sexta-feira, 6 de julho de 2012

A Arca de Pandora - Parte V





Entretanto, o destino preparava uma surpresa nada agradável ao capitão Jason Hope. Assim que chegou ao convés, constatou que a tarde já ia avançada; em poucas horas escureceria. Os homens estavam reunidos, esperando a partilha do roubo. Não se mostraram muito amigáveis com o capitão, devido o modo como ele os expulsara de seu camarote algum tempo antes. Mesmo assim, olharam com assombro para a incrível espada que Hope trazia na cintura.
Ao cair da noite, antes que o jantar fosse servido, reunidos no convés sob a claridade prateada do luar e o fulgor vermelho-alaranjado das lamparinas que tinham acabado de ser acesas, os piratas exigiram que os frutos da pilhagem fossem divididos. Os ânimos estavam exaltados, em parte pela bebida, em parte pelo comportamento petulante de seu capitão. Aquele tipo de situação era perigoso para qualquer comandante, a insatisfação dos homens podia ser comparada a uma faísca perto de barris de pólvora. O certo em tais circunstâncias era ser flexível e extremamente cauteloso.
De modo temeroso, Brook olhou para Hope, à espera de algum sinal. O capitão inglês assentiu movimentando a cabeça, e então, aliviado, o imediato iniciou a separação dos tesouros. O clima tenso amainou um pouco, mas o ar ainda estava pesado, carregado de apreensão e desconfiança.
Seguindo o Código da Conduta Pirata, duas partes do saque deveriam ser destinadas ao capitão e ao contramestre, uma e meia ao imediato, ao mestre, o oficial e ao homem de armas, e aos outros oficiais, uma parte e um quarto. O restante era dividido entre a tripulação, devidamente indenizando-se os marujos que tivessem sofrido ferimentos graves durante a batalha, como mutilações ou adquirido algum tipo de impossibilidade física. Como havia duas embarcações, o Ghost Bride e o Red Diamond, a partilha tinha de acontecer favorecendo os oficiais de ambos os navios.
Todos estavam de acordo quanto a isso. Todavia, subitamente William Mathison, capitão do Red Diamond, lembrou:
- Agora, devemos repartir o conteúdo da arca que se encontra no camarote do ex-capitão deste galeão.
Os marujos estavam abanando a cabeça afirmativamente e promovendo um murmúrio coletivo de aprovação, quando Jason Hope saltou para trás como uma fera raivosa, as mãos se fechando vigorosamente sobre o cabo da espada, ainda na bainha. Berrou, fora de si:
- Ninguém vai entrar naquela cabine sem a minha permissão!
Os presentes arregalaram os olhos diante da veemência do capitão do Bride. Sabiam que ele era um homem comedido na maior parte do tempo, e que tinha, vez ou outra, algumas explosões súbitas de ira, mas naquele dia Jason Hope se mostrava terrivelmente descontrolado. Chegaram a temer por sua sanidade. O capitão pirata e amigo de Francis Drake estava arfante naquele momento, o rosto mais vermelho que o habitual, os olhos brilhando inexplicavelmente, mas não um brilho sadio, alegre. Era o brilho que se vê nos olhos febris de um homem desvairado. Seus olhos brilhavam perigosamente, como os de um louco.
Em dúvida, tentando desvendar o que se passava no íntimo de Hope, o capitão Mathison o estudava em silêncio. Visivelmente, seu companheiro não estava bem. Demasiado transtornado, demasiado irritado. Algumas vezes parecia perplexo com algo que lhe corroesse a mente e o íntimo; outras, se mostrava preocupado, cansado, o que seria normal para um velho lobo do mar como ele. O velho Hope nunca fora um homem que ficasse enciumado com algo na hora de dividir o butim, principalmente se o motivo do ciúme fosse uma arca velha e esquisita como aquela.
- É impressão minha, ou está querendo ficar com o que tem naquele baú, capitão Hope?
Com todos os olhares voltados para si, e percebendo a insatisfação crescente no ar, o capitão do Ghost Bride, decidindo enfim adotar um pouco de cautela, ainda que a contragosto abrandou um pouco a voz e resmungou:
- Impressão sua. O fato é que, ainda não terminei a contagem das peças. Assim que eu fizer todos os cálculos e anotações, o tesouro estará à disposição para ser repartido entre todos, exatamente como em todas as vezes anteriores, ao longo dos dez anos que temos pilhado juntos.
Coçando o queixo, o capitão Mathison estreitou os olhos maldosamente e então sibilou, destilando seu veneno:
- Você teve tempo suficiente para fazer contagem de uma arca três vezes maior que aquela hoje, capitão, já que esteve durante quase toda a tarde enfiado naquele camarote.
Os marujos se voltaram todos para Hope. Ao mesmo tempo em que se achavam indignados, estavam interessados naquela discussão que prometia render grandes acontecimentos. A atenção dos piratas ia de um capitão para outro. Hope estava furioso, vermelho como uma panela de pressão prestes a explodir:
- Quanta insolência, Bill! Definitivamente não estou gostando do seu tom. O que está insinuando? Acaso está pondo em dúvida minha honra, minha autoridade perante a tripulação? Devo avisá-lo que muitos homens já morreram por muito menos, abatidos pelo fio da minha espada.
Diante dessa ameaça explícita, assim que as palavras de Hope cortaram o ar, foram atingir o rosto lívido de Mathison como uma bofetada.  Um silêncio sepulcral e repleto de expectativa seguiu-se ao desafio lançado pelo capitão Jason. Uma onda de ansiedade parecia varrer o convés lustroso do Pandora, onde estavam reunidos todos os homens sob o comando de Hope, que eram em torno de cento e cinquenta piratas sanguinários, mercenários e inescrupulosos.
O espectro da Morte, que pairava sobre três os navios ancorados naquele momento, sacudiu suas mãos esqueléticas e descarnadas para jogar os dados do destino. A sorte estava lançada, e os humanos jaziam às portas de um grande motim. Dependendo das próximas palavras de William Mathison, uma nova matança teria início. Olhando nos olhos de Hope, William Mathison, o capitão da avariada escuna pirata chamada Red Diamond disse com uma frieza assustadora, como se não estivesse se erguendo contra um irmão de armas e compatriota:
- Meus companheiros, todos vocês são testemunhas de que este homem está claramente tentando nos roubar, privar de nós o direito de usufruir do produto de nosso saque. Agindo desse modo, ele infringiu todas as abençoadas regras do nosso justo Código de Conduta da Pirataria e agora, desesperado, ele me insulta publicamente, me desafiando. Eu, como capitão de uma das embarcações da frota pirata do virtuoso Francis Drake, digo que Jason Hope está tentando prejudicar não apenas a nós, mas também Francis Drake, e nós sabemos que ir contra o almirante Drake, é ir contra a própria Coroa inglesa, é também ir contra nosso próprio povo. Ao tentar lesar a Rainha, o capitão Hope se torna nosso inimigo. Se todos concordarem, declaro este homem um traidor de sua própria terra, de sua própria gente. Ele é culpado, réu merecedor da morte, assim como todos aqueles que o apoiarem.
- Sim! – bradou alguém na multidão exasperada – Morte ao desertor!
- Vamos enforcá-lo, deixá-lo pendurado no mastro principal! – gritou outro pirata, em outro ponto do convés.
- Melhor ainda – berrou outro rebelde – Vamos fazer um corte nele, para que sangre e caminhe sobre a prancha. O maldito traidor merece ser alimento de tubarões!
- Primeiro – comandou Mathison – Vamos buscar aquela arca, para repartir igualmente o que nela houver. Depois resolveremos o que fazer com Hope.
Com um gesto súbito e corajoso, a face desfigurada pelo ódio, o capitão Jason Hope puxou a espada, e ela produziu um som rascante ao sair velozmente da bainha. De arma em punho, o capitão do brigue pirata inglês vociferou:
- Aquele que tentar, morrerá. Somente entrarão naquele camarote passando sobre meu cadáver!
- Se for preciso, é o que faremos. – retrucou William Mathison de modo determinado, e em seguida clamou – Ao ataque, rapazes! Motim contra esse capitão traidor e injusto!
Com um rugido dantesco, grande parte da tripulação sacou suas armas e se lançou ao combate, uma onda selvagem e confusa de braços que brandiam suas lâminas de maneira rebelde contra o comandante a quem tinham servido durante tantos anos. Todavia, antes que o capitão Jason Hope fosse feito em pedaços pelo grupo de piratas amotinados, eis que da multidão se ergueram os marujos que se posicionaram para lutar ao seu lado.
Os homens que decidiram lutar a favor de Hope não eram tantos quanto os rebelados, mas eram os mais experientes e mais antigos, e participavam corajosamente do confronto, enfrentando às vezes dois ou três adversários ao mesmo tempo. Os piratas favoráveis ao capitão acusado de deserção, embora em menor número, conseguiram bloquear o ataque em massa que trituraria Jason Hope. A ferocidade de seu contra-ataque fez o mar de revoltosos recuar o suficiente para que a batalha se desenvolvesse com maior desenvoltura.
- Matem cada filho do Cão que tentar chegar àquela cabine. – berrava Hope vermelho, as veias de seu pescoço estufadas, enquanto ele próprio voava para cima de Mathison – Defendam aquela arca com suas vidas, e serão bem recompensados! Juro por minha alma!
E o derramamento de sangue recomeçou. Se há algo pior do que um ataque pirata a uma embarcação que vai ser pilhada, é um motim, uma luta sangrenta entre os próprios bandidos do mar. Nada pode ser tão ruim para um capitão corsário, do que ver seus homens insurgirem contra suas ordens, questionando sua autoridade ou competência para ocupar a posição de comandante. Sem falar que a batalha era horrenda; lobos devorando lobos.
Os homens que lutavam por Hope o conheciam havia tempo suficiente para saber que todas aquelas acusações de tentativa de roubo e traição feitas contra ele eram inteiramente descabidas. Muitas e muitas vezes o capitão Jason Hope tivera em suas mãos imensos tesouros e jamais tentara passar sua tripulação para trás. Não fazia sentido algum que ele tentasse algo assim justamente agora, ainda que fosse verdadeiro o boato que circulava entre os marujos, segundo o qual o capitão Hope tinha perdido o juízo.
Por isso, eles lutavam bravamente, acatando as ordens de seu estimado capitão. Defendendo o camarote que continha a malfadada arca. Um oceano de alfanjes, machados, espadas, punhais e adagas se chocava estridentemente na confusão do confronto. Às vezes algum tiro de pistola era disparado à queima-roupa, traiçoeiramente; era assim que os piratas costumavam agir quando estavam perdendo.
Enquanto o clamor das armas e o bramido dos homens se elevavam do convés para a noite que tinha cheiro de maresia, Jason Hope e William Mathison lutavam ferozmente, suas espadas soltando chispas ao se chocar enquanto vibravam nas mãos hábeis de seus donos, a lua lançando reflexos prateados nas lâminas mortíferas. Uma batalha que exigia o máximo de esforço, concentração e destreza dos dois espadachins, porque apenas um iria sair vivo dela.
 Hope estocou reto, com firmeza assassina, e sua espada mordiscou o ombro de Mathison que, soltando uma praga, girou sua própria arma e aparou parcialmente o golpe, afastando de si a lâmina inimiga manchada com seu sangue. Trocando rapidamente a espada de mãos, Mathison desferiu um golpe diagonal, o que obrigou Hope a recuar dois passos velozmente, girando o corpo, num movimento magistral de esquiva. Mesmo assim, escapou da morte por muito pouco; um grande risco vermelho surgiu em suas costas encharcadas de suor. E a luta monstruosa prosseguia.
Aproximadamente cem homens, dos quais uma parte pertencia à tripulação do Ghost Bride, e a outra, à tripulação do Red Diamond, tinham se rebelado, e agora lutavam ao lado de William Mathison. Enquanto isso, ao lado de Hope, apenas cinquenta piratas defendiam seu capitão caído em desgraça e sua arca infernal, que acabaria sendo sua ruína se tudo continuasse como estava. A derrota de Hope e seus aliados parecia certa. Seriam impiedosamente mortos, e a sombria urna, inevitavelmente saqueada. Todavia, surgiu um imprevisto, que acabou sendo decisivo para o capitão Jason Hope.
No furor da batalha entre os piratas que eram, em sua maioria, ingleses, surgiu um homem a quem todos odiavam em comum. Um espanhol. Era um sujeito de estatura mediana, de pele morena, mas tomada por uma palidez mórbida, cabelos longos que davam em seu ombro, e usava cavanhaque. Seus cabelos longos, pretos e anelados estavam envoltos por uma faixa de seda vermelho-sangue, numa espécie de bandana exótica. Usava uma camisa branca de seda parcialmente desabotoada, expondo o tórax moreno sobre o qual pendiam alguns medalhões dourados. Sobre a camisa usava um colete preto. Trazia enrolada na cintura uma faixa de seda dourada, que era como uma espécie de cinto. Usava uma calça azul marinho espalhafatosa, que culminava em botas pretas de cano longo. Seus dedos eram repletos de anéis. Aparentava ter uns quarenta anos.
Um cigano! Que raios um cigano fazia a bordo do Pandora, o galeão do qual, os piratas tinham certeza, haviam dizimado toda a população? Não tinha sobrado nenhum hispânico para contar a história, pelo menos teoricamente. Mais surpreendente do que a aparição inexplicável daquele cigano no convés onde acontecia o motim, foi o que ele fez em seguida.
Seus olhos não possuíam brilho, como os de um homem morto. Subitamente, surgindo em sua mão, a lâmina de um punhal reluziu intensamente ao luar fantasmagórico. E o cigano se moveu, tão rápido quanto uma flecha.
Correndo velozmente pelo convés entulhado de piratas resfolegantes e suados, o espanhol começou a degolá-los; seu punhal dilacerava a carne humana com uma facilidade medonha. Uma cena inimaginável.
O mais surpreendente de tudo era que o tal cigano tinha como alvo apenas os ingleses que lutavam ao lado do covarde capitão Mathison. Matava-os de modo implacável, sorrindo como um lunático cada vez que o sangue era aspergido em seu rosto assim que ele rasgava uma garganta. Quem o visse, diria que aquele bravo guerreiro latino era invencível.
Com sua intervenção fantástica, a balança evidentemente logo se equilibrou, e a vitória, antes improvável, agora pendia para o lado de Hope e seus homens. O interessante é que, tudo aconteceu com tal rapidez que, entretidos na batalha, pouquíssimos piratas se deram conta do que se passava. Raros foram os corsários que tiveram tempo de visualizar, ainda que de relance, aquele mensageiro da morte que se movia como um fantasma entre eles, ceifando suas vidas e fazendo-os se afogar em seu sangue.
Hope mesmo apenas saberia dessa história mais tarde, pela boca de uns poucos homens de confiança os quais tiveram a chance, mais infeliz do que feliz, de ver o sombrio cigano em ação.
Aterrorizado por aquela ventania fantasma que exterminava sua tripulação de amotinados, William Mathison arregalou os olhos e começou a recuar sob os ataques inimigos, sendo imitado por seus homens. Em pouco tempo gritava, gesticulando nervosamente para seus subordinados:
- Vamos embora, esqueçam a arca e o traidor! O Mal habita essa embarcação, e logo todos os seus tripulantes serão vitimados. Já temos nosso tesouro, fujamos daqui, antes que as trevas nos engulam!
Imediatamente os revoltosos, embora em número maior, abandonaram o Pandora, fugindo para o Ghost Bride e o Red Diamond. Sob intensa artilharia do galeão espanhol, os piratas amotinados recolheram seus ganchos e ergueram âncoras. Em seguida, içaram velas e procuraram se afastar daquele estranho navio hispânico o qual, tinham essa exata impressão, era protegido pelo próprio Diabo.
Embora os canhões do Pandora ruidosamente vomitassem chumbo sem cessar contra os navios dos piratas em fuga, e houvessem conseguido infligir grandes danos no inimigo, logo a brisa impetuosa noturna os impeliu para longe, fora de alcance para a artilharia do gigante barco espanhol.
Tão logo as velas do Bride e do Diamond transformaram-se em pontos brancos na escuridão, o silêncio opressivo envolveu o Pandora como uma mortalha espessa e pavorosa. O silêncio sepulcral era rompido às vezes apenas pelo zunir discreto do vento nos cordames, o sombrio rangido da madeira quando o navio balançava sobre a maré, ou pelo sussurro das ondas que vinham quebrar-se de encontro ao costado do navio.
Embora apenas estivessem vivos graças à intervenção do misterioso cigano, os piratas que ficaram a bordo do Pandora benziam-se e murmuravam entre si, amedrontados, como se o som de suas vozes assustadas pudesse atrair os espíritos malignos do mar, ou despertar os mortos de seu descanso eterno. Olhavam ao redor preocupadamente, como se temessem que o espectral cigano os atacasse, mas ele tinha sumido como se nunca houvesse existido. Resolveram então chamar Hope e lhe contar toda a história, que foi ouvida com visível desdém e ceticismo.
- Abandonem essas supertições tolas, marujos! São homens ou um bando de ratos covardes? Isso que viram com certeza foi uma alucinação gerada pelo calor da batalha. Já ouvi casos assim antes, no auge do desespero, vemos coisas inexplicáveis, sobretudo porque lutávamos pela nossa sobrevivência. – admoestou o capitão pirata inglês Jason Hope.
- Não é superstição, comandante! – protestou John Barday, o rapaz das armas – Vimos com nossos próprios olhos!
- É verdade! – ajuntou Paul Danton, o contramestre – O cigano parecia gente, mas não era! Não podia ser humano, não com aquela velocidade. Matava homens com a tranquilidade de quem acende um cachimbo assim que acaba de comer.
- Prestem atenção no que estão dizendo, homens! – resmungou Hope, fitando seus marinheiros de maneira carrancuda – Um cigano? Um espanhol entre nós? E, ainda por cima, combatendo ao nosso lado? Qual sentido isso faz? Reparem o quão tresloucadas são suas palavras!
Ao terminar de falar isso, Hope lembrou-se do cadáver na arca e constatou que, curiosamente, o homem estava realmente vestido como um cigano. Sem deixar transparecer o que pensava, ordenou que se fizesse uma rigorosa busca em todo navio, e que se encontrassem algum espanhol escondido, deveriam trazê-lo à sua presença. E assim foi feito.
Não sendo encontrado nenhum sinal do temido homem, Hope ordenou que os piratas mortos no combate fossem jogados ao mar. Depois, chamou de lado dois homens em quem confiava plenamente e disse:
- Vão ao meu camarote, dentro da arca encontrarão um morto. Tragam-no para cá, a fim de que o atiremos também ao oceano. Não banquem os espertos: sei exatamente quantas peças de valor existem naquele baú. Se faltar alguma quando eu for conferir, suas cabeças rolarão para longe do pescoço. Assim que tiverem arremessado o defunto sobre a amurada, voltem à cabine. Vi algumas garrafas de vinho tinto perto da cama do capitão. Vinho espanhol é o melhor que existe! Tragam as garrafas aqui, para que as bebamos, em comemoração à nossa vitória sobre os rebeldes.
Assim que os homens se afastaram para cumprir suas ordens, Hope fez sinal para outro marujo e mandou que fosse chamar Thomas Brook, o imediato, pois queria falar com ele.
Enquanto os corpos eram sistematicamente jogados ao mar, Hope aguardava. Primeiro recebeu a notícia de que Brook não havia sido encontrado em lugar algum.
- Maldito seja! Terá aquele imediato se escondido durante a batalha? Se assim tiver agido, é merecedor de grande castigo. Se eu decidir poupá-lo da morte, vou amarrá-lo ao mastro principal e chicoteá-lo até que meus braços fiquem dormentes de exaustão.
Minutos depois, os marujos voltavam de sua cabine carregando os vinhos. Hope os olhou, surpreso pela rapidez com que haviam cumprido o que pedira. Indagou:
- E então? Livraram-se do homem morto que jazia na arca?
Os dois piratas trocaram um olhar significativo. Em seguida, de modo receoso, um deles começou:
- Com todo o respeito à sua honrosa pessoa, estimado capitão, viemos dizer que não havia cadáver nenhum lá.
Hope estremeceu como se tivesse recebido um tapa no rosto.
- Não?! Mas, como é possível? Ora essa, será que estive sonhando? Havia um morto naquela caixa, inclusive esta minha nova espada estava fincada no peito dele!
Os piratas se entreolharam mais uma vez, sem, no entanto, se atrever a dizer nada. Foi o mestre, Jim Baker, quem quebrou o silêncio, gemendo:
- Estão vendo? Foi o demônio! Ele está realmente a bordo, e levou consigo o morto e o vivo para seu reino infernal!
Quando os homens começaram a falar todos ao mesmo tempo, como um bando de galinhas que cacarejassem assustadas, Hope se impôs com um grito enérgico:
- Basta!!!! Fechem a matraca, que diabos! Parecem um bando de velhas barulhentas! Já disse que não existe nada dessa baboseira, e ponto final. O próximo que falar a respeito, há de ajustar contas comigo. Ei você, Baker, honre essas calças que está usando e faça algo de útil: vá dizer ao cozinheiro que sirva logo o jantar. Matar me deixou faminto.

Continua...

Danilo Alex da Silva

"Um a um, sob a lua rodeada de estrelas
Rápido demais para gemer ou suspirar
Cada um virou seu rosto atormentado,
E me amaldiçoou com seu olhar
Quatro vezes cinquenta homens
(e eu não ouvi suspiro ou gemido),
Pesadamente, um vulto sem vida,
Eles caíram um por um."

(Rime of the ancient Mariner – Iron Maiden)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

A Arca de Pandora - Parte IV




Tão logo finalizou-se o massacre aos tripulantes do Pandora, o covarde e sanguinário capitão pirata Jason Hope ordenou à sua vil tripulação:
- Alimentem os peixes, seus diabos dos oceanos!
 Aquilo significava que os corpos deveriam ser atirados ao mar porque, a partir daquele instante, o galeão espanhol pertencia à esquadra de Francis Drake, o fiel e corajoso servo da Rainha Elizabeth I. Piratas apoiados nas amuradas atiravam com seus mosquetes contra os sobreviventes que se debatiam no mar inquieto. Os bandidos matavam friamente os náufragos e riam com insana alegria, como o homem que se diverte atirando em ratos para aprimorar a pontaria. Ninguém poderia escapar da selvageria pirata.
Assim que o corpo do último espanhol foi atirado ao mar, grupos de marujos ingleses surgiram com baldes com água e sabão, bem como esfregões, para lavar do convés o sangue endurecido derramado na cruenta batalha. Como haviam baixado âncoras dos três navios, havia muita gente a bordo do Pandora. O excesso de pessoal gerou um considerável número de tripulantes ociosos devido à escassez de serviços no momento. Logo, enquanto alguns corsários se dedicavam a realizar a limpeza do convés, outros tratavam de percorrer cada cômodo, cada corredor, cada luxuosa cabine do colossal navio espanhol, à procura de riquezas e bebidas. O sol a pino boiava no céu azul, como se estivesse bem acima dos mastros, tentava enxergar o que os humanos saqueavam naquele momento.
O momento de conferir o produto da pilhagem geralmente era o melhor para os ladrões do mar. Empanturravam-se das melhores comidas e bebiam até cair, enquanto pareciam enfeitiçados pelo brilho das preciosidades que encontravam, além, é claro, de se regozijar com especiarias e tecidos que comumente achavam em embarcações mercantes. Mas o Pandora era um gigantesco navio de guerra, e estava saturado de provisões. Caixotes com frutas típicas da colônia, barris de vinho e cerveja fresca, bastante água potável, carnes de vários tipos, iguarias exóticas. Tudo à vontade.
Ora, aquilo era o paraíso para os lobos do mar, pois eles estavam habituados a uma vida difícil, onde a comida e a bebida, incluindo a água, eram severamente racionadas. Não raro algum pirata caía doente pela falta de alimentação adequada ou por ter ingerido comida estragada, e algumas vezes, para não morrer de sede na viagem, viam-se obrigados a beber a própria urina. Por isso, naquelas ocasiões, eles aproveitavam. Bebiam até fartar-se, comiam do bom e do melhor. E naquela manhã, que já quase se convertia em tarde, não poderia ter sido diferente.
Piratas embriagados, jogados em todos os cantos, dormindo ou cantando, com voz engrolada, alguma das velhas canções de sua terra natal. Era o que a maioria fazia. Uma pequena parte andava incessantemente de um lado para outro, vasculhando cada parte do navio em busca de novos achados. Aguardavam com ansiedade quando, mais tarde, depois de realizados todos os cálculos, seguindo as ordens do capitão, o imediato do Ghost Bride, chamado Thomas Brook, viria ter com a tripulação, para dividir as riquezas obtidas na abordagem de tão glorioso navio. E os marinheiros estavam intrigados com a ausência do capitão, o qual, naquelas ocasiões, assim como em todas as outras, estava no meio deles, comemorando, rindo, contando piadas obcenas e entornando canecos transbordantes de chope ou rum. Mas dessa vez, algo estava diferente. Alguma coisa estava estranha.
Desde que tomaram o Pandora, Jason Hope estava enfurnado na cabine que, em vida, pertencera ao bravo almirante hispânico Guilhermo Antunes, que fora morto de modo traiçoeiro pelo comandante pirata inglês. Desde que pisara naquele camarote, Hope apenas tinha olhos para a imensa e misteriosa arca postada ao lado da cama do capitão. Ao redor da mesma, havia uma infinidade de alforjes cheios de moedas de prata e dobrões de ouro; colares de pérolas e toda sorte de joias incrustadas com pedras preciosas. Mas a Hope o que interessava era a arca.
 Era feita de um belo tipo de madeira negra e lustrosa, provavelmente ébano. Símbolos estranhos, cruzes e textos escritos numa língua que parecia latim, estavam entalhados na tampa e nas laterais, em todos os lados do enigmático e sombrio baú, o qual estava lacrado com um grande e impressionante cadeado feito de prata pura. Hope esfregava as mãos de contentamento, imaginando as riquezas que a tal arca traria em seu conteúdo. O único momento em que permitiu que a tripulação entrasse na cabine foi quando chamou alguns homens para ajudá-lo a abrir a arca. Enquanto uma equipe de corsários auxiliava o capitão nessa tarefa, outra levava para os outros dois navios, o Bride e o Diamond, a fim de que se distribuísse o peso pelas três embarcações, os outros alforjes e baús menores, contendo também riquezas. Apenas a excêntrica arca permaneceu no interior da cabine do capitão.
Quando o resistente cadeado de prata finalmente cedeu e bateu com um ruído seco contra o assoalho, Jason Hope agiu de modo surpreendente. Rugiu para seus homens, mostrou os dentes e não permitiu que tocassem na sinistra caixa. Esbravejando, expulsou os piratas de sua cabine a pontapés, sem nem ao mesmo permitir que eles visualizassem o conteúdo da arca. O capitão estava totalmente fora de si. Quando o último corsário saiu, Hope bateu a porta com força e, como tivera que arrombar a mesma para entrar, usou uma estante de livros sobre navegação para bloquear a entrada de eventuais curiosos.
Como uma criança afoita, o homem se curvou diante da arca e precisou usar bastante os músculos para erguer a maciça tampa, que era mais pesada do que aparentava. Com um suspiro, abriu a caixa e espiou avidamente seu interior. Seus olhos brilharam de modo cobiçoso quando diante deles surgiu um dos maiores tesouros já contemplados na face da Terra. Moedas de ouro e prata de inúmeros países, joias, pedras preciosas, colares, tiaras, anéis, taças, punhais, adagas e canecos adornados com rubis e safiras, do que se puder imaginar de valioso havia um pouco dentro daquela arca. Todavia, o que se sobressaía, se destacava do resto era uma imensa espada de cabo ricamente ornado, com empunhadura e protetor de punho feitos de ouro maciço. A lâmina, longa e de brilho ofuscante, era feita de prata pura. Estava fincada no meio do tesouro, seu cabo e empunhadura num ângulo que formavam uma cruz apontando para o alto.
Jason Hope, que até então estivera enfeitiçado pela arca, maravilhou-se instantaneamente ao ver a fabulosa arma. Era uma rapieira espanhola, uma espada estupenda, muito parecida com a que Francis Drake manejava nos combates. Doravante, aquela seria sua lâmina gloriosa. Fascinado, segurou o cabo com a mão direita e tentou puxar a espada, mas ela não se moveu. Franziu a sobrancelha, intrigado, e tentou mais uma vez, novamente sem sucesso. A lâmina parecia estar presa firmemente a algo que havia no fundo da arca, sob toda aquela camada espessa e brilhante do tesouro. O silêncio pesado, arranhado apenas pela respiração rápida do obcecado capitão, parecia carregado de maus presságios. Mesmo assim, Hope, que era um homem cético, não muito dado a certas crenças, fez nova tentativa.
Usando ambas as mãos para segurar o cabo da arma, e empregado muita força, finalmente conseguiu desencravar a espada do tesouro. Ia sorrir, mas algo o deteve: quando a rapieira saiu da arca, aquilo que a estava prendendo emergiu bruscamente do tesouro, acompanhando o movimento da arma ao ser puxada e fazendo transbordar o baú. Cheio de assombro, Hope primeiro viu a lâmina coberta de um sangue negro e podre. Depois divisou, dentro da arca, quase sentado devido a força que fora arrancado do fundo do baú, um morto. Era um homem na casa dos quarenta anos, muito pálido, com as feições tão serenas, que se poderia dizer que ele estava dormindo apenas, ao invés de morto.
O cadáver tinha no semblante os claros traços de sua origem latina, como a pele morena, os cabelos escuros e um pouco compridos, um rosto anguloso, culminando em um queixo virilmente quadrado, e um garboso cavanhaque. Trajava roupas antigas e espalhafatosas, parecia um cigano; usava camisa de seda e colete de cores chamativas. Estava meio soterrado na arca do tesouro, e não era possível vê-lo da cintura para baixo ainda.
Ao por os olhos nele, com uma careta mista de asco e horror, Hope assustou-se tanto que caiu sentado para trás.
- Aqueles espanhóis loucos! Onde já se viu, transportar um morto no meio de ouro e prata?
E o capitão pirata lançou um olhar repleto de repugnância para o cadáver. Curioso, percebeu que o homem sangrava na altura do coração, onde provavelmente estivera enterrada a lâmina de prata da espada que acabara de obter. Era sangue fresco, como se ele tivesse morrido poucas horas antes. Havia quanto tempo que o defunto estava ali naquela arca? Por que ele estava tão conservado, sem nenhum mau cheiro, ou sinal de putrefação? E por que aqueles porcos hispânicos o estava transportando escondido sob o tesouro?
- Que diabos?! – resmungou Hope olhando mais uma vez para o rosto plácido do homem inerte na arca. Havia certo cinismo mórbido na expressão do defunto e, se Hope não fosse um sujeito realmente incrédulo, seria capaz de jurar que um sorriso irônico estivera se formando lentamente nos lábios mortos daquele cigano.
Esfregando os olhos e sacudindo a cabeça, o capitão inglês rosnou para si, mal-humorado:
- Maldição! Estive tanto tempo aqui, que começo a imaginar coisas. Acho que preciso sair um pouco, tomar um ar e uma bebida.
Dito isso, Hope ajeitou o corpo do cigano na arca do melhor modo que pode (teve uma sensação estranha ao tocar a pele fria como gelo e rija como pedra), e em seguida fechou a pesada tampa, deixando-a apenas escorada, já que o cadeado se fora. Então, limpando o sangue de sua bela e mais nova espada, Jason Hope tirou a sua antiga arma da bainha e jogou-a em um canto, para em seguida guardar na cintura a elegante rapieira espanhola, sua maior descoberta naquela fantástica arca. Feito isso, com passos firmes de suas pesadas botas, deixou a cabine e foi se juntar aos seus homens no convés.

Continua...


Danilo Alex da Silva


“Ao oscilar da bússola, minha determinação é forte
Eu não vou ser desviado
Mistérios do tempo, nuvens que escondem o sol
Mas eu sei, eu sei”

(Ghost of the Navigator – Iron Maiden)


sexta-feira, 29 de junho de 2012

A Arca de Pandora - Parte III



Obedecendo ao capitão, os corsários se prepararam para arremessar os ganchos. Todavia, algo realmente surpreendente ocorreu, adiando a abordagem por mais alguns minutos. No último instante, o Pandora guinou vivamente. Os marujos espanhóis demonstravam sua extrema habilidade ao manobrar os mastros. O galeão, antes aparentemente vulnerável, rapidamente girava sobre si, em um ângulo de 180 graus. Desse modo, em pouco tempo apresentava seus quarenta canhões de estibordo, ou seja, do lado direito, ao inimigo, prontos para disparar.
O comandante do Pandora ordenara essa manobra pois percebia que, se virasse o navio, podia disparar com as peças de artilharia desse lado, enquanto as do outro estivessem sendo rapidamente recarregadas.  Economizaria tempo e apanharia o adversário desprevenido. E tudo aconteceu de acordo com o planejado. Percebendo que a artilharia inimiga os esfacelaria, os barcos ingleses precisaram se separar para desviar-se às pressas da fuzilaria, abrindo mão do assalto por mais algum tempo.
O Ghost Bride e o Red Diamond foram capazes de escapar com agilidade do repentino contra ataque hispânico; para o Lady Storm, porém, aquilo foi o fim da batalha, o último prego no caixão. O canhonear infernal vindo do galeão varreu a água numa linha de destruição que apanhou em cheio o navio pirata inglês, o qual, navegando desfalcado pela perda de alguns mastros, se achava bem no meio da chuva de projéteis.
 Colhido pela tempestade de fogo, o barco estremeceu violentamente com a selvageria do impacto, tal qual um animal alvejado. A mastreação quebrou-se por inteiro e as velas murcharam, emboladas, semelhantes às asas de um pássaro ferido. Então, com um longo rangido da madeira, que parecia um lamento, dolorosamente o Lady Storm despediu-se da incrível batalha, afundando em seguida, tão rapidamente quanto chumbo lançado ao oceano.
No local onde a embarcação submergiu, restaram apenas barris, caixas e tábuas de madeira boiando, aos quais estavam agarrados os náufragos. Um fato interessante sobre os piratas é que, embora passassem boa parte da vida no mar, era minoria os que sabiam nadar. Tinham verdadeiro pavor pela água e, não fosse pelos destroços flutuantes do barco a lhes servir de bóia, pereceriam todos afogados.
Enquanto o Lady Storm era engolido pelo mar, e o Bride e o Diamond tinham que se deslocar para os lados a fim de escapar da perigosa sucessão de tiros, o Pandora executava a segunda manobra idealizada por seu capitão, a de fuga. No meio da confusão de vozes exaltadas e da gritaria dos náufragos, ingleses ou espanhóis, o líder pirata Jason Hope começou a perceber que talvez tivesse subestimado aqueles espanhóis.
Hope sentiu que o vento mudava de direção subitamente, como se o próprio destino houvesse resolvido ajudar os fugitivos. O inglês viu quando as velas do galeão desdobraram-se com um farfalhar, o pano inchado pelo sopro vigoroso. Os gigantescos mastros se moviam com energia, acompanhando o movimento do leme, e fazendo com que o barco espanhol começasse a ganhar distância de seus perseguidores.
Empunhando o sabre com medonha firmeza, Hope sentiu-se tão furioso que teve ímpetos de decapitar alguns de seus marujos. Berrou freneticamente, agitando de modo ameaçador a lâmina no ar:
- Maldição!!!! Atrás deles, seus cães! Que o Diabo me carregue se eu conseguir arrumar uma tripulação mais incompetente! Bastardos! Inúteis! Tragam-nos para perto do vento outra vez! Se aqueles porcos latinos conseguirem escapar, eu vou comer o fígado de cada um de vocês, e exigirei que suas cabeças me sejam servidas em um prato!
A nada sutil repreensão do capitão irado pareceu surtir efeito sobre os piratas, que trabalhavam com mais afinco ainda, para que alcançassem rapidamente o galeão em fuga. Jason Hope continuava proferindo sua série de maldições e xingamentos, usando palavras de baixo calão aprendidas de vários idiomas, transformando sua revolta numa mistura obscena de expressões despudoradas que escapavam de seus lábios crispados de ódio. Estava absolutamente furioso. Via o Pandora afastar-se empurrado pelo vento, ganhando velocidade e distância dos saqueadores marítimos. Isso enfurecia Hope a tal ponto, que ele julgava estar à beira de um infarto, um ataque de nervos.
Esbravejava com seus marinheiros como se sua vida dependesse disso. Tinham de por as mãos naquele fabuloso navio. Tinham de ser donos do tesouro que o galeão transportava. Era uma questão de honra, principalmente agora que haviam perdido o Lady Storm na batalha. O capitão inglês nunca estivera tão determinado a caçar algum barco para pilhar antes. Aqueles espanhóis causaram prejuízo. Estavam fazendo com que perdesse tempo, bons homens e uma excelente embarcação. Cães! Precisavam pagar por isso. Não permitiria que eles escapassem bem debaixo do seu nariz. Não tolerava que sua vitória praticamente certa estivesse ruindo diante de seus olhos, assim como um castelo feito com cartas se desfaz ao mínimo toque da brisa mais sutil.
O Pandora, apesar de seu tamanho e peso enormes, navegava à frente, de velas enfunadas, todos os marujos de sua numerosa equipe de bordo trabalhando em conjunto, ritmicamente, para manter a velocidade daquele gigante dos mares, o qual já obtinha uma boa distância dos adversários ingleses. E logo atrás vinham os dois navios pirata. Quando tudo parecia perdido para Hope, o vento variou sua direção mais uma vez. Usando isso a seu favor, o capitão inglês agiu rápido, antes que a brisa, sua maior aliada naquele momento, decidisse soprar em outro rumo novamente.
Atendendo às ordens de seu exigente, porém experiente comandante, as tripulações do Ghost Bride e do Red Diamond fizeram com que os barcos navegassem lado a lado com sua presa. Houve nova e estrondosa troca de tiros de canhão, possante o suficiente para estremecer aqueles mares. Os piratas posicionaram-se junto às amuradas de seus barcos e, tão logo o Pandora entrou mais uma vez em seu alcance, lançaram os arpéus com precisão, sem hesitar.
Manuseados pelas mãos experientes dos corsários, os ganchos de ferro cravaram-se firmemente na amurada do galeão espanhol. Em seguida, sem demora os piratas começaram a puxar. Flanqueando o galeão, os navios pirata foram aproximados pelo puxar vigoroso das cordas, até que se chocassem com estrondo. O Pandora, preso pelos ganchos de abordagem do inimigo, tinha à sua direita, colado ao seu casco, o brigue pirata Ghost Bride, e à esquerda, a escuna corsária Red Diamond. Quando a situação chegava àquele ponto, não havia volta. Não havia salvação para o galeão hispânico, tampouco para seus tripulantes.
- Atacar! – rugiu Jason Hope com o que lhe restava de energia na voz, após gritar durante vários minutos até o momento de êxito ao lançar os arpéus.
Como uma matilha de cães treinados, os piratas deram início ao assalto. Tendo em vista que o Pandora era um navio de três andares, obviamente seu tamanho era superior ao das embarcações que o atacavam. Logo, sua estrutura erguia-se imponentemente acima dos tombadilhos do opositor. Desse modo, para que alcançassem o convés do barco a ser pilhado, os corsários precisavam utilizar as cordas dos ganchos para escalar até a amurada do outro navio.
Gritando como loucos, produziam uma algazarra infernal que tinha como objetivo principal intimidar o inimigo. Rugiam diabolicamente como os velhos lobos do mar que eram. Emitiam seu grito pavoroso de guerra. Com facas presas entre os dentes, içando o peso do corpo por meio de seus braços musculosos devido o árduo trabalho de bordo, os piratas subiam com agilidade pelas cordas, semelhantes a aranhas velozes e repugnantes. Sombreados pelas velas dos navios, emergindo da fumaça negra da pólvora dos tiros de canhão, os sapatos apoiados com firmeza e prática no escorregadio costado de madeira, eles logo surgiam no convés do barco atacado e se arremessavam ao combate.
Durante a subida, muitos eram precipitados ao mar porque lá no alto, apoiando-se na amurada do Pandora, os espanhóis atiravam para baixo, disparando seus mosquetes e pistolas contra os invasores. O problema é que, na ponta de uma corda de onde despencava um corsário, logo em seguida surgiam mais três escalando. Isso acontecia nas duas laterais do navio. Os defensores do barco tinham a desvantagem de o processo para recarregar suas armas ser extremamente demorado.  Tinham de despejar e socar a pólvora nos canos dos mosquetes, depois inserir a bala, e tornar a usar a bucha. Perdiam muito tempo com isso. Tempo suficiente para que os bandidos subissem a bordo e sacassem suas espadas, levando o combate para o corpo a corpo.
 Dentro em pouco, os hispânicos tiveram que se afastar da amurada para se concentrar em esgrimir suas espadas contra os invasores no convés. Então, os piratas de ambos os navios logo estavam a bordo do impressionante navio espanhol. E a luta se desenvolvia com uma ferocidade assustadora.
 Urros de ódio e de dor de ingleses e espanhóis se misturavam, bem como as imprecações proferidas de ambos os lados. O retinir metálico das espadas se encontrando violentamente. O som inesquecível e nauseante do aço dilacerando a carne e destruindo ossos. Sangue e suor lavando o convés, tornando-o escorregadio. Corpos forrando o solo em qualquer direção que se dirigisse a vista. O cheiro pútrido da morte empesteando o ar, mesclado ao odor fétido da pólvora e o perfume embriagante da maresia. A luta, que a princípio estivera equilibrada, agora pendia contra os espanhóis que, embora lutassem bravamente, estavam sendo gradativamente derrotados, caindo mortos aos pés de seus inimigos ingleses, a bravura hispânica sucumbindo à selvageria pirata inglesa.
Tal triste fato se dava porque, diferentemente das duas tripulações de corsários, que inteiramente eram treinadas tanto para manobrar os barcos, quanto para pilhar e lutar, a equipe de bordo espanhola era dividida entre marujos e soldados. Uns não executavam a função dos outros. Para isso precisavam de uma esquadra de escolta, mas, como sabemos, não mais podiam contar com o apoio dos barcos Dom Filipe e El Vigilante, afundados no combate.  E isso os deixava em uma situação terrivelmente complicada.
Em certo momento, percebendo que os soldados não estavam conseguindo vencer o inimigo, os marujos espanhóis tentaram pegar em armas para ajudar no combate, mas não houve sucesso nem melhora. Sem a prática necessária para manusear as espadas, foram, um a um, abatidos impiedosamente pelo bárbaro adversário. O máximo que os soldados espanhóis conseguiram com a ajuda vinda dos marujos na luta, foi atrasar o início do assalto alguns minutos, e cansar um pouco mais os bandidos do mar. O rugido das lâminas encobria o clamor do mar se chocando contra os cascos. O caos se instalara a bordo. Em desespero, temendo a morte brutal iminente, muitos marujos e soldados espanhóis atiravam-se ao mar.
Caminhando orgulhosamente pelo convés do Pandora, onde os homens se atracavam de modo sangrento no duro combate pela posse do galeão, Jason Hope parecia alguém invencível. Os gritos de dor e fúria, o cheiro de morte e o clangor das espadas à sua volta aparentemente não o incomodavam. Sua frieza era assustadora, sua face denotava indiferença quando usava seu sabre para se defender com maestria de algum golpe ou esquivar-se rapidamente de alguma lâmina que buscasse perfurá-lo. Em oposição aos golpes de seus piratas, os movimentos de Hope eram firmes, velozes, precisos e infalíveis. Movia o sabre três, no máximo quatro vezes quando os inimigos surgiam diante dele. Esquivar ou defender, atacar e continuar andando, como se os espanhóis não merecessem mais atenção do que aquela. Estocava um ponto vital e seguia em frente, sem se importar com o ser humano que acabava de deixar morto no piso atrás de si.
Jason Hope rumava direta e determinadamente rumo ao castelo de popa. Queria adentrar o camarote do capitão, onde provavelmente havia uma parte dos tesouros que o galeão transportava. Algo o puxava para lá, uma espécie de imã. Quando ia começar a subir os degraus para o tombadilho, seus instintos de guerreiro o preveniram a tempo. Girou para o lado e a folha metálica de uma espada silvou no ar, descrevendo uma curva mortal onde se projetara o capitão segundos antes. Hope voltou-se e apertou os olhos com dureza para fitar que ousara atacá-lo pelas costas.
Um homem de tez morena e cabelos negros, elegantemente vestido, trajando roupas vistosas, chapéu emplumado e empunhando um florete espanhol, parado a menos de um metro e meio de Hope, o mirava com desprezo e intensidade.
- Eu sou o almirante Guilhermo Antunes. – falou o homem em um inglês correto – Sou o capitão deste navio e não permitirei que ele seja saqueado por um verme britânico como você. Para entrar naquele camarote, vai ter que passar sobre meu cadáver, pirata dos infernos!
Ao concluir a frase cuspindo ameaçadoramente as palavras, o espanhol tinha o cenho franzido e apontava o florete em riste para Hope. O inglês o fitou de alto a baixo com um olhar recheado de desdém. A seguir, brandindo seu sabre, rosnou ironicamente:
- Que assim seja.
Os capitães atiraram-se avidamente ao duelo, enquanto a carnificina acontecia ao seu redor. Aquela era uma luta fascinante, digna de ser assistida. Antunes e Hope esgrimiam com uma maestria espantosa, movimentos rápidos e certeiros. As lâminas tilintavam em atrito, brilhando ao sol daquela manhã mortífera. O jogo de pés, tão essencial aos esgrimistas quanto aos pugilistas de hoje, era atrapalhado pelo convés, que se tornara escorregadio devido ao sangue que o encharcava. Os dois moviam-se cautelosamente, tomando cuidado onde pisavam, mas sem tirar os olhos um do outro. Algumas vezes, quando suas espadas cruzavam-se, seus rostos contraídos ficavam tão próximos que os duelistas podiam sentir o hálito um do outro.
Sempre atacando e defendendo, foram de um lado a outro, no meio da confusão da batalha. As lâminas tentavam alcançar os corpos do adversário; todavia, eram desviadas ou defendidas com destreza, tanto por um, quanto pelo outro. Passaram pelo mastro e então Hope começou a bolar um plano. Antunes era um bom soldado, um espadachim hábil. Seria difícil vencê-lo daquele modo, pois sua prática com o florete se igualava à de Hope ao manusear o sabre. Começou então a desferir golpes velozes e poderosos, obrigado Antunes a se defender recuando para perto da amurada.
Quando o espanhol estava no ponto onde Hope desejava, o inglês agarrou pela gola o primeiro marujo que passou perto de si e o arremessou contra o inimigo. Surpreendido pelo gesto, Antunes teve que se desviar e, por isso abriu a guarda momentaneamente. Não foi muito tempo, mas bastou para que Hope traiçoeiramente enterrasse o sabre em seu peito, errando por pouco o coração, mas ainda assim, ferindo-o mortalmente.
Com sua espada cravada na carne do inimigo, Jason Hope foi empurrando o espanhol até que o corpo do mesmo se chocasse contra a amurada. Largando o florete, e expelindo uma golfada de sangue pela boca, Antunes olhou para o pirata cheio de desprezo, surpresa e revolta.
- Maldito espanhol! – bradou Hope com um misto de sarcasmo e desdém – Por sua causa, suei a camisa!
Agonizante, Guilhermo esboçou um sorriso sangrento, que se transformou numa careta de dor a seguir, quando ele tossiu mais sangue. Mesmo assim, arfante, conseguiu dizer:
- Sua hora...  vai chegar... seu verme pirata! Sua morte... será muito pior... que a minha... e El Dragón... chorará sobre seu corpo... não como seu comandante... mas como seu amigo...
- Já basta, espanhol. – rosnou Hope e sorriu com ironia – Fala demais para um cão que está morrendo. Dobre a língua ao falar de meu comandante. E, a propósito, o nome dele é Francis Drake.
E, tendo dito isso, Hope arrancou sua espada do corpo do inimigo, ao mesmo tempo em que, apoiando o pé direito no centro de seu peito, empurrava o capitão espanhol moribundo sobre a amurada. Sem um pio, o homem girou e foi projetado ao mar. Se não morreu com a imensa queda, provavelmente se afogou em seguida, mais em seu sangue do que propriamente na água do oceano.
Friamente Jason Hope limpou o sangue de seu sabre na camisa do morto caído mais próximo, para que o líquido vital rubro não enferrujasse sua lâmina. Guardou a espada na bainha e correu para o camarote do capitão. Teve que arrombar a pesada porta depois de atirar com sua pistola na maçaneta de bronze. A porta se abriu com um estrondo. O som feroz da batalha, agora quase finalizada, chegava aos ouvidos do capitão pirata inglês.  
Ao entrar na cabine, o homem viu diversas caixas e baús contendo preciosidades. Entretanto, o que seduziu sua atenção da mesma forma que moscas são atraídas para a luz, foi uma pesada arca, misteriosa e imensa, decorada com jóias e desenhos antigos, colocada a um canto, próximo à cama do falecido capitão Antunes. Jason Hope ainda não sabia, mas assim que pousou os olhos naquela estranha arca, havia acabado de selar seu destino.

Continua...

Danilo Alex da Silva


“A morte e ela, a morte em vida,
Jogaram os dados para a tripulação
Ela ganhou o marinheiro
E ele pertence a ela agora.
Então... a tripulação, um a um,
Caíram mortos, duzentos homens
Ela... ela, morte em vida
Ela o deixou viver, o seu Escolhido”

(Rime of the Ancient Mariner – Iron Maiden) 

terça-feira, 26 de junho de 2012

A Arca de Pandora - Parte II





O imenso navio se aproximava de modo imponente, cortando as ondas com suavidade e rapidez, as velas enfunadas pela brisa marítima da manhã. Uma intrigante aura de mistério parecia envolver o Pandora.
Hasteada no topo de sua mastreação, tremulava a bandeira com as cores da Espanha. De onde estava, Jason Hope, o capitão inglês do brigue pirata Ghost Bride, fazendo uso de sua luneta, pode divisar com nitidez a frente do galeão. Na proa, entalhada com esmero e habilidade artística incomuns, havia a sinistra carranca, ou figura de proa, uma imagem, geralmente assustadora, usada na frente, na ponta das antigas embarcações para afugentar os maus espíritos.
A figura que ornava a proa do galeão Pandora, era a de uma mulher bela, jovem e sombria, de olhar medonho, e cabelos longos, revoltos, como se agitados pelo vento que encrespava o mar, gerando ondas que embalavam a embarcação. Ela usava uma túnica grega, como aquelas que vemos nas representações da deusa Athena. Em suas mãos a jovem trazia uma caixa ornamentada com inscrições místicas, a qual estava prestes a abrir, despejando seu conteúdo maligno sobre a face da Terra. Sem sombra de dúvida, aquela era a lendária personagem da mitologia grega, cujo nome fora usado para batizar também aquele misterioso galeão espanhol. Jason Hope tornou a sentir um arrepio avassalador percorrendo sua espinha.
Havia pouca movimentação a bordo do Pandora. Os navios que o escoltavam eram menores e insignificantes aos olhos de Hope. Mesmo fortemente armados, não mereciam mais a atenção do capitão pirata inglês. Pandora era o que lhe interessava. Algo inexplicável o atraía para aquele navio. Então, Hope se voltou e começou a organizar sua tripulação de ladrões do mar para o ataque. Quase em seguida, o sentinela de bordo do Pandora emitiu o alerta de aproximação sobre a flotilha ainda não identificada que navegava ao seu encontro. Imediatamente, como mágica, uma grande quantia de marujos emergiu de escotilhas e passou a transitar preocupadamente pelo convés do galeão espanhol.
- Eles desejam nosso sinal, senhor. – disse Thomas Brook, o imediato, a seu capitão, Jason Hope.
Com um sorriso frio, o comandante pirata disse ao seu subordinado:
- Pois bem; então não vamos fazê-los esperar mais, não é mesmo, meu bom amigo?
Dada a ordem, a bandeira da Inglaterra foi içada e hasteada, agitando-se majestosamente ao vento impetuoso que engordava velas e golpeava flâmulas. Feito isso, o imediato Brook, que seria o substituto do capitão caso algo ocorresse a Hope, fez nova pergunta:
- Qual cor, senhor? A negra ou a vermelha?
- Vermelha. – rosnou Hope pousando a mão sobre a bainha de seu sabre, atrelada à sua cintura.
Mal o capitão respondeu, o segundo estandarte começou a subir. Era a Jolly Roger, a famosa bandeira pirata, com uma caveira acima de duas tíbias cruzadas. Se ainda hoje esse símbolo representa para nós perigo mortal, na época era motivo de desespero a bordo das embarcações. Geralmente a Jolly Roger era negra; todavia, havia também a rubra, aquela que o capitão Jason Hope escolhera. Quando a bandeira pirata de cor vermelha surgia no topo do mastro, o pânico percorria a tripulação do navio a ser atacado como uma grave doença de contágio instantâneo, porque o vermelho era a cor da morte. Ele indicava que os corsários não demonstrariam misericórdia durante a abordagem.
Enquanto os navios espanhóis começavam a se alinhar para enfrentar os sanguinários ladrões do mar, os navios pirata Lady Storm e Red Diamond imitaram o Ghost Bride, hasteando as mesmas bandeiras e perfilando-se para a luta, que seria feroz. 
 O mar espelhava o azul do céu. O vento zunia nos cordames e enchia as velas, impulsionando os barcos em suas precisas manobras de guerra. O sol, silencioso e vívido, espiava enquanto os seres humanos se aprontavam para derramar sangue. As ondas tocavam suavemente os cascos das embarcações, os mesmos cascos entre os quais, algum tempo mais tarde, após a batalha, estariam encobertos pelas ondas, rumando solenemente para seu local de descanso eterno no fundo do mar.
O par de navios hispânicos que defendia o Pandora foi o primeiro a disparar seus canhões. Abriram fogo quase ao mesmo tempo, tão logo se posicionaram para o combate. Um canhonaço perdeu-se na água, entre os barcos pirata, mas o outro fez estremecer o Red Diamond, abrindo um buraco considerável no convés de proa. O reboar dos canhões soando de modo apocalíptico. A madeira rangeu, como se gemesse. Das alturas, um albatroz majestoso contemplava a luta enquanto batia suas asas para perto das poucas nuvens que pincelavam o céu. Hope deu a ordem e o Ghost Bride vomitou fogo sobre o oponente, destroçando o mastro de ré de um dos barcos hispânicos de escolta. Enquanto isso acontecia, o Pandora concluía pesadamente seu posicionamento e apontava suas bocas mortíferas para o trio de navios inimigos. Era um galeão ainda mais formidável por seu incrível poder de fogo: possuía cerca de oitenta canhões, quarenta de cada lado, distribuídos ao longo de seus impressionantes três andares.
Naquele momento, as quatro dezenas de canhões de bombordo, ou seja, do lado esquerdo da feérica embarcação, estavam apontadas para os corsários, os quais, tendo o vento a seu favor, aproximavam-se a todo pano. Quando o capitão espanhol emitiu a ordem, simultaneamente as bocas de fogo estrondosamente lançaram chumbo sobre os atacantes. A maioria dos tiros acertou o mar, erguendo imensas trombas d’água. Todavia, alguns provocaram estrago.
O Lady Storm viu-se terrivelmente sacudido quando três canhonaços certeiros golpearam consecutivamente seu corpanzil reforçado de madeira. Um dos mastros foi atingido; partindo-se fragorosamente, veio abaixo tragicamente, como o tronco da árvore abatido pelo machado inclemente do lenhador. O mastro despedaçado tombou pesadamente sobre o convés, esmagando uma dúzia de piratas que não conseguiu fugir a tempo.
Enquanto o trovoar dos canhões rasgava os ares, os projéteis sacudiam o mar e os navios que possuíam o infortúnio de ser alvejados. As balas de canhão eram bolas negras de ferro, que pesavam cerca de 15 kg, destruindo o que surgisse pela frente. Jamais aquele trecho de mar havia presenciado batalha naval tão estupenda. A fumaça escura provocada pela pólvora formava uma nuvem que pairava sobre a água e comprometia a visibilidade dos artilheiros de ambos os lados. Os canhões rugiam e flamejavam incessantemente. Os ingleses já se encontravam perigosamente perto. Se o vento continuasse os ajudando, dentro em pouco poderiam lançar os ganchos e iniciar o assalto aos barcos hispânicos. Por isso, avançavam veloz e bravamente, encarando destemidamente os canhonaços inimigos, que os destroçavam aos poucos.
Os dois navios de escolta do Pandora eram embarcações de guerra, com tripulação experiente e soldados bem treinados a bordo. Uma esguia fragata batizada de Dom Filipe, e uma charmosa corveta que trazia gravado em seu casco o nome El Vigilante. Ambos haviam sido de grande valor na batalha, e causaram grandes danos na flotilha pirata, mas agora estavam indo a pique e falhando com sua missão; antes que tocassem o fundo do oceano, o Pandora já estaria sendo saqueado, e sua tripulação impiedosamente exterminada pelo inimigo implacável.
Isso acontecia porque Jason Hope era um capitão singular, estrategista como poucos. Sentia-se honrado quando lhe era dada a oportunidade de combater lado a lado com seu comandante e grande amigo, o temível pirata inglês Francis Drake, um homem que aprendera a odiar os espanhóis desde a infância, e usava toda sua habilidade para se vingar e destruir o inimigo.
 Com Drake, Hope aprendera a comandar um navio e batalhar com maestria em alto mar. Fora igualmente convivendo com o amigo que Jason desenvolvera similar ódio pelos hispânicos. Iria abordar aquele galeão em nome da Inglaterra. Iria honrar a amizade e a autoridade de seu capitão Francis Drake. Atacaria. Pilharia. Mataria. Queria ser motivo de orgulho para Drake. Desejava apoderar-se do Pandora e de seus tesouros. Mais riquezas espanholas para a Coroa britânica. Vida longa à rainha Elizabeth I! Mais um majestoso navio para integrar a frota pirata de Francis Drake, conhecido como “El Dragón” por todo homem cujo berço fosse a Espanha e, por conseguinte, seu inimigo mortal.
Enquanto o Dom Filipe e o El Vigilante afundavam, deixando boa parte de sua tripulação a se debater na água, e abandonando o Pandora à própria sorte em pleno confronto, os ingleses se preparavam para iniciar a abordagem. Os três navios pirata rumavam diretamente para o titânico galeão que, a despeito de toda a sua grandeza estrutural e poder de fogo, aparentava estar indefeso frente ao inimigo, meio oculto pela fumaça negra e fétida provocada pela pólvora.
O Ghost Bride e o Red Diamond, embora avariados pela artilharia inimiga, navegavam de modo elegante em direção ao adversário. Sua maneira orgulhosa de se deslocar mais lembrava dois cidadãos ingleses que percorressem a pé, com seu costumeiro ar afetado e superior, as enevoadas ruas de Londres.
 Já o Lady Storm se encontrava visivelmente comprometido. Vinha um pouco atrás, sofrendo com a perda de alguns postes de sua mastreação. Estava adernado, mal parecia conseguir manter-se flutuando. Possivelmente estava fazendo água bem rápido e, se os porões chegassem a ficar inundados, o temível navio pirata iria, inevitavelmente, naufragar em poucos instantes.  Resistira à tormenta, mas não à intensa e competente fuzilaria espanhola.
 Saber que um dos navios estava condenado irritou ainda mais Jason Hope, que passou a gritar e a gesticular para os seus marujos, exigindo que se aproximassem logo do galeão, para que o ataque tivesse início. Parecia um homem possesso por um mau espírito.
 Conquanto lutasse sozinho agora, e prosseguisse na tentativa de rechaçar os adversários com seus canhonaços devastadores, o Pandora finalmente estava ao alcance dos ingleses e, portanto, vulnerável ao assalto. Percebendo isso, com as faces afogueadas pelo ódio e excitação, o capitão Jason Hope ordenou que se realizasse a abordagem.
Sacou com um gesto pomposo o seu fabuloso sabre, cuja empunhadura era dourada e o cabo, decorado com jóias preciosas roubadas de tesouros hispânicos, e a lâmina reluziu fascinantemente ao sol daquela manhã fatídica. Então, apontando de maneira ensandecida a espada, primeiro para o alto, e em seguida para frente, com o vento bagunçando seus cabelos e propiciando um clima tenebroso à fantástica cena, o capitão pirata inglês Jason Hope urrou selvagemente, a plenos pulmões:
- Lancem os arpéus, seus energúmenos! Eu ordeno; roubem e matem à vontade! Não façam prisioneiros! Nenhum desses espanhóis verá o pôr do sol de hoje.

Continua...


Danilo Alex da Silva


“Então gritou o marinheiro,
Lá vem uma embarcação no horizonte
Mas como ela pode navegar
Sem vento e sem correntes?”
(Rime of the Ancient Mariner – Iron Maiden)

sábado, 23 de junho de 2012

A Arca de Pandora




Provavelmente você já ouviu falar de navios fantasma. Talvez tenha acreditado nos relatos que te forneceram, talvez não. De qualquer forma, embora não crer seja um direito seu, peço que acompanhe comigo essa história e, no fim da mesma, tire suas próprias conclusões. Não precisa prometer que vai acreditar em cada vírgula escrita aqui, tampouco é necessário que jure levar a sério cada palavra desta narrativa. Sei que é difícil dar credibilidade ao que vou contar, mas tudo o que desejo é alguém para compartilhar a lenda. Invista um pouco do seu tempo nisso, permita-se carregar pelas asas da imaginação. Garanto que não se arrependerá.
Navios fantasma são vistos há muito tempo, ao redor de todo o mundo. Quando aparecem, geralmente são interpretados como presságios de morte: tempestades brutais a caminho, terríveis desastres marítimos, ataques de corsários sanguinários. São arautos indesejáveis, sua aparição comumente é sinal de mau agouro. Navios que foram encontrados à deriva, os móveis e objetos intactos, mas sem nenhum vestígio da tripulação. Mistérios marítimos que perduram até os dias atuais. Navios assombrados, fadados a singrar os mares de modo eternal e fantasmagórico, regidos pela situação inexplicável que os transformou nessa espécie de aviso mortal.
Falaremos então sobre um navio fantasma, conheceremos a origem de sua lenda. Entretanto, a fim de que você compreenda melhor, é preciso que retrocedamos alguns séculos no tempo, até um ponto específico onde começa nossa história. O ano é 1.580. Estamos na gloriosa era das velas, quando navios enormes, movidos pelos ventos poderosos de alto-mar, cruzavam os oceanos infinitos rumo ao desconhecido. Época de imensas conquistas; desbravar terras, angariar tesouros e, principalmente, tempo de grandes conflitos no mar. Quem ousava se aventurar pelos oceanos, não devia temer apenas o mau tempo. Precisava estar preparado também para enfrentar outro grande terror das águas: os lendários piratas.
E havia um corsário em especial, um inglês, que estava tirando o sono de Dom Filipe II, o rei da Espanha. Seu afamado nome era Francis Drake. Tendo recebido uma carta de corso, famosa “licença para roubar”, outorgada pela própria rainha Elizabeth I, Drake cruzava os mares pilhando navios espanhóis e obtendo riquezas para a Inglaterra. Ele abordava e saqueava os galeões espanhóis que navegavam lentamente devido o peso do ouro e da prata que obtinham nas colônias. Francis Drake fez com que grande parte dos tesouros que chegariam às mãos de Dom Filipe II fosse parar nas profundezas do Atlântico. Ouro, prata e esqueletos de valorosos soldados hispânicos jazem encerrados no fundo do mar, sepultados no bojo amplo e majestoso de suas embarcações. Não é de se admirar então que o rei da Espanha tenha oferecido uma vultosa recompensa pela cabeça desse comandante pirata.
À medida que Drake realizava seus ataques a bordo do seu temido galeão inglês, o Golden Hind, mais navios se agregavam à sua pavorosa frota pirata. Certa vez, comandando sua esquadra de navios corsários, Drake retornava de uma de suas patrulhas em busca de navios carregados que pudesse pilhar. Saíra do mar do Caribe, costeara o Haiti, a Jamaica e a República Dominicana, e subia em direção às Bahamas, onde abasteceria os navios para a longa viagem de volta até a Inglaterra, a fim de entregar à sua majestade britânica os frutos de seus roubos no mar. E assim o fez.
Quando havia pouco que partiram das Bahamas e já se encontravam em pleno Atlântico, uma violenta tempestade os colheu no caminho. O mar rugia e agigantava suas ondas ao redor da fabulosa frota pirata, que não mais parecia tão ameaçadora. Frente à força descomunal da natureza, não há invenção humana que possa se equiparar. Os imensos e portentosos navios ingleses, assemelhavam-se a míseras folhas no centro da tormenta, lançados de um lado para outro como brinquedos de criança. Dois barcos foram destroçados pela tempestade e rapidamente tragados para o fundo do oceano furioso. Navios e marujos desapareceram nas águas escuras e sinistras, desfalcando a esquadra de Drake.  
Dos navios que não afundaram, alguns saíram bastante avariados do temporal. O nosso navio é um brigue garboso, chamado Ghost Bride. Seu capitão se chamava Jason Hope, um homem muito chegado a Francis Drake, uma espécie de irmão do famoso pirata.
Hope era muito respeitado entre os amigos, e temido entre os inimigos. Naquele instante de intenso perigo, quando a maioria dos capitães estaria trancada em seu camarote, Jason Hope se misturava aos seus homens, contribuindo na árdua tarefa de fazer o barco resistir ao mau tempo. Elevava o máximo que podia sua voz de comando, para que fosse ouvido acima do rugido do vento. Como o resto da tripulação, amarrou-se a uma das cordas presas aos mastros, para impedir que fosse varrido ao mar pelas ondas colossais que a todo instante assaltavam o barco. Tinha perdido alguns marujos quando estes escalavam os mastros para recolher as velas, o que era essencial. Velas desfraldadas em uma ventania daquelas eram certeza de naufrágio.
O balanço brusco e constante da embarcação tornava praticamente impossível permanecer de pé sobre o convés. Relâmpagos rasgavam a escuridão e, não raro um raio ia alvejar o mar revolto. A chuva copiosa doía na pele, parecia encharcar os ossos e arder na alma. Madeiras estalando e rangendo fantasmagoricamente. O mastro principal envergado pelo vento poderoso, dando a impressão de que ia se partir a qualquer momento. O piloto pálido, agarrado ao timão enquanto tentava fazer uma prece. Sua voz saía enrolada devido ao rum que estivera bebendo antes de o alerta de tempestade ser dado pelo vigia lá do alto da gávea. Apesar de seus admiráveis esforços, o timão girava sozinho, bem como o brigue, que se achava irremediavelmente descontrolado. Os homens faziam o que podiam: usavam baldes para atirar fora do barco a água que invadia o tombadilho. O Ghost Bride resistia valentemente à terrível tormenta. A figura de proa, uma espectral mulher vestida de noiva e de braços abertos, parecia desafiar os céus e o mar enfurecidos. O vento, a chuva e a escuridão fechavam o cerco, deixando o brigue de Jason Hope cada vez mais encurralado.
Então, milagrosamente, depois de algumas horas que pareceram uma eternidade, finalmente o vento soprou com menos intensidade e a chuva deu uma trégua. O céu começou a se livrar das nuvens gordas e escuras. O sol brilhou e os pássaros voltaram a atravessar o ar entoando seu canto magnífico, que aquecia o coração embrutecido daqueles lobos do mar. A tempestade se foi, mas os resultados de sua passagem ficaram: o mastro principal estava torto, em tempo de se partir, tamanha a força da tormenta.
A maior parte da esquadra de Drake havia desaparecido, restando apenas o Lady Storm e o Red Diamond para navegar lado a lado com o Ghost Bride. O Golden Hind de Drake e os outros navios deviam estar a muitas milhas de distância, o temporal podia tê-los arrastado em qualquer direção; talvez ainda estivesse carregando-os naquele momento, distanciando-os mais e mais da rota e da outra parte da esquadra.
Jason Hope, por ser o mais velho e mais experiente, foi escolhido para comandar a flotilha de bandidos do mar. Como o Bride, os outros barcos também precisavam de reparos, então não seria possível prosseguir na longa jornada de volta para casa. Teriam de regressar às Bahamas, onde poderiam consertar as embarcações e renovar os suprimentos, já que boa parte da comida se perdera devido a água que invadira os porões. Além do mais, se voltassem, durante o tempo que aguardassem para que os navios estivessem reparados e o estoque de comida reposto, talvez Drake surgisse para reencontrá-los. Assim, poderiam seguir viagem juntos normalmente. Já havia acontecido algo parecido antes. E a cidade portuária das Bahamas para onde estavam indo era um ponto de reencontro previamente combinado por Drake com todos os capitães dos demais barcos de pilhagem sob seu comando. Quando puderam consultar a bússola, seguiram as recomendações do capitão Hope e voltaram os três barcos ingleses temporariamente para terra firme.
Durante o tempo que estiveram na cidade, Drake não apareceu, o que levou Hope a deduzir que estavam sendo esperados mais adiante. Com tudo preparado, sob o comando do capitão Jason Hope, os três navios pirata ingleses ergueram âncoras, içaram velas e fizeram-se ao mar. Acertaram a rota, o destino seria uma cidade africana, local de encontro para diversos piratas do mundo todo, principalmente aqueles que trabalhavam com Francis Drake. No caminho, atacaram alguns navios mercantes e obtiveram especiarias e alguns tecidos caros. Nada de complicado, esses barcos eram presas fáceis. Hope ansiava por emoção, queria tomar parte de uma abordagem perigosa, enfrentar navios de guerra e cruzar espadas com soldados bem treinados. Estava sentindo falta dos espanhóis naquelas águas.
Então, no terceiro dia de viagem pela imensidão azul do Atlântico, quando o vigia gritou lá do alto, do cesto da gávea, que havia navios espanhóis à estibordo, o próprio Hope apanhou sua luneta e correu para a amurada, a fim de conferir. O vigia estava certo. Três embarcações navegavam na direção de sua flotilha pirata, mas a do meio lhe chamou mais a atenção. Era um fabuloso e gigantesco galeão espanhol que, de velas infladas pelo vento, parecia uma águia de asas estendidas, pairando majestosamente sobre as águas. O navio estava sendo escoltado por dois barcos menores, embora fortemente armados. O galeão deslizava devagar sobre as ondas, seu bojo estava mais submerso que o normal. Estava certamente transportando grandes riquezas.
 Com olhos cobiçosos, o capitão Jason Hope, então, usou sua luneta para vasculhar o costado de proa do galeão espanhol que se aproximava, provavelmente retornando de uma incursão à grande colônia hispânica, o México. Buscava o nome do barco que iria pilhar em seguida. Quando leu o que procurava, Hope sentiu certo arrepio. Uma espécie de mau pressentimento. Tinha a impressão de que não esqueceria aquele nome tão cedo.
O galeão espanhol se chamava Pandora.

Continua...

Danilo Alex da Silva



“É tempo de olhar para o sol
Uma grande falha
O céu desaba, o Paraíso segue
O Fim está aqui”
(The Storm – Trivium)