecido sob si, subjugado por seu peso e agressividade.
Embora se encontrasse em uma situação completamente desfavorável, Robson ainda estava vivo. Sua obstinação era admirável, e seu coração bombeava o sangue enlouquecidamente, mais do que nunca lutando para sobreviver, defender seu direito nato de existir, mesmo tendo a morte tão próxima de si, com sua bocarra aberta e cheia de dentes afiados quase alcançando sua cabeça, o bafo insuportável de carne e sangue atingindo seu rosto porejado de suor. Seguindo as probabilidades, Robson, àquela altura, já deveria estar morto. Entretanto, toda a sua vida foi escrita fora da coerência comum. As probabilidades não se aplicavam àquele homem, porque ele vivia de acordo com uma lógica diferente; a lógica de que o homem é capaz de traçar seu caminho, de mudar o fim de sua história.
O lobisomem mirara seu pescoço ao descer com a boca arreganhada; porém, no último instante, Robson conseguiu erguer o braço esquerdo e aparou a monstruosa abocanhada, que deveria ter decepado sua cabeça. Claro que, para ter sua vida salva, Robson precisou pagar um preço. Um alto e sangrento custo, diga-se de passagem.
 A mordida da besta fera parecia pesar toneladas: Robson sentiu-se grato por não haver perdido o braço. Uma dor atroz o agoniou quando os dentes enormes cravaram-se fundo em sua carne, a infernal boca lupina exercendo uma pressão capaz de esmagar seus ossos sem muito esforço. Pele e carne dilacerados deram vazão ao sangue copioso, o qual, naquele momento, encharcava o assoalho. Seu grito de dor e aflição parecia lacerar o cérebro e o coração dos presentes. Com o joelho direito, passou a golpear repetida e poderosamente o ventre da criatura, que se recusava a largar seu braço, mordendo-o com a obstinação destrutiva de um cão da raça Pit Bull.
O braço gravemente ferido de Robson era um obstáculo temporário ao lobisomem, impedindo-o precariamente de degolar a vítima. O homem tinha escapado da morte naquele momento, mas no próximo instante estaria morto, já que o braço praticamente inutilizado cederia, e o monstruoso ser iria desferir o ataque definitivo.
Quando tudo parecia realmente perdido, a velha espingarda trovejou. Uma generosa e fervente carga de chumbo atravessou a sala, indo explodir o pescoço da fera. Uivando de dor, em meio a uma chuva de carne e pelos, com um esguicho de sangue saltando no ar, a besta fera foi projetada para longe de Robson, indo aterrissar pesadamente aos pés do móvel que bloqueava a porta contra a sua entrada. Os olhares se voltaram para o local de onde o disparo viera. Ofegante, com a camisa em frangalhos e um fio de sangue escorrendo de seu supercílio direito, Marcos empunhava com firmeza a poderosa arma.
Vendo-se livre do peso de seu agressor, Robson rolou para longe, gemendo com a dor insuportável a ferroar seu braço dilacerado e sangrento.  Mesmo assim, perseverantemente rastejou em direção ao seu revólver. Enquanto isso, apesar de grandes tremores sacudirem o corpanzil musculoso e peludo, a fera irada estava se erguendo. Seu processo de regeneração era mágico, inacreditável a olhos humanos. De modo sobrenatural, as balas eram expelidas enquanto a carne se reconstruía e o sangue estancava. O bicho diabólico se preparava para um novo ataque.
Robson estava pronto para gritar a plenos pulmões, ordenar que Juliana fugisse com o bebê para longe dali, quando o monstro começou a avançar. No meio do caminho ele estacou. Todavia, o que o parou dessa vez não foi uma bala. Foi uma voz de mulher.
- Já chega, Antônio. Basta de fazer mal às pessoas. Você não é um monstro; você é o meu Antônio, o meu bom e velho Antônio.
Quando todos se voltaram rumo ao ponto de origem da voz, a surpresa os paralisou por um instante. De pé junto à porta, embora visivelmente trêmula e vacilante, jazia a velha enferma, apoiada precariamente em uma bengala. Com a voz débil, própria das pessoas acometidas por doenças, ela suplicou mais uma vez:
- Essa matança tem que acabar, Antônio. Está ferindo pessoas inocentes. Não se lembra de mim? Não se lembra da sua família?
O momento foi tão surpreendente que a própria fera ficou sem reação, encarando a corajosa mulher. Conforme ela ia falando, a situação se transformava inacreditavelmente. Um lampejo de reconhecimento passou pelos olhos selvagemente amarelos da fera. A agressividade característica desapareceu, dando lugar a uma rara e sincera curiosidade. O homem sob a pele do lobo parecia estar se lembrando vagamente de quem era, ao ser tratado por seu nome de batismo. Olhou em dúvida para suas garras mortais e notou que o sangue escorrendo de sua boca não era seu, mas das suas vítimas. Viu então as pessoas feridas, arquejantes, ostentando olhares apavorados em sua direção.
Então, deixando escapar um uivo doloroso, o lobisomem se virou e em seguida pesadamente se atirou pela janela. Passou por ela como um grande míssil peludo, fazendo em pedaços o pesado móvel que bloqueava a passagem, convertendo-o praticamente em uma pilha de tocos e lascas de madeira. Uma vez do lado de fora da casa, ele correu furiosamente sem olhar para trás. Galopou sobre quatro patas como um animal e ganhou a mata, onde desapareceu em seguida. Pouco tempo depois a noite se afastou silenciosamente e o céu foi caprichosamente tingido com as cores da aurora. Os galos, batendo asas, cantavam anunciando a chegada do novo dia. Com o raiar da manhã, as trevas se dissipavam. A luz era bem vinda; sua proximidade fazia com que a metamorfose maldita fosse desfeita.
Aliviado pela chegada da manhã, Robson, caído de bruços, relaxou o corpo e mergulhou na inconsciência, sendo imediatamente cercado pelas pessoas que ele acabara de tentar salvar.

Pele ardente. Suor febril. Fraqueza. Fome. Sede. Dor sufocante na boca do estômago. Um homem lutando pela vida, transpirando e rolando entre grossas cobertas. Os lábios secos, quase rachando. Um grito doloroso emergindo do fundo da alma, seu interior queimando como se ele tivesse bebido lava de vulcão.
Vozes confusas vindo de longe, ininteligíveis como ecos distantes. Imagens difusas quando seus olhos se abriam lenta e gradativamente. Enquanto recuperava pouco a pouco a consciência, Robson percebeu que se achava em uma confortável cama. Seu braço esquerdo, conquanto doesse terrivelmente devido a seriedade dos ferimentos, estava envolto em bandagens umedecidas, aplicadas sobre um emplastro que preveniria a dor e a infecção. As vozes pareciam animadas ao notar a pouca melhora do homem, ao ver que ele se tornava consciente.
Robson repetia o nome de sua esposa em meio aos delírios febris. Precisava sobreviver, precisava escapar. O lobisomem estava vindo. A polícia estava chegando. Uma palavra martelava sua mente: Fugir. Fugir. Fugir. Por que seu corpo não obedecia? Porque estava muito cansado e ferido. Enquanto sua mente pensava em fugir, o corpo implorava por repouso para que pudesse se curar.
Um cheiro agradável acariciou o olfato de Robson. Fome. Sua boca seca salivou imediatamente. Alguém estava entornando delicadamente algo em sua boca. Uma sopa? Um caldo espesso quentinho, com sabor de frango caipira. Também sentiu gosto de verduras. Estava sendo alimentado. Graças a Deus! Quanto tempo fazia que seu estômago não via comida? Perdera muito sangue. Era necessário repor as energias.
Quando começou a abrir os olhos, sua vista ainda estava anuviada. Viu rostos preocupados ao redor da cama e um sorriso começou a se desenhar em seus lábios pálidos e trincados, mas no meio do caminho converteu-se em uma careta de dor. Tombou a cabeça de lado e cochilou por mais algum tempo, esgotado pelo esforço de tentar falar algo.
Algum tempo mais tarde, finalmente recobrou inteiramente a consciência. A névoa foi desaparecendo de sua vista, o contorno das coisas e pessoas tornou-se novamente nítido. Juliana estava ao lado da cama, enxugando sua testa febril com um pano úmido. Ao ver que ele voltava a si, ela sorriu, aliviada. Logo apareceram o garotinho Henrique, Marcos segurando o bebê, e a velha senhora, que Robson descobriu, se chamava Célia. Seus anfitriões demonstravam imensa satisfação por vê-lo acordado.
Entre encabulado e comovido pelos cuidados que estava recebendo daquela família, o jovem ex-presidiário olhou ao redor e contemplou o quarto da casa que ajudara a defender durante a noite, o que quase lhe custara a vida. De onde estava deitado, Robson podia ver algumas partes da sala devastada pelos tiros e pela ação do lobisomem. Lamentou em silêncio pela destruição material do lugar, mas, em compensação, sentiu-se feliz em ver sãs e salvas aquelas pessoas que o trataram e o acolheram, apesar de ele ser um foragido da justiça. Fixando os olhos em Marcos e no bebê, perguntou:
- Ele já tem nome?
- Até ontem ele não tinha. Hoje decidimos batizá-lo de Robson.
Surpreso, o jovem arregalou os olhos. Depois, sorriu. De repente, lembrou-se de algo e seu semblante mudou, ficando sério, sombrio:
- Que horas são agora?
- Perto de meio-dia – respondeu dona Célia.
- Preciso ir. – disse Robson com um gemido enquanto se levantava da cama. Sentia o braço esquerdo queimar terrivelmente, como se fosse desprender-se do resto do corpo a qualquer momento. Tentaram detê-lo, convencê-lo a ficar onde estava, contudo o rapaz estava determinado:
- Tenho que ir embora. As autoridades estão me procurando, logo estarão aqui e não quero mais expor vocês a riscos desnecessários. Se me encontrarem aqui, podem acusar vocês de abrigar um fugitivo. Isso traria ainda mais complicações. Como eu disse ontem à noite, preciso seu caminhão provisoriamente. A polícia logo o encontrará e vocês o terão de volta, vou usá-lo apenas para conseguir alguma vantagem sobre meus perseguidores. Digam a eles que eu os ameacei e roubei o caminhão.
Notando a tristeza do pessoal, ele sorriu mais uma vez e completou, agradecido:
- Jamais esquecerei o que fizeram por mim. Agradeço a hospitalidade.
- Nós que agradecemos o que você fez, meu filho – exclamou Célia – Não fosse você aqui ontem, teríamos mais uma tragédia na família. Meu netinho teria sido devorado pelo monstro irracional que toma meu marido nas noites de lua cheia.
Marcos, entregando o pequeno à Juliana, saiu da casa e foi ao quintal procurar as chaves do caminhão, as quais deveriam ter caído em algum lugar depois que a besta fera atacou os outros ex-detentos na noite anterior, quando eles tentavam fugir da fazenda.
Robson se levantou e caminhou penosamente até a sala. Viu um homem magro e baixo dormindo profundamente no sofá. Tinha a pele muito branca. Sua roupa estava em frangalhos, e havia sangue seco grudado em várias partes do corpo. Um sangue que não parecia ser seu.
- Esse é o senhor Antônio? – perguntou Robson pensativo – Era ele o lobisomem de noite passada?
Juliana, Célia e Henrique assentiram com a cabeça.
- Existe algum meio de se acabar com um lobisomem? – indagou o rapaz novamente.
- Prata. – respondeu Juliana, lacônica e melancolicamente.
- E por que vocês não usam a prata então? – Robson inquiriu ao mesmo tempo em que indicava com o queixo o homem amaldiçoado ressonando tranquilamente no sofá, como se não tivesse matado brutalmente quatro pessoas na noite anterior.
- Porque ele é meu pai! – quase gritou Henrique escandalizado – Ele é da família!
Robson não disse mais nada. Chamando-o à parte, Célia explicou que Antônio não se lembraria de nada do que acontecera, nada do que havia feito. Carregava o peso da maldição de ser uma besta assassina sem jamais ver o rosto de suas vítimas. Sabia que estava condenado a ser um monstro, uma ameaça para todos que o cercassem. E não podia se controlar. Não podia evitar. Todo mês, durante o ciclo lunar maldito, aquele pesadelo se repetiria todos os anos. E seria transmitida a maldição a Henrique, e depois ao pequeno Robson. Uma família fadada a conviver com o horror em sua própria casa por todo o sempre.
Enquanto pensava nisso, Marcos entrou e lhe entregou as chaves. Estavam sujas de lama e sangue. O rosto do homem denotava preocupação. Disse então a Robson:
- Vi dois helicópteros voando muito baixo a leste, como se procurassem alguém. Estão muito distantes ainda, mas se dirigem para cá.
- A polícia! – sobressaltou-se Robson – Não há mais tempo a perder!
- Devia dar uma olhada nesse braço. – sugeriu Juliana. – Ver um médico... O machucado foi grave, fizemos o que podíamos, mas tem que ir a um hospital.
Robson concordou e prometeu buscar assistência médica assim que pudesse. Apanhou seu revólver, enfiou-o na cintura, despediu-se de todos e rumou para o pequeno caminhão. Entrou, deu partida e subiu rapidamente a pequena estrada de terra que o levaria para longe dali. Minutos depois, estava na rodovia, dirigindo o mais rápido que podia. Era meio difícil guiar com o braço esquerdo todo enfaixado, mas ele se virava bem. Deixou uma, duas cidades para trás. Tomava atalhos sempre que podia, evitando as estradas principais, que certamente estariam sendo vigiadas pela polícia.
As primeiras horas de viagem foram tranqüilas. Entretanto, conforme a tarde corria, as coisas começaram a mudar. Primeiro um tremor convulsivo tomou conta de seu corpo. A febre voltou, escaldando seu organismo enfraquecido. Suava abundantemente. O braço ferido latejava. Depois de um tempo, tudo isso passou. E veio o sono.
Era brando. Manifestou-se discretamente a princípio, fazendo Robson bocejar vez ou outra. Em seguida, se abateu de modo avassalador sobre o homem. Os olhos de Robson pareciam estar cheios de areia e lacrimejavam fartamente. O homem lutava bravamente contra o sono. Não podia parar. Tinha de seguir em frente. No entanto, logo seus olhos estavam se fechando sozinhos, a cabeça pendia e ele estava prestes a adormecer na direção. Por duas vezes evitou causar acidentes graves com um golpe rápido no volante, corrigindo a direção do veículo que teimava em invadir o fluxo contrário do trânsito na rodovia. O sono o vencia. Era impossível derrotar aquela sonolência poderosa, assim como é dificílimo desvencilhar-se do aperto mortal da sucuri, cujo abraço tem como única função esmagar os ossos da presa.
Sentindo-se no limite de suas forças, Robson reduziu a velocidade, acionou a seta, rumando para o acostamento. Seus olhos, muito cansados, contemplaram o céu, e ele imaginou que deveriam ser aproximadamente dezesseis horas. Mal girou a chave na ignição e sentiu o motor do caminhão morrer, após puxar o freio de mão, Robson tombou para frente e sua vista escureceu instantaneamente.
Despertou algum tempo depois, sua mente nublada buscando emergir da confusão. Estava deitado em uma maca. Algemas atavam seus pulsos. Trepidação. Encontrava-se dentro de um veículo em movimento. Imaginou que fosse uma ambulância. Sentados à sua direita e à sua esquerda, viu policiais carrancudos e fortemente armados a fitá-lo com desconfiança. Também havia enfermeiros junto dele, verificando sua pressão, prestando atendimento. Pelo que entendeu da conversa dos policiais, Robson fora encontrado dormindo na rodovia por motoristas. Julgavam que ele estivesse passando mal e chamaram o socorro. E o socorro acionou a polícia.
Essa não! Não podia voltar para a cadeia. Estivera tão perto da morte! Queria ver sua esposa. Queria ver sua filha. Droga, um homem não deveria ser privado do direito de ver sua família. Percebeu que seu curativo fora substituído por outro bem melhor, provavelmente feito por um dos enfermeiros. Sacudiu raivosamente as algemas e um dos policiais com cara de poucos amigos ordenou que ficasse quieto.
A mente de Robson trabalhava a mil por hora. Os enfermeiros perguntavam onde ele tinha se machucado. Os policiais também faziam perguntas sobre seus companheiros. Perdera muito sangue. Estava recebendo uma transfusão naquele momento. Fechou os olhos. Não queria saber de nada daquilo. Não queria falar com aquela gente. Queria ir para casa, e eles o estavam levando de volta para a prisão.
Então, Robson intuiu que havia algo diferente. Seu ferimento latejava, mas era um latejar própria da cura. Nem precisou olhar para saber que, sob as bandagens, seu braço se regenerava rapidamente, como por milagre. Ergueu um pouco a cabeça e olhou pela janela. O céu sem nuvens estava tingido de vermelho sangue. O sol se punha cerimoniosamente.
- Você ficou muito tempo apagado - explicou um enfermeiro com certa simpatia - É quase noite. Logo a lua cheia vai estar no céu. Particularmente adoro noites assim. Acho-as misteriosas.
Robson entendeu tudo. A mordida. O ferimento se curando sozinho com grande rapidez. O sono extremo. A febre. Seus olhos negros lentamente adquirindo uma tonalidade amarela, brilhante, sem que nenhum dos presentes percebesse. Podia sentir um imenso poder nascendo dentro dele, como se uma fera enjaulada, aprisionada em seu interior, urrasse tenebrosamente, ansiosa para se libertar. Suas narinas se dilatavam, captando qualquer mínimo cheiro que flutuasse pelo ar. Algo também se modificava em sua audição: começou a escutar o som de vários tambores tocando de maneira ritmada. Olhando ao redor, viu que ele era o único a ouvir aquilo. Então compreendeu que não eram tambores.
Na verdade, Robson ouvia o pulsar do coração dos policiais e enfermeiros com tal clareza, que tinha a impressão de estar com o ouvido colado ao peito deles. Conseguia escutar separadamente cada coração batendo em seu próprio ritmo. Dons fantásticos e animalescos aflorando no homem que fora mordido pela fera e sobrevivera. Dentro de poucos minutos, tudo mudaria drasticamente naquela ambulância.
A força de Robson se multiplicaria em muitas e muitas vezes. Aquelas algemas não poderiam segurá-lo. As balas que viessem dos fuzis dos policiais fariam cócegas em sua nova epiderme, invulnerável, musculosa, peluda e sobrenatural. A vida dos homens estaria em grande perigo, sua chance de sobrevivência era quase nula. Depois que terminasse o que faria na ambulância, ele saltaria e correria pelas matas e serras. Não ia voltar para a cadeia. Iria ao encontro de Rafaela. Iria ao encontro da filha. Fitando os policiais armados, bendisse o maldito dom recém-adquirido. Conseguia sentir a lua surgindo no horizonte já escuro, erguendo-se majestosamente no céu e envolvendo a noite com seus braços de luz prateada. Robson começou a rir de modo enlouquecido e um dos policiais mandou que calasse a boca.
A risada de Robson tornou-se um grito causado pela dor insana que anunciava o princípio da transformação. Subitamente, para o espanto total dos presentes, um urro ferino escapou da garganta do prisioneiro. Antes que Robson perdesse definitivamente o domínio sobre sua racionalidade e se entregasse à conversão monstruosa, lembrou-se das proféticas palavras de Dona Célia em seu leito de enfermidade:
- “Toda vez que a lua cheia se levanta no céu, a Besta caminha sobre a terra.”

Fim

Danilo Alex da Silva


 “Ela não deveria trancar a porta
(Fuja! Fuja! Fuja!)
Lua cheia está no céu e ele não é mais um homem.
Ela vê a mudança nele, mas não pode
(Fugir! Fugir! Fugir)
Vê o que surge de seu homem querido
Lua cheia.”

 (Full Moon – Sonata Arctica)

sexta-feira, 15 de junho de 2012

A Noite da Besta - Parte 4




Apontaram as armas para o monstro que tentava invadir a casa pelo alto, e aguardaram com os dedos em prontidão, tocando os gatilhos. Robson engoliu em seco e se preparou para o pior. Seu coração martelava rápido no peito, bombeando com urgência. Sangue e adrenalina viajavam rápido através das veias, irrigando cada célula, cada vaso do corpo do ex-detento. Como é normal em momentos decisivos como esse, a vida do homem passa diante de seus olhos, como cenas de um filme marcante. Um nome surge em sua mente alerta. É um nome de mulher. Rafaela.
Junto com a lembrança do nome, o rosto amado surge em sua mente. Rafaela só podia ser a mulher da sua vida. Iam se casar. Justamente quando descobriram que ela estava grávida, Robson perdera o emprego. Durante semanas levantou de madrugada todos os dias e tentou arranjar outro serviço. Distribuiu currículos para Deus e o mundo. Pediu aos amigos que o indicassem a seus patrões, já que ele ia ser em breve pai de família e precisava muito trabalhar. Tudo em vão. O telefone nunca tocou. A sorte não bateu em sua porta, mas a fome sim. E com ela, veio o desespero.
Dificilmente haverá maior humilhação para um homem do que ver a mulher grávida passando necessidade. Sentia-se o pior dos indivíduos já que não podia fazer nada para resolver isso. Robson então tentou um empréstimo com os amigos, mas todos estavam em condições tão complicadas quanto ele. Procurou o banco para saber se conseguia crédito. Não obteve. As portas se fechavam desdenhosamente diante do seu nariz, arremessando-o na lama viscosa da aflição, nas raias da loucura. Foi então que o primo Marcondes apareceu com uma proposta irrecusável.
Primo Marcondes quis saber se Robson era habilitado para conduzir caminhões pequenos. Era. Propôs um serviço fácil e rápido, com retorno financeiro satisfatório garantido. Só precisava fazer algumas entregas. Dinheiro fácil. Serviço tranqüilo. Robson pedira a ajuda divina e, antes que pudesse receber a resposta, o Diabo já se adiantara, estendendo a mão. Grana alta e sem complicação. Os riscos eram mínimos. Foi o que o primo lhe assegurara. Robson sempre fora um homem honesto, todavia, a situação não lhe deixava escolhas. Que atirasse a primeira pedra quem nunca tropeçou na vida. O homem mais idôneo acaba vendendo a alma se a circunstância exigir. Robson aceitou a função com uma única condição: que Rafaela jamais soubesse realmente em que tipo de trabalho ele estava metido.
- Claro, primo! A sua pombinha não precisa saber dos negócios. Inventaremos uma desculpa, ela vai acreditar, fique tranqüilo. – dissera o primo Marcondes com um sorriso luminoso e uma piscadela cúmplice.
Aquele maldito...
Durante algum tempo foi possível esconder tudo dos olhos de Rafaela, justificar a chegada aparentemente milagrosa de tanto dinheiro. Para todos os efeitos, ele estava trabalhando numa empresa transportadora registrada. Primo Marcondes não foi mencionado como contratante. Tampouco a carga a ser conduzida. Como se pode imaginar, não foi possível sustentar essa situação por muito tempo.
Lembranças dolorosas confusas, surgindo aleatoriamente como flashes. Robson conduzindo o caminhão pela rodovia interestadual. Uma blitz de rotina numa manhã de sol. O policial rodoviário no meio da pista, fazendo sinal para que o jovem encostasse o veículo. A carga sendo minuciosamente examinada. Gritos. Vozes exaltadas. Ordens ríspidas e armas saindo velozmente de coldres. Robson empurrado contra o capô de uma viatura e passando por revista. O frio metálico das algemas atando suas mãos atrás das costas.
Tristeza da família. Nada doeu mais do que o olhar de Rafaela quando a jovem foi visitá-lo no presídio provisório. Ela usava um vestido florido e segurava a barriga que já começava a aparecer. Seus olhos estavam irritados. Vermelhos. Vertiam lágrimas de decepção.
- Me perdoe! – implorava Robson em desespero – Rafa, me perdoe, por favor! Eu não machuquei ninguém! Juro por Deus!
Ela se levantou sem dizer palavra, virou-se e saiu.
Robson acusado de tráfico de drogas. Sentenciado à prisão. Recursos negados pelo juiz. Primo Marcondes livre como um pássaro e Robson na cadeia, rejeitado pela mulher, sem poder ver a filha nascendo e crescendo. Bode expiatório. Transferido para uma penitenciária. Conhecendo Durval, Amós, Joel e Waldir. Um plano se formando em sua cabeça.
E agora estava ali. Tudo o que mais queria era poder voltar para casa, lutar pelo perdão da esposa e segurar a filha no colo. Enquanto ele se recordava de tudo, as pessoas ao seu redor se angustiavam. A besta roia o telhado obstinada e nervosamente. Já podia passar a cabeçorra pelo vão que se abrira. Marcos soltando um grito e disparando a velha e pesada espingarda de caça. Sangue pingando do teto enquanto o uivo assustador atormentava a todos. Juliana encolhida a um canto com a criança chorando incessantemente em seu colo. Henrique imóvel devido ao terror. A velha resmungando algo, apavorada.
Subitamente uma forma imensa, musculosa e peluda despencou do teto e pousou poderosamente no centro da sala. Marcos tentou golpeá-la com a coronha da arma. Porém, a fera se adiantou: balançando a pata enorme e forte, atingiu o peito do homem, lançando-o ao outro lado da sala.  O monstro então, erguido nas patas traseiras, caminhou quase igual a um ser humano. Aproximava-se de Juliana e do bebê.
Robson interpôs-se entre o bicho e as suas vítimas certas. Enquanto ele estivesse ali, respirando, vovô lobisomem nenhum comeria o próprio neto.
- Ei grandão, você aí! – berrou Robson destemidamente – Por que não procura alguém do seu tamanho? Se quiser um bife, é só vir buscar!
Os olhos amarelos e injetados da criatura se fixaram no rapaz enquanto o monstro emitia um rosnado crescente e ameaçador. Então, estando diante do inimigo, Robson pode enxergá-lo plenamente, pela primeira vez.  Robson era um homem alto; media quase dois metros de altura e, mesmo assim, sentiu-se pequeno perante o monstro, que aparentava ter quase três metros. O corpo, inteiramente coberto de longos pelos negros e luzidios, era incrivelmente musculoso. Os pelos estavam manchados de vermelho, em parte devido às pessoas que ele devorara, e em parte devido os ferimentos que as armas dos homens causaram em sua pele monstruosa. Uma perfeita e indestrutível máquina de matar gerada no inferno.
 Sustinha-se soberbamente sobre duas grossas patas traseiras, sobre as quais estava em pé naquele momento e se locomovia pesadamente, como um urso. Os braços, peludos, musculosos, estavam separados; suas mãos descomunais exibiam unhas longas e curvas, como se fossem garras de uma ave de rapina. Garras capazes de destroçar a carne com facilidade e partir ossos como se fossem gravetos. Garras que decapitariam um ser humano num pisca de olhos.
Sobre o pescoço taurino, largo e poderoso havia uma cabeça imensa de cão. Orelhas curtas e pontudas que se achavam erguidas, em sinal de alerta. Um focinho forte e peludo. Olhos selvagens e amarelos, dos quais escapava um brilho brutal. Da bocarra escancarada pendia um espesso fio se saliva. Os dentes expostos, pontudos e colossais, ainda estavam tintos devido o sangue dos amigos de Robson. Havia, inclusive, alguns fiapos de roupas enganchados entre as presas. Irado, Robson franziu a sobrancelha, apontou as armas e começou a puxar o gatilho.
A fera saltou imediatamente sobre ele e os dois rolaram pelo assoalho, engalfinhados numa luta mortal e inacreditável. A luz bruxuleante das velas e lampiões alcançava os combatentes, desenhando de modo agigantado suas figuras contra a velha parede. Refletida nas sombras, a inenarrável luta adquiria proporções ainda mais titânicas.  Obviamente Robson estava em desvantagem. Quem poderia se desvencilhar do abraço letal daquele lobo colossal? Sentia o peso do monstro sobre si quando caiu de costas. As patas do lobo pousaram sobre seu peito, prensando-o contra o chão e seu inimigo. Tentou se erguer, mas não conseguiu: era como estar soterrado por uma montanha de concreto. O hálito bestial do bicho soprando vigorosamente em seu rosto. A morte tão próxima, inevitável.
Será que Rafaela o perdoaria algum dia?
O homem lobo enlouquecido desferindo mordidas no ar, quase rente ao seu pescoço, chocando os dentes colossais. Tinha-se a impressão de que a cabeça de um humano caberia inteiramente naquela bocarra infernal e animalesca. Na luta, Robson perdeu um dos revólveres. Determinado, com a coronha do revólver restante, o rapaz começou a golpear repetidamente a cabeça do horrendo ser sobre si, rosnando entre dentes de modo raivoso:
- Ele é seu neto, seu filho da mãe! Sei que você está aí em algum lugar debaixo dessa carcaça peluda. Pode me ouvir? Você precisa pensar! Pense, retome o controle! Vai acabar devorando seu netinho. É o que quer, seu palhaço com cara de cão?
Mas o monstro parecia surdo, insensível. Continuava atacando. Quando mais Robson o espancava, mais furioso o bicho ficava. Não dava o menor sinal de compreender o que o homem tentava lhe dizer. O lobisomem arreganhou os dentes e preparou-se para a próxima mordida. Robson percebeu que não havia escapatória. Pensou em sua filhinha.
Será que ela saberia quem ele era? Será que ela já sabia dizer “papai”?
A Besta Fera avançou com a boca imensa e mordeu vigorosamente. Um grito rouco escapou da garganta de Robson. Seu sangue quente, vermelho e vivo respingou no velho assoalho de madeira da rústica casa rural.

Continua...

Danilo Alex da Silva

“Tudo vai desmoronar essa noite, a lua cheia está aqui de novo
Na saúde e na doença, compreendendo e exigindo
Não tem nome, há uma para cada estação
O deixa insano para saber”

(Full Moon – Sonata Arctica)




quinta-feira, 14 de junho de 2012

Miragem



Tenho uma alma errante e o pensamento longe.
Caminhando pelas incertezas do presente,
Nenhum horizonte jamais pareceu longínquo o bastante
Para me fazer desistir.
Mas, mesmo trazendo no peito um coração aventureiro
E o espírito audaz de um viajante
Também já me perdi pelos caminhos tortuosos,
Errei por vales escuros, vaguei por desertos ferventes e solitários.
Nem todo andante tem uma boa história para contar.
Sob o ígneo olhar do sol que me espia por cima das dunas,
Enquanto minha sede é feroz e os pés afundam nas areias tórridas
 Que revestem o caminho incerto,
 Tantas vezes meus olhos cansados já me pregaram peças.
Acreditei em promessas que não foram verdadeiras,
Vivi amores que não eram eternos,
Chorei por perder amigos que hoje passam por mim sem me notar.
Ás vezes o sol escaldante da vida nos faz imaginar coisas que
Embora agradáveis, são efêmeras e ilusórias. Miragens.
Coisas, pessoas, lugares, emoções e lembranças que vem e vão
Podem não ser necessárias. Peso morto. Bagagem extra.
Meus passos na areia são provas do quanto andei
E meu modo de trilhar o caminho mostra que aprendi com o tempo.
Uma hora o deserto tem que ficar para trás.
O sol vai ter que amainar algum dia.
Minha esperança é o que me impele,
O que me faz duvidar das miragens.
Muitos já morreram de sede em busca de ilusões desérticas,
Mas não cometerei esse erro. Chega de miragem!
Minha fé inabalável me guia para a água que espera os viajantes,
Ela me conduz ao oásis eterno.

Danilo Alex da Silva


segunda-feira, 11 de junho de 2012

A Noite da Besta - Parte 3


Passando as mãos pela testa encharcada de suor, Robson voltou-se para ver se a família estava bem. Todos se encontravam em segurança, e o fitavam de olhos arregalados. Durval tinha os olhos esbugalhados e sua boca se movia espasmodicamente de um modo grotesco, como se ele tentasse dizer algo, mas não fosse capaz de emitir som. Mas ele não precisava falar nada, o horror estava claramente impresso em seu olhar. Então, no momento seguinte, quando Robson se voltou para espiar pela fresta da janela, um susto cortou-lhe brevemente a respiração.
A besta fera tinha desaparecido. Não estava mais no mesmo local, mastigando os cadáveres dos três ex-presidiários. Ela tinha evanescido na noite, se mesclado às sombras. Em algum ponto na mata, o monstro se ocultara. Provavelmente estava farejando o ar naquele instante, demoradamente degustando, com seus aguçados sentidos selvagens, o medo que os humanos refugiados na casa exalavam naquele instante.
 O medo proporcionava um sabor melhor à carne. Constituía o tempero perfeito para uma máquina de matar sobrenatural como ele. Era bom ser o caçador. Divertia-se cercando a presa. Ninguém no mundo poderia fugir de suas garras, ninguém poderia correr pelos campos de maneira tão veloz como ele. Era o senhor da matas em noites como aquela. Os bichos mais ferozes que habitavam aquela região simplesmente fugiam aterrorizados quando o uivo do homem-lobo se erguia na noite, na tentativa de acariciar a lua cheia, doadora de sua dádiva assassina. Quando ele decidisse entrar na casa, não haveria como impedi-lo. Seus olhos, maléficos e amarelos, reluziam como diamantes na escuridão, banhados pela luz prateada da lua.
No interior da moradia, Robson, inquieto, se movia de um lado para outro, impaciente como uma fera enjaulada. Lobisomens! Se soubesse que essas coisas existiam de fato, teria prestado mais atenção aos filmes de terror que assistia quando criança. Ao pensar nisso, lembrou-se de algo a respeito dos lobisomens, não sabendo ao certo se obtivera aquela informação por meio de algum livro, ou se ouvira algo similar nas lendas de sua cidade. Ostentando um brilho de interesse enigmático em seus olhos profundamente vivos e negros, Robson fitou primeiro o garotinho, e depois mirou Juliana. Com suas feições imaculadamente sérias, inquiriu:
- Como se chama seu irmãozinho?
- Henrique.
- Henrique? Nome bonito. Quando criança, meu melhor amigo se chamava Henrique. Era como um irmão para mim. – disse o homem sorrindo. A seguir, com um sorriso simpático nos lábios, Robson agachou-se diante do garotinho e perguntou com ar de fingida despreocupação:
- Henrique, quantos anos você tem?
- Tenho doze. – disse o menino sorrindo, e rapidamente completou com um ar afobado e juvenil – Mas vou completar treze anos mês que vem. Meu pai diz que já não sou um garotinho.
- E ele está certo. Você é um rapaz. Logo será um homem. – disse Robson gentilmente e completou para si, tristemente, em pensamento – “Logo será um homem, que em noites iguais a essa, se tornará meio lobo e correrá pela mata escura, uivando para a lua cheia e devorando os amigos dos outros, exatamente como seu pai.”
Robson sentiu grande tristeza ao pensar nisso enquanto olhava para o rapaz diante de si. Pelo que ele sabia, um jovem portador daquela maldição hereditária, ao atingir treze anos, se tornaria um lobisomem assim que a lua cheia se erguesse no céu escuro, prenunciando tragédias e matanças, bem como derramamento de sangue inocente, tão inocente quanto o próprio Henrique o era. Afinal de contas, que culpa o pobre menino tinha de ter nascido no seio de uma família amaldiçoada, cuja sina dos descendentes masculinos era, ao completar treze anos de idade, se converter sob os raios da lua cheia em uma besta sanguinária e irracional, que espalharia medo e horror sobre a Terra, ameaçando inclusive a vida da própria família?
Tão logo o jovem Henrique fizesse aniversário, já não seria um, mas dois lobisomens a aterrorizar aquela família toda vez que a lua cheia surgisse. Robson observou demoradamente as pessoas e seu coração, embora embrutecido pelas vezes que fora maltratado pela vida, apiedou-se profundamente daquela gente simples, perseguida através das décadas por uma maldição, fruto da infinita maldade alheia.
Viu-se arrancado desses devaneios quando ouviram pisadas fortes e rápidas ao redor da casa. Uma sombra monstruosa, denunciada pela claridade emanada das velas, lamparinas e lampiões, passou velozmente pela janela protegida por tábuas de madeira. Uma respiração arfante e rápida, semelhante à de um cão, foi ouvida por todos na casa. Em seguida, um rosnar baixo de fera se preparando para o ataque cortou o quase absoluto silêncio noturno. Apreensivos, Durval e Robson engatilharam os revólveres e os apontaram para a janela.
O estalido seco e mortal das armas sendo preparadas para cuspir chumbo ao menor sinal de perigo pareceu afugentar momentaneamente a besta fera, que se afastou correndo agilmente para longe da casa. Pouco depois, ouviram o cacarejar assustado de galinhas e o grunhido estridente de porcos assustados.
- Ele foi para perto dos pés de manga, sob o qual foram construídos o galinheiro e o chiqueiro. – sussurrou Marcos, esposo de Juliana, e pai do garotinho que ela segurava nos braços.
Ouvindo isso, sorrateiramente Durval se aproximou da janela, vendo se conseguia localizar o bicho. Enquanto as galinhas e os porcos promoviam estardalhaço com sua sinfonia de pavor, era difícil ouvir o lobisomem se movendo. Era complicado saber o que a ardilosa fera faria em seguida. De todos que, angustiados, vivenciavam aquele momento, Robson foi o único que teve tempo de imaginar o que aconteceria. Viu quando uma sombra riscou a luminosidade e desapareceu, como se algo se detivesse diante da janela. Era preciso estar prestando muita atenção, pois o movimento da sombra foi velocíssimo, quase tão imperceptível quanto o tremeluzir de uma vela. Tudo parecia acontecer em câmera lenta. Robson sentia os membros pesados, e o coração falhar uma batida dentro do peito. Seus olhos se arregalavam, enquanto ele gesticulava nervosamente para o amigo. Tinha compreendido a manobra do monstro. Berrou em pânico:
- Durval, saia daí já! Afaste-se da jan...
Não pode concluir a frase. Seu aviso foi tardio por questão de segundos. O som explosivo da janela se arrebentando encobriu sua voz. Lascas de madeira e cacos de vidros choveram sobre todos, obrigando-os a se proteger como podiam. Aterrado, Durval voltou-se empunhando a arma, sem, porém, conseguir esboçar qualquer tipo de reação. Um focinho negro e enorme entrou pela janela destruída e uma bocarra infernal, repleta de dentes enormes, amarelos e afiados, se fechou sobre o ombro do pobre ex-presidiário. O homem gritou desesperadamente e, num espasmo de dor, disparou a arma, mas sua bala cravou-se no teto. Sangue vermelho e vivo manchou o assoalho de madeira. Juliana tentava acalmar o bebê, que assustado, chorava aos berros. A velha na cama murmurava uma prece. Henrique chorava baixinho, encolhido a um canto.
- Nããããããããããããããão!!!!!! – gritou Robson furioso, disparando seguidamente seu revólver contra o monstro que atacava o único amigo que lhe restava.
A primeira bala acertou entre os olhos da fera, que grunhiu de dor e estremeceu violentamente, mas não soltou Durval. Continuou exercendo pressão com os dentes cravados dolorosamente no ombro ensangüentado e esfacelado de sua presa. Durval estava pálido, parecia prestes a desmaiar. Quando Robson prosseguiu acionando o gatilho, e novos projéteis ferroaram a carne sobrenatural do lobisomem, a horrenda criatura mais uma vez utilizou sua extrema velocidade sobrenatural para sair de cena. Tão rápido, que mal pode ser percebido pelos olhos de quem assistia à diabólica situação, o monstro afastou-se da janela ainda abocanhando o ombro do homem ferido. Durval foi arrebatado da vista dos presentes, puxado para fora pela janela a uma velocidade estonteante. Seu revólver caiu pesadamente no chão de madeira.
- Robson! Me ajude, por favor! Robsoooooooooon! – e seu grito se perdeu na noite, enquanto ele era carregado para longe pela besta fera, que rugia sedenta de carne e sangue.
Robson, sem se importar mais com o perigo, aproximou-se da abertura destruída da janela e atirou em direção à fera até que não restassem mais balas no tambor. Mesmo assim o monstro, que corria a uma velocidade medonha, chegou rapidamente à mata cerrada, onde se entranhou arrastando Durval. Gritos vigorosos se tornaram gemidos débeis, talvez pela distância, talvez porque Durval agora agonizasse.
- Meu Deus! – balbuciou Robson enquanto, com as mãos trêmulas, recarregava seu revólver. A seguir, abaixou-se e apanhou do chão a arma de Durval.
Não podia crer naquilo que acontecia. No começo daquela noite, ele e seus amigos fugiram da prisão onde estiveram confinados havia algum tempo. Agora, no meio da madrugada, ele era o único sobrevivente. Todos os outros foram mortos por um ser que saíra dos contos de fadas. E ele tinha certeza de que o bicho voltaria. Estava irado por haver sido ferido. Sim, o lobisomem voltaria para buscar Robson. Não deixaria barato os tiros que recebera. Seu ódio selvagem e sua força descomunal primitiva seriam o combustível para a vingança daquele pesadelo em forma de homem lobo.
Ajudado por Marcos e por Henrique, Robson empurrou um pesado guarda-roupas para frente da janela, a fim de bloquear a passagem que o monstro obtivera ao destroçar a mesma.
- Falta muito para o amanhecer? – quis saber Robson com ar cansado, enxugando o rosto suado com as costas das mãos. Transpirava tanto que a camiseta colava ao corpo, e uma mancha escura se formava sob sua axila.
Quando soube que faltavam menos de duas horas para o dia raiar, ele ficou relativamente aliviado. Suspirou e verificou mais uma vez a carga das armas. Empunhava um revólver em cada mão. Marcos foi buscar uma velha espingarda e passou a montar guarda juntamente com ele. Um silêncio suspeito e absoluto inundou a casa e carregou de apreensão o ar que os sobreviventes respiravam. Tudo quieto demais. Não podia ser coisa boa. A calmaria sempre precede a tempestade.
Menos de uma hora mais tarde, um ruído repentino fez com que todos estremecessem. Alguma coisa se movia com rapidez sobre o telhado. As telhas rangiam, denunciando a velocidade com que o intruso as percorria. Um rugido feroz deixou clara a identidade de quem estava sobre a casa.
O bebê acordou assustado com a barulheira e recomeçou o berreiro. Isso pareceu atiçar a besta fera que, no alto da casa, rugiu de novo, ainda mais alto. Juliana, em pânico, tentava fazer o bebê calar.
- Ele quer a criança! – gemeu a velha deitada.
- O seu filhinho é batizado? – indagou Robson esfregando os olhos cansados, enquanto empunhava as armas com firmeza.
- Ainda não. – respondeu Juliana num fio de voz. – Ele nasceu semana passada. Já tínhamos conversado com o padre para batizá-lo essa semana, antes da lua cheia, mas infelizmente o reverendo enfrentou alguns imprevistos e ainda não pode vir.
- Essa não – rosnou Robson apontando as armas para o teto, tentando descobrir onde a fera se achava.
Crianças não batizadas eram uma espécie de filé para lobisomem, o ex-presidiário sabia. Já ouvira dizer. Tinham um grande problema pela frente. Olhou significativamente para Marcos. Pisadas animalescas no telhado. Uma telha se partiu. Gritos de Juliana. Gritos da velha. Gritos de Henrique. Choro estridente de bebê. Rosnado, rugido e uivos da fera enlouquecida. Pelo buraco aberto no teto, dois olhos famintos, amarelos, lupinos e selvagens, espiavam diabolicamente o interior da residência. Uma pata imensa, coberta de pelos negros, munida de garras enormes afiadas pendeu ameaçadoramente do alto, como se tentasse alcançar a mãe o bebê apesar da distância que separava o telhado do chão de madeira.  
Robson olhou mais uma vez para Marcos, e viu que o homem, agarrado à velha espingarda, suava tanto ou mais do que ele.
- Chegou a hora, senhor Marcos. – disse Robson com voz rouca – Agora é tudo ou nada.

Continua...

Danilo Alex da Silva


“Uivando nas sombras
Vivendo em um feitiço lunar
Ele encontra seu paraíso
Vomitado da boca do inferno

Aqueles que a besta está procurando
Ouça em pavor e você vai ouvi-lo

Uivar para a Lua”

(Bark at the Moon – Ozzy Osbourne)


terça-feira, 5 de junho de 2012

A Noite da Besta - Parte 2



- Não compreendo – falou Robson, confuso.
- É uma antiga história da nossa família – começou repentinamente a moça com o bebê no colo.
- Juliana, eu não acho que...
- Eles tem o direito de saber, Marcos – falou Juliana resolutamente, interrompendo o marido – Se estão aqui conosco justo essa noite, precisam conhecer nosso segredo e se preparar para os perigos que todos aqui corremos.
- Besteira! – bradou Waldir com uma risada de escárnio.
- Cale-se, que eu quero ouvir o que ela tem a dizer. – sibilou Robson, sério, antes de se voltar para sua bela e jovem interlocutora – Continue o que estava dizendo, por favor, Juliana.
- Aconteceu há pouco mais de cem anos. Nossa família sempre foi composta por lavradores. Era a época do coronelismo, e a disputas pelas terras se mostrava cada vez mais violenta. Valia de tudo. Uma verdadeira guerra. Nossos antepassados, que viveram bem aqui, nessa mesma fazenda, indispuseram-se com a família de um agricultor vizinho, um homem muito cruel e inescrupuloso. O mais comum nessas situações era o vizinho contratar os chamados jagunços, mercenários armados, para dar cabo de seu desafeto. Mas esse homem... ele fez uma coisa muito pior. Sua família era envolvida com magia negra, e sua esposa era uma espécie de bruxa. Ela arranjou uma mandinga para o meu antepassado. Amaldiçoou-o, assim como todos os descendentes masculinos de minha família. Em noite de lua cheia, eles se transformariam em um bicho metade homem, metade lobo, que correria pela mata, assombrando quem tivesse o azar de cruzar com ele.
- E quem é o amaldiçoado atual? – indagou Robson, embora já imaginasse a resposta.
- Meu pai. – respondeu inesperadamente o garotinho, dando a entender que era irmão da moça. A voz do menino soou muito triste.
- Sinto muito – disse Durval com sinceridade, e indagou – É o pai de vocês quem está lá fora agora, na mata escura, nos vigiando a todos?
Juliana e seu pequeno irmão acenaram afirmativamente com as cabeças. Joel, que  estudava a escuridão exterior através de uma fresta na janela, voltou-se para Robson visivelmente assustado:
- Ei, chefe! Acabei de ver uma coisa muito estranha ali fora. Olhos amarelos brilhando nas sombras. Depois, um vulto passou correndo. Parecia um cachorro grande e preto, sabe? Mas andava em pé, como se fosse um urso, só que muito mais ágil e veloz.
Mal Joel acabou de falar, os cães que vigiavam a fazenda, e estavam trancados no celeiro para não ser destroçados pela fera, começaram a ganir e a uivar, apavorados. Contrastando com a barulheira dos cachorros, um rosnado alto e feroz se fez ouvir, sendo sucedido por um uivo vigoroso e aterrador que, flutuando noite adentro, feriu os ouvidos de quem tinha a infelicidade de escutá-lo.
- Temos de sair daqui o quanto antes. – rosnou Waldir em tom de comando, passando por cima da autoridade de Robson; não por ousadia, mas movido pelo pânico infinito que tomou seu coração.
Diante do espanto silencioso de seu chefe, Waldir voltou-se para os donos da casa:
- Onde estão as chaves do caminhão? Estou indo embora agora; não fugi da cadeia para virar papinha de lobisomem aqui no meio do nada. Quem me acompanha?
- Waldir, quem nomeou você como chefe? – a voz de Robson saiu rouca e perigosamente baixa.
- Ninguém. Não mando em nada, a não ser em minha vida, e em ninguém, a não ser em mim mesmo. Por isso, estou partindo, já que não quero morrer devorado por um monstro que, até ontem, eu duvidava que existisse. Alguém vem comigo?
- Não podem sair! – murmurou Marcos, muito pálido – Aquela coisa está lá fora, faminta, rondando a casa. Se tentarem fugir, não conseguirão chegar ao caminhão. Ele é muito rápido.
- Temos que tentar. – interveio Joel decididamente, enquanto se colocava ao lado de Waldir – Se alcançarmos o veículo, teremos uma chance. Prefiro lutar para escapar; é melhor que esperar até que a fera se canse, entre aqui e nos faça de aperitivo.  Não, obrigado. Vou com Waldir, vamos cair fora daqui.
- Não vão levar o caminhão e me deixar para trás, seus safados! – rugiu Robson indignado, erguendo a arma.
- Não faça isso. – bradou Amós friamente enquanto, apontando a arma para o rosto do chefe, passava para o lado de Joel e Waldir. – Não me obrigue a puxar o gatilho. Posso ter muitos defeitos, mas ingratidão não é um deles. Você nos tirou da cadeia, não quero ter de atirar, não desejo feri-lo. Precisa decidir: ou vem conosco no caminhão, ou nos deixa partir em paz. Derramamento gratuito de sangue não é uma opção, já que estamos todos no mesmo barco.
Após alguns segundos de hesitação, Robson abaixou o revólver devagar, sem tirar os olhos dos companheiros, falando:
- Está bem. Não haverá tiroteio aqui, essas pessoas são inocentes e entre nós temos um bebê de colo. Se querem ir, vão. Eu fico, pois prefiro escutar os moradores. Eles conhecem a besta fera lá fora bem melhor do que nós.
- Vocês não deviam ir, por favor, não sejam tão... – começou a resmungar Durval, mas foi interrompido pela voz grave e autoritária de Waldir.
- Cale-se. Fiquei aí então, mas não nos amole. Estamos armados, e lobisomem nenhum vai nos impedir de entrar naquele caminhão. Senhora Juliana, senhor Marcos, deem-nos as chaves, por favor.
- Isso é loucura... – murmurou a velha lá de seu leito.
As chaves do veículo foram colocadas na mão de Waldir assim que os donos da casa explicaram onde estava estacionado o veículo, a aproximadamente vinte e cinco metros da residência. Em seguida, acompanhado por Joel e Amós, Waldir empurrou o pesado móvel que bloqueava a porta, engatilhou seu revólver e ganhou a noite, seguido de perto pelos companheiros. Não olharam para trás uma vez sequer, nem mesmo quando o pessoal da casa fechou a porta e a bloqueou novamente arrastando para junto dela o pesado móvel de madeira.
Mal os três homens saíram, o pessoal do interior da casa escutou um rugido capaz de fazer estremecer a mata escura. Lá fora, ecoavam os passos pesados do trio de fugitivos correndo em direção ao caminhão. Subitamente a noite bucólica encheu-se de medo, tendo em seu âmago uma sinfonia horrenda de sangue, dor, e morte. Com o coração apertado, Robson tentava ver o que se passava pela fresta da janela, mas foi pouca coisa o que conseguiu enxergar. Revólveres rugiam, cuspindo chumbo, suas línguas de fogo rasgando a escuridão assassina que teimava em envolver os três homens com seus tentáculos obscuros e mortais.
Angustiado, Robson ouvia os tiros e os gritos aterrorizados de seus amigos lá fora, envoltos pela escuridão, cercados pela mata deserta, observados do alto pelo esbugalhado olho prateado e místico da lua cheia, grande responsável por todo aquele pesadelo. O líder dos fugitivos pensou em sair, tentar socorrer os companheiros. Chegou mesmo a engatilhar o revólver, mas a mão de Durval, pousando em seu ombro sutilmente o deteve. Com um olhar de censura, o companheiro remanescente alertou em voz baixa, quase inaudível:
- Se sair, você também morrerá. Eles fizeram sua escolha; agora estão arcando com as conseqüências.
Compreendendo que o amigo tinha razão, Robson se conformou, encerrando-se em um silêncio doloroso. Podia-se ver o luto no fundo de seus olhos negros.
Dentro da casa, a tensão reinava. O garotinho agarrava firmemente a mão trêmula e enrugada da velha deitada, enferma. Marcos abraçava a mulher, que segurava o bebê. E Robson e Durval trocavam um olhar pesaroso, significativo. Do lado de fora, vinham os sons infernais, que chocavam os sobreviventes dentro da casa e trazia lágrimas aos seus olhos.
Primeiro eram os tiros e os gritos de horror. A seguir, os tiros cessaram e o som de passos apressados, desesperados pareceu vir dos lados da casa, acompanhado pelo galopar pesado de patas imensas e peludas. Uma respiração animalesca e arfante de algo que caçava os três fugitivos implacavelmente. Gritos de ódio, dor e morte enchiam a noite, que deveria ser pacífica na zona rural. Enquanto os homens gritavam em desespero, a fera urrava de modo estarrecedor, e o urro ia aumentando gradativamente, ao mesmo tempo em que os gritos de dor e morte começavam a perder intensidade, e o silêncio dos mortos se apoderava do lugar. Um rugido sinistro vibrava no ar frio noturno, dando a impressão de que havia um leão faminto bem ao lado da casa. Em seguida, o rugido foi substituído pelo som nauseante de mastigação, como se ossos estalassem ao ser triturados por mandíbulas colossais e dentes poderosos.
 Os três fugitivos já não gritavam, talvez porque não possuíssem mais cordas vocais, talvez porque suas gargantas dilaceradas por garras imensas e afiadas obstruíssem a passagem do ar e do som. Talvez não mais gritassem porque estavam engasgados nos próprio sangue, ou porque a vida há muito abandonara seus corpos, agora provavelmente irreconhecíveis.
E no meio daquele banquete de morte, Robson o viu, pela fresta da janela, banhado pelo luar e pelo brilho das estrelas. Um monstro enorme e musculoso, com o corpo coberto de pelos, debruçado sobre os cadáveres de seus amigos. A criatura ergueu a cabeça descomunal subitamente e, apontando seu focinho lambuzado de sangue quente para o alto, homenageou a lua cheia com mais um de seus uivos insanos e sobrenaturais. Aquele uivo faria tremer o próprio inferno em chamas. Diante de tal fúria primitiva, e perante aqueles olhos profundamente amarelos, morbidamente bestiais, que vasculhavam a escuridão silenciosamente vigilantes, os próprios demônios fugiriam em disparada.


Continua...

Danilo Alex da Silva

"Na névoa da manhã, ele não pode mais lutar
Por mil luas ou mais, ele vem uivando
Bate na porta, e um grito que logo acabará
Bagunça no chão de novo..."

(Full Moon – Sonata Arctica)