quarta-feira, 23 de maio de 2012

Na Rota da Morte




Era a primeira vez que Olavo estava viajando por aquelas paragens. Em menos de uma semana completaria quarenta e cinco anos de idade. Dessas quatro décadas e meia de vida, duas ele passara enfurnado na boleia, sentado no banco de couro atrás do largo volante, fazendo seu poderoso caminhão percorrer intermináveis quilômetros de estradas, pulsantes veias pavimentadas, as quais faziam o fluxo de veículos ir de um lado a outro desse Brasil gigante. Sem dúvida era um caminhoneiro experiente.
Transportara cargas a quase todos os estados do país. Conhecia tantas cidades que nem poderia contar, tampouco lembrar seus nomes. Sempre rodando, sempre na estrada. Aventurando-se pelas rodovias para levar os grandes carregamentos até seu destino. Diversas vezes vira a morte bem de perto, como na vez em que ladrões de carga tentaram pará-lo. Acelerando o imenso veículo, senhor Olavo ouviu tiros e uma bala trincou o pára-brisa. Mas ele conseguiu escapar ileso.
Outra vez estava dirigindo sob um terrível aguaceiro quando uma carreta que vinha em sentido contrário patinou na pista e invadiu a contramão, quase se chocando de frente com o caminhão do velho Olavo. Foi por muito pouco. Ele pudera sentir o bafo fétido da morte soprando em seu rosto pálido empapado de suor. E também dessa ocasião conseguiu sair milagrosamente, sem um único arranhão. Sempre que era salvo de alguma tragédia como essa, o senhor Olavo já tinha tido tempo de contar todos os dentes da morte duas vezes, de tão perto que ela lhe sorria.
Olavo não tinha dúvidas: era divina a proteção com a qual contava. Fixou os olhos cansados no terço de contas azuis e brilhantes, pendente do retrovisor interno. O terço balançava algumas vezes quando o pesado caminhão passava em alguma irregularidade da estrada. Aquele objeto, o qual era símbolo de sua fé, tinha a capacidade de lhe trazer conforto toda vez que o olhasse. Sua visão era tranqüilizadora. Todavia, algo naquela noite estava estranho. Olavo, que não era um homem muito dado a acreditar em pressentimentos, tinha um péssimo naquele ponto da viagem. Um frio opressor no estômago, uma sensação constante de desconforto, um gosto ruim na boca. Muito esquisito.
Era uma noite sem lua, seria intensamente escura e amedrontadora não fosse a presença das estrelas. Milhares delas. Vistas da Terra, uma miríade de jóias pequeninas e brilhantes incrustadas artisticamente na abóbada negra do universo pela mão caprichosa do sábio Criador. Tinha tudo para ser uma noite encantadora para se apreciar na quietude solitária de homens como Olavo, cujo ganha-pão era percorrer as estradas para que não faltasse alimento na mesa dos brasileiros. Mas aquela noite definitivamente possuía um quê de anormalidade.
 Uma névoa fina e misteriosa recobria o asfalto úmido pelo orvalho da madrugada, erguendo-se fantasmagoricamente do solo e tentando abraçar o jato frio e potente dos faróis da carreta que Olavo guiava. Ressabiado, ele ligou o rádio para espantar a má sensação. O aparelho estava sintonizado em sua estação preferida, e uma das canções que Olavo mais gostava encheu a boleia de seu caminhão, estilhaçando o silêncio incômodo. E ao som de “Acidente de Amor”, da dupla Gino e Geno, um pouco mais tranqüilo, Olavo seguiu viagem, seu caminhão rosnando corajosamente dentro da noite envolta por neblina e escuridão. Aproveitando a solidão, sem tirar os olhos da estrada enquanto guiava, Olavo, mesmo desafinado, resolveu cantar junto com o rádio:
- “Ela chegou correndo demais, imprudente bateu, e arrebentou meu peito... Acidente de amor machuca demais, furou o lado esquerdo e amassou o direito...”
Ele adorava moda de viola. Não conseguia entender como os jovens podiam gostar dessa barulheira de hoje em dia, onde não se consegue ouvir bem os instrumentos nem entender nada do que se canta. Era um inimigo veementemente declarado do tal rock and roll, essa música que mais parece o som de uma caixa de abelhas furiosas, e que leva os jovens a cometer ainda mais besteiras do que as que a própria pouca idade já propicia. Enquanto pensava nisso, ele olhou para o relógio sobre o painel, ao lado de onde ficava o retrato da esposa e do filho, um rapaz de quinze anos. Passavam vinte e três minutos da meia-noite. Sentiu vontade de soltar um palavrão, mas se conteve.
Estava muito atrasado, precisava entregar aquela carga de tomates em seu destino o quanto antes. Já devia ter realizado o descarregamento no início daquela noite, mas o bendito do caminhão enguiçara algumas centenas de quilômetros atrás, e ele precisara ficar algumas horas de molho até que o socorro chegasse, e seu veículo fosse rebocado para um posto, onde pudesse ser devidamente reparado.
 A sorte é que um irmão caminhoneiro, vindo em sentido oposto, passara pelo trecho da estrada onde ele estava sozinho, entediado, aguardando ajuda. Perguntara a Olavo se ele já tinha jantado e, ante a resposta negativa do mesmo, prometeu que logo enviaria a comida. E assim foi feito. Quinze minutos depois outro caminhão, o qual viajava na mesma direção de Olavo, encostou. O motorista trouxe um marmitex quente e lhe entregou. Quando Olavo fez menção de pagá-lo, ele recusou, quase ofendido, e depois sorriu. Despediu-se com um aceno, entrou em seu caminhão e partiu. Felizmente para o senhor Olavo, os caminhoneiros são uma classe muito unida.
Agora ali estava ele atrás da direção, viajando por uma das principais rodovias de MG, acelerando para recuperar um pouco do tempo perdido. Tomava cuidado, dirigindo com atenção, mas tentava ir o mais rápido o possível. Estava muito atento devido à neblina. Pelo que ouvira, aquele trecho da BR, margeado de ambos os lados por cerrado, era sempre atravessado por animais. E também tinha o risco dos romeiros. Estava perto da festa da padroeira, e ele sabia que o pessoal estava em época de peregrinação. Conquanto tivesse pressa, o senhor Olavo não queria atropelar nenhum fiel. Estava chegando ao trevo onde ele precisava convergir seu monstruoso veículo para a esquerda. Enquanto ele se concentrava em guiar, e o caminhão, bufando, perdia velocidade para realizar a curva, Gino e Geno cantavam no rádio para alegrar a noite do viajante solitário:
- “Acidente de amor machuca demais, mas ela também saiu machucada...”
Porém, assim que Olavo finalizou a manobra e seu rinoceronte de aço se endireitou na pista, algo estranho aconteceu. Um vento gelado invadiu a cabine do caminhão, mesmo estando os vidros quase totalmente fechados. Ele estremeceu. O som das violas e a voz de Gino e Geno desapareceram para dar lugar a um chiado e depois à barulheira incômoda causada por estática.  Primeiro Olavo notou a trágica cruz de madeira envelhecida e empenada na beira da estrada. Depois, realçada pela neblina e recortada contra a escuridão, envolta por uma luz etérea, viu a menina logo adiante.
Estava a uns vinte metros de distância, à margem direita, e logo o caminhão passaria por ela. Devia ter uns dez anos, tinha olhos negros e tristes, e seu longo cabelo dourado flutuava ao sabor do gélido vento noturno. Estava envolta em um fino vestidinho branco, descalça, e tinha a mãozinha estendida, como quem pede dinheiro. Silenciosa, quieta, mas determinada.
- Santo Deus! – balbuciou Olavo vasculhando rapidamente o porta-luvas em busca de algum trocado.
Quando finalmente encontrou uma moeda e conseguiu abaixar o vidro, o caminhão já havia passado pela sombria menina e ela desaparecera dentro da noite nevoenta. Dando de ombros, de qualquer modo Olavo ainda jogou a moeda pela janela. A princípio ficou um pouco impressionado com o incidente, mas depois relaxou. Não fora a primeira vez que presenciara esse tipo de coisa, e com certeza não seria a última. Tinha mais uma história para contar quando encontrasse algum irmão caminhoneiro nesses postos ou restaurantes de beira de estrada.
Logo esqueceu o acontecido, Gino e Geno contribuíram para que ele recuperasse a paz de espírito. Rodando mais um quilômetro e meio pela estrada deserta, alcançou a parte onde o caminho se tornava descida; dali em diante ele precisava ir segurando o caminhão no freio para poder contornar a serra. À sua direita ficava o barranco, e à sua esquerda estava a contramão. Acidentes ali eram freqüentes, lhe haviam avisado.
  - “Ela veio guiando a paixão a 200 por hora quando se perdeu... E pegou meu coração de frente, e nesse acidente a vítima sou eu...”
Dessa vez não houve frio nem interferência na rádio. Olavo fez uma curva e então o jato potente dos faróis, perfurando a neblina e a escuridão, enfocou uma menina no meio da pista, a poucos metros do pára-choques dianteiro. A mesma menina de quilômetros antes, pedindo dinheiro à beira da estrada.  O estímulo partiu do cérebro de Olavo e chegou às suas mãos com a velocidade de um flash. Nessas situações, o que geralmente predomina é o reflexo. Agimos por instinto. Por isso, para evitar que seu gigantesco e pesado veículo invadisse a contramão, Olavo tentou brecar ao mesmo tempo em que desviava da menina, esterçando bruscamente o amplo volante para a direita.
A sinistra garotinha permaneceu imóvel e indiferente no centro da pista enquanto o pesado caminhão crescia diante de si, girando para o lado, tentando não esmagá-la com seu peso de toneladas.
Por mais que empregasse sua habilidade na direção, Olavo se desesperou ao ver que o controle fugia de suas mãos. A traseira do veículo dançava freneticamente enquanto a dianteira focinhava. Os pneus guinchavam, emitindo seu grito estridente de alerta. O cheiro de borracha frita por atrito chegou ao nariz do apavorado Olavo enquanto os pneus chiavam contra o asfalto, tentando deter o peso do monstruoso veículo que não podia mais se manter na pista. Os possantes faróis, como dois enormes olhos arregalados, varriam com sua luz a trajetória mortal rumo ao tétrico destino para o qual Olavo e seu veículo eram arrastados de maneira impiedosa. O rádio ainda estava ligado quando o imenso caminhão desgovernado, ridicularizando com sua velocidade e peso a barreira de proteção metálica contra colisões, alcançou a borda do barranco e mergulhou na escuridão nebulosa, indo de ponta, atingir o solo quinze metros abaixo do nível da estrada.
- “No acidente eu perdi o sentido e acordei ferido, doendo de amor... Preocupado comigo e com ela disseram que ela também se machucou... E agora não sei onde está aquela que está me fazendo sofrer...”
Quando Olavo abriu os olhos, a música lhe enchia os ouvidos. Estava deitado sobre a terra. Fora lançado para fora da cabine pelo impacto.  Ergueu-se e olhou para seu caminhão. Estava capotado tragicamente, totalmente destruído, as titânicas rodas, que ainda giravam lentamente, apontadas contra o céu estrelado. O velho caminhoneiro começava a acreditar que tivera sorte quando fitou a boleia. Esta se encontrava totalmente esmagada e o pouco que sobrara do pára-brisa estava ensangüentado.
Um corpo humano totalmente contorcido e destruído estava preso nas ferragens, já pálido, exangue, imóvel, prensado contra o volante e aquilo que fora o assento um dia. O homem demorou alguns instantes para perceber que aquele corpo era o dele. A carga, derramada quase totalmente, vazava. Milhares de tomates, entre os que não foram achatados com a queda, rolavam conjunta e ruidosamente pela profunda ribanceira, que ainda descia muitos metros antes de haver terreno plano novamente.
Cheio de tristeza por saber que estava morto, Olavo olhou para o alto e viu a estrada, muito acima dele. Sentia-se leve. Apesar de a subida ser íngreme e escarpada, o que praticamente inviabilizava uma escalada, ele quis estar no alto e assim aconteceu. Num piscar de olhos havia inexplicavelmente alcançado a estrada mais uma vez. Lançou um novo olhar melancólico para o caminhão caído lá embaixo. Então, voltando a cabeça, viu a menina de antes, a que causara o seu mortal acidente.
Sentindo a tristeza de seu novo companheiro, ela se aproximou e delicadamente segurou-lhe a mão. Olharam-se em silêncio. E então, sem dizer palavra, começaram ambos a caminhar de mãos dadas pela estrada deserta, sendo rapidamente engolidos pela noite e pela neblina. Enquanto isso acontecia, quinze metros abaixo dali, um rádio que não podia ter escapado da destruição acarretada pela queda do caminhão, ecoava de modo fúnebre dentro da boleia destroçada. Gino e Geno, que haviam alegrado a vida de Olavo, agora pareciam prantear sua morte:
- “Não me lembro de muitos detalhes, mas de uma coisa eu não posso esquecer... Apesar da violência do choque, ainda sinto o toque e o perfume no ar... E no meu coração infeliz pra sempre a cicatriz... desse amor vai ficar...”

Fim

Danilo Alex da Silva


Olá, pessoal! Espero que tenham gostado do novo conto!

Desejo a todos um ótimo restante de semana. 

Abraços

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